O dia em que nada acabou
Roberta Almeida
Roberta acordou antes de Sarah, por alguns segundos, não se moveu.
Não porque tivesse medo de acordá-la, embora também houvesse isso. Mas porque o mundo parecia suspenso em uma espécie de delicadeza rara, e Roberta teve a sensação absurda de que qualquer movimento brusco poderia desfazer a noite anterior.
A casa viva respirava em luz baixa.
As membranas translúcidas filtravam o amanhecer de Éden-9 em tons de âmbar e verde suave. Do lado de fora, a cidade começava a despertar em ruídos discretos: água correndo por canais orgânicos, passos sobre raízes, vozes distantes, um animal pequeno emitindo vibrações curtas entre as folhas. Nada parecia urgente.
Aquilo, por si só, já era estranho.
Desde que chegara a Éden-9, Roberta sentia que vivia entre revelações, emergências e belezas perigosas. Mas naquela manhã havia apenas Sarah.
Sarah deitada ao lado dela, dormindo, sem uniforme, sem patente, sem postura de comando, sem aquela tensão no maxilar que tantas vezes parecia sustentar a nave inteira.
A pele dela ainda guardava marcas da noite. Não marcas de ferida. Marcas de presença. O cabelo claro estava um pouco desordenado, caído sobre a testa. Um braço repousava acima da cabeça, o outro próximo ao corpo de Roberta, como se mesmo dormindo Sarah tivesse mantido alguma parte dela ao alcance.
Roberta respirou devagar.
O corpo de Sarah parecia ainda mais bonito na luz da manhã.
A força atlética dos ombros. A linha dos braços. A barriga definida, firme, subindo e descendo em ritmo lento. As cicatrizes pequenas que Roberta já começava a querer conhecer uma por uma, não como curiosidade científica, mas como quem deseja aprender a geografia íntima de alguém. O corpo de Sarah tinha sido moldado por disciplina, sobrevivência e guerra. Mas ali, adormecido, aquecido pela luz de Éden, parecia também feito para descanso, toque e desejo.
Roberta sentiu esse desejo acordar dentro dela sem pressa.
Não como a fome impaciente da noite anterior, quando havia espera demais acumulada nas mãos e na boca. Agora era diferente. Mais calmo na superfície, mais profundo por baixo. Ela já sabia um pouco do que Sarah gostava. Sabia que a capitã prendia o ar quando tentava não gem*r. Sabia que ficava linda quando perdia o controle e odiava perceber. Sabia que o corpo dela respondia antes da voz, e que o nome “Sah” parecia abrir alguma coisa nela que o mundo inteiro nunca soubera tocar.
Roberta sorriu.
Ainda havia mágoa.
A verdade do protocolo não desaparecera na cama. A Terra ainda esperava resposta. A equipe ainda se reconfigurava ao redor da confiança quebrada. O Vega continuava preso ao solo de Éden-9. Havia muito a reparar.
Mas o corpo de Roberta também sabia outra verdade.
Ela amava Sarah e a queria.
As duas coisas conviviam com a ferida, sem anulá-la.
Roberta se aproximou devagar e beijou o ombro dela.
Sarah não acordou de imediato.
Roberta beijou outra vez, subindo pela curva do braço, depois pela clavícula. A pele de Sarah estava quente, macia onde parecia impossível que fosse macia, e firme sob a boca de Roberta de um jeito que ainda a fascinava.
Sarah respirou mais fundo.
Roberta sorriu contra a pele dela.
— Sah...
Sarah abriu os olhos lentamente.
Houve um instante de desorientação. Depois reconhecimento. Depois algo mais quente.
— Beta.
O apelido saiu rouco, sonolento, ainda despreparado para o dia.
Roberta sentiu o próprio corpo responder àquela voz.
— Bom dia.
Sarah olhou para ela com os olhos ainda pesados de sono.
— Já é?
— Em Éden? Acho que sim. Na Terra, eu perdi completamente a noção.
Sarah levou a mão ao rosto de Roberta.
— Você dormiu?
— Um pouco.
— Isso significa quase nada.
— Dormi o suficiente para acordar com boas intenções.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— Boas?
