Memória de água
Roberta Almeida
Naya disse que a água lembrava melhor do que as árvores. Roberta, que até então vinha tentando aceitar árvores capazes de escutar, raízes capazes de conduzir luz e uma cidade construída como se arquitetura e organismo tivessem chegado a algum acordo antigo, parou no meio da trilha e olhou para a jovem.
— A água lembra melhor?
Naya caminhava à frente, descalça, sem fazer ruído sobre o solo escuro. A luz sob os pés dela se acendia com suavidade, não como caminho aberto para visitante, mas como reconhecimento de alguém que pertencia àquele lugar antes mesmo de nascer.
— As árvores guardam continuidade — explicou Naya. — Crescem atravessando tempo. A água guarda passagem. Tudo toca nela e segue. Por isso ela sabe coisas que não ficam.
Roberta ficou alguns segundos em silêncio.
A frase tinha algo de ciência e de poesia, e Éden-9 parecia ter o péssimo hábito de tornar as duas coisas inseparáveis.
— Na Terra, a gente também diz umas coisas assim sobre água — falou Roberta.
Naya olhou por cima do ombro.
— Dizem como metáfora?
— Às vezes.
— Aqui também. Mas nem sempre.
Roberta soltou uma risada baixa, sem muita força.
— Vocês têm um jeito muito delicado de desmontar a arrogância alheia.
— Iara diz que delicadeza é a única lâmina que algumas pessoas aceitam encostar na pele.
— Sua Iara é perigosa.
— Sim.
Naya respondeu com tanta naturalidade que Roberta não soube se deveria rir.
A trilha descia para fora do núcleo mais habitado de Aurora Prime. A cidade viva ficava para trás aos poucos, embora Roberta já entendesse que “para trás” era uma ideia relativa em Éden-9. Nada ali parecia realmente separado. As casas, os canais, os círculos de decisão, os animais pequenos que dormiam enrolados nas raízes, os organismos luminosos que filtravam a água, as pessoas com marcas sutis na pele — tudo se comunicava por camadas que Roberta ainda não sabia ler.
Mesmo quando a cidade desapareceu atrás de uma curva de árvores altas, Roberta sentiu que continuava dentro dela.
Ou sendo lembrada por ela.
O ar ficava mais úmido à medida que avançavam. Havia um cheiro mineral misturado ao perfume leve de flores que Roberta não via. As folhas acima eram longas e escuras, com nervuras prateadas que pulsavam em intervalos lentos. Pequenos animais translúcidos se moviam entre os galhos, mais parecidos com fragmentos de luar do que com criaturas sólidas. Quando tocavam as árvores, suas patas se abriam em filamentos delicados, trocando luz com a casca antes de seguir.
Roberta queria parar a cada três passos, a cientista nela queria registrar tudo.
A mulher que havia crescido ouvindo a avó Jandira dizer que até pedra tinha paciência queria apenas pedir licença e ficar quieta.
Naya percebeu.
— Você está fazendo muitas perguntas sem falar.
— Isso é ruim?
— Não. É cansativo.
Roberta sorriu.
— Para mim ou para o planeta?
— Para vocês dois.
O sorriso de Roberta ficou mais fraco.
— Ele sente isso?
Naya diminuiu o passo.
— Éden sente movimento. Intenção. Peso. Não como uma pessoa. Não como vocês imaginam uma mente. Mas sente quando alguém chega querendo cortar. Sente quando alguém chega querendo tomar. Sente quando alguém chega querendo entender e ainda assim carrega medo de tocar.
Roberta olhou para as próprias mãos.
— E eu?
— Você chega como quem pede desculpa antes de abrir uma porta.
A frase a atingiu com uma precisão desconfortável.
— Isso é uma crítica?
— É uma descrição.
Roberta respirou devagar.
Talvez fosse pior.
Continuaram em silêncio.
A trilha se abriu alguns minutos depois.
O lago apareceu sem anúncio.
Era escuro.
Não negro de sujeira, nem de morte, nem de profundidade comum. Escuro como céu antes da chuva. Escuro como vidro onde as estrelas esqueceram de se refletir. A superfície permanecia quase imóvel, mas havia luz sob ela. Não luz espalhada. Pontos. Correntes. Pequenos caminhos luminosos que se moviam lentamente no fundo, como se alguém tivesse costurado constelações dentro da água.
