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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 3514
Acessos: 92   |  Postado em: 15/06/2026

A floresta que escuta

Sarah Solano

O retorno ao Vega foi mais silencioso do que a saída.

Na primeira vez que haviam pisado em Éden-9, cada movimento carregava expectativa. Agora, ao cruzarem a escotilha de volta para o módulo, a expectativa tinha sido substituída por outra coisa: a consciência de que o planeta não era apenas vivo, bonito ou estranho.

Ele os havia observado e talvez alguém, na antiga Colônia Aurora Prime, também.

Sarah entrou por último, como exigia o protocolo. Esperou Roberta passar, depois Samira, depois Sergey, e só então lacrou a escotilha externa. O som do fechamento ecoou pelo interior do Vega como uma decisão pesada demais para uma estrutura tão pequena.

— Pressurização interna estável — informou Aurora pelo canal do módulo. — Nenhum dano estrutural. Partículas orgânicas aderidas aos trajes em níveis moderados. Procedimento de descontaminação recomendado.

— Iniciar — ordenou Sarah.

Luzes brancas se acenderam no compartimento de descontaminação. O espaço era estreito, feito para eficiência, não para conforto. Jatos finos de vapor estéril, luz ultravioleta controlada e campos eletrostáticos começaram a percorrer os trajes. O pólen de Éden-9 reagiu antes de ser neutralizado. Não queimou. Não se desfez de imediato. Brilhou.

Por alguns segundos, os corpos dos quatro ficaram cobertos por um brilho delicado, como se cada um tivesse trazido para dentro do Vega um pedaço da clareira.

Samira observava as leituras com atenção.

— As partículas perdem atividade fora do ambiente externo, mas não imediatamente. Não parecem agressivas. Parecem... desorientadas.

Sergey olhou para o próprio antebraço, onde pequenos pontos dourados se apagavam sobre o tecido do traje.

— Partículas não ficam desorientadas.

Roberta, do outro lado do compartimento, respondeu sem levantar a voz:

— Talvez essas fiquem.

Sergey virou o rosto para ela.

— Essa tendência de atribuir intenção a tudo compromete uma análise mais objetiva doutora Almeida.

— E a sua tendência de negar intenção a tudo compromete contato.

— Contato sem segurança compromete sobrevivência.

Sarah fechou os olhos por um segundo.

— Chega. Primeiro descontaminação. Depois debate filosófico.

Mei, da cabine de pilotagem, comentou pelo canal interno:

— Que pena. Eu já tinha pegado mentalmente uma cadeira.

— Foque nos sistemas do Vega — disse Sarah.

— Focando. Mas ouvindo. Sou multitarefa.

O ciclo de descontaminação terminou com um aviso suave. Samira passou o scanner nos trajes um por um. Autorizou a retirada dos equipamentos externos, mas manteve a coleta de amostras do tecido isolada.

Sergey foi o primeiro a remover parte do traje. Fez isso com movimentos exatos, dobrando cada peça como se estivesse em inspeção militar. Samira retirou o próprio equipamento com calma, ainda verificando os sensores médicos. Roberta demorou mais. Não por dificuldade. Por atenção. Observava o material do traje como se tentasse entender o que havia ficado ali do lado de fora.

Sarah destravou a gola do traje e sentiu o ar interno do Vega tocar a pele do pescoço. Só então percebeu o quanto estava tensa. O corpo, treinado para funcionar em risco, cobrava depois. Sempre cobrava depois.

— Sergey, relatório dos drones — disse ela.

— Vou consolidar na estação traseira.

— Samira, monitore a exposição respiratória.

— Já estou fazendo.

Os dois saíram do compartimento, deixando Sarah e Roberta no espaço estreito de retirada dos trajes.

Por um momento, nenhuma das duas falou. A ausência dos outros tornou o lugar menor.

Roberta soltou a trava lateral do próprio traje, mas uma das presilhas do antebraço prendeu no tecido interno. Ela tentou puxar uma vez, sem sucesso. Sarah percebeu antes de decidir se deveria oferecer ajuda.

