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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

Ver comentários: 2

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Palavras: 4125
Acessos: 115   |  Postado em: 16/06/2026

A mensagem de Éden

Roberta Almeida

 

A ideia era impossível.

Está foi a primeira coisa que Roberta pensou quando Sarah desligou a transmissão com a Aurora.

Não impossível do tipo poético, como árvores que ouviam, lagos que devolviam memórias ou um planeta capaz de conduzir pessoas até uma estrutura pré-humana enterrada sob rocha viva. Essas impossibilidades, Éden-9 já havia tornado quase cotidianas.

Aquela era uma impossibilidade humana. A pior espécie. Falar com a Terra inteira, não com o Conselho, estações orbitais e seus militares, diretores de missão, comissões estratégicas, ministros, almirantes ou homens e mulheres treinados para transformar qualquer descoberta em sigilo, propriedade, vantagem ou ameaça, era para a Terra inteira.

Casas, escolas, hospitais, estações agrícolas, cidades subterrâneas, colônias orbitais, centros de comando, crianças vendo telas públicas, famílias que talvez ainda lembrassem os nomes dos primeiros colonos de Aurora Prime. Pessoas comuns, que nunca haviam autorizado o Conselho a transformar outro mundo em recurso.

Roberta estava sentada no pátio central de Aurora Prime, algumas horas depois da mensagem da Terra, tentando organizar a própria respiração enquanto a comunidade se reunia.

Não era uma reunião como as da Aurora.

Não havia mesa, hierarquia visual, ordem de fala projetada, protocolo de ata. Havia círculos.

Vários.

Um círculo maior formado por representantes da comunidade, cuidadoras, jovens, pessoas que haviam vivido o início da adaptação e outras que nasceram depois dela. Um círculo menor onde estavam Sarah, Roberta, Mei e Sergey fisicamente. Asha e Samira apareciam em projeções estabilizadas pela Aurora, que se mantinha como uma luz azul suave no centro do espaço.

Iara estava de pé.

Não no centro.

Um pouco ao lado.

Roberta já havia entendido que, em Éden-9, liderança não significava necessariamente ocupar o lugar para onde todos olhavam. Às vezes significava sustentar o espaço para que os outros pudessem olhar uns para os outros sem se destruir.

Sarah estava sentada à sua direita.

O uniforme dela voltara a estar ajustado, mas havia menos rigidez nos ombros. Ainda era a capitã da Aurora. Isso não desapareceria. Talvez nem devesse desaparecer. Mas, agora, havia também Sah. Havia a mulher que, poucas horas antes, acordara ao lado de Roberta e sorrira com a boca contra sua pele. Havia a mulher que dissera eu te amo sem enfeite e que agora estava prestes a trair a cadeia de comando para tentar salvar um planeta.

Roberta sentiu a mão de Sarah tocar a sua por baixo da dobra do tecido que cobria os assentos.

Um toque breve.

Quase nada.

O suficiente para lembrar: eu estou aqui.

Roberta entrelaçou os dedos aos dela por um segundo.

Depois soltou.

Aquele não era um momento só das duas.

Era maior.

E justamente por isso, talvez, o amor entre elas parecesse mais real. Não um abrigo contra o mundo, mas uma forma de permanecer dentro dele sem virar pedra.

Iara começou:

— A Terra pediu resposta.

Nenhum murmúrio atravessou a comunidade.

Todos já sabiam.

Roberta sentia isso no ar. Éden-9 era péssimo em permitir que certas verdades ficassem contidas em uma única sala. Não como fofoca. Como vibração. O planeta havia ouvido a pressão da Terra, a tentativa de preparar o Protocolo Semente Branca, a insistência em classificar a comunidade adaptada como risco, recurso e problema de soberania.

— A capitã Solano propõe que a resposta não seja dada apenas aos que fizeram a pergunta — continuou Iara. — Propõe que a Terra escute antes de decidir o que fará conosco.

Mei, ao lado de Sergey, mexeu desconfortavelmente os dedos.

— Quando ela coloca assim, parece quase simples.

Asha respondeu pela projeção:

— Tecnicamente, não é simples em nenhuma camada operacional.

