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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 5520
Acessos: 88   |  Postado em: 15/06/2026

Notas iniciais:

Meninas!!!

Sei que precisei ser um pouco mais dramática neste capítulo colocando uma tempestade alienígena pra ver se nossas viajantes paravam de fugir do óbvio por pelo menos alguns minutinhos, então, espero que estejam gostando.

 

Beijão

O Mar Escuro

 

Roberta Almeida

 

Na manhã seguinte, a Aurora parecia respirar com cuidado. Roberta não sabia se a sensação vinha da nave, de Éden-9 ou dela mesma. Talvez dos três. Depois do lago, da memória da avó, da pergunta de Naya e da ordem seca de Sarah para que Sergey permanecesse na Aurora, alguma coisa no ar havia mudado. Não era apenas tensão. Era expectativa.

Como se todos tivessem acordado sabendo que aquele dia não seria só mais uma exploração.

No módulo de preparação, Asha revisava os próprios sensores pela terceira vez.

— Se eu recalibrar isso mais uma vez, talvez o equipamento peça divórcio — disse Mei, encostada ao compartimento de trajes.

Asha nem levantou os olhos.

— É minha primeira vez na superfície. Pretendo registrar tudo com precisão.

— Tudo? — Mei cruzou os braços. — Porque Éden-9 tem o péssimo hábito de transformar “tudo” em “boa sorte, humana”.

— Eu trabalho com sistemas complexos.

— Você trabalha com sistemas complexos que não respiram, não brilham quando ficam ofendidos e não respondem a música brasileira antiga.

Roberta, sentada no banco lateral enquanto ajustava os fechos do traje leve, ergueu as sobrancelhas.

— Em minha defesa, eu também não sabia que o lago responderia.

— Isso não torna a frase menos absurda — disse Mei. — Só torna você mais perigosa em eventos culturais.

Asha finalmente olhou para Roberta.

Havia ansiedade nos olhos dela, mas também um brilho quase infantil, o tipo de curiosidade que nem o treinamento mais rigoroso conseguia disfarçar.

— Como é? — perguntou.

Roberta demorou um segundo para entender.

— Éden-9?

Asha assentiu.

Roberta pensou na primeira descida e em tudo o que presenciou nos últimos dias e lembrou da voz da avó. No modo como a água havia devolvido a ela não uma lembrança, mas uma relação inteira.

— É como entrar em um lugar que percebe sua presença antes de você entender a dele.

Asha ficou séria.

— Isso é cientificamente perturbador.

— Sim.

— E emocionalmente?

Roberta sorriu de leve.

— Também.

Mei apontou para as duas.

— Adoro quando vocês transformam risco existencial em poesia técnica.

Samira entrou logo depois, carregando um kit médico ampliado. O rosto dela estava controlado, mas os olhos denunciavam o mesmo tipo de expectativa.

— Vou visitar o núcleo de cuidado da comunidade — disse, conferindo os instrumentos. — Iara autorizou observação, sem coleta, sem interferência e sem nenhum comentário arrogante sobre medicina terrestre.

Mei inclinou a cabeça.

— Esse último protocolo foi escrito para alguém específico?

— Para a espécie inteira.

Roberta riu baixo.

Sarah chegou por último.

A conversa diminuiu naturalmente. Não porque ela exigisse silêncio. Porque algo no modo como Sarah entrava em qualquer espaço fazia as pessoas lembrarem, por instinto, que havia um centro de gravidade ali. Naquela manhã, porém, Roberta notou uma diferença. A capitã continuava impecável, uniforme ajustado, postura firme, cabelos presos, expressão controlada. Mas havia um cansaço sob a pele dela. Uma sombra que não era apenas falta de sono.

Sarah olhou para todos antes de falar.

— Regras da descida. Nenhuma coleta física. Nenhum corte, marcação, perfuração ou extração. Nenhum mapeamento militar interno da comunidade. A visita é de reconhecimento. Observação, diálogo e retorno.

Os olhos dela passaram por Mei, Asha, Samira e, por fim, Roberta.

Ficaram ali um instante a mais.

Roberta sentiu o corpo lembrar do beijo que ainda não existia.

Ou do quase beijo que já existia demais.

— Sergey permanecerá na Aurora — continuou Sarah.

Como se tivesse sido chamado pela frase, Sergey apareceu na entrada do módulo. Ele não usava traje de descida. E isso, por si só, parecia feri-lo.

— Capitã — disse ele. — Sistemas de segurança orbital revisados. Permanecerei no posto tático com a Aurora. Solicito permissão para monitorar sinais vitais e rota da equipe em tempo real.

Sarah sustentou o olhar dele.