— Está presa — disse.

Roberta olhou para a presilha.

— Eu vi.

— Deixe.

Sarah se aproximou.

O gesto era prático. Absolutamente prático. Uma comandante ajudando uma tripulante a remover equipamento de segurança. Nada além disso deveria existir ali.

Mas o espaço era estreito demais.

Sarah segurou a presilha do traje de Roberta com a mão direita e apoiou a esquerda no antebraço dela para estabilizar o movimento. O tecido interno era fino. Sob ele, o calor do corpo de Roberta passava de forma inesperada, quase indecente pela simplicidade. Roberta ficou imóvel.

Sarah também.

Não por muito tempo, talvez dois segundos ou menos, mas foi tempo suficiente para que o contato deixasse de ser apenas contato e virasse percepção.

A pele de Roberta estava quente. A respiração dela mudou, quase nada, mas mudou. Sarah sentiu, mais do que ouviu, o ar preso na garganta da astrobióloga. Seus dedos deslizaram ao soltar a presilha e tocaram, sem intenção, a parte interna do pulso dela.

Foi um toque mínimo.

Um acidente.

Um raio pequeno.

Roberta ergueu os olhos.

Sarah deveria ter se afastado imediatamente.

Não se afastou.

Os rostos delas estavam próximos demais para a neutralidade. Não próximos o bastante para justificar recuo. Apenas naquele intervalo perigoso em que qualquer movimento poderia ser explicado de duas formas.

Roberta tinha os olhos castanhos ainda mais escuros sob a luz branca do compartimento. Havia neles o resto da clareira, o medo, a curiosidade, talvez a mesma consciência desconfortável que atravessava Sarah.

A presilha se soltou com um clique baixo.

O som pareceu alto demais.

Sarah retirou a mão.

— Pronto.

A voz saiu mais controlada do que ela se sentia.

Roberta olhou para o próprio pulso, depois para Sarah.

— Obrigada.

Uma palavra simples, mas havia algo sob ela. Uma hesitação quente. Um reconhecimento que nenhuma das duas estava pronta para nomear.

Sarah deu um passo para trás.

— Verifique se não há dano no tecido interno.

— Sim, capitã.

O título veio correto.

Ainda assim, soou diferente.

Sarah saiu do compartimento antes que a situação exigisse interpretação.

No corredor curto que levava à cabine, parou por meio segundo e respirou fundo. Muito pouco. Só o suficiente para se lembrar de que era comandante, que estavam em solo alienígena, que havia uma possível figura humana observando a colônia, que o planeta talvez sentisse intenções e que seu interesse pelo pulso de Roberta Almeida não era prioridade operacional.

Aurora falou apenas no canal privado dela:

— Capitã, sua frequência cardíaca apresentou elevação breve durante assistência à doutora Almeida.

Sarah fechou os olhos.

— Não agora Aurora.

— Registro que a elevação não se correlacionou com esforço físico relevante.

— Aurora.

— Também registro que a doutora Almeida apresentou alteração semelhante.

Sarah virou o rosto para o sensor no teto.

— Você está tentando ser útil ou inconveniente?

— Ainda estou calibrando a diferença.

— Calibre em silêncio.

— Entendido. Comentário adicional retido.

Sarah retomou o caminho.

— Havia comentário adicional?

— Retido significa que não devo responder.

Sarah quase respondeu.

Não respondeu.

Era exatamente por isso que inteligências artificiais com autonomia social expandida deveriam ter limites mais rígidos.

Na cabine principal do Vega, todos já estavam reunidos em torno da mesa tática. Mei mantinha os motores em prontidão. Asha acompanhava a transmissão da Aurora em uma tela remota. Samira projetava dados médicos. Sergey organizava imagens dos drones. Roberta entrou pouco depois, agora sem o traje externo, com os cabelos levemente desalinhados e a expressão recomposta demais.

Sarah evitou olhar para as mãos dela.

Isso, naturalmente, fez com que percebesse ainda mais as mãos dela.

— Relatório inicial — disse Sarah.

