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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 3777
Acessos: 83   |  Postado em: 16/06/2026

O que você trouxe

Roberta Almeida

 

A reunião aconteceu uma hora depois.

Uma hora não era tempo suficiente para processar uma tempestade sensorial, um beijo no abrigo, uma estrutura pré-humana escondida sob rocha viva, registros de uma tentativa antiga de extração planetária e o retorno à nave sob o olhar silencioso de Éden-9.

Mas era o que tinham.

Na Aurora, o tempo sempre parecia reduzido a isso: o que era suficiente para funcionar, não para compreender.

Roberta chegou à sala de análise principal ainda com o corpo cansado. Samira havia liberado todos para reunião sob protesto moderado e recomendações severas. Hidratação. Monitoramento neurológico. Nada de decisões impulsivas. Nada de negar sintomas. Nada de transformar “estou funcional” em resposta emocional universal.

A última parte fora dita olhando diretamente para Sarah.

A capitã não reagira.

Ou reagira do jeito dela: ficando mais imóvel.

Quando Roberta entrou, Sarah já estava na cabeceira da mesa. Asha ocupava o lado esquerdo, cercada de telas e registros. Mei estava sentada de qualquer jeito, o que significava que ainda tentava fingir relaxamento. Samira revisava dados médicos em silêncio. Sergey, pela primeira vez desde a decisão de deixá-lo na Aurora, parecia deslocado dentro do próprio ambiente.

Ele estava ali.

Mas não em posição de controle.

Isso o deixava mais humano e, de algum modo, mais perigoso.

A porta se fechou.

Aurora projetou no centro da mesa o mapa da região oeste de Aurora Prime, a trilha alterada pela tempestade, a elevação rochosa e a câmara antiga registrada por Asha.

A imagem do dispositivo central apareceu em silêncio.

Sergey inclinou-se para frente.

— O que é isso?

Asha respondeu:

— Ainda não sabemos. Mas não é humano. E não é natural.

Mei cruzou os braços.

— Excelente resumo. Preciso, horrível e arruinador de sono.

Sarah manteve as mãos apoiadas sobre a mesa.

— Encontramos a estrutura após a tempestade. A trilha luminosa nos conduziu até a entrada. Os registros visuais indicam uma instalação anterior à colonização humana, possivelmente milhares de anos mais antiga.

Sergey olhou para ela.

— E a equipe entrou.

Não era pergunta.

Sarah sustentou o olhar.

— Reconhecimento visual limitado. Sem coleta. Sem contato físico direto.

— Sem segurança armada.

— Sem ação hostil.

A tensão subiu, mas não explodiu.

Roberta percebeu que Sergey queria discutir. O corpo dele inteiro parecia preparado para isso. Mas havia algo segurando-o, talvez o fato de todos terem voltado. Talvez a imagem diante dele. Talvez a percepção incômoda de que aquilo não se encaixava em emboscada, ataque ou armadilha.

A estrutura existia antes deles.

Antes da Terra.

Antes do medo de Sergey.

Asha ampliou os registros das paredes.

— A estrutura preservou algum tipo de memória visual. Não sei se é gravação, resposta da biosfera ou uma interface híbrida. Mas vimos fragmentos suficientes para estabelecer uma hipótese: Éden-9 já sofreu uma tentativa de extração ou controle por outra espécie ou civilização.

Samira ficou muito quieta.

Sergey franziu o cenho.

— Outra civilização?

— Não humana — disse Sarah.

Aurora interveio com sua voz calma:

— A análise preliminar de geometria, proporção estrutural e tecnologia residual sugere origem incompatível com padrões humanos, terrestres ou coloniais. A probabilidade de construção natural espontânea é inferior a zero vírgula quatro por cento.

Mei ergueu a mão.

— Tradução: não foi a natureza brincando de arquitetura que criou aquilo.

— Correto — respondeu Aurora. — Embora, em Éden-9, essa distinção permaneça filosoficamente instável.

Ninguém riu de verdade.

Asha avançou para as imagens seguintes.

Criaturas angulares.

Dispositivos perfurando o solo.

Luz sendo extraída de raízes.

Florestas apagando.

A biosfera reagindo.

