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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 5199
Acessos: 93   |  Postado em: 16/06/2026

O pulso de contenção

arah Solano

 

Sarah não dormiu.

Permaneceu sentada no compartimento privado de comando por horas, com o arquivo do Protocolo Semente Branca aberto diante dela e Éden-9 ocupando a janela estreita à esquerda.

A nave orbitava em silêncio.

O planeta, não.

Mesmo dali, mesmo separado por casco, distância e tecnologia, Sarah começava a compreender que Éden-9 nunca estava exatamente silencioso. Havia sempre um movimento sob a superfície. Uma oscilação de luz nas florestas. Uma alteração discreta nas camadas atmosféricas. Uma resposta atrasada em alguma região distante, como se continentes inteiros pensassem em ritmos que os sensores humanos só captavam como fenômeno.

Antes, aquilo a inquietava por falta de classificação, agora a inquietava porque talvez já soubesse a classificação.

Memória.

Ferida.

Escuta.

Ela leu mais uma vez a ordem.

Não porque precisasse. As palavras já estavam gravadas nela com a precisão cruel das coisas que não se esquecem. Aquelas frases haviam parecido frias quando Sarah as lera pela primeira vez. Depois da estrutura antiga, pareciam obscenas. A Terra havia escolhido palavras limpas para uma intenção suja. Não falava em invasão. Falava em jurisdição. Não falava em domínio. Falava em segurança. Não falava em exploração. Falava em recuperação de material.

Sarah conhecia aquele idioma.

Tinha sido treinada nele.

Em Calisto, os relatórios diziam “selagem emergencial de setor comprometido”. Não diziam porta fechada sobre oito pessoas vivas. A linguagem certa podia fazer quase qualquer coisa parecer suportável, desde que ninguém olhasse tempo demais para os corpos.

A porta do compartimento emitiu um sinal baixo.

Sarah não se moveu.

— Entre.

Roberta apareceu na entrada.

Por um instante, Sarah se arrependeu de ter respondido. Não porque não quisesse vê-la. Pelo contrário. Queria vê-la demais, e aquela vontade se tornara uma fraqueza e uma força ao mesmo tempo.

Roberta estava com o uniforme de descanso da Aurora, os cabelos soltos, o rosto cansado e os olhos muito acordados. Não parecia alguém que tivesse dormido melhor do que Sarah. Parou na soleira, sem invadir o espaço.

— A reunião é em vinte minutos — disse ela.

— Eu sei.

— Vim saber se você ainda pretende contar.

Sarah olhou para o arquivo.

Depois para ela.

— Pretendo.

Roberta entrou apenas dois passos.

— Pretende ou decidiu?

A pergunta não veio como acusação, mas carregava a memória da noite anterior. O compartimento privado, a verdade revelada parcialmente, a raiva contida, o beijo ainda existindo entre elas como uma chama pequena demais para aquecer e grande demais para apagar.

Sarah fechou o arquivo.

— Decidi.

Roberta sustentou o olhar dela por tempo suficiente para Sarah sentir vontade de se explicar antes mesmo de ser questionada.

— Tudo? — perguntou Roberta.

Sarah sentiu a palavra como peso.

Tudo.

O protocolo. A ordem original. A autorização de contenção orbital. O papel de Roberta como contrapeso. A mentira de Keller. A mensagem mais recente da Terra exigindo classificação de risco e estimativa de viabilidade de extração neural. A transmissão de Sergey. A hesitação dela.

Tudo.

— Sim — respondeu.

Roberta respirou fundo.

Houve alívio no rosto dela.

Não perdão.

Sarah não era tola o bastante para confundir as duas coisas.

— Certo — disse Roberta.

Ela pareceu prestes a sair. Depois parou.

— Sarah.

O nome ainda atingia lugares que patente nenhuma alcançava.

— Sim?

Roberta demorou um instante.

— Quando você contar, não tente transformar sua culpa em argumento. Nem sua culpa, nem Calisto, nem o medo de perder a equipe. Conte a verdade. Só isso.

Sarah ficou imóvel.

Aquilo deveria ter doído.

Doeu.

Mas também parecia uma mão firme impedindo que ela afundasse no próprio padrão.

— Vou tentar.

Roberta sorriu sem alegria.

— Não. Faça.

Sarah sorrio de lado.

— Lia teria gostado de você — disse Roberta, de repente.

Sarah franziu a testa.

— Sua amiga?

— Ela costumava mandar em mim desse jeito quando eu tentava fugir de uma conversa difícil.