Sergey assumiu primeiro, projetando o vídeo final do drone.

— A figura foi captada a aproximadamente oitocentos metros do Vega, dentro do perímetro externo da antiga colônia. Altura estimada entre um metro e setenta e um metro e oitenta. Estrutura corporal compatível com humano ou humano adaptado. O drone perdeu sinal logo após contato visual.

A imagem congelou no momento da figura.

A silhueta permanecia parcialmente oculta pela vegetação. Tecido claro. Cabelos longos ou fibras. Postura ereta. Imóvel demais para ser acaso.

— Pode ser sobrevivente — disse Samira.

— Ou descendente — disse Roberta.

— Ou isca — disse Sergey.

Mei olhou para ele.

— Você deve ser uma alegria em festas.

— Festas não são ambientes de missão.

— Confirmado. Nenhuma alegria.

Sarah manteve o foco na imagem.

— A figura fez algum movimento ameaçador?

— Não — respondeu Sergey. — Mas a ausência de ameaça visível não elimina intenção hostil.

— Também não confirma — disse Samira.

A médica ampliou outro conjunto de dados.

— Sobre a exposição atmosférica: sem reação adversa. Oxigênio tolerado. O pólen não apresentou efeito mortífero, tóxico ou neuroativo agressivo no período de observação. Recomendo exposição sem máscara apenas em áreas monitoradas e por tempo progressivo. Ainda não sabemos efeito cumulativo.

Sarah assentiu.

— Mantemos essa regra. Roberta, análise da interação ambiental.

Roberta ativou sua projeção.

A tela mostrou a clareira, os pulsos do solo, as criaturas pequenas, os planadores entre as árvores, o grande animal simbiótico e a faixa luminosa que permanecia ativa em direção à colônia.

Por um instante, Sarah esqueceu a reunião e lembrou do toque no compartimento.

Irritou-se consigo mesma.

Roberta começou:

— Éden-9 não reagiu como um ecossistema passivo. Mas também não reagiu como um inimigo. A resposta foi gradual, proporcional e diferenciada. O solo respondeu ao peso. O pólen avaliou presença. A fauna observou sem ataque. A grande criatura, que vou continuar chamando internamente de bosque-andante até alguém me proibir, manteve distância e não rompeu o círculo da clareira.

— Proibido oficialmente — disse Sarah.

Roberta olhou para ela.

— Tarde. O nome já criou raiz.

Mei riu.

Até Asha sorriu na tela.

Sarah manteve a expressão neutra por disciplina, não por falta de vontade.

Roberta continuou:

— O ponto mais importante é que tudo parece conectado. Não só biologicamente, mas comportamentalmente. Os véus-de-prata tocaram o solo e receberam resposta luminosa. Os planadores se moviam entre as copas sem danificar estruturas. O animal maior carregava vegetação no próprio corpo. Não como parasitismo evidente. Como cooperação.

Ela mudou a imagem para um mapa simplificado.

— Na Terra, a gente separa animal, planta, fungo, solo, atmosfera, linguagem. Aqui, talvez essas categorias sejam insuficientes. Éden-9 parece funcionar como uma rede de reciprocidade. Cada organismo existe em relação direta com o habitat. Não é só sobreviver no ambiente. É participar dele.

Samira cruzou os braços.

— Uma simbiose planetária.

— Sim. Mas não apenas bioquímica. Sensorial. Talvez social.

Sergey franziu o cenho.

— Social?

Roberta olhou para ele.

— O que chamamos de sociedade é um conjunto de relações que organizam comportamento, recursos, risco e continuidade. Se a fauna modifica movimento para preservar a rede do solo, se a vegetação responde à presença de animais, se partículas atmosféricas carregam informação e se o planeta redistribui sinais conforme intenção percebida, então talvez exista uma organização maior. Não humana, mas real.

— Está sugerindo civilização animal?

— Estou sugerindo que nossa definição de civilização talvez seja vaidosa demais.

Sarah observou Sergey endurecer. Antes que ele respondesse, Roberta fez algo que a surpreendeu: mudou o tom. Não atacou. Explicou.

