• Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Cadastro
  • Publicar história
Logo
Login
Cadastrar
  • Home
  • Histórias
    • Recentes
    • Finalizadas
    • Top Listas - Rankings
    • Desafios
    • Degustações
  • Comunidade
    • Autores
    • Membros
  • Promoções
  • Sobre o Lettera
    • Regras do site
    • Ajuda
    • Quem Somos
    • Revista Léssica
    • Wallpapers
    • Notícias
  • Como doar
  • Loja
  • Livros
  • Finalizadas
  • Contato
  • Home
  • Histórias
  • Eden 9 - O mundo que lembrava
  • A porta que não abriu

Info

Membros ativos: 9621
Membros inativos: 1625
Histórias: 2001
Capítulos: 21,178
Palavras: 53,733,402
Autores: 817
Comentários: 109,191
Comentaristas: 2603
Membro recente: Keith Pereira

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Notícias

  • O e-book do Desafio das Imagens do Lettera — Maio de 2026 chegou!
    Em 25/06/2026
  • Desafio das Imagens 2026
    Em 23/04/2026

Categorias

  • Romances (890)
  • Contos (478)
  • Poemas (237)
  • Cronicas (233)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Recentes

  • Entrelinhas de um contrato
    Entrelinhas de um contrato
    Por millah
  • Voce me ensinou a amar(Professora e aluna)
    Voce me ensinou a amar(Professora e aluna)
    Por TrueLovePAa

Redes Sociais

  • Página do Lettera

  • Grupo do Lettera

  • Site Schwinden

Finalizadas

  • Entre Cosmos e Nanquim
    Entre Cosmos e Nanquim
    Por shoegazer
  • Os
    Os meus caminhos
    Por Alaya

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Categorias

  • Romances (890)
  • Contos (478)
  • Poemas (237)
  • Cronicas (233)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

Ver comentários: 0

Ver lista de capítulos

Palavras: 3379
Acessos: 81   |  Postado em: 16/06/2026

Notas iniciais:

Meninas, estes próximos 2 capítulos tem algumas questões psicológicas sobre culpa, luto e processos de confronto interno que podem causar gatilhos ao tema sensivel!

A porta que não abriu

 

Sarah Solano

 

Rhee estava do outro lado da porta.

Sarah soube antes de vê-la.

Não pelo rosto. Não pela voz. Não por algum detalhe específico de uniforme, postura ou respiração. Soube porque a culpa, aquela velha criatura treinada por anos de repetição, reconheceu imediatamente o lugar onde doía mais.

Calisto.

A estação voltou primeiro pelo som.

O alarme agudo, cortando o ar em intervalos regulares. O rangido das placas metálicas sob tensão. O chiado das comunicações falhando. O vapor escapando de uma tubulação rompida. Vozes sobrepostas, todas urgentes, todas humanas, todas exigindo uma decisão que nenhuma pessoa deveria tomar sozinha.

Depois veio à luz.

Vermelha.

Sempre vermelha.

A memória de Calisto era vermelha, cinza e branca. Vermelha dos alarmes. Cinza da fumaça. Branca da radiação nos painéis, subindo em números que, na época, Sarah entendeu antes de aceitar.

Ela estava no corredor principal do setor C.

Não deveria estar ali.

Ela sabia.

Seu corpo estava em Éden-9. Em algum núcleo de cuidado da comunidade. Roberta segurava sua mão. Samira monitorava seus sinais vitais da Aurora. Iara, Naya e as cuidadoras mantinham seu corpo ancorado em algum lugar entre febre, memória e rede viva.

Mas Calisto a havia puxado para dentro.

Ou Éden havia aberto a porta que ela mesma mantinha trancada havia anos.

Sarah olhou para as próprias mãos.

Estavam mais jovens.

Sem as marcas pequenas que a missão Aurora acrescentara. Sem a lembrança tátil da pele de Roberta. Sem a vibração de Éden-9 ainda presa na palma. Usavam luvas de comando da estação, manchadas de fuligem.

No pulso esquerdo, porém, estava o relógio do pai.

Aquilo não pertencia à memória.

Sarah tocou o mostrador.

O ponteiro dos segundos não se movia.

— Não fecha.

A voz veio pelo comunicador.

Sarah congelou.

Não era Roberta.

Não era Aurora.

Não era Iara.