— Parece eficiente.

— Irritante também.

O silêncio que veio depois foi menor que os anteriores.

Roberta olhou para o terminal fechado.

— Eu vou estar lá.

Sarah assentiu.

— Eu sei.

— Não para te defender.

— Eu lembro.

— Mas também não para te destruir.

Sarah não respondeu imediatamente, provavelmente porque aquela fosse a frase mais generosa que Roberta poderia oferecer naquele momento. Não perdão. Não absolvição. Apenas a recusa de transformar a verdade em ruína antes mesmo que ela fosse dita.

Roberta deu um passo em sua direção.

Sarah permaneceu sentada, mas algo no corpo dela mudou. Um pequeno tensionar dos ombros, como se tivesse se preparado para uma acusação e encontrado, no lugar dela, uma delicadeza para a qual não tinha defesa.

Roberta estendeu a mão. Não tocou de imediato. Parou entre as duas, oferecendo o gesto como escolha. Sarah olhou para aquela mão por um segundo longo demais. Depois a aceitou. Os dedos de Roberta se fecharam sobre os dela com firmeza suave. Não havia pressa, nem cobrança. Era um aperto pequeno, humano, quase simples demais para o tamanho do que as esperava. E talvez justamente por isso tenha atravessado Sarah com tanta força.

— Você não precisa fazer isso forma perfeita — disse Roberta, baixo. — Só precisa fazer direito.

Sarah soltou uma respiração curta, quase um riso sem humor.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Não. Deveria te lembrar que ainda existe diferença entre erro e escolha.

Sarah ergueu os olhos.

Roberta sustentou o olhar dela por mais um instante. Depois se inclinou devagar e deixou um beijo breve na lateral do rosto de Sarah, perto demais da boca para ser apenas consolo, contido demais para ser fuga.

Sarah fechou os olhos.

O gesto durou pouco.

Mas deixou calor.

Quando Roberta se afastou, ainda segurava sua mão.

— Eu vou estar lá — repetiu. — Com raiva, talvez. Com medo, com certeza. Mas vou estar.

Sarah apertou os dedos dela uma única vez.

— Obrigada.

Roberta assentiu.

Então soltou a mão de Sarah e foi embora antes que qualquer uma das duas tentasse transformar aquele gesto em algo maior do que elas poderiam sustentar naquele momento.

Quando a porta fechou, Sarah permaneceu sentada por alguns segundos, sentindo na pele o lugar exato onde Roberta a havia beijado.

Não era perdão.

Mas era força.

E, naquele instante, força era tudo o que ela tinha.

Depois abriu um novo arquivo.

Não o protocolo.

Seu próprio relatório.

Escreveu apenas três linhas.

À tripulação da Aurora:

A missão oficial que recebemos não era a única missão.

Eu deveria ter contado antes.

Ficou olhando para as palavras, nenhuma delas era suficiente, mas talvez a verdade nunca começasse suficiente.

A sala de análise principal estava cheia quando Sarah chegou.

Mei ocupava uma cadeira lateral com os pés firmemente no chão, o que indicava nervosismo. Asha tinha telas abertas em três camadas diferentes, mas não mexia em nenhuma. Samira estava de pé, braços cruzados, expressão atenta. Sergey permanecia à direita, rígido, o rosto fechado. Roberta sentara-se do outro lado da mesa, perto o bastante para que Sarah pudesse vê-la sem procurar e longe o bastante para que a distância tivesse intenção.

Aurora projetava, no centro, uma imagem de Éden-9 em escala reduzida.

O planeta girava devagar, como se esperasse.

Sarah tomou seu lugar à cabeceira.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Ela não abriu com relatório. Não abriu com dados. Não abriu com protocolo.

— Antes de qualquer nova decisão sobre Éden-9, há informações que eu preciso compartilhar com todos vocês.

A atenção e tensão de todos se virou para ela.

Sarah continuou:

— Quando recebi o comando da Aurora, antes da partida, fui informada de um anexo estratégico restrito. Ele não constava no dossiê oficial da missão e não foi compartilhado com a equipe.

Sergey endireitou-se.

— Anexo estratégico?

Sarah sustentou o olhar dele.

— Sim.

Aurora interrompeu.

Não com alarme alto, com uma mudança imediata nas luzes da sala.

O mapa de Éden-9 piscou.

