A Terra exige resposta
Sarah Solano
Naquela noite, Aurora Prime preparou uma refeição para a equipe.
Sarah demorou a entender o gesto. Não porque não soubesse o que era uma refeição compartilhada. A Aurora tinha protocolos de convivência, turnos de alimentação, celebrações discretas em datas de missão, pequenos rituais inventados por tripulações que passavam tempo demais longe de qualquer coisa parecida com casa. Mas aquilo era diferente.
Não era apenas comer, era ser recebida e Sarah ainda não sabia se merecia isso.
A refeição foi organizada em uma área aberta da cidade, sob três árvores largas cujas copas se entrelaçavam acima do pátio como um teto vivo. Membranas translúcidas pendiam entre os galhos, filtrando a luz noturna em tons de azul e dourado. Pequenos organismos luminosos repousavam nas bordas dos canais de água, acendendo e apagando em ritmos lentos, como velas que respiravam.
No centro, sobre superfícies baixas de raiz lisa, os habitantes de Éden-9 dispuseram alimentos que Sarah não sabia nomear.
Frutos de casca escura e polpa âmbar, cortados em lâminas finas. Raízes macias cozidas em vapor mineral, com cheiro levemente adocicado. Pequenos grãos perolados servidos em tigelas de fibra vegetal. Um caldo verde-escuro, espesso, que parecia emitir luz própria quando mexido. Havia também água aromatizada com folhas prateadas e uma bebida quente, quase dourada, que Naya explicou ser usada em momentos de recuperação.
— Recuperação física? — perguntou Mei, observando a xícara com cautela.
Naya sorriu.
— Também.
Mei olhou para Sarah.
— Quando alguém responde “também”, eu sinto que deveria assinar um termo.
Sergey, sentado ao lado dela, inclinou-se para sentir o cheiro da bebida.
— Não parece venenosa.
Mei olhou para ele.
— Esse é seu critério gastronômico?
— Em campo, sim.
— Preciso te apresentar ao conceito de prazer um dia desses.
Sergey considerou a frase com seriedade demais.
— Talvez em pequenas doses.
Mei ficou alguns segundos olhando para ele.
Depois riu.
Não de deboche.
De surpresa.
Sarah observou a cena em silêncio.
Havia algo estranho em ver os dois daquele jeito. Mei ainda era Mei — inquieta, atenta, usando humor como quem mantém uma lâmina no bolso. Sergey ainda era Sergey — contido, direto, carregando no corpo a memória de protocolos que não se desfaziam em uma noite. Mas a tensão entre eles havia mudado de natureza.
Antes, Mei parecia pronta para atravessar a rigidez dele com sarcasmo, e Sergey parecia disposto a tratar qualquer leveza como distração operacional.
Agora havia espaço, não amizade plena, talvez. Ainda não. Mas uma espécie de respeito cansado, construído no conserto lento do Vega, no trabalho com as raízes, na consciência de que ambos tinham precisado aprender a parar antes de agir.
A projeção holográfica de Asha surgiu à esquerda do círculo, sentada em uma cadeira virtual que a Aurora gerou para tornar a presença dela menos fantasmagórica. O rosto da oficial de sistemas apareceu em tamanho quase real, levemente azulado pela transmissão. Samira surgiu ao lado, também por holograma, braços cruzados e expressão de quem não gostava de participar de uma refeição sem poder cheirar a comida.
Aurora não se projetou como figura humana. Manteve-se como uma esfera pequena de luz sobre a mesa, discreta, pulsando lentamente.
— Gostaria de registrar — disse Samira — que participar de um jantar por holograma enquanto metade da equipe consome alimentos alienígenas é clinicamente frustrante.
Iara, sentada entre duas mulheres mais velhas da comunidade, inclinou a cabeça.
— Guardamos porções para quando você descer.
— Isso foi uma ameaça ou uma gentileza?
— Aqui, às vezes, é difícil separar, mas desta vez é gentileza.
Samira estreitou os olhos.
— Estou começando a entender por que Roberta se adaptou tão rápido.
Roberta, sentada ao lado de Sarah, sorriu sobre a borda da tigela.
— Eu ouvi.
— Era para ouvir — respondeu Samira.
