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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 3484
Acessos: 86   |  Postado em: 15/06/2026

A primeira invasão

Sarah Solano

 

Sarah desviou o olhar e continuou caminhando. Não porque não quisesse olhar, ela queria e isso poderia ser o indício de um problema, porque ela queria mais do que deveria. Queria voltar para o espaço pequeno do abrigo, para a luz azul escura escorrendo pelas membranas vivas, para o instante em que Roberta respirou contra sua boca e o mundo inteiro pareceu caber entre uma decisão e a próxima.

Queria com uma fome que não combinava com comando.

Com uma fome que a assustava porque não era apenas desejo do corpo, embora também fosse. Era mais fundo. Mais perigoso. Era vontade de descansar a cabeça em um lugar onde não precisasse decidir quem sobreviveria. Era vontade de tocar alguém sem transformar o gesto em estratégia. Era vontade de ser vista antes de ser obedecida.

E Sarah não sabia o que fazer com isso.

Então caminhou.

Caminhou até que um fio de luz branco-azulado nasceu entre as raízes perto das rochas, atravessou a base da elevação e desapareceu por uma fenda estreita que Sarah não havia notado antes. A luz não piscava como resposta comum. Não pulsava como convite aberto. Era mais contida. Mais antiga, de algum modo que ela não saberia defender em relatório.

Roberta também percebeu.

— Isso estava aqui antes?

Asha já analisava o visor.

— Não. Pelo menos não visível. A emissão começou agora.

Mei olhou para a fenda.

— Eu gostaria de registrar minha oposição formal a seguir qualquer luz misteriosa depois de uma tempestade consciente.

Sarah concordava com ela.

O que também era um problema, porque, ao mesmo tempo, algo na linha luminosa parecia menos uma sugestão e mais uma correção de rota. Como se Éden-9 tivesse ouvido a tentativa delas de retornar a Aurora Prime e dissesse: antes, vejam isto.

O comunicador chiou.

A voz de Aurora veio distorcida:

— Capitã, meus sensores orbitais registram anomalia geológica na elevação à frente. A tempestade parece ter removido interferência superficial suficiente para leitura parcial. A formação não corresponde a rocha natural comum nem a estruturas coloniais humanas.

Sarah ficou imóvel.

— Repita.

— A formação não corresponde a rocha natural comum nem a estruturas humanas conhecidas de Aurora Prime.

Asha olhou para a fenda com outro tipo de atenção.

— Estou captando geometria interna. Regular demais.

Mei fechou os olhos.

— Claro. Porque uma tempestade alienígena que sequestra mapas naturalmente terminaria em arquitetura secreta.

Roberta aproximou-se um passo da linha de luz.

— Talvez Éden tenha nos trazido até aqui.

Sarah olhou para ela.

A frase poderia soar absurda antes, mas agora, não soava mais.

— Por quê? — perguntou Sarah.

Roberta não respondeu de imediato.

O cabelo ainda estava um pouco úmido da tempestade, colado perto das têmporas. Havia cansaço no rosto dela, mas também aquela concentração sensível que Sarah aprendera a reconhecer: Roberta ouvindo com mais do que instrumentos.

— Talvez porque encontramos algo que a Terra não encontrou — disse ela. — Ou algo que a Terra não contou que existia.

A frase tocou o arquivo lacrado dentro de Sarah como uma lâmina.

“Priorizar recuperação de material biológico-neural.

Impedir autonomia política da colônia adaptada.

Garantir jurisdição terrestre.”

A estrutura diante delas talvez não fosse apenas descoberta científica. Talvez fosse prova. História. Trauma. Algo que tornava a ordem da Terra não apenas perigosa, mas moralmente insustentável.

Sarah não gostou de perceber que já pensava nesses termos.

Moralmente.

Não apenas operacionalmente.

— Asha, leitura de risco — ordenou.

Asha ajoelhou-se junto à entrada da fenda, mantendo distância.