Roberta deixou a mão deslizar pelo abdômen dela, devagar, sentindo a contração involuntária sob os dedos.
— Depende da sua definição.
Sarah prendeu o ar por um segundo.
Roberta viu e gostou de ver.
Na noite anterior, havia descoberto o corpo de Sarah. Naquela manhã, queria aprender melhor. Queria reconhecer os caminhos que faziam Sarah se soltar, os toques que a deixavam sem resposta, as provocações que atravessavam aquela mulher feita de comando e a devolviam ao corpo com a força de uma maré.
Sarah segurou o pulso dela.
Não para afastar.
Para sentir.
— Roberta.
— Sim?
— Você está com essa cara de quem vai fazer alguma coisa.
Roberta inclinou-se e beijou o canto da boca dela.
— Estou pensando.
— Isso costuma ser perigoso.
— Muito.
Sarah soltou um riso baixo.
Roberta beijou sua boca antes que o riso terminasse.
O beijo começou lento, quase preguiçoso, mas não demorou a ganhar outra temperatura. Sarah respondeu com a mesma rapidez que tentava esconder. A mão dela foi para a nuca de Roberta, os dedos entrando em seus cabelos, puxando-a para mais perto. O gesto ainda tinha cuidado, mas já não tinha hesitação.
Roberta se moveu sobre ela.
Sarah deixou.
Não como quem cedia por falta de força, mas como quem escolhia experimentar outra forma de controle: confiar.
Roberta sentiu isso e o desejo cresceu.
— Eu gosto de você assim — murmurou contra a boca dela.
Sarah abriu os olhos.
— Assim como?
Roberta apoiou as mãos nos dois lados do corpo dela, inclinando-se apenas o suficiente para roçar os lábios nos dela sem beijar de verdade.
— Tentando fingir que ainda manda em alguma coisa.
A boca de Sarah curvou-se em um sorriso pequeno.
— Ontem você disse que era sem comando.
— Sim.
— Então eu posso muito bem não estar mandando em nada.
Roberta desceu a boca pelo pescoço dela.
— Pode.
Sarah respirou fundo quando Roberta mordeu de leve a pele abaixo da orelha.
— Mas está querendo.
— Talvez.
Roberta sorriu contra o pescoço dela.
— Eu também.
A partir dali, não houve pressa.
Houve intenção.
Roberta tocou Sarah como quem já sabia que havia uma mulher inteira por baixo da capitã, mas ainda queria descobrir tudo com cuidado e fome. As mãos desceram pelos braços, pela cintura, pela barriga. A boca encontrou pontos que na noite anterior tinham arrancado sons baixos de Sarah e, desta vez, insistiu neles com paciência. Sarah tentou se conter por pouco tempo. Muito pouco.
Quando Roberta percebeu o primeiro tremor mais forte no corpo dela, ergueu os olhos.
— Você fica linda quando para de lutar contra o que sente.
Sarah estava com a respiração irregular, os olhos escuros de desejo e o rosto ainda marcado pelo sono.
— Isso é uma observação doutora?
— É admiração pessoal, minha capitã.
Sarah tocou o rosto dela.
— Você está muito convencida hoje.
— Estou aprendendo o que faço com você.
O olhar de Sarah mudou.
Roberta sentiu a frase acertar exatamente onde queria.
— E o que você faz comigo, Beta?
A pergunta veio baixa.
Quente.
Roberta quase perdeu a resposta.
Quase.
Depois sorriu e desceu a mão pelo corpo dela outra vez.
— Te deixo sem estratégia.
Sarah fechou os olhos quando os dedos de Roberta encontraram o ponto certo.
— Isso é extremamente inconveniente.
— Eu sei.
Roberta beijou sua barriga, depois subiu, depois voltou a descer, alternando carinho e provocação, delicadeza e fogo, até que Sarah já não parecia interessada em manter qualquer aparência de controle. A capitã arqueou o corpo sob ela, uma das mãos fechando-se na superfície viva, a outra presa nos cabelos de Roberta, os movimentos que ela fazia com a língua a deixavam desestabilizada, mas de uma jeito bom.
— Beta...
O apelido saiu como aviso e pedido ao mesmo tempo.
