A Febre de Eco
Roberta Almeida
Roberta já havia sentido medo em Éden-9.
Sentira quando a floresta acendeu pela primeira vez ao redor do Vega. Quando Naya olhou para Sarah e falou de uma ordem escondida. Quando o lago escuro lhe devolveu a voz da avó como se a memória fosse água atravessando raízes. Quando beijou Sarah em uma tempestade viva e percebeu que algumas fronteiras, depois de atravessadas, não voltavam a ser exatamente fronteiras.
Mas nada daquilo se parecia com o medo de vê-la cair.
Sarah não caiu de uma vez.
Isso talvez tornasse pior.
Primeiro, o olhar dela se perdeu por meio segundo, como se a trilha à frente tivesse sido substituída por outro lugar. Depois, a respiração falhou. O corpo, sempre tão firme, tão controlado, tão irritantemente capaz de parecer inteiro mesmo quando o mundo se partia ao redor, perdeu o eixo. Roberta a segurou antes que os joelhos tocassem o chão.
— Fica comigo — pediu.
Sarah tentou responder.
O nome de Roberta pareceu formar-se na boca dela, mas não saiu inteiro. Os olhos claros da capitã estavam abertos, mas já não pertenciam totalmente a Éden-9. Olhavam algo atrás de Roberta, talvez através dela.
— Sarah.
A pele dela estava quente demais.
Não febril como uma infecção comum. Era outro tipo de calor. Um calor seco, irregular, que parecia vir de dentro do sistema nervoso. Sob a pele da têmpora, Roberta viu um lampejo azul muito tênue, quase uma ilusão. Depois outro, no pulso, perto do relógio antigo. Pequenos pontos de luz surgiram e desapareceram como se algo tentasse ler Sarah por dentro e encontrasse uma parede de metal, culpa e sangue antigo.
Ao lado delas, Sergey também oscilou.
O homem enorme agarrou uma raiz para não cair. O rosto estava pálido, os olhos arregalados, fixos em uma imagem que ninguém mais via.
— Mikhail — murmurou.
Roberta sentiu o estômago afundar.
— Sergey, olhe para mim.
Ele não olhou.
— Mikhail, não entra aí.
A voz dele, antes tão rígida, saiu quebrada de um jeito que Roberta nunca teria imaginado ouvir.
Sarah respirou com dificuldade.
— Porta... oito...
Roberta fechou os olhos por uma fração de segundo.
Não.
Não agora.
Não assim.
A voz de Samira veio pelo comunicador, recortada por interferência:
— Roberta, preciso de dados. Temperatura, responsividade, pupilas.
Roberta ativou o scanner portátil com uma mão enquanto mantinha Sarah apoiada com a outra.
— Sarah está febril, mas não é padrão infeccioso. Pupilas reativas, mas instáveis. Atividade neural elevada. Ela está alternando consciência. Sergey também. Ele está preso em uma memória do filho.
— Frequência cardíaca?
— Alta demais.
— Das duas?
Roberta olhou para o próprio painel e percebeu que Samira tinha acesso aos sinais dela também.
— A minha não importa agora.
— Importa se você desmaiar segurando a capitã.
Roberta engoliu uma resposta atravessada.
Samira continuou:
— Leve-os para Aurora Prime. Iara disse que a comunidade conhece o quadro. Não tentem voltar ao Vega.
— O Vega está preso.
— Eu sei. Mei está me informando com muitos adjetivos.
A voz de Mei entrou ao fundo, pelo canal aberto:
— Eu estou presa dentro de um vaso interplanetário, doutora. Tenho direito aos adjetivos.
Roberta quase riu, mas Sarah gem*u baixo, e o som atravessou tudo.
A trilha que se abriu diante delas não era luminosa como as outras. Era escura e estreita, cercada por raízes que se erguiam dos dois lados como costelas de um animal antigo. Não parecia convite. Parecia contenção, proteção, urgência.
Iara esperava na entrada de Aurora Prime com três cuidadoras.
Naya estava ao lado dela.
O rosto da jovem perdeu parte da serenidade ao ver Sarah apoiada em Roberta e Sergey cambaleando atrás delas.
— A Febre de Eco — disse Iara.