Ao redor do lago, raízes largas mergulhavam nas margens. Algumas vinham das árvores. Outras pareciam nascer do próprio leito. Plantas baixas se inclinavam para a superfície sem tocá-la, formando um círculo irregular. Não havia vento. Mesmo assim, vez ou outra, uma folha tremia, e a água respondia com uma vibração discreta.
Roberta parou. Por um segundo, esqueceu de respirar. Não era o lugar mais bonito que já vira em Éden-9. Era o mais íntimo. Como se tivesse entrado sem querer no quarto de alguém.
— Aqui? — perguntou, mais baixo do que pretendia.
Naya assentiu.
— Aqui.
— O que eu devo fazer?
— Menos.
Roberta olhou para ela.
— Essa é uma orientação péssima para uma cientista.
— Talvez por isso seja boa para você.
Naya se aproximou da margem e sentou-se sobre uma raiz lisa. Indicou o espaço ao lado.
Roberta sentou.
O lago permaneceu imóvel.
— Iara disse que você trouxe música — falou Naya.
Roberta tocou a alça do estojo preso às costas, quase por instinto.
— Eu não sabia se seria apropriado.
— Por isso trouxe?
Roberta riu de leve.
— Talvez.
O violão havia sido uma teimosia pessoal.
Na Terra, antes da partida, um dos técnicos da missão perguntou se ela realmente pretendia levar um instrumento musical para uma expedição interestelar. Roberta respondeu que sim, porque em algum momento alguém ficaria triste, com medo ou insuportável, e música era mais leve do que terapia de grupo em gravidade artificial.
Na verdade, tinha levado por causa da avó.
Jandira dizia que quem viajava sem música chegava mais pobre do que saiu.
Roberta retirou o violão do estojo com cuidado. A madeira escura parecia absurdamente terrestre naquele cenário. Um objeto nascido de árvores mortas, mãos humanas, verniz, cordas, oficina, memória. Um pedaço da Terra levado até um mundo onde talvez nada precisasse morrer para continuar cantando.
Naya observou o instrumento com curiosidade.
— Isso guarda árvore?
Roberta passou os dedos pela lateral do corpo do violão.
— Guardava. Agora guarda som.
— Então ainda é árvore.
Roberta não soube responder.
Ajustou a posição do instrumento no colo e olhou para o lago.
— Minha avó gostava de música brasileira antiga. Bem antiga na verdade. Ela dizia que certas canções sobreviviam porque tinham aprendido a morar em todo mundo.
Naya pareceu gostar da ideia.
— Cante uma que more em você.
Roberta sentiu a garganta apertar antes mesmo de escolher.
Não queria uma canção grandiosa. Não queria algo que parecesse apresentação. Queria uma música que tivesse cozinha, varanda, fim de tarde, rádio ligado baixo, a avó mexendo panela e a cidade respirando depois da chuva.
Os dedos encontraram os primeiros acordes quase sozinhos.
A melodia saiu baixa.
“Romaria.”
A música era antiga demais para o século de Roberta e, ainda assim, continuava viva. A avó Jandira cantava como quem conversava com alguém no caminho. Não com perfeição. Nunca com perfeição. Ela esquecia versos, inventava pedaços, trocava palavras quando achava que a música precisava servir melhor ao dia. Mas havia naquela canção uma travessia. Uma pessoa indo, carregando fé, cansaço, poeira, família, pedido e destino.
Roberta não cantou de início.
Apenas tocou.
As cordas vibraram contra o silêncio do lago.
A primeira resposta veio na água.
Um ponto de luz subiu do fundo, lento, até quase tocar a superfície. Depois outro. E outro. Não acompanhavam exatamente o ritmo. Pareciam ouvir antes de decidir como responder.
Naya permaneceu imóvel ao lado dela.
Roberta tocou mais uma sequência.
O ar mudou.
Não de forma brusca. Não como invasão. O cheiro mineral ficou mais forte, e a umidade pareceu se aproximar da pele como uma mão sem dedos. A superfície do lago ondulou, embora nada a tivesse tocado.
Roberta sentiu o primeiro arrepio na nuca.
Parou de tocar.
— Está tudo bem? — perguntou.
Naya olhou para a água.
— Ele está perguntando se você trouxe a música ou se a música trouxe você.
Roberta engoliu seco.
— E qual é a resposta?
— Continue.
Roberta deveria ter pedido equipamento.