Roberta observou a sala enquanto todos viam o que elas haviam visto. Mei perdeu completamente o humor do rosto. Samira levou uma das mãos à boca. Sergey ficou rígido, mas não com raiva. Com choque. Aquele tipo de choque que ainda tenta encontrar um procedimento antes de aceitar que o mundo ficou maior.

— Não foi uma tempestade aleatória — disse Roberta.

Sarah olhou para ela.

Roberta continuou:

— Éden nos levou até lá. Talvez não para nos ameaçar. Talvez para nos explicar por que reconhece ameaça antes que ela se declare.

Sergey não rebateu.

Isso foi mais significativo do que qualquer concordância.

— Então a resposta defensiva do planeta à presença humana pode ter base em memória traumática de escala planetária — disse Samira.

Aurora respondeu:

— Formulação compatível com os dados disponíveis, embora “traumática” seja extrapolação médico-emocional aplicada a uma biosfera não humana.

— Ainda assim — disse Samira — é a palavra mais próxima que temos.

A IA ficou um segundo em silêncio.

— Concordo.

Roberta olhou para o alto-falante com surpresa.

Asha também.

Aurora concordar com uma palavra emocional não era trivial.

Sarah percebeu.

— Aurora, avaliação operacional.

— Éden-9 não demonstrou padrão consistente de ataque contra a equipe Aurora. As alterações ambientais até o momento parecem correlacionadas a conflito, intenção, aproximação invasiva ou necessidade de redirecionamento. A tempestade no Mar Escuro isolou membros da equipe, mas também conduziu à localização de estrutura histórica relevante. Não há evidência suficiente para classificá-la como emboscada.

Sergey baixou os olhos para a mesa, a frase era para todos, mas também era para ele.

Sarah o observou.

— Sergey?

Ele demorou.

— Eu ainda considero o ambiente de alto risco.

— Todos consideramos — disse Sarah.

— Mas reconheço que os eventos de hoje não sustentam hipótese simples de ataque coordenado contra a equipe.

Mei olhou para Asha, sem dizer nada.

Asha também não disse.

Roberta sentiu certo alívio. Pequeno, mas real. Sergey não estava aceitando Éden-9. Ainda não. Talvez nunca aceitasse por completo. Mas uma parte dele havia cedido diante do fato.

E fatos eram a única linguagem que ele ainda confiava.

— Isso não elimina a possibilidade de influência cognitiva — continuou Sergey.

— Não — disse Samira. — Mas muda o enquadramento. Influência não significa necessariamente manipulação hostil.

— Comunicação também pode ferir — disse Roberta.

Todos olharam para ela.

Roberta pensou no lago. Na avó. No beijo. Na pergunta de Naya, embora não dissesse seu nome. Pensou em como Éden-9 tocava lugares sensíveis sem ser simples invasor ou santo.

— Eu não acho que devemos romantizar o planeta — disse ela. — Ele é vivo, complexo, talvez inteligente de um modo que ainda não conseguimos entender. Isso inclui risco. Mas a estrutura antiga mostra que ele já foi ferido por alguém que chegou para medir, extrair e controlar. Se repetirmos esse gesto, a reação dele talvez não seja hostilidade. Talvez seja memória.

Sarah ficou imóvel.

Sergey absorveu a frase em silêncio.

Aurora, novamente, falou:

— Recomendo suspensão de qualquer transmissão de dados sobre a estrutura antiga para a Terra até revisão ética, científica e estratégica interna.

A sala ficou muito quieta.

Sarah olhou para o alto-falante.

— Isso é uma recomendação autônoma?

— Sim, capitã.

— Com base em quê?

— Com base na probabilidade de uso indevido de informação sensível, no histórico apresentado pelos registros de Aurora Prime e no risco de que dados sobre vulnerabilidades da biosfera sejam interpretados como oportunidade de exploração.

Mei apontou para o teto.

— Eu voto com a IA consciente que decidiu desenvolver bom senso.

— Ainda não sou consciente segundo sete dos onze critérios filosóficos principais — disse Aurora.

— Segundo meus critérios, você acabou de ganhar direito a sobremesa.

Asha ignorou a troca.

— Eu concordo com Aurora. Transmitir isso agora seria irresponsável.

Sergey respirou fundo.