Era Rhee.

A oficial Rhee Tanaka aparecia em uma das telas quebradas na parede do corredor. O rosto estava coberto por interferência, mas Sarah a reconheceu. Reconheceu os olhos estreitos, o corte no supercílio, o cabelo preso às pressas dentro do capacete. Reconheceu o modo como ela tentava manter a voz firme mesmo quando o medo já havia entrado na respiração.

— Solano, não fecha. Estamos na porta.

Sarah deu um passo para trás.

O corredor se alongou diante dela.

No fim, a porta oito.

Fechada.

Aberta.

Fechada.

Aberta.

A memória não decidia em que momento estava, porque Sarah nunca havia decidido em que momento parara de viver.

Tudo aconteceu ao mesmo tempo.

Rhee do outro lado. A radiação subindo. O painel de comando diante dela. As vinte e sete pessoas atrás, esperando evacuação. As oito à frente, ainda no setor comprometido.

— Mais dois minutos — disse outra voz.

Sarah virou-se.

O técnico Madsen estava à esquerda, ajoelhado junto a um painel aberto, tentando estabilizar energia com as mãos tremendo. Ele tinha filhos. Dois. Gêmeos. Sarah sabia porque ele mostrara as fotografias na primeira noite da missão, depois de beber demais e declarar que qualquer pessoa capaz de gerar dois bebês ao mesmo tempo deveria receber adicional de periculosidade.

Agora havia sangue no canto da boca dele.

— Capitã, mais dois minutos.

— Não sou capitã — disse Sarah.

A voz saiu mais baixa do que esperava. No sonho, ou memória, ou febre, ninguém pareceu ouvi-la porque ali ela era o que havia sido naquele dia: a pessoa com a mão sobre o comando.

A pessoa que escolheria.

— Setor C perdeu contenção — disse uma voz pelo canal geral.

A voz de Keller, talvez.

Não. Keller não estava em Calisto.

A memória misturava vozes. Transformava todas em tribunal.

— Radiação em elevação crítica.

— Porta oito instável.

— Se mantiver aberta, perde evacuação principal.

— Ainda tem gente lá dentro.

— Solano, decide.

Sarah fechou os olhos.

Não adiantou.

A porta continuou ali.

Quando os abriu, estava diante do painel de selagem, a mão direita sobre o controle e a esquerda fechada junto ao corpo. Atrás dela, vinte e sete pessoas respiravam em silêncio quebrado. Sarah podia sentir o peso delas, mesmo sem se virar. Vinte e sete corpos vivos. Vinte e sete futuros ainda possíveis. Vinte e sete famílias que não receberiam a notícia final naquele dia.

À frente, oito.

Oito vozes.

Oito nomes.

Oito pares de olhos pela câmera.

Oito segundos eternos.

— Você sabe o que precisa fazer — disse alguém.

Sarah virou a cabeça.

Rhee estava ao lado dela agora.

Não na tela.

No corredor.

Usava o uniforme de Calisto, mas ele não estava queimado, nem rasgado, nem manchado de radiação. Havia fuligem em seu rosto, sim. Havia cansaço. Mas ela parecia inteira de uma forma impossível.

Sarah recuou.

— Você morreu.

Rhee olhou para a porta.

— Sim.

A simplicidade da resposta foi pior do que acusação.

Sarah sentiu a garganta fechar.

— Isso não é real.

— Não do jeito que você quer dizer.

— Éden está fazendo isso.

— Éden abriu a sala. Você trouxe os móveis.

Sarah soltou um riso curto, sem humor, quase uma falha de ar.

— Você não falava assim.

Rhee olhou para ela.

— Você também não falava com planetas conscientes, e veja onde estamos.

A frase tinha algo de Rhee.

Seca.

Quase gentil.

Sarah sentiu o peito apertar de forma insuportável.

— Eu sinto muito.

— Eu sei.

— Não. Você não sabe.

Rhee virou-se para ela.

— Sarah.

O nome veio sem patente.

Como naquela última transmissão.

Sarah sentiu o corredor inclinar.

— Eu ouvi vocês — disse. — Todos esses anos. Eu ouvia vocês batendo. Chamando. Eu ouvia você.

— Eu sei.

— Eu fechei a porta.

— Sim.

Não havia suavização.

Não havia mentira.

Sarah quase preferia ódio.