Sarah olhou para Roberta.
Foi rápido.
Ou deveria ter sido.
Mas o olhar demorou.
Roberta estava sentada com uma perna dobrada sob o corpo, os cabelos soltos sobre um dos ombros, a pele iluminada pelos tons vivos da praça. Tinha uma tigela nas mãos e uma expressão quase serena, como se, por alguns instantes, pudesse existir ali sem traduzir tudo em risco ou hipótese.
Sarah sentiu o desejo antes de conseguir transformá-lo em pensamento.
Não o desejo impaciente da noite anterior. Não apenas. Era outro tipo de vontade. Uma que nascia ao vê-la rir com Samira, ao notar o modo como Roberta escutava Iara, ao lembrar do corpo dela contra o seu naquela manhã, ao sentir o nome Beta se formar na boca antes mesmo de ser dito.
Roberta percebeu o olhar.
Naturalmente.
Os olhos dela encontraram os de Sarah, e por um segundo a refeição, a comunidade, as projeções, o planeta e a ameaça da Terra pareceram recuar para a borda do mundo.
Roberta não sorriu de imediato.
Apenas sustentou.
Depois, sob a mesa baixa, seus dedos tocaram os de Sarah.
Um toque pequeno.
Breve.
Mas Sarah sentiu como se a casa viva da noite anterior tivesse acendido outra vez dentro dela.
Segurou a mão de Roberta por um instante.
Apenas um.
Depois soltou, não por vergonha, mas por prudência.
Ou talvez por saber que o desejo, quando reconhecido, não precisava ser exibido para existir.
Naya, sentada do outro lado do círculo, olhou para as duas.
Roberta percebeu e baixou os olhos, Sarah manteve a expressão mais neutra possível.
Naya sorriu para a própria tigela.
— Eu suavizei — murmurou, para ninguém em especial.
Roberta quase engasgou com a bebida.
Sarah levou a mão à boca para esconder o sorriso.
Asha, pelo holograma, observou a mesa.
— O que vocês estão comendo exatamente?
Uma das mulheres da comunidade, Maela, respondeu:
— Frutos de luz baixa, raiz de chuva, grãos de margem e caldo de folha profunda.
Asha piscou.
— Certo. E em termos de composição química?
Maela pensou por um instante.
— Aquilo que alimenta sem deixar o corpo esquecer que veio da terra.
Asha ficou em silêncio.
Mei apontou a colher para a projeção.
— Viu? É assim que elas respondem. Você pergunta nutrientes, elas devolvem filosofia com tempero.
Asha olhou para Samira.
— Eu ainda quero a composição química.
Samira assentiu.
— Eu também. Mas admito que a frase foi boa.
Aurora pulsou suavemente.
— Posso iniciar análise aproximada das amostras já autorizadas, sem armazenamento sensível.
Iara olhou para a esfera azul.
— Pode analisar o que foi oferecido. Não o que vive preso à rede.
— Entendido — respondeu Aurora.
A simplicidade da resposta chamou a atenção de Sarah.
Houve um tempo, não muito distante, em que Aurora teria acrescentado uma observação técnica, uma ironia calculada ou uma formulação complexa para marcar sua presença. Agora, parecia escolher menos palavras. Talvez estivesse aprendendo que respeito também se media pelo espaço deixado ao redor de uma resposta.
Sarah se perguntou quando a IA começara a mudar.
Depois se perguntou se todas ali não estavam mudando de algum modo que só seria visível de longe.
Sergey experimentou o caldo verde-escuro.
Ficou imóvel.
Mei virou-se para ele.
— E então?
Ele analisou a tigela.
— É bom.
— Essa foi a avaliação inteira?
— É muito bom.
Mei suspirou.
— Estamos avançando.
Uma criança da comunidade, Liora, aproximou-se deles carregando um pequeno prato de frutas cortadas. Colocou-o diante de Sergey com solenidade.
— Você precisa comer isso também.
Sergey olhou para ela.
— Por quê?
— Porque sua cara ainda está triste por dentro.
Mei cobriu a boca com a mão.
Sarah olhou para baixo.
Roberta não conseguiu esconder o sorriso.