— Atmosfera estável. Sem toxinas imediatas detectadas. Há interferência eletromagnética baixa. O material emite resposta aos nossos sensores, mas não agressiva. Como tudo aqui, basicamente.

— Estrutura instável? — perguntou Sarah.

— Não parece. Mas eu odeio dizer isso sobre algo que acabou de aparecer depois de uma tempestade.

Mei olhou para Sarah.

— Capitã, com todo respeito: a cidade está para o outro lado. Iara disse para não avançarmos além das pedras baixas sem compreender o clima. Nós claramente não compreendemos nem a previsão do tempo, nem as pedras, nem nossas vidas pessoais.

Sarah ignorou a última parte por disciplina e sobrevivência.

— Estamos dentro da margem das pedras?

Asha conferiu o mapa instável.

— Segundo o mapa, sim. Segundo meus olhos, talvez. Segundo Éden-9, quem sabe.

Roberta tocou o próprio comunicador.

— Samira, consegue nos ouvir?

O canal respondeu com estática e depois com a voz da médica.

— Parcialmente. Estou no núcleo de cuidado. A cidade está estável. Vocês já chegaram?

Sarah respondeu:

— Ainda não. Encontramos uma formação anômala na elevação rochosa. Faremos reconhecimento visual limitado.

— Defina limitado.

— Entrada curta. Sem coleta. Sem contato físico desnecessário. Retorno imediato se houver instabilidade.

Samira ficou em silêncio por um segundo.

— Não gosto.

— Registrado.

— Essa tripulação usa “registrado” como forma de ignorar conselho médico.

Mei apontou para o comunicador.

— Eu disse isso desde o início.

Sarah cortou o canal com Samira ainda audível o suficiente para reclamar.

— Mei, você fica na entrada.

— Eu sabia.

— Se houver qualquer alteração externa, nos chama.

— E se o planeta decidir fechar a porta de pedra?

Sarah olhou para a fenda.

— Então você será nosso argumento externo.

— Eu sou ótima argumento. Péssima mártir.

— Por isso mesmo.

Mei bufou, mas posicionou-se junto à entrada.

Sarah voltou-se para Asha e Roberta.

— Entramos as três. Reconhecimento breve. Nenhuma toca em nada sem autorização.

Roberta sustentou o olhar dela.

— Entendido.

A palavra era profissional.

A tensão sob ela, não.

Sarah entrou primeiro.

A fenda era estreita, mas não sufocante. As paredes internas pareciam pedra escura à primeira vista, mas, quando a luz de seus trajes tocou a superfície, revelaram padrões que não eram naturais. Linhas curvas, encaixes geométricos, marcas repetidas em sequências longas demais para coincidência. Não havia inscrição humana. Não havia símbolos conhecidos. Não havia nada que Sarah pudesse associar a arquitetura terrestre, exceto a intenção.

Aquilo havia sido feito.

Ou moldado.

Ou cultivado por alguma inteligência anterior.

A passagem desceu em leve inclinação. O ar ficou mais frio. O som da floresta desapareceu aos poucos, substituído por uma vibração subterrânea tão baixa que Sarah sentiu primeiro nos ossos antes de ouvi-la.

Asha respirava rápido, tentando registrar tudo.

— Isso é impossível.

— Seja mais específica — disse Sarah.

— A idade estimada da superfície externa, pela erosão e mineralização, é muito anterior à colônia humana. Muito anterior. Talvez milhares de anos. Talvez mais.

Roberta passou os olhos pelas paredes.

— Éden-9 já tinha memória antes de nós.

— Todo planeta tem memória geológica — disse Asha.

— Não estou falando disso.

Sarah também não achava que Roberta estivesse.

A passagem terminou em uma câmara circular.

A luz dos trajes revelou o espaço aos poucos.

E Sarah, que havia visto estações destruídas, luas congeladas, naves em colapso e um planeta vivo acendendo para recebê-los, ficou sem falar.

A câmara era enorme.

Maior do que a elevação externa deveria permitir.

