Capitulo 7
O tempo passou de um jeito curioso.
Não rápido o suficiente para apagar sete anos. Mas gentil o bastante para mostrar a Tereza que sobreviver também podia significar reconstruir.
Os dias deixaram de parecer ruínas constantes.
Agora havia rotina outra vez. Mas uma rotina diferente.
Últimos trabalhos da faculdade. Plantões de estágio. Artigo atrasado. Café demais. Ansiedade de fim de curso.
Tereza estava exausta.
Concluir Enfermagem parecia, ao mesmo tempo, sua maior vitória… e um colapso iminente.
— Se eu sobreviver ao TCC, sobrevivo a qualquer coisa.
Mandou numa terça-feira, quase meia-noite.
A resposta veio em menos de um minuto.
Alexandra: Como professora, sou obrigada a dizer que provavelmente sim kkk
Tereza sorriu automaticamente.
Porque agora sabia exatamente onde Alexandra estava quando respondia àquela hora: Provavelmente largada no sofá, óculos tortos, notebook aberto, corrigindo algum projeto de aluno enquanto reclamava da existência.
Professora de desenvolvimento de software.
Tereza ainda achava engraçado como alguém tão ácida podia ensinar lógica para adolescentes sem causar colapsos coletivos.
— Você claramente aterroriza seus alunos disse por áudio.
Alexandra respondeu rindo.
— Primeiro: eu sou adorável. Segundo: só corrijo código ruim com agressividade moderada.
— Moderada?
— Tereza… eu ensino gente que erra vírgula e derruba sistema. Eu tenho limites.
Tereza gargalhou, deu boa noite e dormiu.
Aquilo tinha se tornado perigosamente comum: Alexandra invadindo seus dias como se já pertencesse a eles.
A intimidade cresceu sem pedir licença.
Não aconteceu num grande momento. Não teve declaração. Não teve susto.
Foi nos detalhes.
Tereza sabia que Alexandra odiava uva passa. Alexandra sabia que Tereza chorava escondido lendo certos livros. Alexandra sabia o nome da mãe de Tereza, das amigas da faculdade, da orientadora. Tereza sabia sobre o irmão de Alexandra, sobre a pressão no trabalho, sobre o pai, sobre os seus medos secretos.
Sabiam dos traumas. Das versões antigas. Dos sonhos ridículos.
Sabiam até dos silêncios.
E talvez isso fosse o mais perigoso: Alexandra não conhecia só a versão engraçada de Tereza.
Conhecia a cansada. A insegura. A ambiciosa. A quebrada.
E ficou mesmo assim.
Lara também continuava.
Mensagens longas. Flores ocasionais. Pedidos de conversa. Promessas novas com cheiro de antigas.
“Eu posso mudar.”
"Eu ainda acredito na gente.”
“Ninguém vai te amar como eu.”
Essa última quase fez Tereza responder.
Quase.
Mas não porque acreditasse.
Porque, durante muito tempo, teve medo de que fosse verdade.
Numa noite particularmente difícil, mostrou a mensagem para Alexandra.
Tereza: Isso é cruel ou eu tô sensível?
Demorou menos de dez segundos:
Alexandra: É manipulação com fonte bonita.
Tereza soltou uma risada tão alta que assustou a si mesma.
Tereza: Você não tem um minuto de paz?
Alexandra: Tenho sim. Só não quando mexem com você.
E foi isso.
Simples. Rápido. Mas fundo o suficiente para deixá-la em silêncio por mais tempo do que gostaria de admitir.
Na reta final da faculdade, Tereza estava tão sobrecarregada que começou a esquecer de si.
Dormia pouco. Comia mal. Estudava demais.
Até que, numa sexta-feira infernal, chegou em casa e encontrou uma encomenda.
Pequena. Cuidadosamente embalada. Seu nome escrito à mão.
Franziu a testa.
Não esperava nada.
Abriu.
Dentro, uma caixinha.
E, dentro dela…
Um marca-texto em formato de seringa. Um chaveiro em formato de capivara vestida de jaleco. Um copo que brilhava no escuro. Post-its engraçados. Um livro sobre mulheres que mudaram a história. Uma caneta bonita demais para perder em hospital. E uma cartinha.
As mãos de Tereza tremeram levemente ao abrir.
Para a futura enfermeira mais caótica que eu conheço.
Vi essas coisas e, infelizmente, tudo me lembrava você: inteligente, exausta, engraçada e claramente sustentada por cafeína.
Sei que essa fase tá pesada… mas também sei o tamanho da mulher que tá atravessando ela.
Então, caso você esqueça por cinco minutos: você é capaz pra caramba. E eu tô absurdamente orgulhosa de você.
Agora termina esse curso antes que eu precise ir pessoalmente te ameaçar.
Com carinho, Alexandra.”
Tereza releu.
Uma. Duas. Três vezes.
E chorou.
Não como chorou por Lara.
Era diferente.
Não era dor.
Era o impacto brutal de ser vista… de um jeito bonito.
Sentou no chão da sala, cercada por pequenos objetos absurdamente específicos, e percebeu que Alexandra não tinha enviado “presentes”.
Tinha enviado atenção.
Cada detalhe dizia: “Eu escuto.” “Eu noto.” “Eu penso em você quando você não tá aqui.”
E aquilo…
Aquilo podia ser mais íntimo do que qualquer toque.
Naquela noite, ligou sem avisar.
— Você tá maluca?
Alexandra riu do outro lado.
— Oi pra você também.
A voz de Tereza falhou no meio da emoção:
— Você… me mandou uma capivara de jaleco.
— Porque é a sua cara.
— Alexandra.
— Sim?
Silêncio.
Então, mais baixo:
— Ninguém nunca… prestou atenção assim.
Do outro lado, o silêncio também mudou.
Não desconfortável.
Sensível.
— Prestaram sim, Té. Só talvez não do jeito que você merecia.
Tereza fechou os olhos, sentindo lágrimas novas.
Daquelas que nascem quando o coração entende alguma coisa antes da mente.
— Obrigada.
Alexandra respirou fundo.
— Termina sua faculdade. Cuida de você. E, por favor… não perde a caneta, porque foi cara.
Tereza riu chorando.
— Idiota.
— Sua idiota favorita.
E lá estava.
De novo.
Aquela linha tênue. Perigosa. Linda.
Entre amizade… e algo que, cada dia mais, parecia estar lentamente deixando de ser só isso.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: