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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 3362
Acessos: 164   |  Postado em: 15/06/2026

Fase final de embarque

Sarah Solano

A cerimônia oficial de embarque durou sete minutos.

Sarah sabia disso porque contou. Sete minutos de discursos cuidadosamente editados, imagens da Terra projetadas em telas gigantes, frases sobre união humana, coragem científica, avanço civilizatório e responsabilidade histórica. Sete minutos para transformar uma missão perigosa, moralmente ambígua e politicamente contaminada em algo limpo o bastante para ser transmitido às escolas, aos centros científicos e aos canais públicos da Federação Terrestre.

Sete minutos para fingir que ninguém estava com medo.

A tripulação da Aurora permaneceu alinhada diante da escotilha principal, sob a luz azulada do hangar. Atrás deles, a nave aguardava presa aos braços mecânicos da Base Orbital Internacional. À frente, representantes da Frota Unificada, do Conselho Científico, da Carta das Consciências Sintéticas e de pelo menos doze governos associados sorriam como se a humanidade estivesse enviando esperança ao espaço, não pessoas de carne e osso para um silêncio de dezoito anos.

Sarah manteve a postura reta.

Ao seu lado, Roberta parecia atenta demais para alguém que tentava parecer calma. Os olhos dela percorriam a multidão, as câmeras, os soldados, os cientistas, as bandeiras e, por fim, a própria nave. Havia uma tensão discreta nos dedos que seguravam a alça da mochila científica. Sarah percebeu porque aprendera a observar mãos. Rostos mentiam melhor.

Roberta não parecia prestes a desistir, parecia prestes a sentir tudo.

Sarah não sabia se isso era admirável ou perigoso.

Provavelmente os dois.

Do outro lado da formação, Samira Al-Nasr estava imóvel, elegante, com o olhar baixo e as mãos entrelaçadas à frente do corpo. Não demonstrava medo, mas Sarah já entendera que a médica era uma dessas pessoas capazes de esconder uma tempestade inteira dentro de uma frase simples. A tensão dela não aparecia no corpo. Aparecia na atenção. Samira observava todos como se já estivesse calculando quem quebraria primeiro.

Mei Wang, por sua vez, mantinha os olhos fixos na Aurora. O maxilar contraído denunciava impaciência. Sarah imaginou que a piloto preferia estar na cabine, revisando sistemas, em vez de ser usada como peça decorativa em uma celebração diplomática. Havia gente que se acalmava com cerimônias. Mei claramente não era uma delas.

Asha Patel parecia distante, mas Sarah sabia que aquilo era concentração. A navegadora olhava para algum ponto além das telas, talvez refazendo rotas mentalmente, talvez ouvindo ainda a camada impossível da última transmissão de Iara Mendonza. Sarah não gostava da informação que Asha trouxera. Uma voz antes da transmissão. Um ruído que não vinha do equipamento, mas de algo que parecia anteceder a própria mensagem.

E Sergey Ivanov.

Sarah voltou o olhar para ele por menos de um segundo.

O engenheiro permanecia perfeitamente alinhado, ombros largos, queixo erguido, uniforme impecável. Diferente dos outros, Sergey não parecia incomodado com a solenidade. Parecia pertencer a ela. Para ele, símbolos tinham função. Ordem tinha valor. Hierarquia era uma estrutura moral, não apenas operacional.

No relatório psicológico, havia uma frase destacada: alta adesão a cadeia de comando, baixa tolerância a ambiguidades éticas em ambiente de missão, tendência a priorizar cumprimento de ordens sobre deliberação subjetiva.

Em termos simples: Sergey obedecia.

Não por medo, mas por convicção.

A Frota gostava de pessoas assim.

Sarah, em alguns contextos, também.

Em outros, temia.

O último discurso foi feito por uma ministra do Conselho de Soberania Humana. Ela falava sobre a Aurora como se a nave fosse uma ponte entre mundos. Sarah ouviu apenas metade. A outra metade de sua atenção estava no relógio preso ao pulso esquerdo.

O relógio do pai marcava segundos pequenos demais para aquela partida.

A ministra sorriu para as câmeras.

— A tripulação da Aurora leva consigo o melhor da humanidade: ciência, coragem, diversidade, cooperação e esperança.

Sarah não mudou de expressão.

O melhor da humanidade.

E também seus segredos.

Seu medo.

Sua fome de controle.

Seu Protocolo Semente Branca escondido em um arquivo que apenas ela carregava a bordo.

A cerimônia terminou com aplausos.

Nenhum tripulante aplaudiu.