Roberta sentiu o nome atravessar seu corpo inteiro.
— Eu estou aqui, Sah.
Sarah abriu os olhos.
E ali, naquele instante, Roberta viu de novo a mulher que quase se perdera em Calisto, a mulher que voltara, a mulher que dissera eu te amo com a simplicidade de quem finalmente deixava uma porta aberta. Havia vulnerabilidade nela, sim. Mas também havia desejo. E havia escolha.
Sarah puxou Roberta para cima e a beijou com força.
Depois inverteu a posição com uma habilidade que arrancou de Roberta um riso surpreso.
— Ah, então ainda tem um pouco de comando?
Sarah apoiou-se sobre ela, os cabelos claros caindo em volta do rosto, o olhar mais livre do que Roberta já vira.
— Não comando.
Beijou-a devagar.
— Entusiasmo.
Roberta riu contra sua boca.
— Boa palavra.
— Estou ampliando meu vocabulário.
— Com excelente aplicação prática.
Sarah sorriu.
E então foi a vez dela.
Na noite anterior, Sarah reverenciara o corpo de Roberta como descoberta. Naquela manhã, tocou-a como quem começava a conhecer e queria ser ainda melhor. Havia uma dedicação quase comovente no modo como ela prestava atenção a cada reação. Ao som que Roberta tentava esconder quando suspirava no momento em que ela encostava a boca sob sua pele. Ao movimento dos quadris. À respiração cortada. À forma como ela dizia Sah quando queria pedir e provocar ao mesmo tempo.
Sarah parecia determinada a encantar Roberta não com promessas, mas com presença.
Com boca, língua, mãos.
Com o corpo inteiro dizendo, eu estou aqui.
E Roberta, que ainda carregava a mágoa como uma pedra pequena no peito, percebeu que aquela pedra não impedia o prazer de existir. Não impedia o amor. Não impedia a vontade de se abrir de novo. Talvez só lembrasse que o que havia entre elas precisaria ser cuidado com mais honestidade do que paixão.
Sarah a beijou abaixo da linha das costelas.
Roberta perdeu o pensamento.
— Sah...
— Sim?
— Se isso é você tentando reparar alguma coisa, eu deveria informar que está sendo muito persuasiva.
Sarah levantou os olhos.
Havia humor neles.
E desejo.
— Não estou tentando reparar com sex*.
— Ótimo.
— Estou tentando te deixar sem fôlego.
Roberta prendeu a respiração.
Sarah sorriu.
— Funcionou antes de eu continuar. Interessante.
Roberta puxou-a pelo cabelo com cuidado, trazendo-a de volta à boca.
— Você está impossível.
— Aprendi com você.
O riso delas se misturou por um instante.
Depois virou outra coisa, algo com respirações alteradas, apelidos sussurrados ao pé do ouvido e muito sentimento para ser transbordado entre elas.
A manhã se fechou ao redor das duas como a noite havia feito, mas sem urgência, sem a sensação de que o mundo podia invadir a qualquer segundo. Havia apenas calor, respiração, pele, carinho e desejo. Sarah se permitia mais. Roberta também. Elas já não se descobriam como estranhas. Aprendiam como amantes.
E isso era mais íntimo, com uma pitada de perigo, porque descoberta podia ser acidente, mas aprender era escolha repetida.
Quando o prazer as atravessou, não veio como tempestade. Veio como onda quente, crescente, uma maré que subiu devagar demais para ser negada. Roberta se agarrou a Sarah, mordendo o ombro dela para conter um som que ainda assim escapou. Sarah respondeu com um gemido baixo, o corpo inteiro estremecendo contra o dela.
Depois ficaram quietas.
Entrelaçadas.
A luz da casa viva pulsava sobre a pele das duas como se respirasse junto.
Roberta estava deitada parcialmente sobre Sarah, a cabeça em seu peito. Sarah mantinha uma das mãos em suas costas, desenhando movimentos lentos e distraídos.
— Bom dia — murmurou Sarah, depois de um tempo.
Roberta riu contra a pele dela.
— Agora sim.
Sarah beijou o alto de sua cabeça.
— Você está sorrindo.
— Estou satisfeita com meu trabalho.
— Seu trabalho?