O teto desaparecia em sombras altas, sustentado por colunas curvas que pareciam crescer do chão e retornar a ele em arcos impossíveis. As paredes eram cobertas por placas de um material escuro, entre pedra, vidro e osso fossilizado. Algumas estavam quebradas. Outras tinham sido atravessadas por raízes luminosas de Éden-9, que não pareciam ter invadido a estrutura, mas costurado suas fraturas.

No centro da câmara havia algo como uma mesa.

Não.

Um altar, pensou Sarah, e imediatamente rejeitou a palavra.

Depois percebeu que não era altar.

Era dispositivo.

A superfície central era lisa, oval, marcada por sulcos concêntricos. Ao redor, havia restos de formas cristalinas quebradas, como antenas mortas. A raiz luminosa passava por baixo do dispositivo e subia em pequenos pontos, tocando a superfície com cuidado.

Como se Éden-9 tivesse mantido aquilo vivo o bastante para ser lembrado, mas não o bastante para funcionar.

Asha aproximou-se alguns passos, fascinada.

— Capitã, há tecnologia aqui.

— Não toque.

— Eu sei.

A voz de Asha saiu quase ofendida, mas sem força.

Roberta caminhava mais devagar. Os olhos dela não estavam apenas curiosos. Estavam tristes antes de qualquer explicação.

— Isso não parece uma cidade — disse ela.

Sarah concordou.

Não parecia habitação, estava mais para uma instalação. Um ponto de controle ou de extração.

A palavra voltou como veneno.

Extração.

As raízes ao redor da câmara começaram a brilhar.

Não de repente.

Uma luz baixa subiu do chão, atravessando os filamentos que Éden-9 havia lançado sobre a estrutura antiga. As paredes responderam em pontos isolados. Imagens surgiram não como projeção, mas como sombra dentro da pedra.

Asha recuou.

— Não estou emitindo nada.

Sarah ergueu a mão.

— Todos parados.

As imagens ganharam forma.

Não eram nítidas. Não tinham som. Eram fragmentos de memória gravados em matéria: o céu de Éden-9 visto sem a floresta atual; máquinas descendo de órbita como sementes metálicas; criaturas altas, angulares, não humanas, cobertas por estruturas rígidas que talvez fossem trajes ou exoesqueletos. Elas não caminhavam como humanos. Moviam-se com precisão segmentada, como instrumentos articulados.

No centro, o mesmo dispositivo oval brilhava inteiro.

Linhas de luz saíam dele e penetravam o solo.

A superfície de Éden-9 tremia.

As florestas antigas, diferentes das atuais, apagavam-se em manchas.

Roberta levou a mão à boca.

— Eles tentaram acessar a rede.

Sarah não perguntou como ela sabia, ela também sabia.

Não por linguagem.

Por intenção.

As imagens continuaram.

As criaturas coletavam material luminoso do solo, armazenando em cilindros escuros. Cortavam raízes. Isolavam organismos. Mapeavam respostas da biosfera como quem traduzia dor em estatística. Quando a rede reagia, elas ampliavam o dispositivo. Quando o planeta recuava, elas perfuravam mais fundo.

Não era guerra no início, era pesquisa. Depois virou contenção, para então virar ocupação.

Sarah sentiu o estômago fechar. A Terra não havia sido a primeira a chegar com instrumentos e nomes. Éden-9 não reagia à humanidade apenas por instinto. Reagia por memória.

A câmara mudou.

As imagens ficaram rápidas, violentas. Florestas acendendo em padrões caóticos. Animais simbiônticos morrendo junto às raízes cortadas. O céu tomado por uma luz branca demais. As criaturas angulares cercadas por um brilho que vinha do solo, da água, das árvores, dos corpos vivos da superfície. Não parecia ataque isolado. Parecia resposta sistêmica.

A biosfera inteira dizendo não.

Asha sussurrou:

— O planeta expulsou eles.

Roberta respondeu:

— Ou sobreviveu a eles.

Sarah não sabia qual era pior.

No último fragmento, a estrutura central rachava. As criaturas desapareciam em luz. A rede subterrânea recuava para longe do dispositivo, deixando-o morto. Depois as raízes retornavam, séculos talvez, milênios talvez, cobrindo as fraturas sem apagá-las.