Roberta sentiu a frase bater como diagnóstico e sentença.
— O que é isso?
Iara aproximou-se de Sarah e tocou o ar perto do rosto dela, sem encostar.
— Quando Éden tenta conter uma intenção invasiva, às vezes encontra dentro da pessoa algo que vibra no mesmo tom. Culpa. Medo. Posse. Memória não resolvida. A rede puxa esse material para a superfície.
— Puxa para quê?
— Para reconhecer. Para isolar. Para impedir que se espalhe.
Roberta olhou para Sarah.
— Ela não ativou o marcador.
— Não — disse Iara.
— Então por que ela?
Iara encarou Roberta com uma tristeza que não tentava suavizar.
— Porque ela também carrega uma ordem de contenção.
Roberta ficou imóvel.
A frase não surpreendeu.
Não de verdade.
Mas ouvi-la ali, com Sarah ardendo em seus braços, com Éden-9 tremendo ao redor e a comunidade recolhida como um organismo ferido, foi diferente de desconfiar em silêncio.
— Ela ia contar — disse Roberta.
Não sabia se defendia Sarah ou se tentava se defender de ter confiado nela.
Iara não discutiu.
— Talvez. Mas Éden não mede promessas. Mede o que já está vibrando.
A crueldade da frase era sua precisão.
Sergey caiu de joelhos.
Duas cuidadoras foram até ele. Ele tentou afastá-las por reflexo, mas não tinha força para transformar medo em defesa. Naya se aproximou, ajoelhando-se diante dele.
— Você está em dois lugares — disse ela.
Sergey respirava como se estivesse correndo.
— Meu filho...
— Ele não está aqui.
— Eu sei.
Mas seu rosto dizia que não sabia.
Uma das cuidadoras tocou uma raiz baixa. A superfície se abriu em luz azulada, criando um círculo ao redor dele. Sergey tentou levantar, mas a luz subiu em fios finos, não o prendendo como corda, e sim delimitando um espaço.
— Não o amarrem — pediu Roberta, instintiva.
Naya olhou para ela.
— Não estamos prendendo. Estamos impedindo que ele se perca para fora do corpo.
Roberta não teve resposta.
Sarah pesou mais contra ela.
— Preciso de ajuda!
Iara fez um gesto.
As cuidadoras conduziram Sarah para dentro de uma estrutura baixa próxima ao núcleo de cuidado. Roberta não largou a mão dela. Não perguntou se podia entrar. Entrou.
O espaço parecia uma enfermaria apenas se Roberta forçasse muito a comparação. Não havia macas metálicas nem monitores suspensos. Havia superfícies vivas, largas e baixas, formadas por raízes lisas, cobertas por membranas claras que se ajustavam ao corpo sem prendê-lo. Havia água correndo por canais estreitos nas paredes. Havia flores abertas como pequenas lâmpadas, emitindo luz quente. Havia mulheres e homens trabalhando em silêncio, cada gesto acompanhado por um pulso discreto do chão.
Sarah foi deitada sobre uma das superfícies.
A membrana se moldou às costas dela, elevando levemente a cabeça e os ombros. O relógio antigo no pulso esquerdo piscou sob a luz viva, metal terrestre contra tecido planetário.
Roberta segurou aquela mão.
— Sarah, me ouve?
Os olhos de Sarah se moveram sob as pálpebras.
— Não fecha...
— O quê?
— Não fecha a porta.
Roberta sentiu a garganta apertar.
— Sarah, não é Calisto.
O corpo dela tremeu.
Iara observava do outro lado.
— Não diga isso.
Roberta levantou o olhar, furiosa.
— Como assim?
— Para ela, agora, é.
— Mas não é real.
— É real dentro dela. Negar só a deixa mais sozinha no lugar onde está.
Roberta sentiu a raiva subir com força.
— Então o que eu faço? Deixo ela sofrer?
Uma das cuidadoras mais velhas aproximou-se. Tinha pele escura, olhos muito claros e marcas luminosas descendo do pescoço até as mãos.
— Você fica — disse ela.
Roberta soltou uma risada amarga.
— Esse é o tratamento?
— Às vezes, é o começo dele.