— Ocultar informação da Terra também é uma decisão grave.

Sarah olhou para ele.

— Sim.

— E pode ser interpretada como desobediência.

— Sim.

A palavra saiu limpa.

Roberta sentiu algo nela.

Sarah não estava negando a gravidade.

Estava encarando.

Mas ainda havia outra camada. Roberta via. Via no modo como ela evitava olhar tempo demais para qualquer um. Via no modo como os dedos dela permaneciam imóveis sobre a mesa, rígidos demais. Sarah carregava mais do que a descoberta da estrutura.

Carregava a ordem.

Aquela que ainda não nomeara.

A reunião continuou por mais quarenta minutos. Levantaram dados. Organizaram hipóteses. Samira listou efeitos fisiológicos da tempestade e do contato com a estrutura. Asha isolou registros em um servidor interno sem envio externo. Mei revisou rotas seguras de retorno para a região oeste, embora repetisse que “segura” era uma palavra que Éden-9 parecia achar engraçada. Sergey propôs protocolos de monitoramento sem presença direta na comunidade, e Sarah aceitou parte deles, rejeitou outra parte, ajustou o restante.

Foi uma boa reunião e, uma reunião funcional podia esconder uma fratura por tempo demais.

Quando terminou, Sarah dispensou a equipe.

— Todos em repouso monitorado por quatro horas. Asha, mantenha os dados isolados. Aurora, nenhum pacote externo sem minha autorização. Sergey, quero revisão dos protocolos de contingência sem mobilização automática.

Sergey assentiu.

— Sim, capitã.

O tom dele ainda carregava desacordo, mas não desafio aberto.

Roberta esperou todos saírem.

Samira passou por ela e, ao passar, tocou de leve seu braço.

— Descanse.

— Vou tentar.

— Isso significa não ir ao encontro da capitã para uma conversa emocionalmente desgastante?

Roberta olhou para ela.

Samira ergueu uma sobrancelha.

— Sou médica, não cega.

Roberta não respondeu.

Samira suspirou.

— Pelo menos beba água antes.

— Doutora.

— Eu aceito vitórias pequenas.

Roberta quase sorriu.

Depois seguiu para o corredor, ela sabia onde Sarah estaria. Não porque tivesse acesso ao mapa interno da capitã, embora começasse a desejar ter. Mas porque Sarah, quando pressionada, buscava espaços onde pudesse transformar conflito em análise. O compartimento privado de comando ficava no nível superior da Aurora, próximo à sala de observação restrita. Roberta já estivera ali uma vez antes, na entrada, nunca dentro.

Parou diante da porta.

Hesitou.

O beijo voltou.

Não como calor agora.

Como pergunta.

Ela tocou o painel.

A voz de Sarah veio de dentro:

— Entre.

A porta abriu.

O compartimento era menor do que Roberta esperava. Um terminal central, duas cadeiras, parede de dados, janela estreita para Éden-9 e poucos objetos pessoais. Quase nada que denunciasse a pessoa por trás da capitã. Exceto o relógio no pulso dela, claro. E uma fotografia pequena, presa junto a uma borda do painel, de um homem mais velho sentado à mesa com peças metálicas espalhadas diante de si.

O pai, Roberta pensou.

Sarah estava de pé junto ao terminal, não pareceu surpresa em vê-la ali, possivelmente estivesse esperando.

— Você deveria descansar — disse Sarah.

Roberta entrou.

— Samira já tentou essa abordagem.

— Ela costuma estar certa.

— E você costuma ignorar.

Sarah não respondeu.

A porta fechou atrás de Roberta com um som baixo. Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.

A tensão do abrigo estava ali, mas transformada. O desejo não tinha desaparecido. Ele permanecia sob a pele, paciente, lembrando Roberta de que a boca de Sarah tinha sido fria no primeiro toque e quente no segundo, de que a mão dela na cintura não parecia uma pergunta técnica, de que o corpo da capitã havia tremido quando Roberta tocou seu rosto.

Mas agora havia o resto.

E o resto era grande demais.

— Eu vim conversar sobre o que aconteceu — disse Roberta.

Sarah desviou os olhos para a janela.

— A estrutura antiga?

— Não só isso.

A palavra ficou entre elas.