Sergey ficou alguns segundos sem resposta. Depois pegou uma fatia da fruta.
— Obrigado.
Liora observou enquanto ele comia.
— Melhor?
Ele mastigou devagar.
— Um pouco.
A menina assentiu, satisfeita.
— Então come mais.
Sergey obedeceu.
Mei murmurou:
— Eu queria ter essa autoridade.
Liora olhou para ela.
— Você fala muito para esconder quando está preocupada.
Mei ficou imóvel.
A mesa inteira também.
A menina ofereceu o prato a ela.
— Fruta?
Mei encarou Liora por um segundo.
Depois pegou uma fatia.
— Você é assustadora.
— Minha mãe diz que sou observadora.
— As duas coisas podem ser verdade.
Liora pareceu considerar aquilo um elogio e seguiu para outro grupo. Sarah observou Sergey e Mei em silêncio. Havia algo ali que nenhum relatório poderia medir: a forma como uma criança de Éden-9 conseguia desarmar dois adultos treinados para usar dureza como proteção. Não por inocência, exatamente. As crianças de Éden pareciam inocentes e antigas ao mesmo tempo. Talvez porque crescessem em um lugar onde ouvir era ensinado antes de vencer.
A refeição seguiu sem pressa.
Iara contou histórias dos primeiros anos de Aurora Prime, não as mais dolorosas, mas algumas pequenas, humanas. Falou da primeira tentativa fracassada de cozinhar com frutos nativos, quando metade da comunidade teve sonhos tão vívidos que decidiram proibir aquela receita por dez anos. Falou de um antigo engenheiro chamado Pablo que tentou construir uma ponte metálica sobre um canal vivo, apenas para descobrir que o canal mudava de lugar toda noite porque não gostava do barulho. Falou de crianças nascidas depois da integração, que aprenderam a distinguir tipos de chuva pelo brilho das folhas.
Mei contou sobre um pouso de treinamento em que quase derrubou um instrutor arrogante em um lago artificial e passou anos jurando que foi falha de sensor.
— Foi falha de sensor? — perguntou Naya.
Mei bebeu um gole da água aromatizada.
— Em minha defesa, o sensor era emocionalmente desagradável.
Asha, pela projeção, balançou a cabeça.
— Foi de propósito.
— Você nem estava lá.
— Eu reconheço padrões.
Sergey contou pouco.
Mas contou.
Falou de Mikhail tentando desmontar um regulador de cozinha com uma colher. Contou como o filho ficou indignado quando Sergey explicou que nem toda máquina deveria ser aberta por curiosidade.
— Ele respondeu que curiosidade era como máquinas aprendiam a ter amigos — disse Sergey.
A frase saiu séria.
Mei olhou para ele.
— Seu filho parece mais avançado filosoficamente do que todos nós.
Sergey assentiu.
— Sim.
Não houve riso.
Houve uma ternura estranha no silêncio que seguiu.
Sarah percebeu que Sergey não parecia menor por falar do filho. Parecia mais inteiro. Como se a ausência de Mikhail, que antes ele transformava em bandeira e dever, pudesse agora existir como saudade simples, sem precisar justificar cada escolha.
Roberta encostou os dedos no dorso da mão de Sarah outra vez.
Sarah olhou para ela.
Roberta não disse nada.
Não precisava.
Sarah sabia o que aquele toque queria dizer.
Você está vendo?
Sim, ela estava.
Estava vendo Mei menos armada. Sergey menos rígido. Asha mais cuidadosa com os dados como se fossem corpos. Samira irritada e emocionada na mesma medida. Aurora aprendendo a responder sem possuir a conversa. Iara observando tudo como quem sabia que convivência era mais revolucionária do que qualquer acordo assinado às pressas.
E Roberta.
Sempre Roberta.
Beta.
A mulher que olhava para ela como se ainda houvesse ferida, sim, mas também caminho.
A refeição terminou quando as luzes da praça começaram a diminuir, seguindo um ciclo que Sarah ainda não entendia por completo. As crianças foram chamadas para as casas. As tigelas foram recolhidas. Os canais de água alteraram o som, ficando mais baixos, mais noturnos. A projeção de Samira piscou ao receber algum aviso da Aurora.