Mei olhou para ela.

— Eu estava tentando ter esperança por seis segundos.

— Desculpa.

Aurora pulsou.

— Posso confirmar que seis segundos de esperança não prejudicam o planejamento.

Mei apontou para a esfera.

— Obrigada. Isso foi quase reconfortante.

Aurora respondeu apenas:

— De nada.

Roberta percebeu a sutileza.

Aurora estava aprendendo a não preencher cada espaço com explicação.

Samira, na projeção ao lado de Asha, cruzou os braços.

— Antes de discutirmos transmissão global, precisamos discutir conteúdo. Uma mensagem errada pode ser usada contra a comunidade. Uma mensagem emocional demais pode ser desacreditada. Uma mensagem técnica demais pode ser apropriada pelo Conselho antes de tocar alguém.

— Então precisa ser as duas coisas — disse Roberta.

Todos olharam para ela.

Roberta sentiu o peso do círculo, mas não recuou.

— Precisa ser verdade verificável e precisa ser humana. Não humana no sentido de colocar a Terra no centro. Humana no sentido de que as pessoas precisam entender que não estamos falando de abstrações. Não é biosfera neural. Não é material biológico. Não é estrutura cognitiva. É casa. É memória. É comunidade. É vida.

Iara a observou com atenção.

— E Éden?

Roberta olhou ao redor para as árvores que sustentavam o pátio, o canal de água correndo perto de seus pés e para as casas vivas que respiravam em luz baixa depois da crise.

— Éden precisa aparecer como sujeito. Não como cenário.

A frase deixou o ar mais denso.

Asha inclinou-se para frente na projeção.

— Essa é a parte que a Terra vai resistir mais.

— Eu sei.

— Reconhecer Éden como sujeito significa reconhecer direito de recusa.

— Sim.

Sarah olhou para Roberta.

Havia orgulho no olhar dela.

E medo.

Roberta conhecia ambos em si mesma.

Sergey falou pela primeira vez:

— Se dissermos que Éden é sujeito, parte da Terra dirá que a equipe foi comprometida cognitivamente.

Mei soltou o ar.

— Eles já estão preparando essa narrativa.

— Sim — disse Sergey. — Então precisamos assumir o risco antes que usem contra nós.

Roberta olhou para ele.

Sergey continuou:

— A mensagem deve dizer que fomos influenciados pelo contato. Sarah já disse isso. Mas precisamos definir influência como aprendizado, não submissão.

Asha ficou em silêncio por um instante.

— Essa formulação pode funcionar.

Mei olhou para Sergey de lado.

— Você anda assustadoramente útil.

Ele aceitou sem reagir.

— Estou tentando.

Foi simples.

E, por isso, funcionou.

Uma mulher da comunidade, mais velha que Iara, levantou a mão. Seu nome era Amat. Roberta a vira poucas vezes, sempre nos círculos de cuidado. Tinha marcas luminosas nas mãos e olhos tão escuros que pareciam guardar noite líquida.

— A Terra deve saber que há crianças aqui — disse Amat.

Iara ficou imóvel.

Naya, sentada atrás dela, abaixou o olhar.

Roberta sentiu Sarah tensionar ao seu lado.

Samira respondeu primeiro:

— Isso pode colocá-las em risco.

— Elas já estão em risco por existirem sem permissão da Terra — disse Amat.

A frase atravessou o círculo como vento frio.

A mulher continuou:

— Se escondemos as crianças, a Terra dirá que somos experimento. Se mostramos as crianças, a Terra pode desejá-las como prova, recurso ou ameaça. Não há caminho sem perigo.

— Então por que mostrar? — perguntou Sergey, mas sem dureza.

Amat olhou para ele.

— Porque muitos humanos só param de amar a violência quando veem o rosto de quem será atingido.

Ninguém respondeu.

Roberta pensou nas crianças de Éden. Em Liora dizendo a Sarah que ela fazia muito barulho por dentro. Em Naya mais jovem, mas com uma maturidade antiga. Em pequenos corpos que aprenderam a tocar o planeta com delicadeza antes de aprenderem a temer a Terra.