Um a um, foram autorizados a atravessar a escotilha principal. A partir daquele momento, deixavam de ser símbolos públicos e voltavam a ser o que realmente eram: seis pessoas presas a uma nave, a uma missão e a uma distância que mudaria tudo.

Sarah entrou por último.

Esse também era protocolo.

O comandante embarcava depois da tripulação.

E, se necessário, desembarcava antes dela apenas morto.

A escotilha fechou às suas costas com um som profundo, o ruído do hangar desapareceu.

A Aurora os engoliu.

Por alguns segundos, ninguém falou.

O silêncio interno da nave era diferente do silêncio da base. Mais próximo. Mais limpo. Mais definitivo. Havia uma vibração leve no piso, quase imperceptível, como se a Aurora respirasse através de seus sistemas.

A voz da IA surgiu pelos alto-falantes.

— Tripulação principal a bordo. Lacre externo em andamento. Bem-vindos à Aurora.

Mei soltou o ar.

— Finalmente.

Samira olhou para ela.

— Você diz isso como se estivéssemos entrando em férias.

— Férias com motor de fusão e risco biológico desconhecido ainda são melhores do que discurso político.

Asha ergueu a mão levemente.

— Concordo com a parte dos discursos.

Sergey virou o rosto para as duas.

— Discursos fazem parte da missão. Mantêm a confiança pública e a unidade institucional.

Mei olhou para ele como se tivesse encontrado um manual falando sozinho.

— Você acorda assim ou treina?

Sergey não sorriu.

— Disciplina não precisa de plateia.

A frase ficou no ar, rígida e limpa.

Sarah interveio antes que Mei respondesse algo menos diplomático.

— Todos ao módulo de reunião. Agora.

O primeiro deslocamento da tripulação completa pela Aurora teve uma solenidade que ninguém admitiria. Caminharam pelo corredor central em silêncio relativo, passando por painéis de controle, compartimentos lacrados e luzes de orientação. Cada um carregava pouco. O restante dos equipamentos já havia sido armazenado.

Sarah observou a forma como se moviam.

Mei caminhava como piloto: rápida, atenta a saídas, ângulos e distâncias. Asha olhava para os sensores embutidos como se quisesse conversar com eles. Samira mantinha uma calma médica que Sarah ainda não decidira se era conforto ou ameaça. Sergey avançava com postura militar, sem tocar em nada que não lhe tivesse sido autorizado. Roberta era a única que parecia realmente olhar para a nave.

Não avaliar.

Olhar.

Como se cada parede pudesse responder.

No módulo de reunião, seis assentos estavam dispostos ao redor de uma mesa oval. No centro, a projeção reduzida da Aurora girava lentamente. Ao fundo, uma tela exibia a Terra em tempo real, ainda próxima, ainda grande, ainda azul.

Sarah permaneceu de pé.

— A partir deste momento, toda comunicação externa será filtrada pelo protocolo de lançamento. Em três horas, iniciaremos desacoplamento da Base Orbital. Em oito horas, entraremos na primeira janela de aceleração. A viagem até Éden-9 terá duração estimada de dezoito anos em tempo terrestre. Caso haja retorno pela mesma rota, serão mais dezoito anos. Portanto, para a Terra, a missão terá afastamento mínimo de trinta e seis anos, sem contar o tempo de permanência no planeta.

Ela viu o efeito da frase antes que alguém falasse.

Mei desviou o olhar para a tela da Terra.

Asha apertou os dedos contra a própria perna.

Samira fechou os olhos por um breve instante.

Sergey permaneceu imóvel.

Roberta olhou diretamente para Sarah.

Trinta e seis anos.

Dizer aquilo em voz alta era diferente de ler em contrato. Trinta e seis anos significavam pais mortos, amigos envelhecidos, filhos crescidos, cidades transformadas, governos substituídos, amores desfeitos pela simples persistência do tempo. Para a tripulação, a suspensão biológica reduziria a percepção da viagem. Meses de consciência, talvez pouco mais, distribuídos entre ciclos de criogenia, despertares técnicos e preparação. Mas a Terra não dormiria com eles.

A Terra seguiria.

Essa era a primeira violência psicológica de qualquer missão interestelar. Partir não era apenas sair, era permitir que o mundo envelhecesse sem você.

— Todos os tripulantes passarão por ciclos de suspensão supervisionada — continuou Sarah. — Aurora realizará monitoramento neurológico, hormonal e cognitivo. A cada ciclo de despertar, haverá avaliação médica, treinamento, revisão operacional e acompanhamento psicológico obrigatório.

Mei fez uma careta.

— Obrigatório?

Samira respondeu antes de Sarah.

— Sim.