Deveria ter chamado Sarah.
Deveria ter solicitado registro, leitura, medição, consentimento formal, qualquer coisa que transformasse aquele momento em procedimento.
Em vez disso, voltou a tocar.
Dessa vez, cantou baixo.
A voz saiu insegura no começo, depois mais inteira. Não era uma performance. Era lembrança. A canção atravessou o ar de Éden-9 e chegou ao lago como se tivesse caminhado séculos para encontrar outra água.
“É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De gibeira o jiló
Dessa vida cumprida a sol
Sou caipira, pira, pora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
Sou caipira, pira, pora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura
E funda o trem da minha vida
O meu pai foi peão, minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
A custa de aventuras
Descasei, joguei, investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi”
Na metade da melodia, Roberta deixou de ver a margem, ou talvez a margem tenha deixado de ser apenas margem. A água escura refletiu uma cozinha. Não de modo nítido. Primeiro vieram cores: amarelo da toalha, verde de uma planta pendurada perto da janela, marrom da mesa antiga. Depois o som de chuva. Depois o cheiro de café. A avó Jandira estava de costas, mexendo alguma coisa no fogão.
— Beta, não pisa aí que eu acabei de passar pano.
Roberta parou de tocar.
Mas a música continuou.
Não no violão.
Na memória.
Ela estava pequena de novo, talvez oito anos, talvez nove. Sentada à mesa da cozinha com as pernas balançando, olhando a chuva cair no quintal. Havia uma goteira perto da área de serviço. A avó colocara uma bacia embaixo, e as gotas batiam no metal em um ritmo que Roberta, na época, tinha certeza de que era uma tentativa de comunicação.
— Vó, planta sente dor?
Jandira virou o rosto só o suficiente para lançar aquele olhar de quem já sabia que a criança não queria uma resposta simples.
— Sente do jeito dela.
— Mas sente igual gente?
— Você sente igual planta?
Roberta, pequena, franziu o rosto.
— Não.
— Então por que ela teria que sentir igual você para ser verdade?
A lembrança tremeu.
A cozinha mudou.
A mãe de Roberta apareceu mais jovem, muito mais jovem, com os cabelos presos em um coque malfeito, chegando da rua molhada, rindo porque havia esquecido o guarda-chuva de novo. Jandira reclamava, mas já pegava uma toalha. A mãe beijava a cabeça de Roberta e dizia que São Paulo não chovia, despejava opinião.
Depois veio outra cena.
Roberta adolescente, discutindo com a avó porque queria sair de casa, estudar longe, viver uma vida maior do que o bairro parecia permitir. Jandira não tentava prendê-la. Apenas descascava laranja com a faca pequena, paciente demais.
— Vai, Beta. Mas aprende a voltar sem achar que voltar é perder.
A lembrança mudou de novo.
Agora havia fogo.
Não na cozinha.
Em uma floresta.
Roberta não sabia se era memória sua, documentário visto na infância, registro histórico estudado na universidade ou algo que Éden-9 puxava de algum arquivo coletivo da Terra. Árvores brasileiras queimavam sob um céu cor de ferrugem. Animais corriam. Humanos gritavam. Máquinas avançavam sobre terra ferida. Depois mãos replantavam mudas. Outras mãos arrancavam. Outras tornavam a plantar.
Destruir.
Replantar.
Destruir.
Replantar.
A humanidade como febre e remédio da própria doença.
Roberta sentiu o peito doer.
A música continuava.
O lago mostrou mãos.
Mãos da avó sovando massa.
Mãos da mãe prendendo o cabelo.
Mãos de pesquisadores coletando amostras.
Mãos de homens assinando contratos.
Mãos de crianças de Éden-9 tocando raízes luminosas.
Mãos de Sarah pairando próximas ao próprio coldre sem sacar a arma.
Mãos de Sarah quase tocando as dela.
Roberta abriu os olhos.
Não sabia quando havia fechado.
A água diante dela brilhava.
Não em pontos dispersos, mas em círculos lentos, nascendo bem no centro do lago e se espalhando até as margens. O violão estava quieto em seu colo. Suas mãos tremiam sobre as cordas.
Naya a observava.
Não com pena, com atenção.
— Ele não mostrou só lembranças — disse Roberta.
A voz saiu rouca.
— Não.
— Mostrou relações.
Naya sorriu de leve.