Sarah falou baixo:

— Não usaremos crianças como escudo emocional.

Amat sustentou o olhar dela.

— Não pedi isso.

— Eu sei.

— Pedi que não as apaguem.

Sarah respirou.

— Isso podemos fazer.

Iara assentiu.

— A mensagem não mostrará rostos sem consentimento das famílias. Mas não negará que há novas gerações.

Roberta anotou mentalmente.

Novas gerações, não mutações, seres adaptados e não ativos biológicos, mostrariam gerações.

A escolha das palavras importava. Talvez mais do que nunca.

A reunião seguiu por horas.

Não houve pressa porque pressa, em Éden-9, ainda era vista com desconfiança moral. Asha projetou as rotas possíveis de transmissão. A Terra possuía camadas públicas, governamentais e militares de comunicação. Qualquer sinal vindo da Aurora seria automaticamente interceptado por estruturas oficiais antes de atingir redes globais. Para falar com todos, seria preciso atravessar ou contornar essas camadas.

Asha não gostava de nenhuma das opções.

— Posso construir uma transmissão em cascata usando canais públicos antigos, redes civis e satélites de emergência — explicou. — Mas a Terra pode cortar parte disso.

Aurora pulsou no centro do círculo.

— Não se o sinal for distribuído em fragmentos autorreplicantes de baixa agressividade, usando assinaturas humanitárias e protocolos de alerta populacional.

Mei olhou para a esfera.

— Isso soa ilegal.

Aurora respondeu com calma:

— É.

O silêncio que veio depois foi quase cômico.

Samira levou a mão ao rosto.

— Aurora.

— A pergunta implícita era operacional, não jurídica.

Asha respirou fundo.

— Ela está certa. Funcionaria melhor.

Sarah olhou para a projeção de Asha.

— Risco?

— Para nós? Alto. Para a Terra? Baixo. Não seria ataque a sistemas essenciais. Seria invasão de transmissão. O tipo de coisa que derruba carreiras e inicia julgamentos, não cidades.

Mei murmurou:

— Ah, só isso.

Sarah não sorriu.

Roberta olhou para ela.

A capitã absorvia cada consequência. Não desviava.

Isso, Roberta percebeu, era parte do que havia mudado. Sarah ainda calculava. Mas já não usava cálculo para evitar escolha.

Iara caminhou até o centro do círculo e tocou a superfície viva sob os pés.

— Éden também falará.

A frase fez Asha levantar a cabeça.

— Como?

— Não em palavras.

Roberta sentiu a pele arrepiar.

— Iara...

A mulher olhou para ela.

— A mensagem humana alcançará ouvidos. Éden pode alcançar o intervalo antes da resposta.

Sergey ficou tenso.

— Isso soa como influência cognitiva.

— É — disse Iara.

A honestidade brutal dela fez o círculo prender a respiração.

— Não aceitaremos isso — disse Sergey.

Antes, a frase teria soado como ameaça.

Agora parecia limite.

E, surpreendentemente, Iara assentiu.

— Por isso estamos dizendo antes.

Roberta olhou de Iara para Sarah.

Sarah parecia atenta, não reativa.

Iara continuou:

— Não falamos de alterar pensamentos. Não falamos de invadir memória. Falamos de transmitir uma sensação simples: presença. Que, por alguns segundos, quem escutar saiba que há vida do outro lado. Não comandos. Não imagens forçadas. Não dor. Apenas presença.

Samira respondeu:

— Isso ainda exige consentimento.

— Sim.

— A Terra inteira não poderá consentir antes de receber.

Iara aceitou o golpe sem defesa.

— Então talvez Éden não fale.

O silêncio se alongou.

Naya levantou a cabeça.

— Ou talvez fale apenas pela Aurora.

Todos olharam para ela.

A jovem parecia desconfortável por ter chamado atenção, mas continuou:

— A Aurora já escutou Éden. Não como vocês, mas escutou. Ela pode carregar presença sem tocar diretamente as pessoas.

Aurora permaneceu em silêncio.

Sarah olhou para a esfera azul.

— Aurora?