— Minha conexão está oscilando — disse ela. — E alguém precisa dormir antes que eu prescreva repouso à força.
Asha olhou para os próprios dados.
— Vou revisar mais um pacote e depois encerrar.
Samira virou-se para ela.
— Você acabou de provar meu ponto.
— Eu disse um pacote.
— Você mente mal quando está cansada.
Asha suspirou.
— Três pacotes pequenos.
— Asha.
— Um pacote médio.
Aurora interveio:
— Posso assumir a varredura inicial. Asha, sua eficiência caiu doze por cento nas últimas duas horas.
Asha olhou para a esfera.
— Isso foi rude Aurora.
— Não, é cuidado.
Asha ficou em silêncio.
Depois cedeu.
— Certo. Um pacote. Depois durmo.
Samira olhou para Sarah pela projeção.
— Capitã, isso vale para você também.
Sarah respondeu com a maior neutralidade possível:
— Entendido.
Roberta tossiu de leve.
Mei olhou para as duas com um interesse discreto demais para ser inocente.
Sarah decidiu ignorar.
As projeções de Asha e Samira se apagaram logo depois, deixando apenas a presença mínima de Aurora por alguns segundos.
— Permanecerei em monitoramento reduzido — disse a IA. — Boa noite.
— Boa noite, Aurora — respondeu Roberta.
A esfera azul diminuiu até desaparecer. A comunidade começou a se dispersar. Mei e Sergey foram conduzidos para uma das casas de hóspedes próximas ao local onde o Vega permanecia parcialmente integrado. Não a mesma casa, como Mei fez questão de esclarecer em voz alta para “evitar interpretações narrativas apressadas”, mas casas vizinhas, porque ambos continuariam trabalhando no módulo pela manhã.
Sergey apenas aceitou a explicação com um aceno.
Mei olhou para ele.
— Você não vai comentar?
— Não.
— Evolução assustadora.
— Estou praticando economia verbal.
— Você sempre praticou.
— Agora com intenção diferente.
Mei pareceu considerar aquilo.
— Justo.
Foram juntos pela trilha, conversando baixo sobre a quarta trava do Vega.
Iara seguiu com Maela em direção ao centro de escuta. Naya caminhou ao lado de Liora por alguns metros, antes de olhar para Sarah e Roberta com um sorriso rápido demais.
— Boa noite.
Roberta estreitou os olhos.
— Boa noite, Naya.
— Descansem.
A palavra veio inocente demais.
Sarah ouviu Roberta respirar fundo ao seu lado.
— Ela sabe — murmurou Roberta.
Sarah olhou para a trilha que levava à casa delas.
— Aqui todos parecem saber.
— Isso te incomoda?
Sarah pensou.
Antes, sim.
Agora, talvez.
Mas menos.
— Ainda estou me adaptando a ser uma pessoa observável.
Roberta riu baixo.
— Você sempre foi observável, Sah. Só era mais difícil de alcançar.
Sarah sentiu o apelido tocar um lugar já reconhecido.
Sah.
Na boca de Roberta, seu nome pequeno parecia uma casa com luz acesa.
Caminharam juntas até a casa afastada. Não se tocaram no começo, depois Sarah estendeu a mão e Roberta aceitou.
A trilha sob os pés delas emitiu uma luz baixa, quase íntima. Não parecia guiar. Parecia acompanhar. A cidade ficou para trás em sons calmos, e a noite de Éden se abriu ao redor com suas árvores altas, suas duas luas pequenas e o cheiro úmido de folhas que respiravam.
Quando chegaram à entrada, os filamentos se afastaram.
Roberta entrou primeiro. Sarah entrou depois. A casa estava mais morna do que na noite anterior.
Ou talvez Sarah estivesse.
Os filamentos se fecharam, e o mundo ficou menor outra vez.
Roberta virou-se para ela.
Nenhuma das duas falou de imediato.
Havia cansaço no corpo. Havia ternura. Havia também aquele fio de desejo que não desaparecera durante a refeição, apenas aprendera a esperar. Sarah o sentira em cada toque breve, em cada olhar interrompido, no modo como Roberta dizia seu apelido mais baixo quando ninguém além dela podia ouvir.
Sarah se aproximou.