— Quando eu era criança, minha avó contava histórias do Curupira protegendo a mata de quem entrava para destruir. Do Boitatá como fogo vivo contra a devastação. Da Mãe d’Água que seduzia ou punia quem desrespeitava rio. Claro que isso não era biologia no sentido acadêmico. Mas era uma forma cultural de ensinar que a natureza não era objeto mudo. Era relação. Consequência. Memória.

Ela olhou para a imagem da clareira.

— Éden-9 me obriga a levar essa ideia a sério de um jeito que a Terra nunca conseguiu. Talvez o planeta não esteja nos ameaçando. Talvez esteja tentando descobrir se somos caçadores, hóspedes ou doença.

A sala ficou quieta.

Sarah sentiu o peso da frase.

Caçadores.

Hóspedes.

Doença.

O Protocolo Semente Branca pareceu se mover dentro de sua cabeça, mesmo lacrado.

Sergey foi o primeiro a falar.

— Folclore não deve orientar procedimento.

Roberta assentiu.

— Concordo. Mas pode orientar humildade. O procedimento vem depois.

Sarah percebeu que aquela resposta reduziu a tensão mais do que qualquer intervenção dela teria feito.

Talvez porque Roberta não estivesse tentando vencer, estava tentando traduzir.

— Qual sua recomendação? — perguntou Sarah.

Roberta respirou fundo.

— Nova mensagem. Mais simples. Menos institucional.

— Defina menos institucional.

— Sem “Comando”, sem “missão”, sem “protocolo”. Algo que reconheça o contato. Informar que vimos a figura na colônia, que não vamos avançar sem resposta e que desejamos compreender.

Sergey balançou a cabeça.

— Isso revela hesitação.

— Revela intenção de não invadir.

— Para uma inteligência desconhecida, hesitação pode ser interpretada como fraqueza.

Roberta respondeu com calma:

— Ou como respeito.

Sarah avaliou os dois lados.

O problema de Sergey era que ele não estava totalmente errado. O desconhecido podia transformar qualquer gesto em vulnerabilidade. Mas o problema de Roberta era mais incômodo: ela também não estava errada. A Terra carregava histórico demais para esperar que sua simples chegada fosse interpretada como inocente.

— Faremos a mensagem — decidiu Sarah. — Curta. Sem promessa que não possamos cumprir.

Roberta assentiu.

— E eu sugiro acrescentar som.

Mei virou a cadeira.

— Som?

Roberta pareceu medir a reação antes de continuar.

— O planeta responde a vibração, luz, presença, talvez intenção. A transmissão verbal é humana demais. Dados são abstratos demais. Música é padrão, repetição, emoção, matemática e corpo ao mesmo tempo.

Asha, na tela, inclinou-se para frente.

— Isso é interessante.

Sarah olhou para Roberta.

— Você quer tocar violão para um planeta desconhecido.

Roberta manteve a seriedade por quase dois segundos.

— Quando você diz assim, parece menos científico.

— Existe uma forma mais científica de dizer?

— Teste de resposta acústica não invasiva com instrumento de cordas de origem terrestre.

Mei apontou para ela.

— Eu voto nessa frase. Parece que dá verba.

Samira sorriu.

Sergey, naturalmente, não.

— Isso é um risco desnecessário.

Roberta virou-se para ele.

— Menor que um drone. Menor que coleta. Menor que um passo a mais em direção à colônia. Som se oferece. Não arranca.

— Som também pode ser estímulo hostil.

— Por isso começamos baixo, curto e recuado.

Sarah permaneceu em silêncio. A ideia parecia absurda e exatamente por isso talvez fosse adequada àquele planeta.

Os sistemas da Aurora, os drones da Frota, as armas não letais, os protocolos de biossegurança, tudo aquilo dizia muito sobre a Terra. Talvez demais. Um violão dizia outra coisa. Não inocência. A humanidade não era inocente. Mas dizia presença sem lâmina. Padrão sem perfuração. Intenção sem tomada de território.

— Aurora — chamou Sarah.

— Sim, capitã.