A imagem orbital, antes estável, apresentou uma oscilação luminosa intensa perto de Aurora Prime. Linhas azuis que circundavam a cidade viva tornaram-se brancas. Depois vermelhas. Depois apagaram em setores irregulares, como se uma parte do planeta tivesse perdido a respiração.

Asha já estava de pé antes que Aurora falasse.

— Isso não estava acontecendo há trinta segundos.

Aurora respondeu:

— Detecto variação sistêmica na biosfera local de Aurora Prime. Oscilações atmosféricas, retração de filamentos superficiais e aumento de atividade eletromagnética no perímetro oeste da comunidade.

Sarah fechou a mão sobre a borda da mesa. Por um instante absurdo, sentiu vontade de rir. A verdade esperara dias para ser dita. Éden-9 não esperaria mais vinte minutos.

— Origem? — perguntou ela.

Asha ampliou os dados.

— Não consigo isolar completamente. A leitura está instável. Mas há um foco perto da zona de pouso do Vega. Não dentro da cidade. No perímetro externo.

Samira aproximou-se.

— Há sinais biológicos?

Aurora respondeu:

— Sim. Alterações simultâneas nos registros da comunidade. Aumento de temperatura local. Desorganização de pulsos vitais em organismos simbióticos. Vários pontos de luz se apagaram nas zonas de cuidado.

Roberta levantou-se.

— Pessoas?

Aurora fez uma pausa pequena demais para ser confortável.

— Indeterminado. Mas a resposta da rede é compatível com sofrimento coletivo.

O corpo de Sarah entrou em modo de comando antes que o medo tivesse tempo de se organizar.

— Iara está respondendo?

Asha tentou abrir canal.

Ruído.

Depois uma voz fragmentada, distante, atravessada por estática e por algo que parecia vento dentro d’água.

— ...Aurora... não... aproximem com... marca...

A imagem falhou.

Roberta aproximou-se da projeção.

— Iara?

A resposta veio quebrada:

— ...não foi ataque... mas Éden reconheceu... forma antiga...

O canal caiu. Forma antiga.

Sarah olhou para Asha.

— Verifique assinaturas humanas no perímetro.

Asha trabalhou rápido.

Camadas de dados se abriram sobre o mapa. Uma marca apareceu perto da zona de pouso.

Pequena.

Técnica.

Humana.

O código de origem fez Sarah sentir o estômago virar antes mesmo que Asha dissesse.

— Capitã — falou Asha, mais baixo —, há um dispositivo ativo próximo ao local de pouso do Vega. Assinatura de segurança da Aurora. Classe: marcador de contenção e evacuação.

Mei virou-se devagar.

— Marcador de quê?

Sergey ficou imóvel demais.

Sarah olhou para ele.

— Você ativou um marcador de contenção?

Ele sustentou o olhar dela, mas a rigidez tinha outra textura agora. Não era desafio. Era a tentativa desesperada de permanecer dentro de uma justificativa.

— Ativei uma baliza passiva de evacuação no último dia em que fiquei no Veja acompanhando a missão. — disse ele. — Sem penetração profunda. Sem coleta. Sem emissão agressiva. O objetivo era estabelecer ponto fixo de retirada caso a comunidade ou o ambiente se rebelassem.

Roberta fechou os olhos por um segundo.

Mei soltou uma palavra baixa demais para ser registrada como oficial, mas clara o bastante para ser compreendida.

Asha encarou Sergey.

— Você colocou um dispositivo de ancoragem em uma rede planetária que já reagiu a tentativas antigas de extração?

— Não era ancoragem de extração e não possuíamos esta informação antes.

— Para você.

A frase de Asha foi seca.

Sergey se voltou para Sarah.

— Capitã, eu considerei necessário na ocasião.

— E decidiu sem autorização.

— A autorização teria sido negada.

O silêncio que veio depois foi perigoso.

Sarah sentiu os olhares sobre ela.

Sentiu, com uma clareza ainda pior, que Sergey havia feito por medo exatamente aquilo que a Terra fazia por ambição: marcar antes de compreender.

— Você entende o que Éden pode ter reconhecido? — perguntou Sarah.

Sergey olhou para o mapa, onde os pulsos ao redor de Aurora Prime continuavam falhando.

— Agora, sim.

A resposta a surpreendeu.

Não havia orgulho nela, havia medo e talvez horror.

— Eu não queria ferir a comunidade — disse ele, mais baixo.

Roberta respondeu antes que Sarah pudesse.

— Talvez seja justamente isso que Éden esteja tentando nos ensinar desde o começo. A intenção importa, mas a forma também. Proteger como quem cerca ainda é cercar.