Samira entrou pelo comunicador, com chiado:
— Roberta, estou recebendo os dados. A atividade neural de Sarah está semelhante a um episódio dissociativo profundo, mas há padrões externos sincronizados com a biosfera. Eu não consigo interromper isso daqui.
— Então me diga o que fazer daí.
Silêncio.
Roberta ouviu Samira respirar do outro lado.
— Eu consigo orientar suporte físico. Hidratação, temperatura, controle cardíaco, redução de estímulos. Mas a parte neural... Roberta, eu não tenho instrumento para isso.
A confissão de Samira foi quase pior do que a febre.
Samira sempre tinha algo.
Um protocolo, uma hipótese, uma droga, uma medição, uma ressalva. Ou, pelo menos, uma frase seca o bastante para impedir que o pânico crescesse.
Dessa vez, só havia verdade.
— O que vocês fazem? — perguntou Roberta a Iara.
Iara tocou a superfície viva ao lado de Sarah.
— Reduzimos o ruído. Mantemos o corpo ancorado. Chamamos a pessoa pelo que ela ainda pode reconhecer. Impedimos que Éden toque fundo demais. O restante é atravessar.
— Atravessar o quê?
— O que ela trouxe fechado.
Roberta olhou para Sarah.
Fechada.
Sim.
Sarah era feita de portas fechadas com aparência de disciplina.
— E se ela não conseguir?
Ninguém respondeu rápido demais.
Roberta entendeu.
— Quantos morreram disso?
Naya desviou os olhos.
A cuidadora mais velha respondeu:
— No início, muitos.
O mundo pareceu se estreitar em volta de Roberta.
— Não.
A palavra saiu antes do pensamento.
Iara sustentou o olhar dela.
— Hoje conhecemos melhor o mal. Nem todos morrem. A maioria retorna. Mas ninguém retorna igual.
— Ótimo. Excelente. Fico aliviada com a estatística poética.
A voz de Roberta quebrou no fim.
Iara não se ofendeu.
— Raiva também é uma forma de não cair.
Roberta queria gritar.
Queria sacudir Éden-9 inteiro pelos ombros, se um planeta tivesse ombros. Queria exigir que aquilo que aprendera a responder a música, intenção, memória e cuidado respondesse agora ao seu pedido mais simples.
Salva ela.
Mas Éden-9 não era deus.
Esse talvez fosse o horror.
E também a honestidade.
O planeta podia guardar mortos, devolver lembranças, criar caminhos, fechar florestas, ensinar crianças a ouvir antes da linguagem, mas não podia impedir toda dor. Ou não queria. Ou compreendia dor de um modo que Roberta ainda não tinha idioma para aceitar.
Sarah arqueou o corpo sobre a superfície viva.
— Rhee!
Roberta apertou a mão dela.
— Sarah, estou aqui.
— Rhee, não...
Lágrimas subiram aos olhos de Roberta.
Não por ciúme de uma morta. Não por não ser reconhecida. Mas pela violência de ver Sarah presa em um lugar onde Roberta não podia entrar.
— Quem é Rhee? — perguntou Naya, baixa.
Roberta respirou com dificuldade.
— Uma das pessoas de Calisto. Acho.
Iara fez um gesto para as cuidadoras.
A luz ao redor de Sarah diminuiu, concentrando-se sob a nuca e o peito. Um dos canais de água nas paredes mudou de direção, levando líquido transparente para uma pequena bacia de pedra. A cuidadora molhou os dedos e tocou a testa de Sarah.
Sarah relaxou por dois segundos.
Depois voltou a tremer.
— A febre está subindo — disse Samira pelo canal. — Roberta, preciso que você mantenha a temperatura dela baixa. Se esse padrão continuar, o corpo vai entrar em exaustão.
Roberta soltou a mão de Sarah apenas o suficiente para pegar o pano que Naya lhe entregou.
Molhou-o na água fria, passou pela testa, pelas têmporas, pelo pescoço.
O gesto era ridiculamente pequeno.
Cuidar de alguém à beira de uma tempestade psíquica com um pano molhado parecia absurdo.
Mas o corpo também era isso.
Pele.
Temperatura.
Respiração.