A imagem desapareceu.

A câmara ficou escura outra vez.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Sarah escutava a própria respiração dentro do traje leve. A ordem da Terra agora parecia ainda mais monstruosa em sua clareza.

“Recuperação de material neural.”

“Impedir autonomia.”

“Jurisdição terrestre.”

A Terra estava prestes a repetir, com vocabulário administrativo, uma violência que Éden-9 já havia sofrido em escala planetária.

E Sarah carregava essa ordem no coração da missão.

— Capitã — disse Asha, a voz baixa. — Isso muda tudo.

Sarah olhou para ela.

— Sim.

Roberta estava parada diante da superfície central. O rosto dela tinha perdido cor.

Sarah quis tocá-la.

Não tocou.

— É por isso que ele nos trouxe aqui — disse Roberta. — Para mostrar que já aconteceu antes.

— Talvez — respondeu Sarah.

Mas, dentro dela, a palavra talvez soou fraca.

Éden-9 havia levado as quatro até ali depois da tempestade. Havia alterado mapas. Havia acendido uma trilha. Havia aberto memória sem tocar diretamente nenhuma delas.

Não era coincidência.

Asha virou-se para Sarah.

— Precisamos levar isso à equipe.

A frase acertou o lugar exato onde Sarah já sangrava.

Equipe.

Não apenas dados.

Não apenas registros de Iara.

Não apenas ordem da Terra guardada no terminal privado.

A equipe.

Mei, com medo escondido em piadas.

Asha, diante de uma tecnologia impossível.

Samira, tentando transformar cuidado em método.

Sergey, preso à segurança como único idioma para o amor que sentia pelo filho, pela Terra, pelo dever.

Roberta, que havia dito eu confio na minha capitã.

Sarah sentiu essa frase como peso e como amparo.

— Vamos registrar o máximo possível sem tocar em nada — decidiu. — Asha, varredura visual. Roberta, observação biológica das raízes de contenção. Três minutos. Depois saímos.

— Três? — perguntou Asha.

— Dois, se discutir.

— Três está ótimo.

Trabalhar ajudou.

Sempre ajudava.

A função organizava o pânico. Sarah gravou imagens da câmara, das paredes, do dispositivo, dos pontos de integração com a rede viva. Asha fez leitura passiva de estrutura, idade relativa, composição superficial. Roberta observou as raízes luminosas e percebeu que elas evitavam certas áreas do dispositivo, como se Éden-9 ainda considerasse partes dele perigosas.

— Ele não absorveu tudo — disse Roberta. — Preservou e isolou.

Sarah olhou para as raízes.

— Como uma cicatriz que não deve fechar totalmente.

Roberta virou-se para ela. Sarah percebeu tarde demais que havia falado algo íntimo.

A câmara tremeu de leve.

Não um colapso.

Um aviso.

A luz das raízes diminuiu.

Sarah ergueu a mão.

— Saindo. Agora.

Voltaram pela passagem em silêncio, mais rápido do que entraram. Mei estava onde deveria, junto à entrada, com expressão aliviada demais para continuar fingindo irritação.

— Vocês demoraram mais do que três minutos.

— Não demoramos — disse Asha.

— Eu contei.

— Então seus minutos são emocionalmente instáveis.

Mei olhou para Sarah.

— O que tem lá dentro?

Sarah respirou fundo.

— Algo anterior à colônia. Algo que precisamos discutir com a equipe inteira.

Mei perdeu o humor do rosto.

— Esse tipo de frase nunca vem com coisas boas.

Roberta saiu por último da fenda. Ao passar por Sarah, o ombro das duas quase se tocou.

Quase.

Sarah sentiu o corpo inteiro lembrar do abrigo.

Precisou se forçar a olhar para a elevação, para a linha luminosa que começava a apagar atrás delas.

— Vamos voltar para Aurora Prime — disse.