— Sim.
Roberta olhou para a água.
— Ele não lê dados. Ele lê o vínculo entre as coisas.
— Ele lê o que toca e o que foi tocado.
Roberta sentiu uma lágrima descer pelo rosto.
Não a limpou.
Por alguns segundos, pensou na avó Jandira com tanta força que quase esperou ouvi-la reclamar do frio, da umidade, da falta de um café decente naquele planeta.
— Minha avó teria amado isso aqui — sussurrou.
— Talvez uma parte dela já tenha reconhecido.
Roberta virou o rosto para Naya.
— Isso deveria me assustar?
— Sim.
A resposta, simples, a fez rir e chorar ao mesmo tempo.
Naya não se aproximou para consolar. Apenas ficou ao lado. Roberta começava a entender que, em Éden-9, acolhimento não significava sempre tocar. Às vezes era apenas não abandonar alguém dentro do que ela estava sentindo.
Depois de algum tempo, Naya se levantou.
— Venha. O Círculo está reunido.
Roberta respirou fundo.
— Agora?
— Agora você consegue ouvir melhor.
— Eu estou exausta.
— Por isso.
Roberta guardou o violão com cuidado, embora tivesse a impressão de que as cordas ainda vibravam sob seus dedos. Quando se levantou, as pernas pareciam pouco confiáveis. Não era fraqueza física apenas. Era como se uma parte dela tivesse caminhado longe demais dentro de si e ainda não tivesse voltado por completo.
Naya esperou.
Não apressou.
A trilha de volta não levou à cidade pelo mesmo caminho. Ou talvez Éden-9 tivesse rearranjado a percepção de Roberta, porque a mata parecia diferente. As árvores não estavam mais só ao redor. Estavam com ela. A água do lago parecia permanecer em seus ouvidos, não como som, mas como uma lembrança líquida.
O Círculo de Escuta ficava em uma área aberta, cercada por três árvores imensas cujas copas se uniam no alto como mãos protegendo uma chama. No centro havia uma superfície viva, larga e baixa, formada por raízes achatadas, lisa como pedra molhada. Ao redor, mulheres de idades variadas estavam sentadas. Algumas tinham marcas luminosas evidentes na pele. Outras quase não apresentavam sinais de adaptação. Havia também dois homens mais velhos um pouco afastados, observando, não excluídos, mas em posição de testemunha.
Naya indicou um lugar para Roberta.
— Sente. Hoje você não precisa responder. Só ouvir.
Roberta obedeceu.
Uma mulher de cabelos completamente brancos, mas rosto jovem demais para eles, falava quando Roberta chegou. A voz dela era baixa, porém todos ouviam.
— O conflito não está no fato de a Terra ter medo — dizia. — O medo é uma forma de reconhecer que algo importa. O conflito está no que a Terra aprendeu a fazer com o medo.
Outra mulher respondeu:
— Ela transforma medo em posse.
Uma terceira, com uma criança dormindo no colo, acrescentou:
— Ou em nome. Quando nomeia, acredita que domina.
Roberta ficou imóvel. Não parecia uma reunião política no sentido terrestre. Não havia tribuna, ordem formal, votos apressados. Mas havia método. Uma mulher falava, as outras escutavam até o fim. Ninguém interrompia para vencer. Discordavam, sim. Roberta percebeu diferenças de opinião. Algumas defendiam receber a equipe da Aurora com abertura gradual. Outras temiam que qualquer aproximação trouxesse a Terra logo atrás. Uma das mais velhas lembrou que Iara confiara em canais oficiais antes e quase perdera tudo.
Mas mesmo a discordância não parecia uma batalha por superioridade. Parecia uma tentativa coletiva de manter o mundo inteiro na conversa.
Roberta compreendeu melhor o que Iara havia tentado explicar. Matricêntrica não era uma sociedade onde mulheres simplesmente ocupavam o lugar de antigos dominadores. Não era troca de dono. Não era revanche histórica fantasiada de justiça. Ali, a liderança feminina surgira de uma sensibilidade desenvolvida com a rede neural do planeta, mas também de uma cultura que transformara escuta em critério de autoridade.
Quem liderava precisava sustentar o impacto das consequências.
Precisava lembrar.
Precisava cuidar.
Precisava saber quando falar e, talvez mais difícil, quando não falar.