— Permissão concedida. Monitoramento apenas. Nenhuma ação de retirada sem minha ordem direta, salvo perda confirmada de sinais vitais ou ruptura estrutural do Vega.

O maxilar dele endureceu.

— Entendido.

Roberta percebeu o esforço que havia naquela resposta. Sergey não estava em paz com a decisão. Provavelmente se sentia excluído, punido, talvez traído por uma missão que, para ele, precisava de segurança justamente quando mais se abria ao desconhecido.

Mas obedeceu.

Não sem medo.

Não sem resistência interna.

Ainda assim, obedeceu.

Sarah suavizou a voz quase nada.

— Preciso que você mantenha a Aurora segura.

Sergey pareceu respirar melhor com a frase. A função devolvida a ele, um lugar dentro da ordem.

— Sim, capitã.

A descida no Vega teve uma vibração diferente das anteriores.

Asha ficou presa à janela lateral desde a entrada atmosférica, esquecendo por alguns minutos a própria obsessão pelos painéis. Quando as nuvens violetas se abriram e a superfície de Éden-9 apareceu abaixo, ela ficou em silêncio. Roberta observou o rosto dela e reconheceu o momento.

O primeiro impacto.

Aquele instante em que o cérebro ainda tentava chamar de paisagem algo que o corpo já entendia como presença.

Mei pilotava com um meio sorriso nervoso.

— Quero registrar que, apesar de já ter descido, hoje conta como primeira vez. Da outra, eu fiquei presa no Vega, sendo uma motorista glorificada.

— Piloto — corrigiu Sarah.

— Obrigada, capitã. Motorista glorificada com autoestima institucional.

Asha murmurou:

— As redes luminosas estão respondendo à nossa aproximação antes mesmo da transmissão.

Roberta inclinou-se para ver.

A trilha até Aurora Prime reacendia em linhas suaves, como se alguém desenhasse o caminho a partir de dentro da terra.

— Ele nos esperava — disse Roberta.

Ninguém corrigiu.

O pouso foi limpo.

Quando a escotilha se abriu, o ar de Éden-9 entrou no Vega. Asha respirou devagar, como se tivesse medo de fazer barulho demais. Mei desceu logo atrás, pisando no solo com exagerada solenidade.

— Certo — disse ela. — Oficialmente fora do módulo. Se eu virar parte de uma árvore, quero uma placa bonita.

Aurora respondeu pelo comunicador:

— Pedido registrado. Sugestão de inscrição: “Falava demais, mas pousava bem.”

— Nossa, isso foi quase afetuoso.

— Estou experimentando luto preventivo.

Samira sorriu, apesar de tentar manter expressão profissional.

Sarah, ao lado de Roberta, não sorriu.

Mas Roberta viu o olhar dela suavizar por um instante.

A trilha até Aurora Prime abriu-se diante da equipe. Sem Sergey, o grupo parecia mais leve e, ao mesmo tempo, mais exposto. Não havia a rigidez militar caminhando na retaguarda. Não havia a mão próxima à arma de contenção. Não havia o olhar procurando ameaça em cada movimento da floresta.

Roberta não sabia se isso a tranquilizava ou preocupava.

Talvez os dois.

Como sempre, Iara as aguardava na entrada da cidade viva.

A mulher estava de pé sob a sombra de uma estrutura antiga tomada por raízes claras. Atrás dela, Aurora Prime respirava em seu ritmo próprio: água correndo por canais orgânicos, crianças atravessando pontes de raiz, animais luminosos se movendo entre os troncos, pessoas trabalhando em silêncio concentrado. A comunidade não parou para observá-los. Apenas abriu espaço, como se receber visitantes não significasse interromper a vida.

Iara cumprimentou Sarah primeiro com um leve inclinar de cabeça.

— Capitã.

— Iara.

Depois olhou para Roberta.

— A água dormiu em você.

Roberta ficou sem resposta.

Mei virou o rosto devagar para Asha.

— Isso é um cumprimento ou um diagnóstico?

Asha, impressionada demais para brincar, respondeu:

— Talvez os dois.

Iara voltou-se para o grupo.

— Hoje não haverá ninguém da comunidade acompanhando vocês.

Sarah ficou atenta.

— Algum motivo?

— Confiança precisa respirar sem sempre ser vigiada. Vocês poderão caminhar por regiões autorizadas, observar, conversar com quem desejar conversar e conhecer parte de nossa vida cotidiana. Mas as regras permanecem: não extrair, não cortar, não perfurar, não marcar, não destruir. Não tratem nada aqui como objeto abandonado ou recurso esperando dono.

A última frase pousou sobre todos.

Sarah assentiu.

— Entendido.

Iara olhou para Mei e Asha.