Roberta ergueu o rosto.
— Eu disse que estava aprendendo.
Sarah olhou para ela com uma expressão que misturava ternura e algo mais quente.
— E qual foi sua conclusão?
Roberta fingiu pensar.
— Que a capitã Sarah Solano é extremamente sensível quando tratada com a combinação correta de carinho, provocação e falta de piedade.
Sarah fechou os olhos.
— Isso vai virar relatório?
— Não. Informação restrita e somente eu terei acesso.
— Classificação?
Roberta beijou o queixo dela.
— Altamente confidencial.
Sarah segurou seu rosto e a beijou, lenta e profundamente.
Quando se afastaram, Roberta ficou olhando para ela.
— Eu gosto de te ver assim.
— Sem roupa?
— Também.
Sarah riu.
Roberta sentiu o riso no próprio peito.
— Mas eu quis dizer sem fugir.
Sarah ficou mais séria.
Não triste.
Atenta.
— Eu também gosto de estar aqui.
Roberta passou os dedos pela boca dela.
— Então lembra disso quando ficar difícil.
Sarah segurou a mão dela e beijou sua palma.
— Vou lembrar.
A casa viva pareceu aquecer um pouco.
Roberta olhou ao redor.
— Você acha que Éden tem noção de privacidade?
Sarah seguiu o olhar dela.
— Depois de ontem, espero que sim.
— Aurora certamente tem menos.
A voz da IA surgiu, abafada e distante, pelo comunicador deixado perto da entrada:
— Registro que aguardei sete minutos após a estabilização dos sinais vitais antes de solicitar contato. Considerei uma margem respeitosa.
Roberta fechou os olhos.
— Aurora.
Sarah cobriu o rosto com a mão.
— Sete minutos?
— Pelos padrões da missão, isso representa avanço significativo capitã.
Roberta soltou uma gargalhada contra o peito de Sarah.
A risada veio tão livre que até ela se surpreendeu.
Sarah riu também.
E, por alguns segundos, a casa inteira pareceu ficar mais clara.
— O que foi, Aurora? — perguntou Sarah, ainda sorrindo.
— Samira solicita confirmação de que ambas estão vivas, hidratadas e cientes de que há tarefas pendentes relacionadas ao Vega, à comunidade e à ameaça terrestre.
Roberta apoiou a testa no ombro de Sarah.
— Diga à Samira que estamos vivas.
— E os demais itens?
Sarah olhou para Roberta.
Roberta olhou de volta.
As duas ainda estavam entrelaçadas, quentes, despidas, com o mundo inteiro esperando do lado de fora.
Sarah suspirou.
— Diga que estamos cientes.
Aurora demorou meio segundo.
— Samira pergunta se “cientes” significa que pretendem levantar.
Roberta ergueu a voz:
— Eventualmente.
— Ela respondeu com um silêncio que interpreto como desaprovação.
Sarah beijou a têmpora de Roberta.
— Vamos levantar.
Roberta gem*u, dramática.
— A Terra pode esperar mais dez minutos.
— A Terra, talvez. Samira, não.
— Argumento forte este seu.
Ainda demoraram mais do que dez minutos.
Não por irresponsabilidade. Roberta decidiu chamar de transição emocional necessária. Sarah, ao ouvir, disse que era uma justificativa cientificamente suspeita, mas não contestou de verdade.
Quando finalmente se levantaram, a casa viva forneceu água morna em um canal lateral. Não era banho como na Aurora. Era mais simples e, de algum modo, mais íntimo. Elas se lavaram com panos macios de fibra vegetal, sem pressa, alternando silêncio e pequenos sorrisos. Roberta ajudou Sarah a limpar uma marca na lateral do pescoço e fingiu inocência quando percebeu que havia sido ela quem deixara.
Sarah a olhou pelo reflexo da água.
— Você parece satisfeita.
— Estou admirando meu trabalho de campo.
— Essa expressão nunca mais será usada em relatório científico.
— Covarde.
Sarah sorriu e puxou Roberta pela cintura, beijando-a mais uma vez antes de vestir a roupa.