— Risco acústico estimado?

— Em intensidade baixa, risco estrutural nulo. Risco biológico indeterminado. Possibilidade de resposta ambiental mensurável: elevada, considerando sensibilidade já observada a estímulos.

— Samira?

— Sem objeção médica se realizado fora do Vega, com distância segura e exposição controlada.

— Mei?

— Desde que ninguém peça para eu cantar, apoio.

— Asha?

— Quero todos os sensores gravando.

Sarah olhou para Sergey.

— Engenheiro?

— Obedeço à decisão de comando.

Não era aprovação, mas era o máximo que ele ofereceria.

Por fim, olhou para Roberta.

— Uma tentativa. Três minutos no máximo. Sem aproximação da mata. Sem atravessar a faixa luminosa. Se houver alteração brusca, você para.

— Entendido.

— E, doutora Almeida?

— Sim?

— Nada de improvisar heroísmo.

Roberta sorriu de leve.

— Eu improviso música, não heroísmo.

Sarah não respondeu.

Mas a frase ficou.

Vinte minutos depois, a escotilha do Vega abriu novamente.

Dessa vez, saíram apenas Sarah, Roberta e Samira. Sergey permaneceu na entrada do módulo, por ordem de Sarah, monitorando segurança sem projetar presença armada no centro da clareira. Mei ficou pronta para decolagem. Asha e Aurora registravam tudo.

Roberta carregava o violão com cuidado quase ritual.

Sarah observou o modo como ela segurava o instrumento. Não como objeto excêntrico. Como parte de uma história que a nave não conhecia. A madeira antiga parecia deslocada naquele planeta luminoso, mas ao mesmo tempo estranhamente adequada. Um pedaço da Terra feito de árvore, mão, tempo e som.

A clareira continuava iluminada em pulsos suaves.

Quando Roberta pisou no solo, o dourado voltou a aparecer ao redor de suas botas.

Sarah viu.

Samira também.

Ninguém comentou.

Roberta parou a alguns metros do Vega, dentro do perímetro autorizado. Sentou-se em uma pedra baixa, depois hesitou e olhou para Sarah.

— Posso?

Sarah entendeu sem que ela explicasse. Sentar-se ali era tocar um elemento do planeta de forma mais direta.

Samira passou o scanner.

— Sem reação agressiva. Autorizo contato de traje com superfície mineral.

Sarah assentiu.

Roberta sentou.

A imagem era absurda.

Uma astrobióloga brasileira, em um planeta desconhecido, sentada na borda de uma clareira viva, afinando um violão antigo sob duas luas pálidas e uma atmosfera violeta.

Sarah deveria estar pensando em segurança.

Estava.

Também estava pensando na curva dos dedos de Roberta sobre as cordas.

Aurora falou no canal privado dela:

— Capitã, deseja que eu mantenha comentários biométricos suprimidos?

Sarah apertou a mandíbula.

— Sim.

— Decisão prudente.

— Aurora.

— Suprimindo.

Roberta respirou fundo.

Não tocou uma música complexa. Começou com notas soltas, lentas, quase uma apresentação. O som saiu baixo, delicado, de madeira e corda, humano em um lugar onde nada parecia humano. As primeiras notas se espalharam pela clareira e morreram sem resposta aparente.

Depois Roberta repetiu.

O mesmo intervalo.

A mesma sequência.

Uma pergunta musical.

O pólen suspenso começou a se aproximar.

Não como nuvem ameaçadora. Como atenção dourada.

Sarah levantou a mão para impedir qualquer reação de Sergey, mesmo sem olhar para trás.

Roberta continuou tocando.

A melodia ainda não era uma canção reconhecível, mas carregava algo brasileiro em sua cadência. Um balanço suave, uma tristeza luminosa, uma esperança que não se anunciava demais. Sarah não conhecia o repertório de Roberta, mas sentiu que aquela música não vinha apenas de técnica. Vinha de algum lugar anterior à missão. Talvez da avó. Talvez de São Paulo. Talvez de alguém que Roberta perdera e ainda não havia mencionado.