Sarah entendeu.

Roberta viu.

— Roberta...

— Não use meu nome como pedido de tempo.

Sarah fechou a boca.

Roberta sentiu o próprio coração acelerar. Não queria brigar. Não tinha ido ali para transformar o beijo em arma nem para exigir da outra algo que ela ainda não conseguisse dar. Mas havia uma diferença entre paciência e cumplicidade com o silêncio.

E Roberta já havia passado tempo demais sendo escolhida como ponte sem saber o que havia do outro lado.

— Você leu uma mensagem da Terra — disse ela. — Não me contou o conteúdo. Depois Iara disse que você trouxe uma ordem. A estrutura antiga mostrou uma civilização tentando extrair algo de Éden-9. E agora Aurora recomenda não transmitir dados porque podem ser usados de forma indevida. Então eu vou perguntar uma vez, sem rodeio.

Sarah ficou imóvel.

Roberta sustentou o olhar dela.

— O que você trouxe?

A frase pareceu atravessar a sala antes de chegar à capitã.

Sarah baixou os olhos.

Por um segundo, Roberta achou que ela usaria comando. Que diria que era informação restrita. Que levantaria a parede, devolveria a patente ao centro da conversa e a deixaria do lado de fora.

Mas Sarah parecia cansada demais para mentir de modo limpo.

Ou talvez cansada demais de querer.

— Uma ordem contingencial — disse ela.

Roberta sentiu o estômago afundar.

— Que tipo de ordem?

Sarah passou a mão pela borda do terminal.

— Foi desbloqueada após confirmação de sobreviventes adaptados e integração neural planetária.

— Naya.

— A comunidade inteira. Éden-9. Tudo.

Roberta esperou.

Sarah respirou.

— A Terra ordena priorizar recuperação de material biológico-neural, impedir autonomia política da colônia adaptada e garantir que qualquer estrutura cognitiva de larga escala permaneça sob jurisdição terrestre.

As palavras entraram em Roberta devagar, não porque fossem difíceis de entender, mas porque eram difíceis de aceitar.

Material biológico-neural.

Impedir autonomia.

Jurisdição terrestre.

A cidade que respirava virou, por um instante, objeto de relatório. As mulheres do Círculo viraram variável política. O lago virou recurso. A memória da avó virou dado de integração. As crianças de Aurora Prime viraram sobreviventes adaptados.

Roberta sentiu a raiva nascer de um lugar tão frio que quase não pareceu raiva.

— Você sabia disso desde quando?

Sarah não tentou se proteger.

— Desde a noite em que Aurora interrompeu a gente.

O beijo.

Ou melhor, o quase beijo.

A saída.

Eu preciso ir.

Roberta fechou os olhos por um instante.

— E você deixou que eu dissesse que confiava em você.

Sarah se aproximou meio passo.

— Eu não pedi que dissesse.

— Não. Você só ficou lá ouvindo.

A frase feriu.

Roberta percebeu e, naquele momento, não teve vontade de suavizar.

Sarah aceitou o golpe.

— Eu ia contar.

— Quando?

— Eu não sabia como.

Roberta riu sem humor.

— Essa é uma resposta humana demais para uma capitã tão eficiente.

Sarah ergueu os olhos.

Havia dor ali.

E algo mais. Vergonha, talvez.

— Eu não escolhi esse protocolo.

— Não.

Roberta deu um passo para mais perto.

— Mas escolheu esconder.

Sarah ficou em silêncio.

A raiva de Roberta subiu um pouco mais.

— Você me colocou para falar com eles. Usou minha escuta, minha relação com Éden-9, minha confiança na comunidade, enquanto sabia que havia uma ordem para impedir a autonomia deles.

— Eu não usei você.

— Não?

— Não.

A palavra saiu dura.

Mas não defensiva.

Desesperada.

Sarah continuou:

— Eu escolhi você porque Éden-9 respondia a você. Porque a comunidade confiava mais em você. Porque você via coisas que eu não conseguia ver. Não porque eu queria transformar isso em instrumento da Terra.

— Mas a Terra queria.

— Sim.

— E você é a capitã da Terra aqui.

Sarah recebeu a frase como se já a esperasse, como se a tivesse repetido para si mesma em versões piores.