— Para algumas de vocês, será a primeira vez que Éden tocará sem parede entre vocês.

Asha ficou imóvel.

— Tocará?

— Presença também é toque.

Mei levou a mão ao próprio peito.

— Isso vem com manual?

— Não.

— Claro que não.

Samira aproximou-se.

— Posso visitar o núcleo de cuidado?

— Pode — respondeu Iara. — As cuidadoras já esperam por você. Elas mostrarão o que puder ser mostrado sem ferir confiança de pacientes.

Samira assentiu com respeito.

— Isso basta.

Iara olhou para Sarah.

— A área a oeste da cidade está aberta para reconhecimento. Até a margem do Mar Escuro. Não avancem além das pedras baixas sem compreender o clima.

— Clima? — perguntou Asha.

Iara olhou para o céu entre as copas.

— Aqui, o tempo também escuta.

Mei fechou os olhos por um segundo.

— Eu sabia. Eu sabia que uma hora até a meteorologia ia ter opinião.

Roberta quase riu.

Mas a frase de Iara ficou nela.

O tempo também escuta.

Dividiram-se pouco depois.

Samira seguiu com duas mulheres da comunidade até o núcleo de cuidado, levando o kit médico e uma expressão de quem tentava não parecer maravilhada antes de merecer. Mei e Asha ficaram alguns minutos paradas no pátio central, disputando entre olhar para tudo e fingir algum controle profissional.

Asha ajoelhou-se junto a um canal de água viva, sem tocar.

— Isso está conduzindo minerais, proteínas e sinais elétricos em camadas simultâneas.

Mei agachou ao lado dela.

— Eu estou vendo uma poça chique.

— É por isso que eu analiso e você pousa.

— E é por isso que você vai explicar para a poça chique que não deve nos sequestrar.

Roberta caminhava alguns passos atrás de Sarah.

Ou talvez Sarah caminhasse alguns passos à frente para evitar que o silêncio entre elas ficasse grande demais.

Desde a resposta a Naya no Círculo, algo havia se deslocado. Roberta dissera que confiava em sua capitã. Dissera na frente de Sarah, de Naya, de Iara, do planeta inteiro, talvez. E não se arrependia.

Mas confiança não apagava a pergunta.

O que Sarah ainda não tinha contado?

A trilha oeste começava atrás de um conjunto de antigas passarelas metálicas tomadas por raízes. Asha e Mei se juntaram a elas na entrada, cada uma com sensores diferentes. Sarah autorizou o avanço até a linha indicada por Iara.

A região era menos habitada. A cidade ficava para trás em camadas de som e luz, a distância parecia ser muito maior do que realmente foi percorrido, o terreno foi substituído por uma mata mais densa, mais úmida. O solo escurecia à medida que caminhavam, e os filamentos luminosos tornavam-se mais raros, porém mais intensos. Árvores altas se inclinavam sobre a trilha como colunas de uma catedral que havia crescido sem arquiteto.

Asha falava baixo, registrando leituras.

— A densidade eletromagnética aumenta na direção oeste. Há padrões rítmicos no solo. Não são iguais aos da cidade.

— Tipo batimento? — perguntou Mei.

— Mais como maré.

Roberta parou.

— Maré em terra.

Asha olhou para ela.

— Exatamente.

Sarah observava o entorno com atenção. Não havia arma em mãos. Mesmo assim, cada movimento dela carregava prontidão.

Roberta aproximou-se.

— Você está esperando o quê?

Sarah não tirou os olhos da trilha.

— Ainda não sei.

— Isso não é uma resposta.

— É a mais honesta que tenho.

Roberta aceitou porque era verdade.

O comunicador chiou.

A voz de Aurora entrou com leve distorção:

— Capitã Solano, detecto alteração atmosférica na região oeste de Aurora Prime. Formação rápida, baixa altitude, composição eletromagnética irregular.

Sarah parou.

— Risco?

— Indeterminado. A estrutura não corresponde a tempestade terrestre. Há aumento de partículas suspensas, variação de pressão local e interferência crescente nos canais de comunicação.

Asha ergueu o visor.

— Estou captando. Vem da direção do Mar Escuro.

Mei olhou para o céu.

— Eu não gosto do nome, não gosto da direção e não gosto do fato de a meteorologia escutar.

Sarah ativou o canal geral.

— Samira, status.

A resposta veio com ruído:

— Estou no núcleo de cuidado. Sem risco imediato. As cuidadoras dizem que a cidade está se fechando parcialmente.

— Fique onde está. Não se desloque sozinha.

— Entendido.

Sarah mudou o canal.

— Sergey, Aurora, leitura orbital.