Roberta sentiu uma emoção silenciosa nascer dentro dela. Não era idealização. Não era vontade ingênua de abandonar toda crítica e chamar aquilo de paraíso. Era algo mais maduro: reconhecimento de que existia, diante dela, uma tentativa diferente de civilização.
Uma tentativa que não começava pelo domínio.
Enquanto ouvia, percebeu movimento na entrada do círculo.
Sarah.
Roberta sentiu antes de raciocinar.
A capitã parou a alguns passos da área aberta, como se não quisesse interromper. Estava com o uniforme de campo, a postura controlada, mas havia nela um cansaço que Roberta não vira antes daquele jeito. Não era apenas físico. O rosto de Sarah parecia mais fechado e, ao mesmo tempo, mais exposto. Como se ela tivesse visto algo que a obrigara a sustentar o próprio peso sem as paredes habituais.
Os olhos das duas se encontraram.
O mundo não parou.
Roberta teria desconfiado se parasse.
Mas alguma coisa dentro dela caiu meio centímetro e, ainda assim, pareceu atravessar uma distância enorme.
Um frio breve subiu pelo estômago.
Não era medo.
Ou não apenas.
Era aquele tipo de sensação que o corpo reconhece antes da razão encontrar uma palavra segura. Roberta tentou afastar a ideia, mas ela voltou com calma, sem pressa, como as luzes do lago subindo do fundo.
Atração.
Não só pelo rosto de Sarah, nem pela proximidade do quase beijo que ainda pairava entre elas como uma frase não terminada.
Era atração pela contradição inteira. Pela mulher que comandava com dureza e, mesmo assim, aprendia a ouvir. Pela capitã que carregava segredos, mas tremia por dentro quando a verdade se aproximava. Pela pessoa que poderia feri-la e, ainda assim, fazia Roberta querer chegar mais perto. O pensamento foi pequeno, mas claro.
Roberta desviou os olhos primeiro.
Naya percebeu.
Naturalmente.
Porque naquele planeta ninguém parecia ter a educação básica de ignorar sentimentos alheios.
Sarah se aproximou devagar, parando ao lado de Roberta, fora do círculo principal. Não falou de imediato. Apenas inclinou a cabeça em sinal de respeito às mulheres reunidas.
Naya observou as duas com um interesse que não era infantil, nem malicioso. Era como se acompanhasse a formação de uma ponte e quisesse saber se ela aguentaria peso.
— Você está bem? — perguntou Sarah, baixo, para Roberta.
A pergunta era simples. Mas depois do lago, depois das memórias, depois da música, Roberta não conseguiu recebê-la como simples.
— Estou cansada.
Sarah analisou o rosto dela com preocupação contida.
— Quer voltar?
Roberta quase disse sim.
O corpo queria. Mas algo nela ainda estava escutando.
— Ainda não.
Sarah assentiu.
Não tentou decidir por ela.
Naya viu.
E sorriu de um jeito quase imperceptível.
— Há um cuidado entre vocês — disse a jovem.
Roberta sentiu o rosto aquecer.
Sarah ficou imóvel.
— Naya — advertiu uma das mulheres do círculo, não com severidade, mas com lembrança de limite.
— Eu suavizei — disse Naya.
Roberta soltou um riso nervoso.
— Isso foi suavizado?
— Muito.
Sarah parecia dividida entre encerrar a conversa e desaparecer em alguma função militar. Fez as duas coisas internamente e nenhuma externamente.
Naya inclinou a cabeça, observando Roberta.
— Você confia na sua capitã?
O ar mudou.
Não de forma visível.
Mas Roberta sentiu.
Sarah não olhou para ela de imediato. Talvez para não pressionar. Talvez porque a pergunta também a assustasse.
Roberta ficou em silêncio.
A resposta fácil seria dizer sim.
A resposta defensiva seria dizer não sei.
A resposta honesta exigia atravessar tudo que acontecera desde a chegada: Sarah segurando a missão quando o planeta respondeu pela primeira vez; Sarah impedindo Sergey de transformar medo em arma; Sarah ouvindo Roberta quando ela sugeriu aproximação não invasiva; Sarah autorizando cautela em vez de coleta; Sarah olhando para Éden-9 com desconfiança e, ainda assim, não se recusando a ver; Sarah quase beijando-a e depois indo embora por causa de uma mensagem que ainda não explicara.
Havia também os arquivos.