Sergey recebeu a frase sem rebate e isso, mais do que qualquer confissão, mostrou que algo dentro dele havia se movido, mas não havia tempo para examinar o que.

Aurora interrompeu:

— A instabilidade está aumentando. O marcador parece atuar como ponto de irritação sistêmica. A rede local tenta isolá-lo, mas a assinatura do dispositivo replica padrões de contenção similares aos registros encontrados na estrutura pré-humana.

Asha empalideceu.

— Éden acha que aquilo voltou.

Sarah sentiu uma pressão no peito.

A estrutura antiga. O dispositivo oval. As raízes cortadas. A memória de uma civilização que chamara invasão de pesquisa. Agora, no perímetro de Aurora Prime, um dispositivo terrestre dizia ao planeta: eu também quero fixar você em coordenadas.

— Desativar remotamente — ordenou Sarah.

Asha tentou.

O painel piscou vermelho.

— Não responde. A rede está interferindo no sinal. Ou o dispositivo entrou em modo autônomo por perda de comunicação.

Sergey deu um passo à frente.

— Posso desativar manualmente.

Sarah olhou para ele.

— Sim. Vai desativar.

Roberta reagiu imediatamente.

— Sarah.

— Nós vamos descer.

Samira se aproximou.

— A comunidade está apresentando sofrimento coletivo. Eu deveria ir.

— Não.

A médica a encarou.

Sarah continuou antes que Samira contestasse:

— Preciso de você na Aurora monitorando efeitos fisiológicos à distância. Se isso estiver relacionado a resposta psíquica ou neurobiológica, alguém precisa acompanhar daqui, com acesso aos registros completos e sem exposição direta.

— Posso fazer isso de lá.

— E se todos ficarmos presos lá embaixo?

Samira fechou a boca.

A pergunta ficou suspensa.

Sarah olhou para Asha.

— Você também fica.

Asha abriu a boca.

— Capitã, eu posso ajudar com o dispositivo.

— De órbita, sim. Preciso de você mantendo canal, bloqueando qualquer transmissão automática para a Terra e impedindo que a Aurora tente compensar a interferência com algum protocolo que pareça agressivo.

Aurora falou, em tom quase ofendido:

— Registro que aprendi com os últimos eventos e reduzi significativamente minha tendência a soluções operacionalmente elegantes e eticamente questionáveis.

Mei ergueu a mão.

— Isso é lindo, Aurora. Mas também é assustador.

— As duas avaliações são compatíveis.

Sarah ignorou o comentário.

— Mei pilota. Roberta comigo. Sergey vai desativar o marcador manualmente.

Roberta olhou para Sarah.

Havia medo nos olhos dela.

— E se Éden reagir a ele?

Sarah sustentou o olhar de Roberta.

— Então eu estarei lá.

— Essa resposta não me tranquiliza.

— Está não foi bem a intenção, mas precisamos tentar.

Roberta se aproximou um passo, o suficiente para que o restante da sala entendesse que aquela preocupação não era apenas científica.

Sarah sentiu o calor do olhar dela.

Lembrou do abrigo.

Da boca dela.

Da frase no compartimento privado: não me faça parecer ingênua por confiar em você.

— Sarah — disse Roberta, mais baixo —, o planeta também vai reagir ao que você carrega.

A sala ficou silenciosa.

Sergey olhou de uma para a outra.

Samira também.

Asha baixou os olhos para os próprios painéis, como se escolhesse não registrar o que acabara de entender.

Sarah não podia responder sem abrir a verdade ali, aos pedaços, no meio de uma emergência.

E a emergência não permitiria uma revelação digna.

— Eu sei — disse apenas.

Roberta endureceu.

Não por raiva.

Por compreensão.

Aurora interrompeu:

— A instabilidade atingirá nível crítico em vinte e dois minutos, considerando progressão atual.

Sarah respirou fundo.

— Todos aos postos.

A reunião da verdade terminou antes de começar.

E, quando Sarah deixou a sala de análise, sentiu que havia falhado duas vezes: como capitã, por não ter contado a tempo; como mulher, por ver nos olhos de Roberta que a paciência dela tinha limites.

O caminho até o hangar foi rápido.

Mei já corria diagnósticos no Vega quando Sarah chegou. O módulo de descida estava preparado para pouso emergencial, com sistemas de contenção reduzidos ao mínimo. Dessa vez, Sarah fez questão de revisar cada item.