A voz de Sergey respondeu da nave, rígida e imediata:

— Capitã, há formação atmosférica sobre a região oeste. Recomendo retorno imediato da equipe ao Vega e retirada preventiva.

Antes que Sarah respondesse, Aurora interveio:

— Protocolos de segurança sugerem possibilidade de extração. Posso orientar Sergey na execução de retirada remota do Vega, se autorizado.

Roberta olhou para Sarah.

A chuva ainda não chegara, mas o ar já mudava. Pequenas partículas luminosas começavam a descer entre as árvores, não como água, mas como cinza brilhante. A visibilidade diminuía em camadas.

Sarah avaliou a trilha, depois Asha e Mei.

— Negativo. Sergey permanece na Aurora. Ninguém inicia retirada sem minha ordem. Estamos próximos demais da cidade. Retorno apressado pode nos dispersar.

Sergey respondeu:

— Capitã, a comunicação já está degradando.

— Eu sei. Asha, Mei, retornem para a linha da cidade. Sigam a trilha luminosa. Roberta e eu estamos logo atrás.

Mei abriu a boca para contestar.

Sarah olhou para ela.

— Agora.

Mei segurou a resposta.

— Vamos, Asha.

Asha hesitou, olhando para Roberta.

— Comunicação de curta distância?

— Aberta enquanto der — disse Roberta.

As duas seguiram pela trilha de volta.

Sarah tocou o comunicador.

— Samira, permaneça no núcleo. Mei e Asha retornando ao perímetro interno. Roberta e eu retornando em seguida.

O ruído aumentou.

A voz de Samira veio quebrada:

— ...entendido... cuidado... dizem que não é só clima...

Depois o canal falhou.

O ar ficou branco-azulado.

A tempestade chegou sem vento. Esse foi o primeiro absurdo.

Na Terra, Roberta associava tempestade a movimento violento: ar empurrando árvores, água batendo, trovões partindo o céu. Ali, não. A atmosfera simplesmente engrossou. Partículas luminosas desciam em suspensão lenta, mas tão densas que a trilha desapareceu poucos metros à frente. O som mudou também. Não ficou mais alto. Ficou abafado, como se a floresta tivesse sido coberta por tecido molhado.

Sarah segurou o braço de Roberta.

— Fique perto.

O toque foi firme.

Necessário.

Ainda assim, o corpo de Roberta lembrou de tudo que não era missão.

— Estou aqui.

Deram meia-volta, seguindo o que restava da luz sob o solo. Mas a trilha parecia se multiplicar. Linhas antes discretas acendiam e apagavam em direções diferentes, e a cada pulso a floresta mudava de profundidade. Árvores surgiam onde, segundos antes, havia clareiras. Raízes pareciam deslocar-se sob a neblina luminosa. O Mar Escuro, invisível atrás da mata, começou a emitir um som baixo, semelhante a água respirando.

O comunicador chiou.

— Mei? — chamou Roberta.

Nada.

— Asha?

Um estalo. Depois uma voz distante:

— ...Roberta?... não consigo... linha...

O canal caiu.

Sarah tentou o próprio comunicador.

— Aurora, status.

A resposta veio fragmentada:

— ...interferência... partículas... perda de localização precisa... recomenda...

Silêncio.

Sarah olhou para Roberta.

— Continuamos na direção da cidade.

Roberta tentou reconhecer a trilha.

— Eu não tenho certeza de qual é.

Sarah apontou para a esquerda.

— Viemos por ali.

— Acho que viemos por ali — Roberta apontou para outra direção.

As duas ficaram imóveis.

Pela primeira vez desde que a conhecera, Roberta viu Sarah Solano completamente sem um mapa confiável.

O rosto da capitã não mudou muito, mas a respiração, sim.

A tempestade parecia se aproximar sem se mover.

As partículas tocavam a pele como frio suave. O traje registrava alertas pequenos, nenhum letal, nenhum compreensível. Roberta sentiu imagens tentando nascer atrás dos olhos: a cozinha da avó, o lago, a estação de trem, Isabele na plataforma. Piscou com força.

— Sarah.

A capitã olhou para ela.

— Está vendo coisas?

— Fragmentos. Nada completo.

Sarah fechou a mão.

— Precisamos sair da exposição.

Um pulso forte atravessou o solo.

Roberta cambaleou.

Sarah a segurou pela cintura antes que caísse.

Por um instante, ficaram próximas demais, cercadas por luz suspensa, sem equipe, sem comunicador, sem testemunha humana. O som do Mar Escuro cresceu ao longe.

Roberta sentiu o coração bater contra as costelas.

Sarah soltou-a devagar.

— Consegue andar?

— Consigo.