— Eu sou a capitã da Aurora.

— Isso é diferente?

Sarah olhou para Éden-9 pela janela.

— Está começando a ser.

Roberta não queria que aquela resposta a tocasse.

Tocou.

Isso a irritou ainda mais, porque Sarah não era fácil de odiar, nem quando merecia ser confrontada.

— Você entende o que essa ordem significa? — perguntou Roberta. — Não no papel. Lá embaixo. Em gente. Em corpo. Em casa. Em memória. Em criança aprendendo a ouvir o planeta antes de decorar qualquer bandeira.

— Eu entendo.

— Não sei se entende.

Sarah virou-se de volta, e pela primeira vez a voz dela falhou um pouco.

— A estrutura antiga me fez entender.

Roberta ficou quieta.

Sarah respirou, como se cada palavra precisasse atravessar algo cortante.

— Eu vi o que acontece quando uma civilização chama extração de pesquisa. Vi o dispositivo. Vi as raízes cortadas. Vi Éden-9 reagindo como alguém que já tinha sido aberto vivo. E então li de novo a ordem da Terra na minha cabeça, com as mesmas palavras limpas, o mesmo tipo de lógica. Material. Jurisdição. Autonomia.

Ela fechou a mão.

— Eu entendo.

Roberta quis continuar com raiva sem fissura.

Mas Sarah estava ali, não como a capitã impecável. Como alguém encurralada entre a obediência que a formou e a verdade que começava a destruí-la.

— Então por que ainda está segurando? — perguntou Roberta, mais baixo.

Sarah olhou para ela. A pergunta parecia maior do que o protocolo.

Talvez fosse.

Por que ainda está segurando a porta?

— Porque se eu soltar errado, posso colocar todos em risco — disse Sarah. — A equipe. A comunidade. A própria Aurora. Sergey já enviou relatório de risco sem passar por mim. A Terra está solicitando estimativa de extração neural. Se eu simplesmente declarar desobediência, posso acionar protocolos secundários que nem conhecemos por completo.

Roberta engoliu seco.

— Há mais protocolos?

— Sempre há.

A frase saiu amarga.

Roberta desviou o olhar.

A sala parecia pequena demais. A janela, estreita demais. Éden-9 brilhava lá fora, enorme e silencioso, enquanto dentro da nave duas mulheres tentavam decidir como falar de traição sem destruir o que ainda queriam salvar.

— E eu? — perguntou Roberta.

Sarah endureceu.

— Você?

— Onde eu entro nisso? Como especialista? Como ponte? Como alguém que você beijou no meio de uma tempestade e depois tentou proteger da verdade?

Sarah fechou os olhos.

Quando abriu, havia desejo ali ainda.

E culpa.

E medo.

— Eu não tentei te proteger da verdade.

Roberta sustentou o olhar.

Sarah cedeu.

— Talvez tentei.

A honestidade doeu mais do que uma mentira.

— Eu não sou frágil — disse Roberta.

— Eu sei.

— Então pare de me tratar como se eu fosse quebrar se souber o que você carrega.

Sarah se aproximou.

Dessa vez Roberta não recuou, mas também não foi ao encontro.

A distância entre elas ficou carregada do beijo, da raiva e de tudo que ainda não tinha forma.

— Eu tinha medo de que você olhasse para mim e visse só a ordem — disse Sarah.

Roberta sentiu a garganta apertar.

— E você acha que esconder me ajudaria a ver outra coisa?

Sarah não respondeu. A resposta era óbvia demais.

Roberta respirou fundo. A raiva continuava ali, mas agora misturada com uma tristeza grande. Porque havia um começo entre elas. Pequeno, delicado, teimoso. E ele não tinha nascido em terreno limpo. Havia crescido entre protocolo, segredo, trauma e um planeta que talvez sentisse tudo antes que elas conseguissem dizer.

— Eu não acho que você seja a ordem — disse Roberta.

Sarah olhou para ela.

— Mas você trouxe a ordem.

Sarah ficou imóvel.

Roberta continuou:

— E agora precisa escolher o que vai fazer com ela.

O silêncio que veio depois pareceu absoluto.

Nem Aurora falou.

Nem os sistemas da nave pareceram ousar interferir.