Nada de drones de varredura profunda, ancoragem ou marcação automática. Nada que pudesse parecer ao planeta a mão antiga voltando com outro nome.

Sergey entrou no módulo carregando apenas ferramentas de desativação e um kit de segurança não letal. Sarah o observou guardar o equipamento.

— Sem armas.

Ele olhou para ela.

— Capitã, se a rede reagir fisicamente...

— Sem armas.

O silêncio entre eles durou dois segundos.

Sergey retirou o dispositivo de contenção da cintura e o colocou no compartimento de segurança do hangar.

— Sim, capitã.

Dessa vez, a obediência não pareceu limpa.

Pareceu difícil.

Melhor assim.

Roberta entrou por último, levando sensores biológicos leves e um pequeno transmissor de baixa emissão.

— Iara pode não deixar a gente chegar perto.

— Vamos pedir — disse Sarah.

Roberta olhou para ela.

— Antes de agir?

Sarah aceitou a lâmina.

— Antes de agir.

O Vega se soltou da Aurora cinco minutos depois. A descida foi mais turbulenta do que qualquer uma das anteriores. Não havia tempestade visível de início, mas a atmosfera parecia irregular, como se bolsões de pressão se formassem e desaparecessem ao redor do módulo. Mei pilotava com os dentes cerrados, todo humor concentrado nas mãos.

— Eu oficialmente retiro qualquer saudade que senti de pilotar até esse planeta.

Asha respondeu pelo canal:

— A trajetória está desviando três graus a oeste.

— É, eu percebi.

— Agora cinco.

— Eu sei mais intensamente.

Aurora acrescentou:

— Recomendo redução de emissão do motor auxiliar esquerdo. A rede atmosférica parece reagir à assinatura térmica.

Mei fez o ajuste.

O módulo estabilizou por dois segundos.

Depois tremeu de novo.

Sergey estava sentado à direita, mãos fechadas sobre os joelhos. Não olhava para Roberta. Não olhava para Sarah. Olhava para a projeção do marcador, como se pudesse desativá-lo pela força da culpa.

Roberta, atrás de Sarah, permanecia em silêncio.

Esse silêncio doía mais do que qualquer acusação.

— Aurora Prime está respondendo? — perguntou Sarah.

Asha respondeu:

— Parcialmente. Iara enviou apenas uma frase.

O áudio entrou com ruído.

A voz de Iara parecia cansada, distante e imensa ao mesmo tempo:

— Venham sem posse. Venham rápido.

A transmissão terminou.

Sarah fechou os olhos por um segundo.

— Mei, zona de pouso.

— A mesma clareira?

Asha respondeu antes:

— Negativo. A clareira principal está coberta por crescimento rápido de raízes. O Vega não conseguirá pousar sem danificar a superfície.

Roberta inclinou-se para frente.

— Éden fechou o pouso antigo.

— Ou está protegendo a região do marcador — disse Sergey.

A frase saiu baixa.

Não defensiva.

Sarah olhou para ele.

Sergey continuou encarando a projeção.

— Há uma faixa livre a duzentos metros a sul — disse Asha. — Instável, mas possível.

Mei soltou uma risada seca.

— Instável, mas possível. Meu epitáfio profissional.

— Faça — ordenou Sarah.

A aproximação final foi quase vertical.

O Vega desceu entre colunas de árvores que se afastavam apenas o necessário, como se a floresta permitisse a passagem sem conceder confiança. As luzes no solo não acenderam em boas-vindas. Elas piscavam fracas, interrompidas, como um pulso irregular.

Roberta levou a mão ao próprio peito.

Sarah percebeu pelo reflexo no vidro.

— O que foi?

— Parece dor.

Ninguém respondeu.

O Vega tocou o solo com um impacto mais forte do que Mei gostaria. Alarmes amarelos acenderam, mas não houve dano estrutural.

— Pouso concluído — disse Mei. — Módulo inteiro.

Sarah soltou o cinto.

— Asha, Samira, canal aberto.

A voz de Samira veio primeiro:

— Estou recebendo sinais vitais. Todos estáveis. Mas há interferência nos sensores dérmicos. Capitã, evite exposição prolongada.

— Entendido.

Asha completou:

— O marcador está a trezentos e quarenta metros a noroeste. Mas o mapa está... mudando.

— Defina mudando — disse Mei.

— Gostaria muito de poder.

Sarah abriu a escotilha.

O ar de Éden-9 entrou diferente.