A luz pulsou uma vez.

— A proposta é... possível de analisar.

Roberta percebeu a pausa.

A IA não costumava pausar por falta de processamento. Pausava, agora, por significado.

Asha franziu o cenho.

— Você está dizendo que poderia incorporar à transmissão um padrão sensorial de Éden filtrado por você?

— Um equivalente muito limitado. Não cognitivo. Não invasivo. Algo semelhante a uma assinatura de ambiente. Um contexto emocional mínimo, talvez comparável à diferença entre ler a palavra “mar” e ouvir cinco segundos de ondas.

Mei olhou para Asha.

— Isso parece menos assustador?

Asha pensou.

— Um pouco.

Samira não pareceu convencida.

— Preciso revisar isso.

Aurora respondeu:

— Concordo.

Iara olhou para a IA.

— Éden não quer possuir a voz de ninguém. Só não quer ser reduzido a descrição.

A esfera azul ficou imóvel.

— Entendo melhor do que antes.

Roberta sentiu aquela frase tocar algo nela.

Aurora também estava lutando para não ser reduzida ao que a Terra fizera dela.

A mensagem começou a ser escrita no fim da tarde. Não em uma única voz, era isso que Roberta insistiu.

— Se Sarah falar sozinha, parecerá relatório de comando. Se Iara falar sozinha, a Terra poderá chamar de influência local. Se eu falar sozinha, vão dizer que sou cientista comprometida. Se Aurora falar sozinha, chamarão de falha sistêmica.

— Então todos falam — disse Mei.

— Nem todos — respondeu Roberta. — Mas várias camadas.

Asha abriu uma matriz.

— Estrutura sugerida: testemunho da Aurora, declaração da capitã, fala da comunidade, comprovação visual limitada, parecer ético-médico de Samira, declaração científica de Roberta e bloqueio explícito contra uso extrativo dos dados.

Sergey ficou quieto por algum tempo.

Depois disse:

— Incluam uma voz militar.

Todos olharam para ele.

Mei foi a primeira:

— A sua?

Ele assentiu.

Roberta estudou o rosto dele.

— Por quê?

Sergey demorou.

— Porque parte da Terra só vai escutar medo. Alguém precisa falar com quem foi treinado para confundir medo com ordem.

Sarah o observou em silêncio.

Ele continuou:

— Eu posso dizer que avaliei Éden-9 como ameaça. Que agi com base nisso. Que quase feri a comunidade e a equipe. E que minha avaliação estava incompleta porque eu confundia o desconhecido com hostilidade.

Mei não fez piada, Asha tampouco.

Roberta sentiu algo se mover no círculo, Sergey não pedia redenção, ele oferecia utilidade à própria falha.

— Isso é importante — disse Sarah.

Ele assentiu.

— Então use.

Roberta anotou mais uma camada.

Testemunho de Sergey, não para absolver, mas para alcançar aqueles que talvez só confiassem em alguém que antes concordaria com eles.

O primeiro rascunho da mensagem ficou horrível.

Mei disse isso antes de todos, com uma honestidade quase aliviadora.

— Isso parece ata de reunião com crise existencial, precisamos ajustar vários pontos.

Asha, ofendida, respondeu:

— É um rascunho operacional.

— Exatamente.

O segundo ficou bonito demais.

Samira rejeitou.

— Se parecer poesia pura, eles vão enquadrar como contaminação emocional da equipe.

O terceiro era técnico demais.

Roberta rejeitou antes de terminar a leitura.

— Ninguém vai proteger um mundo que parece manual de risco biológico.

O quarto começou a ter forma. Aurora projetou o rascunho no centro do círculo sem ler em voz alta.

Talvez porque todos, de algum modo, entendessem que aquelas palavras precisavam ser guardadas até o momento certo. Não podiam perder força ali, dentro de um círculo protegido em Éden-9, quando tinham sido feitas para atravessar conselhos, filtros, estações, cidades, casas e chegar ao coração da Terra.

A mensagem estava dividida em camadas.

A primeira seria da Aurora.

Depois viria a declaração da capitã.

Em seguida, a voz da comunidade.

O parecer de Samira.