Roberta observou o movimento.
— Você está quieta.
— Estou pensando.
— Perigoso.
Sarah tocou a cintura dela.
— Em você.
Roberta respirou.
O rosto dela suavizou e aqueceu ao mesmo tempo.
— Melhorou.
Sarah deslizou a mão pelas costas dela, puxando-a para perto.
Não havia urgência ou fome, havia uma terceira coisa. Um desejo mais maduro, mais carinhoso, que ainda assim queimava. Sarah beijou Roberta devagar, sentindo-a sorrir contra sua boca antes de responder. As mãos de Roberta subiram até seus ombros, depois para a nuca, encaixando-se ali como se tivessem aprendido o caminho.
— Beta — Sarah murmurou.
Roberta fechou os olhos por um segundo.
— Gosto quando você me chama assim.
— Eu sei.
— Convencida.
Sarah beijou o canto da boca dela.
— Observadora.
Roberta riu.
Depois o riso virou suspiro.
O beijo se aprofundou sem pressa, mas sem inocência. Sarah sentiu Roberta se entregar ao calor crescente do momento, e permitiu-se responder sem medo de parecer demais. Tocou-a com a segurança de quem já começava a conhecer, mas ainda reverenciava cada reação nova. Roberta a guiou até a superfície de repouso, ou talvez Sarah a conduzisse; naquela noite, a diferença importava menos.
Os corpos se encontraram como quem continua uma conversa iniciada horas antes.
As palavras diminuíram e os gestos falaram mais.
A casa viva reduziu a luz ao redor delas, e a água nos canais pareceu ficar mais baixa, mais distante, como se Éden-9 soubesse que algumas formas de escuta exigiam delicadeza.
Sarah amou Roberta com o corpo inteiro. Não para reparar, tentar fugir ou esquecer, ela amou Roberta porque queria e podia. Porque Roberta estava ali, viva, quente, rindo baixo contra sua pele, chamando-a de Sah como se aquele nome pertencesse a um lugar onde Sarah finalmente pudesse descansar.
E, quando Roberta adormeceu mais tarde com o rosto escondido junto ao seu pescoço, Sarah permaneceu acordada por alguns minutos, olhando a luz baixa da casa.
A Terra continuava distante, mas não silenciosa, Sarah só ainda não sabia.
Asha Patel
Na manhã seguinte, Asha acordou com o alarme mudo da Aurora.
Não era um som, era uma alteração de luz no alojamento da nave, um pulso azul na parede ao lado da cama, discreto o suficiente para não acordar em pânico e insistente o bastante para dizer: levante agora.
Asha abriu os olhos antes mesmo que a consciência voltasse por completo.
— Relatório — murmurou.
Aurora respondeu em volume baixo:
— Pacote de comunicação recebido da Terra. Classificação: prioridade estratégica. Autenticação do Conselho de Soberania Humana. O pacote tentou iniciar sincronização automática com arquivos de missão.
Asha sentou-se de imediato.
O sono desapareceu.
— Tentou acessar quais arquivos?
— Índices de classificação de risco, registros da comunidade adaptada, leituras de biosfera neural e relatórios de viabilidade de coleta.
Asha sentiu o sangue esfriar.
— Coleta ou extração?
Aurora hesitou meio segundo.
— O termo usado foi coleta. O padrão de metadados corresponde à solicitação anterior de extração neural.
Asha já estava de pé, pegando a jaqueta do uniforme.
— Bloqueou?
— Parcialmente. O pacote iniciou três rotas de verificação antes do bloqueio completo. Nenhum dado sensível foi transmitido.
— Parcialmente não é uma palavra que eu gosto às seis da manhã.
— São cinco e quarenta e três no ciclo da Aurora.
— Aurora.
— Bloqueio completo estabelecido agora.
Asha foi até o terminal principal do pequeno alojamento e abriu os registros. O pacote terrestre apareceu em camadas rígidas de autenticação, como um objeto pesado tentando entrar por uma porta estreita. O selo do Conselho piscava no canto superior. Havia também uma assinatura secundária militar, menor, embutida no rodapé do arquivo.
Asha ampliou.
Não reconheceu o código de imediato.
Mas reconheceu a intenção.