Mais frio e denso. Não havia perfume floral, nem umidade acolhedora, nem aquele cheiro mineral vivo que Roberta descrevera como “um planeta respirando perto demais”. Havia algo metálico, amargo, quase elétrico.

Do lado de fora, a floresta estava recolhida.

As folhas prateadas tinham fechado suas faces luminosas. Pequenos animais permaneciam imóveis nos galhos, como se fingissem ser parte da madeira. Filamentos no solo se retraíam quando a luz dos trajes tocava neles.

Roberta desceu primeiro depois de Sarah.

A expressão dela mudou imediatamente.

— Não é raiva.

Sarah olhou para ela.

— O quê?

— Isso aqui. Não parece raiva.

Roberta ajoelhou-se, sem tocar o solo.

— Parece pânico.

A palavra atingiu Sergey.

Sarah viu.

Ele desceu por último, carregando o kit de desativação. Ao pisar no solo, as luzes próximas se apagaram.

Não todas.

Apenas as próximas a ele.

O rosto de Sergey perdeu cor.

— Eu não sabia — disse.

Ninguém respondeu.

Porque não havia resposta útil.

A trilha até o marcador não acendeu. Dessa vez, Éden-9 não mostraria o caminho ou talvez mostrasse de outra forma.

Raízes começaram a se mover lentamente à frente delas, não abrindo passagem, mas fechando rotas erradas. Roberta observou o movimento por alguns segundos.

— Por aqui.

Sarah não perguntou se ela tinha certeza.

Seguiram.

Mei ficou junto ao Vega, como Sarah ordenara, mas a cada poucos passos a voz dela vinha pelo comunicador, tentando disfarçar tensão.

— Só para constar, o Vega está sendo encarado por três árvores e um bicho que parece uma toalha molhada com intenções.

Aurora respondeu da nave:

— Intenções indefinidas não devem ser subestimadas.

— Obrigada, consciência artificial da alegria.

O humor ajudava.

Pouco.

Mas ajudava.

A aproximação ao marcador foi pior a cada metro.

O solo vibrava em intervalos irregulares. Não como o pulso acolhedor que Sarah sentira com Liora. Aquilo era espasmo. Um organismo tentando expulsar algo sem saber como não se ferir no processo.

Roberta começou a suar.

Sarah percebeu.

— Você está bem?

— Estou.

A mentira era fraca.

Samira teria odiado.

— Roberta.

— Eu estou sentindo muita coisa. Mas ainda consigo separar.

— Separar o quê?

Roberta olhou para Sergey.

— O medo dele do medo do planeta.

Sergey ouviu.

Os ombros dele se curvaram quase nada.

Continuaram.

Encontraram o marcador em uma pequena clareira que não existia antes.

Ou que havia sido aberta à força.

O dispositivo estava preso ao solo por três hastes finas de estabilização. Não eram profundas, segundo qualquer padrão humano. Talvez trinta centímetros. Quase nada, mas ao redor delas a terra escura estava cinzenta.

Raízes luminosas se contorciam afastadas do metal, como pele ao redor de uma queimadura. Pequenos filamentos tentavam cobrir o dispositivo e recuavam em seguida. A luz local falhava cada vez que a baliza emitia seu pulso silencioso de localização.

Sarah sentiu enjoo. Não pelo objeto em si, mas pelo que ele representava. Uma coisa pequena podia carregar uma intenção enorme.

Sergey deu um passo à frente. As raízes ao redor reagiram. Um brilho branco cortou o solo como relâmpago subterrâneo.

Roberta segurou o braço dele.

— Espere.

Ele parou.

A mão dela permaneceu ali por um segundo.

— Peça — disse Roberta.

Sergey olhou para ela.

— O quê?

— Peça permissão para se aproximar.

A frase pareceu absurda.

Sergey olhou para Sarah.

Sarah não o salvou do desconforto.

— Faça — disse ela.

O homem virou-se para o solo ferido. Por um instante, pareceu incapaz de falar, então respirou.

— Eu preciso desligar isso — disse, a voz rígida, mas baixa. — Eu coloquei aqui. Eu não compreendia antes. Quero remover.

Nada aconteceu.

Roberta fechou os olhos.

— Não fale como relatório.

Sergey apertou a mandíbula.

— Eu tive medo.

O solo pulsou.

Sarah sentiu a vibração subir pelas botas.

Sergey continuou, mais devagar:

— Eu quis garantir uma saída. Para a equipe. Para a capitã. Para... todos. Mas fiz como sempre faço. Marquei o território antes de perguntar se havia alguém nele.