Roberta não conhecia o conteúdo, mas sabia que existiam. Sabia que algo da Terra pesava sobre Sarah. Sabia que Naya sentira uma ordem escondida. Sabia que Iara mostrara a Sarah registros que a deixaram diferente.
Confiar não era ignorar isso.
Confiar não era esquecer que Sarah escondia alguma coisa.
Confiar, talvez, fosse reconhecer que uma pessoa ainda podia escolher apesar do que carregava.
Roberta olhou para Sarah.
A capitã continuava quieta, mas havia uma ansiedade quase invisível no modo como segurava a própria respiração. Qualquer outra pessoa talvez não percebesse. Roberta percebeu.
E isso a tocou.
— Sim — disse, enfim.
Sarah levantou os olhos.
Roberta sustentou.
— Eu confio.
Naya permaneceu atenta.
Roberta continuou, escolhendo as palavras com cuidado:
— Não porque ela nunca esconda nada. Nem porque eu ache que ela sempre sabe o que fazer. Eu confio porque, desde que chegamos, ela poderia ter passado por cima de todos nós muitas vezes. Poderia ter escolhido só o caminho mais seguro para o comando, o mais fácil para a Terra, o mais confortável para o próprio medo. Mas ela escutou. Mesmo quando discordava. Mesmo quando era difícil. Ela toma decisões, sim. Mas tenta ouvir o que todos dizem antes de decidir. Tenta ponderar o que é melhor sem esmagar quem está ao redor.
Sarah não se moveu.
Mas alguma coisa nela cedeu.
Roberta viu.
— Então sim — concluiu. — Eu confio na minha capitã.
A palavra minha saiu antes de qualquer revisão racional.
Não era posse.
Era pertencimento de equipe.
Era isso que Roberta disse a si mesma, com uma velocidade suspeita.
Naya sorriu.
Dessa vez, satisfeita.
— Isso é bom.
— Por quê? — perguntou Roberta.
— Porque Éden escuta melhor quando humanos não mentem para si mesmos antes de falar com ele.
Sarah desviou o olhar por um segundo.
Roberta percebeu.
A frase havia tocado algum lugar sensível.
Iara aproximou-se pela lateral do círculo. Roberta não a tinha visto chegar. Talvez ninguém ali chegasse exatamente; apenas se tornasse parte do lugar onde já era esperado.
— A resposta foi ouvida — disse Iara.
Roberta não soube se ela falava do círculo, de Naya, de Sarah ou do planeta.
Talvez de todos.
Sarah recompôs a postura.
— Iara.
— Capitã.
— Precisamos retornar à Aurora.
Roberta sentiu o cansaço desabar ao ouvir a palavra retornar. Como se o corpo, até então sustentado por curiosidade, memória e tensão, lembrasse que tinha limites.
Sarah percebeu.
— Agora — disse, mais baixo, apenas para ela. — Você precisa descansar.
Dessa vez, Roberta não discutiu.
Iara acompanhou as duas até a borda do círculo.
— Amanhã sua equipe poderá descer em conjunto — informou.
Sarah ergueu o olhar, surpresa.
— Toda a equipe?
— Aqueles que vierem em reconhecimento.
A palavra foi colocada com cuidado.
Reconhecimento.
Não inspeção.
Não reivindicação.
Não posse.
Iara continuou:
— Não aceitaremos invasões, coleta não autorizada, mapeamento militar interno ou qualquer gesto que trate nossa casa como território vazio. Quem vier precisa vir para olhar antes de medir. Perguntar antes de tocar. Reconhecer antes de concluir.
Sarah assentiu devagar.
— Entendido.
Iara olhou para Roberta, depois para Sarah.
— E alguns ainda precisarão aprender a diferença entre proteger e cercar.
O nome de Sergey não foi dito.
Não precisava.
A ausência dele na frase foi mais precisa do que uma acusação.
Sarah entendeu.
Roberta também.
— Falarei com minha equipe — disse Sarah.
— Fale primeiro consigo — respondeu Iara.
Sarah ficou em silêncio.
Roberta quase sentiu pena dela.
Quase.
Mas Sarah não precisava de pena. Talvez precisasse, como todas as outras pessoas, de uma verdade que não viesse embalada para poupar seu orgulho.
Naya se despediu de Roberta com um toque breve no próprio peito e depois no ar entre elas.
— A água ainda está com você.