Não era totalmente verdade. Mas era suficiente.

Encontraram abrigo alguns minutos depois — ou o abrigo os encontrou.

Era uma formação de raízes e pedra na lateral de uma elevação baixa, parcialmente coberta por membranas vegetais escuras. A abertura não parecia uma caverna natural, mas também não parecia construída. Era como se o solo tivesse aprendido a fazer conchas para proteger aquilo que não podia ficar na chuva.

Sarah entrou primeiro, verificando o espaço.

— Seguro por enquanto.

Roberta passou atrás dela.

O interior era pequeno. Baixo demais para que ficassem confortáveis de pé, largo o bastante para duas pessoas sentarem próximas sem se encostarem o tempo todo — embora a tempestade parecesse discordar do conceito de distância.

Lá fora, a visibilidade desapareceu quase por completo.

As partículas batiam na membrana da entrada sem som. A luz delas se acumulava na superfície e escorria devagar, como água ao contrário. O interior ficou banhado por um brilho azul escuro.

Roberta sentou-se, tentando controlar a respiração.

Sarah permaneceu perto da abertura por alguns segundos, olhando para fora.

— Comunicação?

Roberta testou o canal.

Apenas ruído.

— Nada.

Sarah tentou o dela.

Nada também.

A capitã se agachou, enfim, e sentou-se do outro lado do pequeno abrigo.

A distância entre elas era ridícula.

Ou talvez Roberta estivesse ridícula.

— Isso não é chuva — disse ela, só para dizer alguma coisa.

Sarah olhou para fora.

— Não.

— Também não parece ataque.

— Não.

— Você está economizando palavras por estratégia ou trauma?

Sarah virou o rosto para ela.

Roberta se arrependeu por meio segundo. Depois Sarah soltou uma respiração que quase foi riso.

Quase.

— Talvez os dois.

O pequeno quase riso fez algo se soltar no peito de Roberta.

A tempestade continuava lá fora, espessa, viva, incompreensível. Mas dentro do abrigo havia Sarah, úmida de partículas luminosas, cansada, séria, tentando não mostrar que também estava assustada.

Roberta olhou para as mãos dela.

— Você tremeu.

Sarah abaixou o olhar.

— O pulso do solo foi forte.

— Não foi isso.

A resposta ficou entre elas.

Sarah não negou.

Roberta encostou a cabeça na parede viva atrás de si. A superfície era morna. Uma vibração baixa passava por ela, como se o abrigo tivesse coração distante.

— No lago, ontem, eu vi minha avó — disse Roberta.

Sarah a observou em silêncio.

— Não só como lembrança. Foi como se o planeta tivesse me mostrado a relação que ainda existe entre mim e ela. Entre mim e a Terra. Entre tudo que eu trouxe sem saber que trazia.

Sarah baixou os olhos.

— Isso te feriu?

Roberta pensou.

— Sim. Mas não como agressão. Como quando alguém toca um roxo e você percebe que ainda dói.

Sarah entendeu.

Roberta soube pelo silêncio.

— Ontem eu senti uma coisa — disse Sarah.

A confissão foi tão baixa que quase se misturou ao som da tempestade.

Roberta ficou imóvel.

— Com Iara?

Sarah negou com a cabeça.

— Uma criança. Liora. Ela tentou me ensinar a ouvir o planeta.

O rosto de Roberta suavizou.

— E você ouviu?

— Não. Não como vocês.

— Como, então?

Sarah olhou para a própria mão.

— Senti uma vibração. Pequena. Quase nada. Mas foi como... uma pedra caindo em algum lugar muito longe e, ainda assim, movendo água em mim.

Roberta respirou devagar.

— Isso é ouvir.

— Não tenho certeza.

— Claro que não. Você é você. Certeza deve ser um requisito burocrático antes de sentir qualquer coisa.

Sarah olhou para ela.

Dessa vez, o quase sorriso veio mais inteiro.

— Você faz parecer simples.

— Eu?

Roberta riu, sem força.

— Sarah, eu estou apavorada desde que pisei aqui. Só sou mais poética no processo.

A frase abriu algo.

O ar entre elas mudou.

Não como na noite da Aurora, quando havia sido interrompido pelo arquivo. Ali não havia Aurora chamando. Não havia equipe olhando. Não havia terminal privado, selo criptografado, Terra, comando, protocolo.

Havia uma tempestade que não era chuva.

Um abrigo vivo.

Duas mulheres que tinham passado tempo demais quase dizendo.

Sarah olhou para Roberta.

E Roberta soube.

Antes do movimento.

Antes da escolha.

Antes da coragem.

Sarah também soube.

— Roberta...

O nome saiu sem título.

Sem defesa.