Roberta já começava a se afastar quando Sarah a segurou de novo, agora com uma expressão tranquila demais para ser inocente. Aproximou-se por trás, passou uma das mãos pela curva da cintura dela e, antes que Roberta pudesse perguntar qualquer coisa, deu-lhe um tapa leve na bunda.
Não foi bruto.
Foi íntimo.
Um carinho atrevido, rápido, cheio daquela confiança nova que ainda parecia surpreender as duas.
Roberta parou no mesmo instante.
Virou o rosto devagar, os olhos arregalados por um segundo antes de o sorriso aparecer.
— Capitã Sarah Solano.
Sarah ergueu uma sobrancelha, absolutamente serena.
— O quê?
— Você acabou de fazer o que eu acho que fez?
Sarah passou por ela, pegando a própria roupa com uma calma irritantemente charmosa.
— Considero que foi uma manifestação afetiva de baixa intensidade.
Roberta soltou uma risada, ainda surpresa.
— Manifestação afetiva?
Sarah olhou para ela por cima do ombro, o canto da boca insinuando um sorriso.
— Você preferia outro termo, Beta?
Roberta mordeu o lábio, tentando esconder o quanto tinha gostado.
— Eu prefiro que você não finja que isso foi técnico.
Sarah se aproximou de novo, beijou-lhe o canto da boca e murmurou:
— Então considere carinho.
Roberta sentiu o rosto aquecer.
— Você está ficando impossível.
— Aprendi com você.
Foi difícil sair, não porque não houvesse mundo do lado de fora.
Justamente porque havia.
E agora, depois daquela manhã, sair significava levar o que tinham vivido para dentro dele, não como segredo vergonhoso, mas como uma verdade delicada que ainda precisava de proteção.
Quando atravessaram os filamentos da entrada, Aurora Prime já estava em pleno movimento.
O dia havia começado sem elas.
E, surpreendentemente, não desmoronara.
Roberta sentiu o sol de Éden tocar o rosto. Sarah caminhava ao seu lado, com o uniforme de campo ajustado, mas menos rígido. Havia um brilho discreto nos olhos dela, uma leveza que não apagava o peso, mas mudava a forma de carregá-lo.
No pátio central, Iara conversava com duas mulheres junto a uma estrutura de membrana danificada. Ao vê-las, apenas inclinou a cabeça, como se soubesse exatamente de onde vinham e decidisse, com misericórdia rara, não comentar.
Naya, por outro lado, olhou para as duas por tempo demais.
Roberta sentiu o rosto aquecer.
Sarah percebeu e ficou imediatamente séria, o que só piorou tudo.
Naya sorriu.
— A casa gostou de vocês.
Roberta fechou os olhos.
— Naya.
— Eu suavizei.
Sarah tossiu de leve, tentando manter dignidade.
— Bom dia.
— Bom dia, Sah — murmurou Roberta, só para ela.
Sarah lançou-lhe um olhar rápido.
Roberta sorriu.
Funcionava.
Era perigoso saber o que funcionava.
O primeiro trabalho do dia foi ajudar no reparo de uma membrana de armazenamento próxima à praça. Durante a crise do marcador, a estrutura havia se fechado rápido demais e rasgara em dois pontos. Não era uma tarefa complexa, mas exigia paciência. As fibras vivas precisavam ser alinhadas sem força, apenas conduzidas até reconhecerem o próprio caminho.
Uma mulher chamada Maela ensinou Roberta a posicionar os dedos.
— Não puxe. Convide.
Roberta olhou para a fibra translúcida em suas mãos.
— Isso vale para quase tudo aqui, não é?
Maela sorriu.
— Para quase tudo em qualquer lugar. Vocês é que esqueceram.
Roberta aceitou a correção.
Sarah trabalhava alguns passos adiante, ajudando a sustentar uma peça da estrutura enquanto duas jovens costuravam luz através da membrana. Era uma imagem tão improvável que Roberta precisou parar para olhar.
Sarah Solano, capitã da Aurora, sobrevivente de Calisto, portadora de uma ordem de contenção orbital, segurava com concentração absoluta um pedaço de parede viva enquanto uma adolescente de Éden-9 dizia:
— Mais para a esquerda. Não, sua outra esquerda.
Sarah ajustou.