A trilha de retorno apareceu sem hesitação. Dessa vez, Sarah não se permitiu duvidar que Éden-9 queria que voltassem.

A cidade viva as recebeu com um silêncio diferente.

Não hostil. Atento. Como se Aurora Prime soubesse de onde vinham.

Samira encontrou a equipe na entrada do núcleo de cuidado, acompanhada por duas cuidadoras. A expressão dela mudou assim que viu Sarah.

— Avaliação. Agora.

— Estamos sem ferimentos.

— Eu não pedi seu resumo otimista.

Mei murmurou:

— Ela faz isso com amor.

— Faço com irritação clínica — respondeu Samira.

Conduziu-as para um espaço lateral da cidade, parcialmente aberto, onde a luz filtrada pelas membranas vegetais deixava tudo com aparência submersa. As cuidadoras de Éden-9 observaram sem interferir enquanto Samira passava o scanner em Asha primeiro.

— Adrenalina elevada, atividade neural residual, exposição atmosférica dentro do tolerável. Você está pálida.

— Descobrimos uma estrutura pré-humana.

Samira parou por um segundo.

— Isso explica.

Mei sentou-se em uma raiz baixa.

— Eu também estou pálida?

— Você está fingindo normalidade com desempenho abaixo do habitual Mei./

—  Que cruel doutora.

Samira examinou Roberta. O scanner emitiu um alerta leve.

— Oscilação emocional acentuada. Atividade autonômica elevada. Residual da tempestade?

Roberta olhou para Sarah por meio segundo.

Sarah não olhou de volta.

— Provavelmente — respondeu Roberta.

Mei fez um som discretíssimo.

Sarah desejou deixá-la de guarda do lado de fora de alguma rocha pelo resto da missão.

Samira passou, por fim, o scanner nela.

O aparelho demorou mais.

— Capitã.

— Diga.

— Sua atividade neural está alterada em relação ao padrão pós-contato anterior. Não indica dano. Mas há marca de resposta emocional intensa e estresse cognitivo elevado.

— Estivemos em uma estrutura antiga desconhecida após uma tempestade sensorial.

— Sim. E, como sempre, você diz a frase mais dramática possível como se fosse lista de compras.

Roberta baixou a cabeça, escondendo um sorriso mínimo.

Sarah viu.

E, apesar de tudo, sentiu vontade de sorrir também.

Não o fez.

Iara apareceu na entrada do espaço médico.

— Vocês viram a ferida antiga.

Sarah ficou imóvel.

— A senhora sabia que a estrutura existia.

— Sim.

— Por que não nos mostrou antes?

— Porque vocês ainda não tinham sido levadas até ela.

A resposta irritou Sarah, mas ela estava cansada demais para desperdiçar energia com a forma.

— Aquilo foi uma tentativa de extração.

— Foi muitas coisas — disse Iara. — Curiosidade sem reverência. Medo transformado em controle. Ciência sem consentimento. Poder chamando dor de dado.

Asha, ainda sentada, olhou para ela.

— Quem eram eles?

— Não sabemos o nome que davam a si mesmos. Éden não guarda todas as palavras. Guarda o impacto.

— O que aconteceu com eles? — perguntou Mei.

Iara olhou na direção da floresta.

— Foram embora. Morreram. Foram absorvidos pela própria arrogância. Talvez todas as respostas sejam verdadeiras em partes.

Sarah sentiu um frio interno.

— A Terra precisa saber disso.

Iara voltou os olhos para ela.

— A Terra ou sua equipe?

A pergunta acertou.

Roberta olhou para Sarah.

Sarah não respondeu de imediato.

Naquele silêncio, sentiu a proximidade da hora que vinha adiando desde o arquivo lacrado. A equipe precisava saber. Não apenas sobre a estrutura antiga, não apenas sobre os registros ocultos de Iara, não apenas sobre a transmissão de Sergey. Precisava saber da ordem.

Da missão dentro da missão.

Do que a Terra exigia que Sarah fizesse se Éden-9 confirmasse sobreviventes adaptados e integração neural.