O testemunho científico de Roberta.

A fala de Sergey.

E, por fim, algo que ainda não sabiam nomear completamente: uma presença mínima de Éden, filtrada pela própria Aurora, não como invasão, não como comando, mas como contexto. Como se, por alguns segundos, quem escutasse pudesse entender que o planeta do outro lado da transmissão não era cenário.

Era alguém.

Asha analisava a estrutura com o rosto fechado.

— Algumas expressões serão contestadas imediatamente.

— Tudo será contestado — respondeu Roberta.

Samira assentiu pela projeção.

— Então não podemos escrever para evitar contestação. Precisamos escrever para impedir distorção.

Mei estava sentada com os braços apoiados nos joelhos, incomumente quieta.

— Se ficar técnico demais, ninguém sente. Se ficar bonito demais, vão dizer que fomos contaminados pelo planeta.

— Por isso precisa ser testemunho — disse Sarah.

A voz dela atravessou o círculo com firmeza.

Roberta olhou para ela.

Sarah estava pálida pelo cansaço dos últimos dias, mas havia algo novo em sua postura. Não a dureza antiga. Não a capitã que usava controle como couraça. Era outro tipo de força. Uma força que aceitava estar ferida e, mesmo assim, permanecia de pé.

— Testemunho não pede que acreditem sem pensar — continuou Sarah. — Ele diz: nós vimos. Nós fizemos parte. Nós escolhemos responder por isso.

Sergey abaixou o olhar.

— Meu trecho precisa assumir responsabilidade pelo marcador.

Mei olhou para ele.

— Você tem certeza?

— Tenho.

Ele respirou devagar antes de continuar:

— Se eu falar apenas que mudei de opinião, não servirá. Preciso dizer que agi por medo. Que chamei aquilo de segurança. Que quase repeti, em escala menor, a mesma lógica que condenamos na estrutura antiga.

O silêncio que veio depois não foi confortável.

Mas foi respeitoso.

Roberta percebeu que ninguém tentou poupá-lo daquela frase. Nem acusá-lo além dela. Talvez porque, pela primeira vez, Sergey não tentava diminuir a própria responsabilidade. Ele apenas a colocava no centro, onde todos pudessem vê-la.

Aurora pulsou suavemente.

— Registrarei o testemunho como camada autônoma, sem edição de sentido.

— Pode ajustar a linguagem — disse Sergey. — Não quero parecer mais nobre do que fui.

Mei o observou por um instante.

— Isso foi... decente.

Sergey virou o rosto para ela.

— Obrigado?

— Não se acostuma.

Mas a voz dela não tinha veneno, tinha cuidado disfarçado.

Asha ampliou uma das seções do rascunho, mantendo o texto ilegível para os demais.

— Aqui há uma declaração sobre a autonomia de Aurora Prime. Precisamos decidir até onde vamos mostrar a comunidade. Imagens demais expõem pessoas. Imagens de menos facilitam que a Terra diga que estamos exagerando ou inventando.

Iara, que permanecera em silêncio até então, ergueu os olhos.

— A comunidade não será escondida como vergonha. Mas também não será oferecida como prova para saciar curiosidade.

Samira respondeu:

— Podemos usar imagens consentidas, amplas, sem identificação direta das crianças.

Amat, sentada entre as cuidadoras, acrescentou:

— Não apaguem as novas gerações.

Sarah assentiu.

— Não apagaremos.

Roberta anotou aquela frase mentalmente.

Não apagaremos.

Talvez essa fosse a linha que sustentava tudo, não apagar a comunidade ou tudo o que já tinha acontecido até aquele momento e principalmente, eles não deveriam apagar o amor que, apesar de tudo, continuava nascendo.

A mensagem crescia diante delas sem ser lida. Trechos eram reorganizados, camadas movidas, palavras substituídas. Em alguns momentos, Asha marcava uma expressão como risco de manipulação política. Em outros, Samira exigia precisão ética. Iara retirava qualquer formulação que transformasse Éden em metáfora. Roberta cortava termos que pareciam científicos demais para pessoas que precisariam sentir antes de compreender.