Roberta levou a mão ao centro do peito.
— Eu sei.
— Não tente explicar tudo hoje.
— Eu sou cientista. Vai contra a minha natureza.
— Então descanse contra a sua natureza.
Roberta riu, exausta.
— Vocês são todos terrivelmente inconvenientes.
— É uma forma de cuidado.
Sarah a chamou com um olhar.
Roberta seguiu.
O caminho até o Vega pareceu mais longo.
Não por distância, mas porque Roberta voltava carregando mais do que levara. O lago. A avó. A música. O círculo. A pergunta de Naya. A resposta que ainda parecia vibrar no ar entre ela e Sarah.
Eu confio na minha capitã.
Sarah caminhava ao lado dela, silenciosa.
Dessa vez, o silêncio não parecia vazio.
Parecia cheio demais para ser aberto na trilha.
Quando chegaram ao Vega, Samira veio ao encontro delas antes mesmo que a escotilha terminasse de descer.
— Vocês duas estão pálidas.
Mei, do interior do módulo, inclinou-se para fora.
— Isso é diagnóstico médico ou crítica estética?
— Ambas podem coexistir — respondeu Samira, aproximando o scanner do rosto de Roberta.
O aparelho emitiu três sinais curtos.
A médica franziu o cenho.
— Frequência cardíaca elevada. Cortisol oscilante. Atividade neural residual acima do padrão pós-contato. Temperatura um pouco baixa. Roberta, você teve outro episódio de memória?
Roberta olhou para Sarah.
Sarah olhou para ela.
Nenhuma das duas respondeu rápido o bastante.
Samira suspirou.
— Naturalmente.
— Eu toquei para o lago — disse Roberta.
Mei piscou.
— Desculpa, eu pisquei e perdi a parte em que isso virou uma frase normal.
— O lago respondeu — completou Roberta.
Mei abriu a boca.
Depois fechou.
— Certo. Vou guardar minhas perguntas para quando eu estiver emocionalmente protegida por comida.
Samira passou o scanner em Sarah.
O aparelho emitiu outro alerta discreto.
— Capitã, você também apresenta alterações.
— Estou funcional.
— Eu não perguntei se estava funcional. Esse vício de vocês é fascinante.
Sarah aceitou o exame com impaciência controlada.
Samira analisou os dados.
— Atividade autonômica elevada. Sinais compatíveis com forte resposta emocional recente. Não há indício de dano neurológico, mas vocês duas parecem ter atravessado uma tempestade de dentro para fora.
Roberta soltou uma risada fraca.
— Descrição tecnicamente poética.
— Medicina precisa se adaptar ao ambiente — respondeu Samira.
Sergey aguardava junto ao perímetro, alguns metros afastado. Ao ver Sarah, aproximou-se.
— Capitã. Nenhuma alteração no perímetro. Comunicação com a Aurora estável. Asha solicitou canal seguro ao retorno.
Sarah assentiu.
— Falarei com ela na nave.
Sergey olhou para Aurora Prime ao longe.
— A comunidade autorizou nova entrada?
Sarah sustentou a atenção nele.
— Sim. Amanhã.
O rosto dele mudou pouco, mas o corpo respondeu. Um ajuste mínimo dos ombros. Expectativa, talvez. Ou necessidade de recuperar posição depois do relatório não autorizado.
— Prepararei a segurança.
— Não.
A palavra foi curta.
Sergey ficou imóvel.
Roberta também.
Sarah continuou:
— Amanhã a equipe fará uma visita de reconhecimento em conjunto. Mei, Asha, Samira, Roberta e eu. Você permanecerá na Aurora.
Sergey demorou um segundo para responder.
— Capitã, solicito reconsideração.
— Negado.
— Minha função é garantir a segurança da equipe em ambiente desconhecido.
— Sua função também é seguir comando e preservar a missão. Neste momento, sua presença dentro da comunidade pode comprometer ambas.
O maxilar dele endureceu.
— Isso se refere ao relatório?
Roberta olhou para Sarah.
Relatório?
Sarah não desviou os olhos de Sergey.
— Isso se refere a confiança operacional.
O silêncio ficou tenso.
Mei, surpreendentemente, não fez piada.
Samira observou Sergey com cuidado. Ele respirou uma vez, devagar. Roberta viu o conflito nele: a vontade de argumentar, a certeza de estar sendo punido, o medo de que a equipe estivesse sendo exposta a algo que ele não conseguia controlar.