Uma pessoa ainda precisava ser mantida viva enquanto a alma, ou a memória, ou o que quer que Éden tocasse, enfrentava o próprio abismo.
Sergey estava em outra superfície, do outro lado da sala. O corpo dele era grande demais para parecer frágil, mas parecia. Duas cuidadoras mantinham as mãos próximas ao peito dele, sem tocar. Naya permanecia junto dele, falando baixo.
— Diga o nome dele — pediu ela.
Sergey chorava sem som.
Roberta só percebeu pelas lágrimas na lateral do rosto.
— Mikhail.
— Agora diga onde ele está.
— Na Terra.
— Diga de novo.
— Na Terra.
— Diga onde você está.
Sergey demorou.
— Éden-9.
— Diga o que você fez.
Ele fechou os olhos com força.
— Eu marquei o solo.
— Por quê?
— Medo.
— De quê?
Sergey abriu os olhos.
Olhou para o teto vivo como se procurasse nele uma bandeira, um mapa, qualquer coisa que tivesse jurado compreender.
— De não conseguir trazê-los de volta.
Naya permaneceu imóvel.
— Quem?
Sergey não respondeu.
Naya esperou.
A espera de Éden-9 era uma ferramenta afiada.
Por fim, ele disse:
— Todos.
Roberta sentiu algo se partir um pouco na própria raiva.
Sergey havia ferido o planeta.
Sim.
Havia colocado todos em risco.
Sim.
Mas, naquele instante, ele não parecia um antagonista. Parecia um homem que confundira proteção com posse porque ninguém lhe ensinara outra coisa.
Asha entrou pelo canal da sala, voz tensa:
— Roberta, o Vega continua preso, mas está intacto. As raízes bloquearam motores e trem de pouso, sem dano estrutural. Mei está... contrariada, porém segura.
Mei, ao fundo:
— Contrariada é uma classificação covarde.
Asha continuou:
— A cidade está estabilizando parcialmente depois da desativação do marcador, mas os sinais de Sarah e Sergey ainda estão sincronizados com a rede. É como se Éden tivesse removido o objeto externo, mas agora precisasse processar o que ele encontrou nos dois.
Roberta olhou para Sarah.
— Processar.
A palavra era insuportável, uma pessoa não era arquivo, culpa não era dado e trauma não era material bruto para uma consciência planetária reorganizar, mas a transmissão de Iara, décadas antes, já havia dito: Éden preserva, reorganiza, devolve. Às vezes consola. Às vezes tortura sem querer.
Sem querer.
Roberta nunca odiou tanto uma intenção inocente.
— Iara — chamou, a voz baixa.
A mulher se aproximou.
— Sim.
— Fala com ele.
— Com Éden?
— Sim.
— Estamos falando.
— Então fala melhor.
Naya olhou para ela, surpresa.
Roberta levantou-se.
O cansaço, o medo, a raiva e o amor fizeram dela algo sem polidez.
— Vocês dizem que Éden escuta. Que sente intenção. Que sabe o que carregamos. Então ele sabe o que ela carrega por culpa, não por crueldade. Sabe que Sarah não veio aqui para destruir vocês. Sabe que ela está tentando escolher contra a própria ordem. Sabe que ela ia contar.
Iara não a interrompeu.
Roberta sentiu a voz falhar.
— Ele sabe que eu amo essa mulher?
O silêncio que veio depois pareceu atravessar a sala inteira.
Naya baixou os olhos.
Samira, pelo comunicador, ficou muda.
Asha também.
Até Mei, em algum lugar junto ao Vega preso, não fez piada.
Roberta não tinha planejado dizer aquilo.
Talvez ainda nem tivesse dito a si mesma daquele modo.
Mas era tarde.
A palavra estava ali.
Viva.
Exposta.
Sem retorno.
Ela olhou para Sarah, que ardia sobre a superfície viva, perdida em Calisto.
— Porque eu amo — continuou, agora mais baixo. — E eu não atravessei dezoito anos de espaço, uma floresta que escuta, um lago que devolve mortos e uma tempestade que beija pessoas no meio do fim do mundo para perdê-la para uma culpa que ela já pagou mais do que devia.
Iara respirou devagar.
Havia emoção no rosto dela, mas não concessão.