— Eu... matei vocês.

Rhee ficou em silêncio.

A porta oito piscou ao fundo.

Aberta.

Fechada.

Aberta.

Fechada.

— Você quer que eu diga que não? — perguntou Rhee.

Sarah não respondeu.

— Quer que eu diga que foi só protocolo? Que a estação já estava perdida? Que os níveis de radiação subiram rápido demais? Que você salvou vinte e sete? Que os relatórios estavam certos?

Sarah fechou os punhos.

— Não.

— Mentira.

A palavra bateu forte.

Sarah encarou Rhee.

— Eu não quero absolvição.

— Quer sim. Só que aprendeu a chamar de punição.

Sarah ficou imóvel.

Rhee se aproximou um passo.

— Você passou anos repetindo que não queria ser perdoada. Que não merecia. Que aceitar qualquer paz seria uma traição a nós. Mas isso também é uma forma de querer controle, Sarah.

— Controle?

A raiva veio súbita.

Quente.

Quase viva.

— Eu tinha vinte e sete pessoas atrás de mim, oito à frente e menos de um minuto antes da radiação atravessar a contenção principal. Que controle eu tinha?

— Nenhum.

A resposta desmontou a raiva por um segundo.

Rhee continuou:

— Esse é o ponto.

O corredor tremeu.

Uma luz azul atravessou as paredes vermelhas de Calisto, como raízes de Éden-9 crescendo por dentro da estação morta. Sarah recuou ao ver os filamentos luminosos tocando o metal, envolvendo cabos rompidos, selando rachaduras que nunca existiram ali.

Calisto não pertencia a Éden.

Mas Éden entrava na memória como água entrando em uma sala fechada.

— Para — disse Sarah.

— Não sou eu.

— Então manda parar.

Rhee sorriu com tristeza.

— Eu estou morta. Minha autoridade operacional é limitada.

Sarah riu.

Dessa vez, o som saiu quebrado e absurdo.

A risada virou choro antes de terminar.

Ela cobriu a boca com a mão, como se pudesse impedir a memória de vê-la. Como se os mortos não tivessem direito a essa fraqueza.

Rhee esperou.

Como Roberta esperaria.

O pensamento veio sem autorização.

Roberta.

O nome atravessou Calisto como calor em metal frio.

Por um instante, Sarah sentiu uma mão segurando a sua. Não ali. Em outro lugar. No corpo. Na superfície viva de Éden-9. Sentiu dedos firmes, desesperados, reais.

Fica comigo.

Sarah fechou os olhos.

— Ela está esperando? — perguntou Rhee.

Sarah abriu os olhos devagar.

— Quem?

Rhee apenas a olhou.

Sarah desviou.

— Roberta.

Dizer o nome naquele corredor pareceu uma violação e uma salvação.

— Sim — disse Rhee.

— Ela não deveria estar envolvida nisso.

— Tarde demais pra isso.

Sarah engoliu em seco.

— Eu menti para ela.

— Sim.

— Escondi a ordem.

— Sim.

— Trouxe para Éden-9 algo parecido com aquilo.

Ela apontou para a porta, para a estação, para o painel, para tudo que significava decidir sobre vidas como se o mundo pudesse caber em protocolo.

— Sim — disse Rhee novamente.

Sarah fechou os olhos.

— Você poderia parar de concordar?

— Poderia. Mas você sempre respeitou mais respostas honestas.

Sarah olhou para ela com raiva cansada.

— Eu respeito respostas úteis.

— Então aqui vai uma: você está usando a culpa como abrigo.

Sarah ficou imóvel.

Rhee caminhou até a porta oito. Tocou o metal fechado com a palma da mão.

— Você acha que mora aqui conosco. Que toda noite em que não se permite descansar, todo afeto que recusa, cada alegria que engole antes de nascer, cada vez que transforma comando em penitência, você está nos honrando.

Ela olhou por cima do ombro.

— Não está.

Sarah sentiu a palavra como golpe físico.

— Não fale por todos.

— Alguém precisa. Você nos deixou batendo atrás dessa porta por anos porque, se nos libertasse, teria que viver com o que aconteceu sem transformar isso no centro de tudo que você é.

— Vocês morreram.

— Sim.

— Por minha ordem.

— Sim.

— Então isso é o centro.

Rhee balançou a cabeça.