Roberta sentiu o frio na barriga subir até a garganta.

— Se você vai me pedir para recuar, peça agora.

Sarah fechou os olhos por um instante e quando abriu, havia medo neles. Não medo de Roberta. Medo do que se tornava possível quando ela estava perto.

Roberta se aproximou devagar. Não muito. O suficiente para dar tempo à recusa, à ordem, ao recuo. O mesmo cuidado que tivera na vez anterior, quando a mão parou antes do toque.

Sarah não recuou. Por um instante, pareceu que ainda tentaria. O corpo dela permaneceu imóvel, preso naquele último limite que sempre existia entre vontade e comando, entre impulso e disciplina. Mas os olhos a denunciaram antes de qualquer gesto.

Sarah queria e Roberta viu.

Viu no modo como a respiração da capitã falhou por um segundo. Viu na tensão da mandíbula, nos dedos fechando e abrindo junto ao corpo, na luta silenciosa de uma mulher acostumada a vencer a si mesma antes de vencer qualquer batalha.

Só que, dessa vez, Sarah não venceu.

Ou talvez tivesse vencido justamente por parar de fugir. Foi ela quem atravessou a última distância.

A mão de Sarah tocou primeiro o rosto de Roberta, não com pressa, mas com uma firmeza trêmula, como se precisasse confirmar que aquilo era real. O polegar deslizou de leve pela pele úmida da tempestade, seguindo a linha da maçã do rosto, demorando-se ali um pouco mais do que o necessário.

Roberta prendeu o ar.

Sarah percebeu.

E aquele pequeno sinal pareceu terminar de romper algo nela.

O beijo não veio como acidente, ele veio como escolha. A boca de Sarah encontrou a dela com cuidado no primeiro toque, quase uma pergunta, quase uma promessa. Os lábios estavam frios pela tempestade, mas a intenção por trás deles era quente, urgente, contida por muito tempo, Roberta abre os lábios e invade a boca de Sarah com sua língua, ela sente o contraste atravessá-la inteira: a delicadeza do gesto e a fome escondida sob ela.

Sarah se afasta apenas o suficiente para respirar.

Não o bastante para fugir.

Os olhos dela abriram perto demais, escuros, assustados e famintos ao mesmo tempo. Havia comando ainda ali, havia medo, havia culpa, mas também havia uma vontade crua, recém-desperta, que Sarah já não conseguia fingir que não existia.

Roberta não disse nada.

Não precisava.

A mão dela subiu devagar até tocar o pulso de Sarah, os dedos fechando-se ali com suavidade, não para prender, mas para dizer que ela podia ficar.

Sarah entendeu.

O segundo beijo foi menos tímido. Ainda cuidadoso, ainda cheio de permissão, mas mais profundo em intenção. Sarah inclinou o corpo na direção dela, como se algo em Roberta a puxasse para fora de si. A outra mão encontrou a cintura de Roberta, hesitou por uma fração de segundo e depois se firmou ali, sentindo o calor dela através do traje, o contorno vivo de uma presença que não era missão, não era ordem, não era estratégia.

Era desejo.

Roberta respondeu com um suspiro baixo, quase perdido dentro da tempestade e Sarah pareceu sentir o som mais do que ouvi-lo.

O beijo mudou de novo.

Continuava delicado, mas agora carregava o peso de tudo o que elas não tinham dito: a primeira admiração disfarçada de análise, os olhares interrompidos, a tensão na Aurora, a mão parada antes do toque, a confiança dita diante de Naya, o medo de chegar perto demais e descobrir que já era tarde para voltar. O beijo carregava fome e desejo.

A tempestade escorria pela membrana viva do abrigo. Éden-9 respirava ao redor delas. O mundo inteiro parecia úmido, escuro e suspenso.

Mas, naquele pequeno espaço de raiz e pedra, Sarah beijava Roberta como se tivesse passado a vida inteira obedecendo portas fechadas e, pela primeira vez, encontrasse uma que se abria para dentro.

Roberta levou a mão ao rosto dela.

Sarah tremeu.

O gesto era mínimo, mas a reação não foi. A capitã, sempre tão feita de controle, pareceu se desfazer por dentro com aquele toque. Aproximou-se mais, a testa quase encostando na de Roberta quando o beijo se quebrou por falta de ar.

Ficaram assim por um segundo, respirando uma na outra. Perto demais para negar.

Sarah manteve a mão na cintura de Roberta, os dedos ainda firmes, como se largá-la exigisse uma força que ela não tinha naquele momento. Roberta sentia o coração batendo tão alto que chegou a pensar que Éden-9 talvez escutasse.

Talvez escutasse mesmo.