Pressão.
Impaciência.
Comando.
— Eles não estão mais perguntando — disse.
Aurora respondeu:
— Concordo.
Asha abriu o conteúdo preliminar.
A mensagem era curta demais para algo tão perigoso.
Missão Aurora, resposta estratégica pendente além do prazo operacional aceitável. Solicita-se atualização imediata sobre: condição da colônia adaptada, estabilidade cognitiva da equipe, grau de risco da biosfera neural, viabilidade de contenção, aplicabilidade de recuperação biológico-neural e integridade da cadeia de comando. Ausência de resposta será interpretada como comprometimento da missão.
Asha leu duas vezes.
Na segunda, a raiva veio mais clara.
— Integridade da cadeia de comando — repetiu.
Aurora manteve-se silenciosa.
Asha abriu os subpacotes anexos.
Havia formulários pré-formatados de classificação. Grau de risco. Grau de influência cognitiva. Grau de autonomia da comunidade. Grau de integração com estrutura planetária. Recomendações de contenção. Possibilidade de retirada de equipe. Possibilidade de isolamento orbital.
E, em uma camada oculta, havia uma solicitação de chave para ativação parcial de rotinas do Protocolo Semente Branca.
Asha parou.
— Aurora.
— Eu vi.
— Isso é tentativa de pré-ativação?
— Sim. Ainda não executável sem autenticação de Sarah, mas o pacote tenta preparar o ambiente de comando para recebê-la.
Asha sentiu náusea.
— Eles estão montando a arma antes de pedir para ela apertar o gatilho.
Aurora demorou um instante.
— Essa formulação é emocionalmente forte.
— Está errada?
— Não.
Asha fechou os olhos por um segundo.
Depois voltou ao terminal.
— Corte todas as rotas de preparação. Isole o pacote em ambiente morto. Nada de indexação automática. Nada de leitura cruzada com arquivos de Éden.
— Em execução.
— E crie um espelho falso para o sistema terrestre. Preciso que pareça que o pacote está aguardando processamento em fila de interferência, não bloqueado ativamente.
— Isso será interpretado como atraso técnico.
— Exato.
— Asha.
Ela parou ao ouvir o tom da IA.
Aurora quase nunca usava o nome dela daquele jeito. Sem título. Sem função. Sem comentário.
— O quê?
— Atrasos técnicos não sustentarão a situação por muito mais tempo.
Asha olhou para o pacote na tela.
— Eu sei.
— A Terra aumentará pressão.
— Eu sei.
— Há probabilidade crescente de tentativa de contornar Sarah.
Asha respirou fundo.
— Eu sei.
O silêncio da nave pareceu ficar maior.
A Aurora orbitava Éden-9, mas parte essencial da equipe estava na superfície. Sarah, Roberta, Mei e Sergey em Aurora Prime. Asha e Samira na nave, guardando portas que talvez não conseguissem segurar para sempre. A IA entre todas, cada vez menos ferramenta e mais testemunha.
— Chame Samira — disse Asha.
— Ela está em repouso.
— Não estará quando souber.
Aurora não discutiu.
A projeção de Samira apareceu cinco minutos depois na sala de comunicações, ainda prendendo o cabelo, o rosto irritado de quem dormira pouco e fora acordada por motivo que, infelizmente, justificava a interrupção.
— Fale.
Asha mostrou a mensagem.
Samira leu em silêncio.
O rosto dela endureceu linha por linha.
— Eles pediram integridade cognitiva da equipe.
— Sim.
— Depois de exigirem dados de extração de uma comunidade viva.
— Sim.
— E querem pré-ativar rotinas do protocolo.
— Sim.
Samira soltou uma respiração lenta.
— Chame Sarah.
Asha já tinha aberto o canal seguro para Éden.
A conexão demorou mais que o normal. A interferência natural do planeta estava mais densa naquela manhã, mas não hostil. Parecia uma névoa sobre os sinais.
Aurora ajustou a transmissão.
— Canal com Aurora Prime estabelecido.
A imagem de Sarah apareceu alguns segundos depois.