Mas também viu outra coisa. O esforço de não romper.
— Capitã — disse ele, a voz baixa —, acredito que essa decisão reduz a segurança.
— Registrado.
— Acredito que a comunidade está influenciando seu julgamento.
Sarah ficou muito quieta.
Roberta sentiu o ar apertar.
Sergey percebeu que havia ido longe, mas não recuou.
— E acredito que meu dever é dizer isso.
Sarah sustentou o olhar dele.
— Seu dever foi cumprido. Minha ordem permanece.
Por um instante, Roberta achou que ele continuaria, mas Sergey apenas assentiu.
Rígido.
Ferido.
Ainda obediente.
— Sim, capitã.
Entraram no Vega.
Durante a decolagem, Roberta ficou sentada ao lado da janela, o violão preso com cuidado no compartimento seguro. O lago parecia distante agora, escondido sob a copa viva de Éden-9, mas ela ainda sentia a música nos dedos. Ainda ouvia a avó. Ainda sentia a pergunta de Naya repousada no peito como uma pequena pedra quente.
“Você confia na sua capitã?”
Roberta olhou para Sarah.
A capitã estava no assento à frente, de perfil, iluminada pelos painéis do módulo. O rosto dela voltara à disciplina habitual, mas Roberta já não conseguia ver apenas a máscara. Tinha visto cansaço demais por baixo dela. Tinha visto cuidado. Tinha visto medo. Tinha visto uma mulher tentando ouvir, mesmo cercada por ordens que talvez tivessem sido escritas para impedir qualquer escuta.
Sim.
Ela confiava.
Mas confiança, Roberta começava a entender, não era ausência de perigo.
Era escolha feita apesar dele.
O Vega subiu pela atmosfera.
Lá embaixo, Éden-9 reacendeu em linhas suaves, acompanhando a partida.
Não como despedida.
Como memória.
Ao acoplarem à Aurora, Asha aguardava no canal de comando. Sua voz veio tensa:
— Capitã, a transmissão isolada de Sergey está segura. Nenhum reenvio externo. Mas há outra coisa.
Sarah fechou os olhos por uma fração de segundo.
— Diga.
— A Terra enviou uma solicitação automática de atualização estratégica. O pacote exige classificação de risco da colônia adaptada e estimativa de viabilidade de extração neural.
Roberta não entendeu todas as implicações.
Mas entendeu o suficiente.
O suficiente para sentir o corpo esfriar.
Sarah permaneceu imóvel.
Sergey olhou para ela.
Samira baixou o scanner devagar.
Mei murmurou:
— Extração neural?
Ninguém respondeu. Sarah abriu os olhos. O rosto dela tornou-se o rosto da capitã outra vez.
Mas Roberta, agora, conseguia ver a tempestade atrás dele.
— Asha — disse Sarah —, não responda.
— Aguardando sua ordem.
— Mantenha o pacote em espera. Nenhum dado sensível de Éden-9 será transmitido sem minha autorização direta.
Sergey deu um passo à frente.
— Capitã...
Sarah virou-se para ele.
— Amanhã você permanecerá na Aurora.
Ele fechou a boca. A ordem agora tinha outro peso. Não apenas punição. Proteção. Ou seria contenção?
Para Roberta pareceu as duas coisas.
Sarah olhou para a equipe.
— Todos descansem. Amanhã voltaremos a Aurora Prime em caráter de reconhecimento. Sem coleta, sem mapeamento militar, sem reivindicação, sem gesto de posse. Vamos olhar antes de medir.
A frase parecia de Iara.
Ou de Roberta.
Ou talvez, pela primeira vez, de Sarah.
Roberta sentiu a água do lago se mover dentro dela.
Na janela da baia de acoplagem, Éden-9 brilhava abaixo da Aurora, vivo e paciente.
E Roberta compreendeu que algo havia mudado naquele dia.
Não só no planeta.
Não só na missão.
Nelas.
Voltaram diferentes.
Sarah talvez ainda não soubesse o nome do que começava a cair dentro dela. Roberta talvez soubesse. Uma pedra pequena, um ponto escuro na superfície imensa da água e um impacto quase invisível, mas em algum lugar distante, do outro lado de tudo que ainda tentavam controlar, uma onda já começava a se formar.
Fim do capítulo
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