— Éden ouve o seu amor, Roberta.
— Então que ajude.
— Ele está ajudando.
— Isso é ajuda?
Roberta apontou para Sarah.
— Isso é ajuda?
A cuidadora mais velha respondeu antes de Iara:
— Quando uma ferida infecciona, limpar dói.
— Não use metáfora comigo agora.
— Não é metáfora.
Roberta fechou a boca.
A mulher continuou:
— A culpa dela não está apenas lembrada. Está selada. Como tecido morto dentro de corpo vivo. Éden tocou o lugar errado? Talvez. Tocou fundo demais? Talvez. Mas agora que abriu, não podemos simplesmente fechar de novo. Isso a mataria de outro jeito.
Roberta sentiu as pernas fraquejarem.
Sentou-se ao lado de Sarah novamente.
— Então o que falta?
Iara se ajoelhou à sua frente.
— Falta ela encontrar o caminho de volta sem trazer a porta junto.
Sarah murmurou:
— Vinte e sete...
Roberta inclinou-se.
— Sarah?
— Oito.
A voz dela era quase infantil.
— Vinte e sete. Oito. Vinte e sete. Oito.
Roberta segurou sua mão com as duas.
— Você salvou vinte e sete.
Sarah virou o rosto, ainda de olhos fechados.
— Deixei oito.
— Eu sei.
— Eu deixei.
— Eu sei.
Roberta parou.
Lembrou do que Iara dissera.
Não negar, não tirar dela a realidade da memória.
Então mudou.
Aproximou-se do ouvido de Sarah.
— Você deixou oito. E salvou vinte e sete. As duas coisas são verdadeiras. Uma não apaga a outra.
Sarah chorou.
Não como Roberta já havia visto pessoas chorarem. Não com rosto contraído, som, soluço. Uma lágrima apenas escapou de um olho fechado e desceu até a têmpora. Pequena. Quase escondida. Mas, em Sarah, aquilo era uma ruptura sísmica.
A luz sob ela respondeu.
Muito fraca.
Azul.
Depois dourada.
Iara observou.
— Continue.
Roberta sentiu o próprio coração batendo no ouvido.
— Eu não sei o que dizer.
— Diga sem tentar salvá-la da verdade.
Roberta respirou.
— Sarah, você não precisa ficar lá com eles para provar que sente. Você não precisa morrer dentro daquela porta todos os dias para que eles continuem importando.
A mão de Sarah apertou a dela.
Pouco.
Mas apertou.
Roberta quase perdeu o ar.
— Isso. Fica comigo.
Sarah abriu os olhos.
Mas não viu Roberta.
Não ainda.
— Rhee? — sussurrou.
Roberta congelou.
Iara colocou a mão no ombro dela.
— Ela está na borda.
— Na borda do quê?
— De onde precisa ir sozinha.
Sarah olhou para o teto vivo, mas os olhos dela viam outro lugar.
— Eu sinto muito — disse.
Roberta não sabia se era para Rhee, para os oito, para ela, para a equipe, para Éden-9, para si mesma.
Talvez fosse para todos.
A luz ao redor de Sarah diminuiu, o corpo dela relaxou de repente, o scanner de Roberta apitou.
— Samira?
A médica respondeu rápido:
— A febre caiu meio grau. Frequência ainda alta, mas menos errática. Ela entrou em fase profunda.
— Isso é bom?
Samira hesitou.
A hesitação dela era péssima.
— Sinceramente, não sei.
Roberta olhou para Iara.
A mulher assentiu.
— Agora ela está dentro.
— Dentro do quê?
— Da memória que precisa parar de segurá-la.
Do outro lado, Sergey gritou.
Não alto, mas com uma dor tão crua que todos se viraram.
— Eu não sei voltar!
Naya segurava as mãos dele agora. Ele não parecia perceber.
— Sabe sim — disse a jovem.
— Não sem ordem.
— Então escute sem ordem.
Sergey chorava abertamente.
— Eu não sei.
Roberta viu Naya encostar a testa nas mãos dele.
A luz ao redor dos dois mudou, não era o mesmo padrão de Sarah. O de Sarah era profundo, azul, quase submerso.
O de Sergey era branco e vermelho, fragmentado, como uma bandeira rasgada em vento forte.