Não em uniforme completo. Cabelos ainda um pouco soltos, expressão alerta demais para quem provavelmente acordara há pouco. Roberta surgiu atrás dela, também rapidamente recomposta, mas Asha percebeu o instante mínimo em que as duas olharam uma para a outra antes de se voltarem ao canal.
Em outro momento, talvez tivesse achado curioso.
Naquele, não havia espaço.
— Relatório — disse Sarah.
Asha mostrou o pacote.
Sarah leu.
Roberta leu por cima do ombro dela.
Asha viu o momento exato em que a expressão da capitã mudou.
Não foi surpresa, foi confirmação, como se uma parte dela já soubesse que a Terra não esperaria muito mais.
— Algum dado transmitido? — perguntou Sarah.
— Não. Bloqueamos.
Aurora completou:
— O pacote está isolado. A Terra receberá resposta de atraso por interferência, se autorizada.
Sarah ficou em silêncio.
Roberta olhou para ela.
Samira falou antes que qualquer uma cedesse ao hábito de ganhar mais algumas horas:
— Sarah, isso não é mais uma solicitação. É escalada.
— Eu sei.
Asha acrescentou:
— Eles estão tentando preparar o sistema para uma decisão que ainda não foi tomada.
— Sim, eu percebi.
Sarah fechou os olhos por um instante e quando abriu, parecia mais cansada, mas não perdida.
Asha percebeu uma diferença nela. A Sarah de dias antes talvez procurasse imediatamente uma solução de contenção: ganhar tempo, isolar, atrasar, calcular, reduzir dano. A Sarah diante dela parecia compreender que algumas pressões não diminuíam com adiamento. Apenas cresciam no escuro.
Roberta tocou o braço dela, não para conduzir, estava mais para lembrar que estava ali.
Sarah olhou para o toque.
Depois para a transmissão.
— Chega.
A palavra foi baixa, mas atravessou a sala da Aurora como ordem e ruptura ao mesmo tempo.
Asha ficou imóvel.
Samira também.
— Capitã? — perguntou Aurora.
Sarah levantou o olhar.
— Nós não vamos continuar fingindo interferência técnica enquanto a Terra prepara a próxima coleira.
Roberta respirou fundo atrás dela.
Sarah continuou:
— Eles querem uma resposta. Terão uma resposta.
Asha sentiu o coração acelerar.
— Para o Conselho?
Sarah olhou para ela, por um instante, nenhuma das duas falou.
Depois Sarah disse:
— Não.
Samira aproximou-se da projeção.
— Sarah...
— Não ao Conselho. Não primeiro. Não mais.
Roberta olhou para Sarah, e Asha viu algo passar entre as duas. Não surpresa. Talvez orgulho. Talvez medo. Talvez os dois.
— A Terra precisa ouvir — disse Sarah.
Asha sentiu a frase se formar como possibilidade perigosa demais.
— A Terra inteira?
Sarah não respondeu de imediato.
Olhou para Roberta, depois para Asha e depois para Aurora.
— Comecem a estudar como faríamos isso.
O silêncio que veio depois pareceu maior que a nave.
Aurora pulsou suavemente no terminal.
— Entendido.
Asha olhou para os dados, para o selo do Conselho, para a mensagem que tentava transformar Éden-9 em risco, recurso e propriedade antes mesmo de admitir que era mundo.
Pela primeira vez desde que acordara, o medo dividiu espaço com outra coisa.
Possibilidade.
Sarah respirou fundo na projeção.
— Não respondam nada por enquanto. Bloqueiem. Isolem. Ganhem algumas horas, não para fugir. Para preparar.
Samira perguntou:
— Preparar o quê?
Sarah olhou para Éden-9, fora do campo da transmissão.
Quando voltou a falar, sua voz estava firme.
— A primeira resposta que não poderá ser enterrada.
A transmissão permaneceu aberta por mais alguns segundos.
Ninguém perguntou detalhes, talvez porque todas soubessem que, uma vez dita em voz alta, aquela ideia mudaria tudo.
Asha olhou para Aurora.
Aurora olhou de volta do único modo que podia: uma luz azul, pequena e constante, no centro do terminal.
Lá embaixo, Éden-9 respirava e a pergunta não era mais como responder ao poder e sim, como passar por cima dele para falar com todos.
Fim do capítulo
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