Sarah fechou os olhos.

Quando os abriu, ainda havia uma fome silenciosa ali. Não agressiva. Não possessiva. Mas intensa o bastante para assustá-la.

Roberta viu o desejo nascer no rosto dela com a mesma clareza com que vira a luz subir do lago.

E entendeu que aquilo não era apenas atração.

Era despertar.

Algo em Sarah estava acordando com atraso, com medo, com sede.

E talvez por isso o beijo tivesse tanto peso: não porque resolvia alguma coisa, mas porque tornava impossível fingir que nada havia começado.

Lá fora, a tempestade continuou, Éden-9 ainda estava respirando. A Terra continuava distante e perigos, mas dentro de Roberta, alguma coisa que vinha se formando desde a primeira luz do planeta finalmente recebeu nome sem precisar ser dita e, pelo modo como Sarah ainda a segurava, Roberta soube que não era a única a senti-lo.

Quando se afastaram, Sarah retirou a mão primeiro, a perda do toque pareceu maior do que deveria.

Roberta respirou de modo irregular.

— Isso foi...

— Foi — disse Sarah.

Roberta riu baixo, nervosa.

— Você nem sabe o que eu ia dizer.

— Sei.

Talvez soubesse.

O silêncio voltou, mas agora tinha outra temperatura.

Roberta encostou os dedos nos próprios lábios por um instante, depois percebeu o gesto e baixou a mão. Sarah viu. O olhar dela escureceu um pouco, não de dureza, mas de desejo contido.

Roberta se aproximou outra vez.

Mais lenta.

Sarah fechou os olhos, como se aquilo doesse.

— Não.

A palavra foi baixa, mas firme. Roberta parou imediatamente.

— Desculpa.

— Não.

Sarah abriu os olhos.

— Não é isso.

Roberta esperou.

A tempestade parecia menor lá fora, mas talvez fosse só porque o abrigo havia se tornado pequeno demais para o que agora existia entre elas.

Sarah passou a mão pelo rosto, recompondo-se com esforço visível.

— Eu quero.

A frase atingiu Roberta antes que ela pudesse se proteger.

Sarah continuou, quase com raiva de si mesma:

— Esse é o problema.

Roberta sentiu o coração apertar.

— Por quê?

Sarah olhou para a entrada do abrigo. Para a luz escorrendo pela membrana. Para qualquer coisa que não fosse Roberta.

— Porque ainda há coisas que eu não contei.

A desconfiança voltou.

Não como gelo.

Como sombra.

— Sobre a mensagem da Terra.

Sarah não respondeu.

E, por não responder, respondeu o suficiente.

Roberta engoliu seco.

— Sarah...

— Eu não posso pedir que você se aproxime mais enquanto eu ainda estou segurando isso.

— Então me conte.

A frase saiu antes que Roberta pudesse suavizar.

Sarah olhou para ela com uma dor controlada demais.

— Eu vou.

— Quando?

— Quando eu entender como fazer sem destruir a missão.

Roberta sentiu a primeira faísca de raiva.

Não grande.

Não ainda.

Mas real.

— Ou sem destruir a forma como eu olho para você?

Sarah ficou em silêncio.

Aquilo doeu mais do que se ela tivesse negado.

Roberta se afastou um pouco, encostando-se outra vez à parede do abrigo, ela não queria perder o beijo tão rápido para o segredo, mas talvez o beijo tivesse apenas iluminado melhor a presença dele.

— Eu confiei em você ontem — disse Roberta.

— Sim, eu me lembro.

— Eu disse em voz alta.

— Eu sei.

— Não me faça parecer ingênua por isso.

Sarah virou-se para ela imediatamente.

— Jamais.

A força da palavra atravessou o abrigo.

— Roberta, nunca.

Roberta sustentou o olhar dela.

Quis acreditar. Na verdade, ela ainda acreditava e esse era o problema mais injusto.

Sarah respirou fundo.

— Eu não estou tentando te afastar porque não quero isso. Estou tentando impedir que isso comece em cima de uma mentira.

Roberta sentiu a raiva perder parte da forma.

Não sumiu.

Mas mudou.

— Então não demore demais.

Sarah assentiu.

Não prometeu.

Mas recebeu.

A tempestade começou a passar alguns minutos depois.

A luz do lado de fora afinou, deixando entrever contornos de árvores, raízes e pedras. O som do Mar Escuro recuou para uma vibração baixa, distante. As partículas no ar deixaram de cair e passaram a subir, devagar, como se a tempestade estivesse retornando ao céu ou ao lugar de onde havia vindo.

Roberta testou o comunicador.

Ruído.

Depois uma voz.

— ...Roberta? Capitã? Vocês me ouvem?