— Eu estava torcendo para a medicina evoluir o suficiente para respeitar minha privacidade.

— Evoluiu o suficiente para saber que isolamento profundo destrói pessoas que acham que estão ótimas.

Mei abriu um sorriso curto.

— Gostei menos de você agora.

— Sobreviverei.

Sarah deixou a troca acontecer. Humor, em pequenas doses, era uma válvula saudável. Em excesso, virava fuga. Ainda era cedo para saber onde Mei ficava nessa escala.

— A Aurora não é uma nave de guerra — disse Sarah. — Mas opera sob comando da Frota Unificada. Isso significa cadeia de comando clara, protocolos de segurança rígidos e resposta rápida a risco. Ao mesmo tempo, esta é uma missão científica e possivelmente diplomática. Se houver sobreviventes, eles serão tratados como sujeitos humanos até prova incontestável em contrário. Se houver inteligência não humana, nenhum contato será iniciado sem avaliação conjunta.

Roberta inclinou-se levemente.

— Avaliação conjunta entre quais áreas?

Sarah olhou para ela.

— Comando, ciência, medicina, navegação e segurança.

— Segurança inclui análise militar?

Sergey respondeu, antes que Sarah pudesse.

— Toda missão em ambiente desconhecido exige avaliação militar. A ausência dela é irresponsabilidade.

Roberta voltou o olhar para ele.

— E o excesso dela costuma ser colonialismo com uniforme.

A sala ficou quieta.

Mei ergueu as sobrancelhas como quem assistia ao início de algo interessante.

Sergey encarou Roberta sem alterar a voz.

— O colonialismo é uma decisão política. A segurança é uma necessidade operacional.

— A história da Terra mostra que uma coisa costuma usar a outra como desculpa.

— A história da Terra também mostra o custo de hesitar diante de ameaças.

Sarah interrompeu.

— É exatamente por isso que as decisões não serão tomadas por impulso ideológico de nenhum lado.

Roberta voltou-se para ela.

— Nem por medo institucional?

A pergunta era calma, mas não era inocente.

Sarah sustentou o olhar.

— Nem por medo institucional.

Por um segundo, algo passou entre as duas. Não confiança. Ainda não. Talvez o reconhecimento de que ambas sabiam que aquela promessa seria testada.

Sergey quebrou o momento.

— Capitã, solicito esclarecimento. Em cenário de risco à integridade da tripulação, a autoridade final será exclusivamente do comando?

Sarah olhou para ele.

— Sim.

— Então, havendo ordem direta, os demais setores devem cumprir sem deliberação prolongada?

Roberta respirou fundo.

Sarah percebeu, mas não olhou para ela.

— Havendo risco imediato, sim.

Sergey assentiu, satisfeito.

— Claro.

A clareza dele incomodou Sarah mais do que a contestação de Roberta.

Porque contestação revelava atrito e obediência cega escondia abismos.

Aurora projetou os cronogramas dos próximos ciclos. A reunião seguiu por mais quarenta minutos. Foram tratados temas práticos: distribuição de cabines, uso dos laboratórios, acesso aos módulos restritos, protocolos de emergência, alternância de comando durante despertares, limites de privacidade sob monitoramento da IA e armazenamento de itens pessoais.

Quando a tela mostrou os compartimentos de objetos sensíveis, Aurora informou:

— O instrumento musical da doutora Almeida foi armazenado em compartimento climatizado.

Mei olhou para Roberta.

— Você trouxe mesmo um violão?

Roberta respondeu com naturalidade.

— Trouxe.

— Para uma missão interestelar?

— Sim.

— Por quê?

— Porque talvez o universo tenha bom gosto.

Asha sorriu.

Samira abaixou a cabeça, escondendo uma expressão divertida.

Até Sarah precisou controlar a própria boca.

Sergey, porém, não pareceu achar graça.

— Objetos pessoais não essenciais aumentam variáveis de risco.

Roberta virou-se para ele.

— Um violão dificilmente vai derrubar a nave.

— Não sozinho.

Mei soltou uma risada.

— Eu gosto dele. É como conversar com uma porta blindada.

Sergey não respondeu.

Sarah encerrou a reunião antes que a convivência de trinta e seis anos potenciais começasse a ruir nas primeiras horas.

— Todos têm duas horas para instalação pessoal e gravações finais. Depois disso, reunião técnica no convés de comando. Dispensados.

As cadeiras se moveram quase ao mesmo tempo.

Asha saiu primeiro, provavelmente em direção ao eixo de navegação. Mei foi atrás dela, falando sobre estabilizadores com a intensidade de quem discutia traição. Samira permaneceu alguns segundos a mais, observando Sarah.