— Não. É uma parte.

O corredor mudou.

As paredes se afastaram.

A porta oito permaneceu à frente, mas atrás de Sarah surgiu outra imagem: a área de evacuação. Vinte e sete pessoas sentadas no chão, algumas feridas, algumas em choque, algumas chorando, algumas segurando as mãos umas das outras. Sarah lembrava da cena, mas nunca a visitava. Sua memória sempre parava na porta fechada. Nunca continuava para os sobreviventes.

Agora Éden, ou Rhee, ou a própria mente dela, a obrigava a olhar.

Uma mulher abraçada ao irmão.

Um rapaz com o rosto coberto de fuligem, respirando por máscara, vivo.

Madsen não. Madsen ficara.

Mas sua colega, Alvarez, sobrevivera. Sarah viu Alvarez chorando em silêncio, segurando o comunicador quebrado. Anos depois, Sarah soube que Alvarez adotara o filho de Madsen. Ela havia enviado uma mensagem. Sarah nunca respondeu.

Outro sobrevivente tremia contra a parede, vivo.

Uma técnica médica tentava estancar o sangramento de alguém, viva.

Vinte e sete.

Não números.

Pessoas.

Sarah desviou o olhar.

Rhee falou baixo:

— Olhe.

— Não.

— Olhe.

— Eu lembro dos que morreram.

— E usa isso para esquecer os que viveram.

Sarah virou-se para ela, furiosa.

— Como ousa?

— Porque morri lá, Sarah. Ganhei alguma autoridade sobre o assunto.

O silêncio que veio depois foi absoluto.

Sarah sentiu a raiva quebrar.

Não desapareceu.

Quebrou, como gelo sobre água escura.

Rhee se aproximou.

— Você salvou vinte e sete pessoas.

— Deixei oito.

— Sim.

— Não posso trocar uma coisa pela outra.

— Eu não pedi troca.

— Então o quê?

Rhee apontou para a porta.

— Pare de transformar nossa morte em prisão.

Sarah olhou para a porta oito.

O metal estava mais próximo agora. A superfície trazia marcas de batidas. Não eram reais, talvez. Talvez fossem. Na memória, a porta sempre tinha marcas. Nos registros, não havia nenhuma.

— Eu ouvia vocês — sussurrou.

— Não todos os dias.

Sarah ficou imóvel.

Rhee continuou:

— Alguns dias, você ouvia sua própria culpa usando nossas vozes.

— Isso não muda o que aconteceu.

— Não. Mas muda quem está falando com você.

Sarah sentiu a garganta apertar.

— Eu tenho medo de esquecer.

Rhee suavizou.

Pela primeira vez, realmente suavizou.

— Esquecer não é a única alternativa para sofrer.

Sarah fechou os olhos.

A frase entrou devagar.

Como se encontrasse uma parte dela ainda capaz de acreditar em algo que não fosse punição.

O corredor vermelho começou a mudar outra vez. As raízes de Éden-9 atravessaram o chão, mas dessa vez não cobriram Calisto. Apenas tocaram as bordas da memória, como se impedissem que ela desmoronasse sobre Sarah antes que pudesse ser atravessada.

A porta oito abriu.

Sarah recuou imediatamente.

— Não.

Rhee ficou ao lado dela.

— Sim.

— Eu não consigo.

— Consegue.

— Eu não quero ver.

— Você viu por anos. Só nunca deixou que terminasse.

A porta abriu completamente, do outro lado não havia corpos, era isso o que ela esperava. Sarah esperava sangue, queimaduras, rostos acusadores, olhos abertos demais. Esperava a sala exata onde sua mente enterrara os oito. Esperava punição.

Havia luz.

Não branca como radiação.

Prateada.

A mesma luz que Roberta descrevera ao falar do lago.

Fragmentos surgiam dentro dela: uma mão sobre um painel, um capacete no chão, uma fotografia flutuando, uma risada interrompida, um pedido pela mãe, Rhee olhando para a câmera, Madsen dizendo dois minutos, alguém rezando baixo.

Memórias.

Não fantasmas inteiros.

Não absolvição.

Ecos.

Éden-9 não devolvia os mortos como vivos. Isso Iara havia dito. Não era alma, não era imitação simples, não era consolo puro. Era padrão. Impressão. Relação preservada em matéria viva.