— Assim?
— Um pouco menos capitã.
Sarah ficou imóvel.
— O que significa menos capitã?
A adolescente pensou.
— Menos como se estivesse segurando uma nave caindo. Mais como se estivesse segurando pão quente.
Roberta mordeu o lábio para não rir.
Sarah olhou para ela.
— Nem uma palavra.
— Eu não disse nada.
— Seu rosto disse.
— Meu rosto é independente.
A adolescente sorriu, satisfeita.
Sarah tentou novamente, agora com menos rigidez. A membrana respondeu melhor, iluminando-se em dourado suave.
— Viu? — disse a jovem. — Pão quente.
Sarah olhou para o material.
— Registrado.
Roberta riu, não conseguiu evitar.
Sarah também sorriu.
Pouco.
Mas sorriu.
E Roberta sentiu outra onda de amor, tão simples que quase doeu.
Mais tarde, encontraram Mei no Vega.
A piloto estava deitada sob uma das estruturas do trem de pouso, metade do corpo escondida, ferramentas espalhadas ao redor. Sergey estava do lado oposto, segurando um painel aberto com paciência quase desconfortável. A cena parecia absurda e, ao mesmo tempo, promissora.
— Atualização — disse Mei, sem sair de baixo do módulo. — O Vega e eu estamos em terapia de casal com o planeta. Estamos fazendo progressos lentos e cheios de ressentimento.
Sarah cruzou os braços.
— Estado operacional?
Mei escorregou para fora, suja de poeira azulada.
— Três travas liberadas sem ferir raiz, módulo íntegro, motores preservados. A quarta trava ainda está presa porque Éden aparentemente tem apego emocional ao trem de pouso direito.
Sergey falou, sério:
— A raiz está isolando o ponto onde o marcador contaminou a leitura do solo. Se forçarmos, reabrimos a ferida.
Roberta olhou para ele.
— Você percebeu isso?
Ele assentiu.
— Naya explicou parte. O resto... eu observei.
A palavra observei pareceu custar menos do que teria custado dias antes.
Sarah também percebeu.
— Bom.
Sergey recebeu o elogio com um aceno simples.
Não inflou.
Não se justificou.
Apenas voltou ao painel.
Mei olhou para Roberta e depois para Sarah, estreitando os olhos por um segundo.
— Vocês duas estão irritantemente descansadas para quem demorou tanto a responder ao chamado da manhã.
Roberta sentiu o calor subir ao rosto.
Sarah respondeu antes, completamente séria:
— Repouso foi recomendado.
Mei abriu a boca.
Fechou.
Depois apontou para Sarah com a chave de torque.
— Essa foi boa. Muito boa. Estou orgulhosa e perturbada.
Sarah quase sorriu.
— Obrigada.
Roberta olhou para ela, impressionada.
— Você está ficando perigosa.
— Aprendi com você, Beta.
Mei congelou.
Sergey também percebeu, mas fingiu que não.
Roberta quis desaparecer dentro do solo, mas Sarah manteve a expressão absolutamente neutra, o que era ainda pior.
Mei lentamente voltou para baixo do Vega.
— Eu não ouvi nada. Meu respeito por privacidade é enorme quando estou presa consertando uma nave em planeta sensível.
Roberta cobriu o rosto com a mão.
Sarah parecia satisfeita consigo mesma.
Depois do Vega, seguiram para o núcleo de cuidado, onde Samira aparecia por projeção, discutindo com três curandeiras sobre padrões de recuperação pós-Febre de Eco. A médica ainda estava na Aurora, mas sua presença era tão intensa pelo canal que parecia ocupar metade da sala.
— Não, eu não estou questionando a eficácia — dizia Samira. — Estou tentando entender como vocês medem isso sem unidades comparáveis.
Uma cuidadora respondeu calmamente:
— Medimos quando o corpo volta a reconhecer onde termina.
Samira fechou os olhos.
— Sim, isso é bonito. Eu preciso traduzir o bonito para fisiologia.
Roberta se aproximou.
— Problemas de comunicação?
Samira olhou para ela pela projeção.
— Nenhum. Estou tendo uma experiência enriquecedora e profundamente irritante.