Asha.

Roberta quase sorriu de alívio.

— Asha, estamos ouvindo. Sinal fraco, mas estamos aqui.

Sarah aproximou-se.

— Status.

A resposta veio entrecortada:

— Mei e eu estamos próximas à entrada leste de Aurora Prime. Samira permanece no núcleo de cuidado. Iara diz que a cidade está estável. Perdemos vocês no mapa por doze minutos.

— Estamos sem ferimentos — disse Sarah. — Retornaremos para Aurora Prime.

A voz de Mei entrou no canal:

— Ótimo. Porque se eu tivesse que explicar para Sergey que perdi a capitã e a astrobióloga na chuva alienígena, eu ia preferir ser adotada pela poça chique.

Roberta soltou um riso aliviado.

Sarah também acabou sorrindo.

— Posição de vocês? — perguntou Sarah.

Asha enviou coordenadas parciais. O mapa falhou duas vezes antes de estabilizar.

— É estranho, você mencionou lado leste, mas no mapa aparece a oeste.

— Seria efeito ainda da tempestade capitã? — Perguntou Asha.

— Provavelmente. Tem um ponto de encontro, passamos por uma elevação rochosa, parece estar no meio do nosso caminho e no de vocês, nos encontramos lá.

— Sim capitã. Já identifiquei o local, vamos seguir a rota.

Roberta olhou para a trilha do lado de fora. Uma linha luminosa reaparecia entre as raízes, mais fraca do que antes, mas clara o suficiente.

— Acho que Éden está mostrando o caminho.

Sarah olhou para ela.

Depois para a trilha.

— Então vamos seguir antes que ele mude de ideia.

Saíram do abrigo.

O ar pós-tempestade tinha cheiro de metal frio, água profunda e folhas recém-abertas. A floresta parecia lavada por dentro. As árvores brilhavam em pontos isolados. Pequenos animais surgiam cautelosos entre os galhos, tocando a casca com filamentos, como se conferissem se o mundo continuava inteiro.

Roberta caminhou ao lado de Sarah.

Não se tocaram.

Mas o espaço entre elas havia mudado para sempre.

A trilha as conduziu em direção à elevação rochosa. À medida que avançavam, o comunicador estabilizou. Asha orientou a rota. Mei fez três comentários sobre nunca mais confiar em previsões meteorológicas de planetas conscientes. Samira, pelo canal médico, exigiu que todas passassem por avaliação assim que chegassem.

Quando as primeiras estruturas rochosas apareceram entre as árvores, Roberta sentiu um alívio tão grande que quase precisou parar.

O local, parecia que brilhava depois da tempestade. Como se soubesse que algo havia acontecido no Mar Escuro.

Bom, depois de tudo o que Roberta tinha presenciado em Éden- 9, talvez soubesse um pouco mais do que ela gostaria.

Asha e Mei esperavam logo à frente. Asha parecia genuinamente abalada. Mei fingia irritação, o que em Mei significava medo administrado com sarcasmo.

— Vocês estão inteiras? — perguntou Asha.

— Estamos — respondeu Roberta.

Mei estreitou os olhos para as duas.

— Inteiras de um jeito estranho.

Roberta sentiu o rosto aquecer.

Sarah respondeu antes:

— A tempestade alterou percepção e comunicação. Vamos relatar tudo na avaliação.

— Tudo? — perguntou Mei.

Sarah olhou para ela.

— O que for relevante à missão.

Mei abriu um sorriso mínimo.

— Claro.

Roberta decidiu odiá-la por alguns segundos.

Enquanto seguiam de volta para o Aurora Prime, Roberta olhou uma última vez para a direção do abrigo escondido pela floresta. O beijo ainda estava nela. O segredo também.

E talvez fosse isso que tornava tudo mais real do que qualquer fantasia: o sentimento não havia chegado para resolver nada. Não havia apagado medo, dever, mentira, Terra, Éden-9, Sergey ou o Protocolo que Sarah ainda não nomeara.

Ele apenas existia.

Pequeno.

Delicado.

Teimoso.

Como uma luz acendendo sob água escura.

Sarah caminhava à frente, falando com Asha sobre a falha dos comunicadores. Mas, em determinado momento, olhou para trás. Os olhos das duas se encontraram. Não houve sorriso.

Não precisava.

Roberta sentiu o mesmo frio no estômago, o mesmo reconhecimento e a mesma certeza perigosa de que algo havia começado no lugar mais instável possível.

Então Sarah desviou o olhar e continuou caminhando.

Roberta a seguiu, de volta para a realidade e ao segredo que, agora, não poderia permanecer escondido por muito mais tempo.

 

Fim do capítulo


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