As raízes próximas deixaram de se retrair. Não avançaram, mas pararam de fugir.

Roberta soltou o braço dele.

— Agora.

Sergey ajoelhou-se.

Abriu o kit.

As mãos dele tremiam.

Sarah nunca tinha visto Sergey tremer.

Ele conectou a ferramenta ao painel lateral do marcador. A baliza respondeu com uma luz vermelha. O solo reagiu imediatamente, emitindo um pulso branco que fez Sarah levar a mão à parede de uma árvore para não perder o equilíbrio.

Roberta gem*u baixo.

— Rápido.

Sergey trabalhou.

— O sistema entrou em bloqueio autônomo. Preciso cortar alimentação interna.

— Tempo? — perguntou Sarah.

— Dois minutos.

Asha entrou pelo canal:

— Capitã, a rede está intensificando. Estou perdendo leitura do Vega.

Mei respondeu quase ao mesmo tempo:

— Confirmo. E, só para aumentar o clima, raízes estão começando a subir pelo trem de pouso.

Sarah virou-se.

A distância impedia visão direta do módulo.

— Mei, decole se precisar.

— Negativo.

— Isso foi uma ordem.

— O trem de pouso está preso. Decolagem agora arrancaria metade do sistema ou metade da floresta. Nenhuma das opções me parece interessante capitã.

Sarah fechou os olhos por um segundo.

O Vega preso.

A equipe no solo.

A reunião adiada.

A verdade ainda não dita.

Éden-9 fechando as rotas.

— Asha, tente sincronizar com o sistema do Vega e impedir travamento total.

— Tentando.

Aurora acrescentou:

— Capitã, a ancoragem orgânica ao redor do Vega parece intencionalmente restritiva, não destrutiva. O planeta está impedindo saída, não atacando a nave.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Estatisticamente, sim.

Sergey removeu a tampa do marcador.

A luz vermelha ficou mais intensa.

— Consegui acesso.

Roberta deu um passo atrás.

— Sarah...

A voz dela mudou.

Sarah virou-se.

Roberta olhava para ela, não para o dispositivo.

— O que foi?

— Ele está puxando.

— O marcador?

— Não.

Roberta levou a mão ao peito.

— Éden.

O solo inteiro pulsou.

Dessa vez, Sarah sentiu não pelas botas, mas por dentro.

Uma vibração subiu pelas pernas, atravessou o abdômen, chegou ao peito e parou atrás dos olhos. A floresta desapareceu por meio segundo.

No lugar dela, um corredor vermelho.

Calisto.

Sarah cambaleou.

Roberta a segurou.

— Sarah!

A imagem sumiu.

A floresta voltou.

Sergey também estava ajoelhado, uma das mãos no chão, o rosto pálido, os olhos perdidos em algum ponto que não existia ali.

— Mikhail? — murmurou ele.

Roberta olhou de Sarah para Sergey. O horror no rosto dela foi imediato.

— Não.

Sarah tentou se recompor.

— Sergey, desligue.

Ele parecia não ouvi-la.

— Mikhail, saia daí.

— Sergey! — gritou Sarah.

Ele piscou. Voltou por um segundo, o suficiente para puxar o núcleo de energia do marcador.

A baliza apagou.

O silêncio que veio depois foi pior do que o pulso.

O solo parou de tremer. As raízes avançaram sobre o dispositivo desligado, cobrindo-o com rapidez, não como agressão, mas como contenção. A clareira inteira escureceu. Depois uma luz azul muito fraca começou a subir em volta das hastes, isolando o metal.

— Marcador desativado — disse Sergey.

A voz dele estava quebrada.

Sarah assentiu, mas o mundo inclinou um pouco.

Roberta segurou-a outra vez.

— Você está queimando.

— Estou bem.

— Não minta para mim agora.

Sarah tentou responder.

Não conseguiu.

O comunicador voltou com a voz de Samira, tensa:

— Capitã, seus sinais vitais dispararam. Sergey também. Temperatura em elevação, atividade neural anômala, resposta autonômica extrema. O que aconteceu?

Roberta respondeu antes:

— Alguma coisa atingiu os dois.

— Retornem ao Vega imediatamente.

Mei entrou no canal:

— Pequeno problema: Vega continua preso em uma decoração botânica agressiva.

Asha falou logo depois:

— Aurora Prime está enviando sinal. Iara pede que levem Sarah e Sergey para a comunidade. Ela diz que eles não devem voltar à nave agora.