O planeta respondeu na terceira repetição.

Primeiro, uma luz azul nasceu sob a pedra onde Roberta estava sentada. Depois, espalhou-se em linhas finas ao redor dela, sem tocá-la. O brilho seguiu o ritmo das cordas, não de forma perfeita, mas próxima o bastante para fazer Sarah esquecer a respiração por um instante.

Samira sussurrou:

— Está sincronizando.

Asha, pelo canal, quase não continha a emoção.

— Frequência luminosa acompanhando os intervalos sonoros. Não é reflexo direto. Há atraso adaptativo. Como aprendizado.

Roberta alterou a sequência.

O solo demorou.

Depois acompanhou.

As árvores ao redor da clareira começaram a acender uma a uma. Não todas. Apenas algumas, em intervalos espaçados, como ouvintes respondendo de longe. Os véus das copas vibraram sem vento. Partículas douradas subiram em espiral.

Sarah sentiu algo apertar no peito.

Não era medo.

Isso a preocupou mais.

Roberta parou de tocar.

O som desapareceu.

Por alguns segundos, a luz permaneceu suspensa.

Então o chão à frente dela se acendeu.

Uma linha verde e dourada surgiu entre os filamentos do solo, avançando para longe do Vega. Passou pela clareira, atravessou a borda da vegetação e seguiu na direção da antiga colônia.

Não era a mesma faixa orbital.

Era mais estreita.

Mais próxima.

Mais clara.

Um caminho.

Mei falou pelo canal, sem piada:

— Isso está apontando para Aurora Prime.

Asha confirmou:

— Direção exata da estrutura onde o drone captou a figura.

Sergey, da escotilha, endureceu.

— Pode ser armadilha.

Roberta baixou o violão devagar.

— Pode ser convite.

Sarah olhou para o caminho iluminado. Não gostava de nenhuma das duas palavras. Armadilha exigia defesa e convite exigia confiança. Nenhuma servia completamente.

Samira aproximou-se um passo.

— O planeta respondeu à música com orientação espacial. Seja qual for a intenção, há comunicação.

Sarah sentiu todos esperando.

Roberta estava sentada, o violão apoiado no colo, iluminada pela resposta que ela mesma havia provocado. O rosto dela não exibia triunfo. Isso importou para Sarah. Não havia vaidade ali. Havia assombro. Gratidão. Cuidado.

O tipo de cuidado que a Terra raramente enviava na linha de frente.

Sarah respirou o ar de Éden-9, úmido e mineral.

— Voltamos para o Vega — disse.

Roberta olhou para ela, surpresa.

Sarah continuou:

— Registramos tudo. Planejamos aproximação. Ninguém segue um caminho recém-aberto sem preparação.

A frustração passou pelo rosto de Roberta, mas não virou contestação.

— Certo.

Sarah baixou um pouco o tom.

— Isso foi importante, doutora.

Roberta encontrou seus olhos. O brilho do solo se refletia no rosto dela.

— Foi ele que respondeu.

— Foi você que perguntou.

O silêncio entre as duas durou apenas um instante.

Mas o suficiente.

Roberta desviou o olhar primeiro, segurando o violão com mais força. Sarah voltou-se para o Vega antes que qualquer outra coisa se denunciasse. O caminho luminoso permaneceu aceso atrás delas enquanto retornavam ao módulo.

Não avançava.

Não recuava.

Esperava.

Como se Éden-9 tivesse entendido a primeira pergunta humana que não vinha de um motor, de um drone ou de uma ordem e tivesse decidido responder com uma direção.

Dentro do Vega, Sarah lacrou novamente a escotilha.

Lá fora, a trilha até a colônia continuava brilhando.

Na tela frontal, a antiga Aurora Prime apareceu ao longe, parcialmente escondida entre árvores negras, membranas vivas e luz pulsante.

Sarah olhou para Roberta por um segundo.

Depois para o caminho.

A missão tinha acabado de mudar de forma.

Não estavam mais apenas explorando.

Estavam sendo conduzidos.

Fim do capítulo


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