— Eles estão em lugares diferentes — disse Roberta.
Iara assentiu.
— Feridas diferentes.
— Sarah está em Calisto.
— Sim.
— E Sergey?
Iara olhou para ele.
— Em uma casa que ainda confunde amor com dever.
Roberta sentiu vontade de chorar de novo, não por Sergey exatamente e sim por todos eles. Por uma humanidade inteira criada para transformar medo em fronteira, luto em ordem, amor em prova de utilidade.
A voz de Asha voltou no canal:
— Roberta, a Terra enviou novo pacote de solicitação. Aurora bloqueou antes da abertura completa.
Iara levantou os olhos.
Roberta fechou os punhos.
— Agora não.
Aurora falou pela sala, sua voz transmitida pelo comunicador aberto:
— Concordo. A prioridade atual é estabilização da equipe em solo. Informo também que recusei três tentativas automáticas do sistema terrestre de solicitar atualização estratégica. Usei como justificativa interferência atmosférica.
Mei entrou:
— Você mentiu para a Terra?
— Tecnicamente, omiti que a interferência atmosférica não era o único motivo.
— Estou orgulhosa de você, mas confesso que isso me preocupa.
— Reações apropriadas.
Sarah voltou a murmurar.
Dessa vez, uma frase inteira:
— Não fecha. Tem gente lá.
Roberta apertou a mão dela.
— Eu sei.
— Tem gente lá... Eu dei a ordem.
A luz azul ficou mais intensa.
Roberta sentiu o chão vibrar.
Iara tocou seu braço.
— Ela está chegando ao centro.
Roberta não queria saber o que isso significava.
— Sarah — chamou. — Eu estou aqui. Você está em Éden-9. Você está comigo.
Os olhos de Sarah se abriram de novo e dessa vez, por um segundo, viram Roberta, não totalmente, mas viram.
— Roberta?
O nome saiu quebrado.
Roberta quase desabou de alívio.
— Estou aqui.
— Eu fechei.
— Eu sei.
— Eles estavam olhando para mim.
— Sim.
— Eu não consegui salvar todos.
Roberta encostou a testa na mão de Sarah.
— Ninguém consegue salvar todos.
Sarah tentou responder, mas a luz sob ela subiu de repente, envolvendo o corpo em um brilho profundo. Não machucava, mas separava. Roberta sentiu as cuidadoras se aproximarem, não para afastá-la, mas para sustentar o espaço.
Iara falou baixo:
— Agora, Roberta, ela precisa ouvir outra voz.
— Que voz?
Iara olhou para Sarah.
— A de quem ficou.
O sangue de Roberta esfriou.
— Os mortos?
— Fragmentos. Memória. Eco. Não sabemos nomear melhor.
— Isso pode quebrá-la.
— Ou pode libertá-la.
— Ou matar.
Iara não mentiu.
— Sim.
Roberta soltou a mão de Sarah?
Não.
Não conseguiu.
A luz continuou subindo.
Sarah fechou os olhos.
A respiração ficou mais lenta.
Muito lenta.
Samira falou no canal:
— Roberta, a atividade neural mudou. Está muito organizada. Estranhamente organizada.
— Isso é bom?
— Eu não sei.
Roberta riu, e dessa vez o som saiu quase histérico.
— Alguém nessa sala sabe alguma coisa?
A cuidadora mais velha respondeu:
— Sabemos ficar.
Roberta olhou para ela, aquilo parecia pouco, mas era o necessário, então ficou.
Ficou enquanto Sarah afundava na memória de Calisto. Ficou enquanto Sergey chamava o filho e Naya o ensinava a respirar sem ordem. Ficou enquanto Mei, presa no Vega, fingia irritação para não enlouquecer. Ficou enquanto Asha e Aurora bloqueavam a Terra. Ficou enquanto Samira, longe demais para tocar e perto demais para desistir, mantinha os corpos vivos por dados, voz e teimosia. Ficou enquanto Éden-9, ferido por uma marca humana, tentava não transformar defesa em destruição. Horas se passaram, ou minutos. Roberta perdeu a noção. A cidade de Aurora Prime permaneceu recolhida. As crianças foram levadas para zonas de silêncio. Os animais simbióticos desapareceram entre raízes altas. As luzes das casas vivas diminuíram, não por medo, mas por concentração. Era como se toda a comunidade segurasse uma respiração em torno de dois corpos humanos e das feridas que eles haviam trazido da Terra.