Ela ainda não sabia como dizer.

Mas já não conseguia acreditar que poderia não dizer.

— Primeiro minha equipe — disse, enfim.

Iara assentiu.

Não satisfeita.

Apenas consciente.

— Então leve a verdade inteira quando estiver pronta. Verdades pela metade também cortam.

Sarah sentiu Roberta respirar ao lado. A frase ficou entre elas com mais precisão do que deveria.

Depois da avaliação, retornaram ao Vega.

Samira insistiu em monitoramento contínuo até a nave. Asha permaneceu calada durante boa parte do caminho, revisando os registros da estrutura com os olhos de quem acabara de encontrar uma peça que não cabia em nenhuma teoria anterior. Mei falava pouco. Quando Mei falava pouco, Sarah sabia que a gravidade era real.

Roberta caminhava ao lado dela.

Dessa vez, sem brincadeiras.

Sem aproximação.

O beijo existia no espaço entre as duas, mas agora dividido com a estrutura antiga, com a ordem da Terra, com as imagens de criaturas não humanas perfurando um planeta vivo em nome de conhecimento.

Sarah queria dizer alguma coisa, mas preferiu o silêncio.

O Vega as esperava na clareira. Ao longe, Aurora Prime brilhava sob a copa, viva e impossível. Sarah entrou por último no módulo, olhando uma vez para trás.

A trilha luminosa apagava-se devagar, como uma porta fechando sem trancar.

Mei assumiu o posto de pilotagem.

— Todos a bordo. Ninguém virou árvore, pedra, memória líquida ou artefato pré-humano. Considero um sucesso relativo.

Asha respondeu, sem levantar os olhos:

— Sucesso relativo é uma classificação generosa.

— Eu sou uma mulher generosa sob pressão.

Samira prendeu o cinto.

— Decolagem autorizada após verificação médica final.

— Médicas não autorizam decolagem — disse Mei.

— Pessoas inteligentes ouvem médicas antes de sair voando depois de tempestade alienígena.

— Argumento aceito.

Sarah sentou-se no assento de comando do Vega. Roberta ocupou o lugar atrás e à direita.

Por um reflexo que Sarah odiou e desejou ao mesmo tempo, olhou para ela antes da decolagem, Roberta já a observava. O olhar dela não cobrava o beijo e sim a verdade. Sarah sentiu isso com a nitidez de uma ordem.

O Vega subiu da superfície.

Éden-9 ficou abaixo, vivo, marcado por luzes suaves após a tempestade. A elevação rochosa desapareceu sob a copa, escondendo outra vez a estrutura antiga. Mas Sarah sabia que ela continuava ali, assim como Calisto continuava nela. Como o arquivo da Terra continuava aberto em algum lugar da Aurora. Como o beijo continuava em sua boca mesmo depois de tudo. Ao acoplarem à nave, a voz de Sergey entrou pelo canal interno:

— Vega, aqui é Aurora. Acoplagem autorizada. Sinais vitais recebidos. Todos retornaram?

Sarah fechou os olhos por um segundo.

— Todos retornaram.

A resposta dele veio depois de uma pausa mínima.

— Bem-vindos de volta, capitã.

Havia alívio ali.

Medo também.

E talvez algo que Sarah precisasse tratar com mais cuidado do que punição.

— Reunião de equipe em uma hora — ordenou Sarah. — Sala de análise principal. Todos.

— Inclusive eu? — perguntou Sergey.

Sarah olhou para Éden-9 pela janela estreita do módulo.

— Inclusive você.

O canal ficou silencioso.

Roberta, atrás dela, não disse nada, mas Sarah sentiu a presença dela como uma pergunta.

Uma hora.

Sarah tinha uma hora para decidir quanto da verdade conseguiria carregar até a mesa sem destruí-los.

Ou talvez, pensou enquanto a Aurora recebia o Vega em seu ventre metálico, a verdade já os estivesse destruindo desde antes da chegada.

Talvez só faltasse parar de fingir que os destroços ainda eram estrutura.

Fim do capítulo


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