Sarah viu os oito como constelação fragmentada.

Cada um incompleto.

Cada um real o bastante para doer.

Rhee entrou primeiro.

Depois virou-se.

— Vem.

Sarah deu um passo, o chão sob seus pés mudou de metal para raiz e a cada passo, ouvia uma voz.

Não fecha.

Mais dois minutos.

Capitã.

Sarah.

Eu estou aqui.

Depois outra voz, mais distante, que não pertencia a Calisto.

Roberta.

— Você não precisa ficar lá com eles para provar que sente.

Sarah parou.

— Ela disse isso?

Rhee sorriu.

— Disse.

Sarah fechou os olhos.

Roberta havia ficado.

Mesmo com raiva.

Mesmo ferida.

Mesmo sabendo que Sarah trouxera a ordem.

Roberta ficou.

A palavra amor surgiu na borda da memória, mas Sarah não conseguiu tocá-la ainda. Era grande demais. Quente demais. Vivo demais para aquele lugar de portas fechadas.

— Ela merece mais do que eu posso dar — disse Sarah.

Rhee suspirou.

— Você sempre tenta transformar amor em avaliação de mérito?

Sarah abriu os olhos, surpresa.

— Eu não...

— Faz isso com tudo. Com comando. Com sobrevivência. Com luto. Com alegria. Como se existir precisasse passar por auditoria.

Sarah quase sorriu.

Quase.

— Você está irritantemente eloquente para um eco.

— Culpe o planeta. Talvez ele tenha melhorado minha capacidade retórica.

A leveza durou pouco, mas existiu e por existir, Sarah sentiu algo dentro dela rachar em outro ponto.

Não de dor, era de abertura.

Ao centro da luz, a porta oito apareceu novamente. Agora não era mais a porta física de Calisto. Era maior. Mais escura. Uma porta construída de todas as vezes que Sarah se recusara a sair daquele dia. Cada recusa, cada noite sem dormir, cada afeto abandonado antes de começar, cada decisão tomada com a crença secreta de que sofrer mais a tornaria mais justa.

Rhee colocou a mão no metal.

— Esta é a porta que você fechou depois.

Sarah entendeu.

A primeira porta salvara vinte e sete e condenara oito.

A segunda não salvara ninguém.

A segunda apenas a mantivera presa.

— Eu não sei abrir — disse Sarah.

— Sabe sim.

— Como?

Rhee olhou para ela.

— Pare de pedir que a porta seja perdão.

Sarah sentiu a respiração falhar.

— O que ela é, então?

— Continuação.

O metal pareceu vibrar.

Sarah tocou o relógio no pulso. O ponteiro dos segundos voltou a se mover.

Um.

Dois.

Três.

Tempo.

Não absolvição.

Tempo.

O pai dizendo que algumas coisas precisavam pesar no corpo para lembrar que o tempo não era só número.

Emma dizendo que ela não era só aquilo que aconteceu em Calisto.

Roberta dizendo que uma coisa não apagava a outra.

Rhee dizendo que os mortos não queriam ser transformados em prisão.

Sarah colocou a mão na porta.

O metal estava quente.

Não pela radiação.

Por vida.

— Eu sinto muito — disse.

A porta não respondeu.

— Eu sinto muito por ter fechado.

O metal vibrou.

— Eu sinto muito por ter sobrevivido e odiado isso em mim.

Rhee permaneceu ao lado dela.

— Eu sinto muito por ter usado vocês para não viver.

A luz prateada ficou mais intensa.

Sarah chorou.

Dessa vez, chorou de verdade.

Não lágrimas solitárias, disciplinadas, aceitas apenas quando ninguém via. Chorou com o corpo inteiro, como se a estação, a nave, o planeta e os anos todos saíssem pelos olhos, pela respiração, pela garganta. A capitã que mantinha a voz firme em emergências impossíveis desapareceu por alguns minutos. Restou uma mulher de pé diante de uma porta, finalmente cansada de chamar autopunição de memória.

Rhee esperou.

Quando Sarah conseguiu respirar, a oficial morta tocou seu ombro.

— Agora diga.

Sarah balançou a cabeça.

— Não.

— Diga.

— Não posso.

— Sarah.

A voz de Rhee endureceu pela primeira vez.

— Diga.

Sarah olhou para a porta.

Depois para os fragmentos dos oito.