Sarah mexia pouco no texto, mas quando falava, todos escutavam.

— A recusa ao protocolo precisa estar explícita — disse ela. — Sem linguagem ambígua. Sem parecer que foi uma divergência administrativa.

Asha olhou para ela.

— Isso pode ser usado como confissão de insubordinação.

— É uma confissão de insubordinação.

Mei soltou o ar devagar.

— Pelo menos agora estamos chamando as coisas pelo nome.

Roberta sentiu orgulho e medo ao mesmo tempo.

Dizer aquilo na mensagem seria atravessar uma linha sem retorno. Não apenas para Sarah. Para todos.

Aurora manteve o rascunho suspenso no centro do círculo, mas o texto permanecia oculto aos olhos do leitor daquela cena, como se a própria narrativa compreendesse que certas palavras precisavam esperar o momento de serem ditas ao mundo.

— O encerramento ainda não está certo — disse Asha.

Roberta olhou para a matriz projetada. O espaço final estava marcado, mas vazio, um lugar reservado para a última frase, aquela que a Terra ouviria antes do silêncio.

Iara se levantou e caminhou até o centro do círculo. Tocou a superfície viva sob os pés com dois dedos.

O chão respondeu com um pulso baixo.

Tão discreto que Roberta quase confundiu com o próprio coração.

— A mensagem precisa dizer a verdade antes que a barreira exista por completo — disse Iara.

Sergey franziu o cenho.

— Barreira?

Iara olhou para o céu.

— Éden começou a aprender com a chegada da Aurora. Com o marcador. Com a estrutura antiga. Com a ordem que Sarah trouxe. Com as rotas da Terra tentando entrar pelos sistemas da nave.

Roberta sentiu um arrepio subir.

— Ele está se protegendo.

— Sim.

Asha falou pela projeção:

— Como?

Iara olhou para Aurora.

— Talvez vocês nos ajudem a entender os nomes técnicos depois.

Aurora permaneceu em silêncio.

Asha também.

Roberta sentiu o tamanho do que ainda estava fora da compreensão delas. Éden-9 não estava apenas reagindo a eventos isolados. Estava aprendendo. Reorganizando sua própria defesa. Transformando memória em limite.

Sarah ficou muito séria.

— Isso pode impedir nossa saída?

— Não se Éden permitir — disse Iara.

Mei soltou o ar devagar.

— Eu gostaria de dizer que essa frase não me tranquiliza, mas depois do dia que tivemos, acredito que seja o melhor.

A reunião terminou à noite, ou talvez não tenha terminado; apenas se dissolveu quando todos ficaram cansados demais para continuar escolhendo palavras que poderiam mudar mundos.

A mensagem ainda não estava pronta, mas já existia e isso era suficiente para tornar o ar diferente.

Roberta acompanhou Sarah até a beira do canal principal. A comunidade se dispersava ao redor delas, em pequenos grupos silenciosos. Asha e Samira encerraram as projeções para trabalhar na Aurora com Aurora. Mei e Sergey foram verificar o Vega antes de dormir. Iara permaneceu no pátio com Naya, conversando baixo com as cuidadoras.

Sarah ficou olhando para a água.

— Nós cruzamos outra linha hoje.

Roberta parou ao lado dela.

— Sim.

— Não sei se há volta.

— Acho que essa era justamente a linha.

Sarah soltou uma respiração curta.

Roberta tocou sua mão.

— Está com medo?

— Muito.

A resposta veio sem armadura.

Roberta entrelaçou os dedos aos dela.

— Eu também.

Sarah olhou para as mãos das duas.

— Beta.

Roberta sorriu levemente.

— Sim?

— Se isso der errado...

— Vai dar errado de algum jeito.

Sarah olhou para ela.

Roberta continuou:

— Não estou dizendo que vai fracassar. Mas alguma coisa vai sair diferente do plano. A Terra vai reagir. O Conselho vai tentar nos esmagar. Alguém vai nos chamar de traidoras. Talvez muita gente. Talvez gente que a gente queria que entendesse.

Sarah ficou em silêncio.

Roberta apertou sua mão.