Sarah ficou ao lado de Roberta.
— Precisa de algo de nós?
Samira examinou as duas pela câmera.
— De vocês duas? Água, alimentação e discrição mínima diante dos sinais vitais que recebi pela manhã.
Roberta arregalou os olhos.
— Samira.
— Sou médica. Não fofoqueira. Mas os dados foram expressivos.
Sarah ficou imóvel.
Roberta percebeu que a capitã estava usando todo o treinamento militar para não reagir.
Uma das curandeiras sorriu sem entender completamente.
— Elas parecem mais brilhantes hoje.
Samira suspirou.
— Essa comunidade não ajuda.
Roberta riu.
Sarah também.
Dessa vez, sem tentar esconder.
A risada dela atravessou a sala e fez Samira parar. A médica olhou para Sarah por um instante longo, depois sua expressão suavizou, quase imperceptivelmente.
— Continue fazendo isso — disse.
Sarah ficou séria, surpresa.
— Rindo?
— Sim.
— Isso é prescrição médica?
— É.
Sarah olhou para Roberta.
Roberta sorriu.
— Viu? Agora é ordem.
Sarah suspirou.
— Vocês se juntaram nesta tarefa, só pode.
Passaram o resto do dia em pequenos trabalhos, nada grandioso ou que pudesse salvar mundos e talvez por isso fosse tão necessário.
Roberta ajudou a organizar amostras vegetais não invasivas para estudo local, sem retirar nada da rede. Sarah auxiliou em reparos estruturais e, em determinado momento, foi vista carregando cestos de fibras ao lado de duas crianças que insistiam em corrigir sua postura. Sergey trabalhou com Mei no Vega quase sem falar, e esse silêncio, pela primeira vez, não parecia ameaça. Asha enviou dados da Aurora e participou à distância da revisão de protocolos. Aurora, mais comedida, mediava canais sem tentar transformar cada fala em comentário.
Éden-9 parecia observar.
Não com invasão.
Com presença.
No fim da tarde, Roberta encontrou Sarah perto do canal principal de água. A capitã estava agachada, lavando as mãos cobertas de poeira azul. A luz do entardecer desenhava linhas douradas em seus ombros.
Roberta parou atrás dela.
— Você combinou perigosamente com trabalho manual.
Sarah olhou por cima do ombro.
— Isso é elogio?
— Muito.
Sarah levantou-se, secando as mãos em um tecido vegetal.
— Você também combinou com dar ordens suaves para plantas.
— Não eram ordens. Eram convites firmes.
— Naturalmente.
Roberta se aproximou.
Não se beijaram ali, no meio da praça, mas os dedos de Sarah tocaram os dela por um segundo.
Pequeno.
Íntimo.
Suficiente.
— Como você está? — perguntou Roberta.
Sarah olhou para a cidade.
Pensou antes de responder.
Roberta gostou disso.
— Cansada. Preocupada. Ainda com medo da Terra. Ainda sem saber como reparar muita coisa.
— E?
Sarah olhou para ela.
Havia luz nos olhos dela.
— Viva.
Roberta sentiu o peito apertar.
— Boa resposta, Sah.
Sarah sorriu ao ouvir o apelido.
Ainda sorria como quem estava se acostumando a caber nele.
— E você?
Roberta pensou no corpo dela pela manhã. No amor dito. No trabalho do dia. Na mágoa que ainda existia, mas já não ocupava todos os espaços. Na Terra distante. Em Éden respirando ao redor.
— Viva também.
Sarah segurou sua mão.
Dessa vez, em público.
Nada exagerado.
Nada performático.
Apenas a mão de Sarah envolvendo a de Roberta enquanto as duas olhavam Aurora Prime seguir existindo depois de tudo.
A calmaria não era paz.
Roberta sabia.
Era apenas um intervalo antes da próxima exigência da Terra, antes da próxima escolha difícil, antes do futuro bater novamente à porta.
Mas, naquele dia, nada acabou. E talvez, pensou Roberta enquanto Sarah entrelaçava os dedos aos seus, fosse isso que tornava aquele dia tão precioso.
Nada acabou.
Tudo continuou e continuar não parecia apenas sobreviver.
Fim do capítulo
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