Depois para os vinte e sete atrás dela, vivos na memória, sobreviventes que ela havia se recusado a lembrar com a mesma força.

— Eu salvei vinte e sete pessoas — disse.

A frase saiu quase inaudível.

A porta permaneceu fechada.

Rhee esperou.

Sarah respirou.

— Eu deixei oito morrerem.

A porta vibrou.

— As duas coisas são verdadeiras.

A luz atravessou o metal.

Sarah fechou os olhos.

— E eu ainda estou viva.

A porta abriu.

Não de repente.

Não com explosão.

Abriu como algo que esperava há anos por uma mão menos cruel.

Do outro lado, não havia corredor.

Havia Éden-9.

Não a floresta real, nem Aurora Prime, nem o lago. Era uma imagem impossível do planeta inteiro sentido de dentro: rios escuros, árvores prateadas, cidades vivas, animais luminosos, memórias humanas, raízes atravessando pedra, vozes de crianças, chuva na Terra, a estação de Calisto, o relógio do pai, Emma rindo em uma gravação, Roberta cantando para a água.

Tudo conectado.

Tudo sem se confundir.

Sarah sentiu a vastidão tocar sua mente.

Não para possuí-la.

Para mostrar que uma vida podia carregar muitos mortos sem se tornar túmulo.

Rhee deu um passo para trás.

Sarah virou-se.

— Você vem?

Rhee sorriu.

— Eu já fui.

— Então o que é você?

— O que restou quando você parou de gritar por punição e começou a escutar.

Sarah sentiu outra onda de dor.

Mais limpa.

— Eu vou esquecer sua voz?

— Não.

— Vou ouvir você de novo?

— Talvez. Mas espero que não precise doer tanto.

Sarah riu chorando.

Rhee sorriu mais.

— Diga a Roberta que ela tem bom gosto questionável.

Sarah soltou uma risada quebrada.

A primeira em muito tempo que não parecia roubada.

— Ela já deve saber.

— Então diga outra coisa.

Sarah ficou séria.

— O quê?

Rhee olhou para a abertura.

A luz de Éden-9 esperava.

— A verdade.

O chão começou a desaparecer sob os pés de Sarah.

Não como queda, estava mais para retorno.

A porta oito, a estação, os fragmentos, os vinte e sete, os oito, Rhee — tudo começou a afastar-se, não porque deixasse de importar, mas porque Sarah finalmente se movia para além deles.

— Rhee.

A oficial olhou para ela uma última vez.

— Eu queria ter salvado vocês.

— Eu sei.

— Eu queria ter sido outra pessoa.

— Ainda dá tempo.

Sarah fechou os olhos.

A frase a atravessou.

“Ainda dá tempo.”

Não para mudar Calisto, devolver os oito ou para apagar a ordem da Terra, nem desfazer o marcador de Sergey, nem curar Éden-9 de tudo que a humanidade trouxera, mas para ser outra pessoa a partir dali, ou talvez, pela primeira vez, ser ela mesma sem a porta fechada entre o peito e o mundo.

Quando abriu os olhos, a luz de Éden-9 estava mais próxima e a voz de Roberta veio de algum lugar fora da memória, trêmula, insistente, real.

— Sarah, volta para mim.

Sarah tentou responder.

Não tinha boca ali.

Não ainda.

Mas alguma parte dela se moveu na direção daquela voz.

Rhee estava certa.

O caminho de volta não era perdão.

Era continuação.

Sarah deixou a porta aberta.

E seguiu.

 

Fim do capítulo


Comentar este capítulo:
[Faça o login para poder comentar]
  • Capítulo anterior
  • Próximo capítulo

Comentários para 22 - A porta que não abriu:

Sem comentários

Informar violação das regras

Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:

Logo

Lettera é um projeto de Cristiane Schwinden

E-mail: contato@projetolettera.com.br

Todas as histórias deste site e os comentários dos leitores sao de inteira responsabilidade de seus autores.

Sua conta

  • Login
  • Esqueci a senha
  • Cadastre-se
  • Logout

Navegue

  • Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Ranking
  • Autores
  • Membros
  • Promoções
  • Regras
  • Ajuda
  • Quem Somos
  • Como doar
  • Loja / Livros
  • Notícias
  • Fale Conosco
© Desenvolvido por Cristiane Schwinden - Porttal Web