— Então não vamos fazer porque vai dar certo limpo. Vamos fazer porque não dá mais para fazer o errado só porque parece mais seguro.

Sarah fechou os olhos por um instante e quando abriu, havia luz refletida neles.

— Você percebe que esse tipo de frase é exatamente o motivo pelo qual Keller quis você na missão?

Roberta fez uma careta.

— Não estraga meu momento com a lembrança do almirante manipulador.

Sarah quase sorriu.

— Desculpe.

— Péssimo hábito.

— Estou em recuperação.

Roberta se aproximou e beijou o ombro dela.

— Continue.

Sarah virou o rosto e beijou sua testa.

Ficaram assim por alguns segundos, junto à água, sem esconder completamente o gesto e sem transformá-lo em espetáculo. Ao longe, Roberta viu Naya olhando e, pela primeira vez, a jovem não sorriu com malícia leve. Apenas tocou o próprio peito, como se reconhecesse algo.

Talvez um vínculo.

Talvez uma escolha.

Talvez a forma como duas pessoas podiam amar no meio de uma decisão impossível e ainda assim tornar esse amor útil ao mundo, não como arma, mas como coragem.

Naquela noite, antes de dormir, Roberta sonhou com a Terra, não foi como a memória do lago.

Não havia cozinha da avó, nem chuva em São Paulo, nem canção antiga. Havia apenas um planeta azul distante, suspenso no escuro, enorme e frágil. Em sua superfície, bilhões de luzes acendiam e apagavam, cada vida que não sabia ainda que uma mensagem vinha atravessando o impossível em sua direção.

Roberta viu crianças olhando para o céu. Viu mães, pais, irmãs, amantes, médicos, engenheiras, agricultores, soldados.

Viu gente cansada demais para acreditar em mais uma verdade.

Viu gente faminta por uma.

Então uma voz sem boca, talvez Éden, talvez apenas seu próprio medo, perguntou:

Eles vão escutar?

Roberta acordou antes de responder, Sarah dormia ao lado dela, uma das mãos repousando sobre sua cintura.

A casa viva respirava baixo.

Do lado de fora, Aurora Prime permanecia acesa em pontos suaves.

Roberta ficou olhando para o teto translúcido, sentindo o peso do sonho e a mão de Sarah em sua pele.

Não sabia se a Terra escutaria ou se merecia escutar, mas, a pergunta não parecia ser se a humanidade merecia a verdade e sim se a pergunta era se alguém tinha o direito de escondê-la.

E Roberta já sabia a resposta.

Na manhã seguinte, quando se reuniu novamente com Sarah, Iara, Asha, Samira, Mei, Sergey e Aurora, não levou certeza.

Levou a frase final.

Esperou todos se acomodarem.

Depois falou:

— A mensagem precisa terminar dizendo que Éden-9 não fechou suas portas para sempre.

Todos olharam para ela.

Roberta continuou:

— Precisa dizer que ele só aprendeu a fechá-las por dentro.

O silêncio que veio depois foi profundo.

Aurora pulsou no centro do círculo.

— Registrando como encerramento provisório.

Sarah segurou a mão de Roberta por baixo da mesa viva. Iara fechou os olhos e Éden-9, sob os pés delas, respondeu com um pulso baixo.

Não de alarme.

Não de dor.

De reconhecimento.

Fim do capítulo


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Comentários para 30 - A mensagem de Éden:
HelOliveira
HelOliveira

Em: 17/07/2026

Muito boa a história não pare por favor


Gabi Reis

Gabi Reis Em: 18/07/2026 Autora da história
Oii,

Desculpe a interrupção da história, mas acabei de finalizá-la.

Espero que goste!

Bjo e obrigada pelo incentivo


Responder

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AmorDemaisMata
AmorDemaisMata

Em: 09/07/2026

Linda história, por favor continue


Gabi Reis

Gabi Reis Em: 18/07/2026 Autora da história
Que alegria é saber que estão curtindo!!!
Desculpe não ter terminado de publicar antes, estava bem enrolada...hehe!
Agora sim, espero que aproveite

Obrigada por comentar e gostar da história.

Bjo


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