— Capitã.

— Doutora.

— Só uma observação médica, antes que a senhora me ache invasiva demais depois.

— Tarde.

Samira aceitou a resposta sem se ofender.

— A tripulação está funcional. Não significa que esteja estável. As próximas horas podem provocar reações inesperadas. Irritabilidade, euforia, silêncio excessivo, necessidade de controle, impulsividade, nostalgia aguda.

Sarah olhou para ela.

— Está me diagnosticando?

— Estou incluindo você na tripulação.

A frase foi simples e, por isso, difícil de contestar.

— Registrado — disse Sarah.

Samira assentiu e saiu.

Sergey foi o último, além de Roberta, ele aproximou-se da mesa.

— Capitã, permissão para falar francamente.

— Concedida.

— A doutora Almeida apresenta tendência clara à oposição de protocolo. Em ambiente de risco, isso pode comprometer tempo de resposta.

Roberta, que estava perto da saída, ouviu.

Sarah viu, mas Sergey não pareceu se importar.

— Sua avaliação está registrada — disse ela.

— Não é pessoal.

Roberta voltou-se.

— Geralmente fica pior quando alguém diz isso.

Sergey encarou-a.

— A missão não é espaço para sensibilidade individual.

Roberta deu um passo de volta para dentro da sala.

— Uma missão de contato com possível consciência planetária sem sensibilidade individual me parece exatamente o tipo de coisa que termina em desastre.

— A missão termina em desastre quando protocolos são tratados como sugestões emocionais.

Sarah ergueu a mão.

— Chega.

Os dois se calaram.

Sarah olhou primeiro para Sergey.

— Engenheiro Ivanov, sua função é manter a Aurora operacional. Não avaliar a adequação ética dos demais tripulantes fora dos canais definidos.

Ele enrijeceu, mas assentiu.

— Sim, capitã.

Depois Sarah olhou para Roberta.

— Doutora Almeida, sua função é contribuir com conhecimento científico, inclusive quando discordar. Mas discordância não será transformada em arena a cada frase.

Roberta sustentou o olhar por um instante.

— Entendido.

Sergey saiu primeiro.

Roberta ficou.

A porta se fechou.

Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.

Sarah recolheu os arquivos da mesa.

— Ele não confia em mim — disse Roberta.

— Ele não confia em ambiguidade.

— Isso não melhora muito.

— Não.

Roberta aproximou-se um pouco da tela onde a Terra ainda aparecia.

— E você?

Sarah ergueu os olhos.

— Eu o quê?

— Confia em ambiguidade?

A pergunta tinha camadas demais para aquela hora.

Sarah poderia ter respondido como comandante. Poderia ter falado sobre análise de risco, cadeia de decisão, protocolos adaptativos. Mas Roberta tinha um jeito inconveniente de fazer perguntas que pareciam desviar das defesas formais.

— Eu confio em fatos — disse Sarah.

Roberta sorriu de leve.

— Fatos também precisam de interpretação.

— Por isso existem especialistas.

— E quando os especialistas discordam?

— Por isso existe comando.

Roberta olhou para ela, e Sarah percebeu que a resposta não a irritou. Apenas confirmou algo.

— Você acredita mesmo nisso.

— Acredito.

— Deve ser confortável.

Sarah ficou imóvel.

— Não é.

Roberta pareceu se arrepender um pouco.

— Desculpa. Isso saiu mais ácido do que eu pretendia.

— Não parecia acidental.

— Não foi. Mas ainda assim posso me arrepender.

Sarah não conseguiu evitar uma breve surpresa. Havia algo desconcertante naquela honestidade rápida, sem rodeio, sem tentativa de parecer melhor.

Roberta voltou a olhar para a Terra.

— Trinta e seis anos é muita coisa.

A frase saiu menor.

Sem provocação.

Sarah acompanhou seu olhar.

— É.

— No contrato parecia número. Aqui parece vida.

Sarah sentiu o peso do relógio no pulso.

— Sempre foi vida.

Roberta olhou para o relógio.

— Antigo?

— Do meu pai.

— Bonito.

Sarah quase agradeceu, mas a palavra ficou presa em algum lugar pouco treinado.

Roberta pareceu entender o limite e não avançou.

— Minha mãe disse hoje que nem tudo que parece milagre é mentira. Às vezes é só uma verdade que ainda não aprendeu nosso idioma.

Sarah olhou para ela.

— Sua mãe é cientista?

— Professora aposentada. Minha avó era parteira, benzedeira quando queria, católica quando precisava e amazônica todos os dias. Ela dizia que mata não é muda. A gente é que desaprendeu a escutar.