Sarah tentou se endireitar.

— Negativo.

Roberta a encarou.

— Sarah.

— Temos que voltar ao Vega.

— O Vega está preso.

— Então liberamos.

— Você mal está em pé.

Sarah olhou para Sergey.

Ele também tentava levantar, mas falhou na primeira tentativa. O homem enorme, sempre feito de estrutura, parecia ter envelhecido anos em dois minutos.

A voz de Iara atravessou o comunicador, surpreendentemente clara:

— Não tragam o metal para longe. Não agora. Tragam os que foram tocados.

Sarah odiou não entender.

Odiou mais ainda saber que Iara provavelmente entendia.

Roberta segurava seu braço com força.

— Vamos para Aurora Prime.

Sarah olhou para ela.

O rosto de Roberta estava assustado, mas firme.

— Isso não é uma sugestão — disse Roberta.

Sarah quase teria sorrido, se o corredor de Calisto não tivesse piscado outra vez na borda de sua visão.

Porta oito.

Luz vermelha.

Uma voz dizendo seu nome.

Sarah fechou os olhos.

Quando abriu, Éden-9 estava ali, mas menos sólido.

— Mei — chamou ela.

— Oi, capitã. Péssima hora para desmaios heroicos, só avisando.

— Fique com o Vega. Não tente decolar.

— Finalmente uma ordem compatível com a realidade.

— Asha, Samira, mantenham monitoramento. Nenhuma transmissão para a Terra. Nenhum protocolo automático.

Samira respondeu:

— Sarah, você precisa de intervenção médica.

— Então me mantenha viva pelo canal.

— Essa frase é médica e pessoalmente ofensiva.

Roberta passou o braço de Sarah sobre os ombros.

Sergey conseguiu levantar com dificuldade. Tentou recusar ajuda quando Roberta estendeu a mão, mas desistiu antes de transformar orgulho em queda. Aceitou apoio dela por um segundo. Depois Sarah indicou que ele se apoiasse em uma raiz mais grossa, que permaneceu imóvel sob a mão dele.

A floresta abriu uma trilha.

Não luminosa como antes.

Escura.

Protegida.

Como se conduzisse não visitantes, mas feridos.

Enquanto caminhavam, Sarah sentiu as imagens voltarem em ondas.

Calisto.

Éden.

O marcador.

A estrutura antiga.

Roberta no abrigo.

Rhee olhando pela câmera do setor C.

O relógio do pai no pulso.

O chão de Éden vibrando como uma pergunta que não aceitava mais ser adiada.

Você ainda está segurando a porta?

Sarah tropeçou.

Roberta a segurou contra o próprio corpo.

— Fica comigo — pediu Roberta, a voz baixa e urgente.

Sarah tentou responder.

O nome de Roberta veio à boca, mas outra voz atravessou a memória.

Não era Roberta.

Não era Aurora.

Era Calisto.

Ela ergueu os olhos para a trilha, mas por um instante viu a porta oito no lugar das árvores.

Do outro lado, alguém batia.

A cidade de Aurora Prime apareceu adiante, envolta em luz baixa. Iara esperava na entrada com várias cuidadoras. Samira falava pelo comunicador, exigindo leituras, instruções, acesso a dados. Asha tentava manter todos os canais. Mei repetia que o Vega estava preso, mas inteiro.

Tudo acontecia ao mesmo tempo.

E Sarah começava a se afastar de tudo.

Iara aproximou-se.

Olhou primeiro para Sergey.

Depois para Sarah.

Seu rosto não demonstrou surpresa.

Apenas uma tristeza antiga demais.

— A Febre de Eco — disse ela.

Roberta ficou imóvel.

— Vocês conhecem isso?

— Sim.

— Como curamos?

Iara olhou para Sarah, que mal conseguia manter os olhos abertos.

— Fazemos o que pode ser feito.

— E o resto?

A pergunta de Roberta saiu quase como súplica.

Iara demorou um segundo.

— O resto é com eles.

Sarah quis dizer que não havia tempo para rituais, que precisavam de análise médica, que a equipe deveria retornar, que a verdade ainda precisava ser contada.

Mas a voz não saiu.

O mundo inclinou.

Roberta chamou seu nome.

Sarah sentiu a mão dela em seu rosto, quente, real, desesperada.

Depois a luz de Éden-9 se apagou.

E Calisto abriu a porta.

Fim do capítulo


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