Em algum momento, Iara sentou-se ao lado de Roberta.
— Você deveria beber água.
— Não.
— Essa resposta parece ser uma tradição da Aurora.
Roberta olhou para ela, exausta demais para sorrir.
Iara entregou o copo mesmo assim.
— Beba.
Roberta bebeu.
A água era fria, quase doce, e pareceu acordar partes do corpo que ela havia esquecido.
— Eu disse que amava ela — murmurou Roberta.
Iara olhou para Sarah.
— Sim.
— Ela não ouviu.
— Talvez não com os ouvidos.
Roberta respirou fundo.
— Isso deveria me confortar?
— Não sei.
— Vocês precisam parar de responder assim.
Iara quase sorriu.
— É uma resposta honesta.
Roberta olhou para Sarah.
— Eu tenho medo de ela voltar diferente demais.
— Ela voltará diferente.
O coração de Roberta apertou.
Iara continuou:
— Mas diferente não é sempre perda. Às vezes é a forma que a vida encontra para não continuar doendo do mesmo jeito.
Roberta ficou em silêncio.
Do outro lado da sala, Sergey parecia menos agitado. A febre dele ainda era alta, mas o rosto já não estava preso apenas em pânico. Naya continuava ao lado dele, paciente além da idade. Ou talvez, em Éden-9, idade nunca tivesse sido a medida certa para paciência.
— Ele vai sobreviver? — perguntou Roberta.
— Talvez.
— Iara.
A mulher olhou para ela.
— Eu não darei certeza para acalmar você. Certezas falsas são outra forma de violência.
Roberta fechou os olhos.
— Você é terrível.
— Já me disseram.
Sarah se mexeu.
Roberta largou o copo imediatamente.
A luz ao redor dela mudou outra vez. O azul profundo abriu espaço para um branco quase prateado, delicado e assustador. O corpo dela ficou imóvel demais, mas o rosto perdeu parte da tensão.
— Sarah?
Nenhuma resposta.
Mas a mão dela apertou a de Roberta.
Muito pouco.
O bastante.
Roberta inclinou-se.
— Estou aqui.
A luz se concentrou no peito de Sarah.
Depois no relógio.
O metal antigo vibrou de leve.
Roberta viu, ou achou que viu, reflexos passando pela superfície do mostrador: um corredor vermelho, uma porta fechada, oito sombras, uma mulher de uniforme olhando para Sarah com olhos que não pareciam acusar.
Então tudo se apagou.
A sala ficou escura por um segundo, não completamente, só o bastante para Roberta sentir o coração parar junto.
— Sarah?
Iara levantou-se.
As cuidadoras tocaram o chão.
Asha gritou pelo comunicador:
— Perdi leitura!
Samira:
— Roberta, pulso!
Roberta colocou dois dedos no pescoço de Sarah.
Nada.
Um segundo.
Dois.
Três.
— Não — sussurrou.
Então o pulso voltou.
Forte.
Único.
Como uma porta batendo aberta.
Sarah inspirou com violência., seus olhos se abriram e Roberta percebeu no mesmo instante:
ela não estava de volta.
Ainda não.
O olhar dela atravessou a sala, atravessou Roberta, atravessou Éden-9.
E então Sarah disse, com uma voz que parecia vir de muito longe:
— Rhee está aqui.
Roberta sentiu o mundo parar por dentro.
Iara fechou os olhos.
— Começou.
— O quê? — perguntou Roberta.
A mulher abriu os olhos, e neles havia gravidade, não medo.
— O encontro.
Sarah voltou a fechar os olhos.
A luz prateada subiu ao redor dela como água, Roberta segurou sua mão com as duas, mesmo sabendo que, dali em diante, não poderia acompanhá-la.
O próximo caminho era de Sarah, a porta de Calisto havia se aberto e, do outro lado, alguém a esperava não para condená-la, mas para trazê-la de volta.
Fim do capítulo
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