A frase tocou Sarah de forma inesperada. Não porque ela acreditasse em misticismo, mas porque Éden-9, de algum modo, parecia ter sido descrito por aquela mulher antes mesmo de ser descoberto.

— Você vai tentar escutar — disse Sarah.

Roberta virou o rosto.

— Vou.

— Mesmo que o planeta diga algo que você não queira ouvir?

Dessa vez, Roberta demorou.

— Principalmente.

Sarah sustentou o olhar dela por mais tempo do que pretendia. Havia medo ali. Roberta não o escondia. Não o transformava em dureza. Talvez fosse isso que incomodasse Sarah. Medo, nela, era sempre material sigiloso. Em Roberta, parecia parte honesta do equipamento.

Aurora interrompeu.

— Capitã Solano, doutora Almeida, a reunião técnica está programada para daqui a uma hora e quarenta e dois minutos.

Sarah olhou para o teto.

— Obrigada.

— Disponha.

Roberta sorriu.

— Comigo ela é mais simpática.

— Ela vai superar.

— Você ou ela?

Sarah encarou Roberta.

Roberta ergueu as mãos.

— Certo. Eu disse que tentaria evitar insubordinação acidental.

— Isso foi provocação acidental?

— Quase.

Sarah sentiu algo parecido com vontade de sorrir e reprimiu por instinto.

— Instale-se, doutora.

— Sim, capitã.

Roberta saiu.

A sala ficou silenciosa.

Sarah permaneceu alguns instantes diante da projeção da Terra. Pensou em Emma. Pensou em Keller. Pensou em Calisto. Pensou no protocolo oculto em sua mente como uma arma sem peso físico. Pensou em Sergey, cuja lealdade absoluta poderia ser útil até o momento em que se tornasse perigosa. Pensou em Roberta, que trazia para a missão uma forma de coragem que não se parecia com comando, mas talvez fosse igualmente difícil.

A voz de Aurora surgiu mais baixa.

— Capitã.

— Sim?

— Seu padrão emocional apresenta variação significativa desde o embarque.

— Aurora.

— Não estou comentando. Estou perguntando se deseja registrar pausa de autorregulação antes da próxima etapa.

Sarah quase recusou.

Por hábito.

Por orgulho.

Por cansaço.

Mas Samira havia dito algo simples: estou incluindo você na tripulação.

Sarah fechou os olhos por um segundo.

— Cinco minutos.

— Registrado.

A IA reduziu a luz do módulo.

Sarah sentou-se pela primeira vez desde a reunião.

Cinco minutos.

Não para descansar, mas para permitir que o corpo entendesse o que a mente já havia assinado.

Ela estava partindo.

Não por dezoito anos.

Por, no mínimo, trinta e seis.

Quando voltasse, se voltasse, talvez a Terra ainda a reconhecesse nos arquivos, nas estátuas, nos relatórios e nos documentários. Mas as pessoas que a amavam talvez já tivessem aprendido a viver sem esperar por ela.

Essa era a parte que nenhum discurso mencionava. A exploração espacial não exigia apenas coragem, ela exigia aceitar ser transformado em memória antes de morrer.

Sarah abriu os olhos.

A Terra continuava na tela.

Azul.

Linda.

Distante antes mesmo da partida.

No comunicador interno, a chamada de preparação ecoou pela nave.

— Aurora para tripulação: iniciar protocolos pessoais finais. Desacoplamento em duas horas e cinquenta e nove minutos.

Sarah levantou-se.

A pausa terminara.

No corredor, a tripulação se dispersava em direções diferentes, cada um carregando seu próprio modo de suportar a despedida. Mei falava alto demais com Asha sobre manobras. Samira seguia em silêncio para o setor médico. Sergey revisava uma lista de segurança como se a obediência pudesse protegê-lo do medo. E Roberta, perto da escotilha do módulo científico, tocava com os dedos a parede da nave.

Não era um gesto técnico, era quase um cumprimento.

Sarah parou antes que Roberta a visse.

Por um instante, observou a astrobióloga inclinar a cabeça, como se escutasse algo que ainda não existia.

Depois Roberta afastou a mão e seguiu.

Sarah ficou sozinha no corredor.

A Aurora vibrou novamente sob seus pés.

Dessa vez, ela não teve certeza se era motor, sistema ou pressentimento.

A nave estava pronta.

A tripulação, não.

Mas talvez ninguém estivesse pronto para deixar o mundo por trinta e seis anos e chamar isso de missão. Sarah endireitou a postura e caminhou para o convés de comando. A partida não esperaria que eles aprendessem a suportá-la.

Fim do capítulo


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