Sarah olhou para o terminal. Depois para a janela. Depois para Roberta.

— Vou contar à equipe.

Roberta sentiu o corpo reagir antes da mente.

— Quando?

— Amanhã.

— Amanhã pode ser tarde.

— Hoje todos estão alterados, exaustos, reativos. Sergey vai ouvir como acusação. Mei como traição. Asha como risco imediato. Samira como emergência ética. Talvez todas estejam certas. Mas se eu abrir isso agora, sem plano, posso partir a equipe em vez de prepará-la.

Roberta queria negar.

Não conseguiu totalmente.

— Então faça um plano.

— É o que estou tentando fazer.

— Faça comigo.

A frase saiu antes que ela calculasse a vulnerabilidade.

Sarah pareceu atingida por ela.

Roberta não suavizou.

— Não porque eu esqueci que você escondeu. Não porque está tudo bem. Não está. Mas porque se você tentar carregar isso sozinha, vai fazer o que sempre faz: transformar dor em porta fechada e chamar de comando.

Sarah baixou os olhos.

Roberta sentiu vontade de tocá-la.

Não tocou.

Dessa vez era ela quem precisava manter distância.

— Eu estou brava com você — disse.

— Eu sei.

— E magoada.

— Eu sei.

— E ainda confio em partes de você, o que é extremamente inconveniente.

Um quase sorriso, triste, passou pelo rosto de Sarah.

— Roberta...

— Não.

A palavra veio suave, mas firme.

Sarah parou.

Roberta respirou.

— O beijo aconteceu. Eu não vou fingir que não. Mas não posso me aproximar mais enquanto você ainda está decidindo se vai me deixar do lado de fora quando a verdade ficar perigosa.

Sarah absorveu.

A dor no rosto dela não era teatral.

Era contida.

E talvez por isso parecesse mais real.

— Eu não quero te deixar do lado de fora.

— Então não deixe.

A distância entre elas pareceu diminuir sem que nenhuma se movesse, por um segundo, Roberta pensou que Sarah fosse tocá-la.

Sarah também pareceu pensar, mas não fez. Dessa vez, a contenção não pareceu rejeição. Pareceu respeito.

— Amanhã eu conto à equipe — disse Sarah. — O protocolo completo. A ordem. A solicitação de extração. Tudo.

Roberta assentiu devagar.

— Eu estarei lá.

— Eu sei.

— Não para te defender.

Sarah levantou os olhos.

Roberta sustentou.

— Para garantir que a verdade não seja enterrada de novo.

Sarah respirou fundo.

— Justo.

Roberta caminhou até a porta.

Antes que ela abrisse, Sarah falou:

— Roberta.

Ela parou, mas não virou de imediato.

— O beijo...

Roberta fechou os olhos por um instante.

Depois olhou para ela.

Sarah parecia, pela primeira vez, sem frase pronta.

— Foi real — disse Sarah.

A dor em Roberta se mexeu.

Não desapareceu.

Mas se mexeu.

— Eu sei.

Sarah engoliu seco.

— E eu queria.

Roberta sentiu a lembrança do abrigo subir como calor e ferida ao mesmo tempo.

— Eu também.

A confissão ficou entre elas. Não como solução, mas como verdade pequena o bastante para sobreviver ao restante.

Roberta abriu a porta.

— Boa noite, Sarah.

O nome saiu sem patente, sem promessa, sem recuo completo.

Sarah respondeu baixo:

— Boa noite, Roberta.

Roberta saiu para o corredor da Aurora com o corpo cansado e a mente acesa.

Atrás dela, a porta se fechou.

À frente, a nave seguia orbitando Éden-9. Em algum lugar abaixo, a cidade respirava. O lago guardava a música. A estrutura antiga guardava a memória da primeira invasão e Sarah guardava uma ordem que, no dia seguinte, deixaria de ser apenas dela.

Roberta caminhou sem olhar para trás.

Ainda sentia o beijo, a raiva e a confiança ferida, mas não morta e talvez, fosse isso que mais doesse.

Não a quebra. A permanência. Porque algumas coisas não acabavam quando a verdade chegava. Algumas apenas começavam a exigir coragem de outro tipo.

Fim do capítulo


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