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Gelo Sob o Fogo por Lady Texiana

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Palavras: 3314
Acessos: 361   |  Postado em: 25/06/2026

Capitulo 3 - A Longa Jornada

 

A transição entre o Leste e o Oeste não se deu de forma abrupta, mas sim através de um lento e exaustivo percurso, e um depósito crescente de fuligem que se acumulava na terceira classe, entranhando nas roupas e pele. Durante os longos dias que se sucederam no interior do vagão de terceira classe, Judith Brown assistiu à transformação do mundo através de uma janela emoldurada por uma camada espessa de poeira.

Os edifícios de tijolos escuros de Boston deram lugar, cruzados os Apalaches, às planícies alagadas de Ohio, que por sua vez se converteram na imensidão cinzenta das pradarias de Illinois e Iowa. 

No espaço confinado do trem, cercada por famílias de imigrantes cujos idiomas ela não compreendia, Judith manteve-se permanentemente atenta, imóvel em sua postura rígida. Enquanto os outros passageiros se acomodavam como podiam entre baús e trouxas de roupas, ela permaneceu sentada na vertical, com as costas sem tocar o encosto de madeira do banco, as mãos enluvadas cruzadas sobre o livro de poesias em seu colo.

Quando o trem finalmente cruzou a imensa ponte de ferro sobre o Rio Missouri e adentrou em Nebraska, a fumaça das chaminés das fábricas parecia ter sido definitivamente substituída por um vento implacável que subia do sul, trazendo o cheiro de terra seca e capim queimado.

Grand Island, o destino final indicado no telegrama do advogado Josiah Higgins, surgiu no horizonte não como uma cidade, mas como um assentamento apressado que crescia em torno dos trilhos da Union Pacific, como muitos outros no Oeste.

Era um lugar de tábuas cruas, cortadas a mão, tetos de zinco que refletiam o sol pálido do inverno e ruas que alternavam entre a sujeira e a lama profunda e a poeira fina que o vento erguia em redemoinhos. Homens de casacos de couro de bisão, soldados de infantaria com uniformes desbotados e colonos de rostos castigados pelos muitos invernos moviam-se entre o Saloon e os armazéns de suprimentos.

Judith desceu do vagão com passos cautelosos. O impacto do ar seco, frio e firme do Oeste fez seus pulmões protestarem por um instante, mas ela não permitiu que nenhuma expressão de desconforto transparecesse em seu rosto. 

Ajustou o chapéu de feltro escuro, firmou o coque com um toque sutil dos dedos e segurou a alça de sua velha mala de lona com a mão direita. Caminhou pela plataforma de madeira áspera da estação, ignorando os olhares curiosos dos carregadores e ferroviários que não estavam habituados a ver uma mulher desacompanhada ostentar uma postura assim tão rigidamente polida naquele ambiente.

O escritório de Josiah Higgins localizava-se em uma estrutura de dois pavimentos feita de pinho recém-cortado, a apenas dois quarteirões da linha férrea. Uma placa pintada à mão indicava os serviços de advocacia e registro de terras. Ao entrar no recinto, Judith foi recebida pelo som rítmico de uma caneta de metal arranhando o papel e pelo odor denso de fumo de corda e papel embolorado.

O advogado era um homem de meia-idade, com óculos de aros de metal equilibrados na ponta de um nariz proeminente e mangas de camisa arregaçadas até os cotovelos. Quando Judith se posicionou diante de sua mesa, batendo levemente os nós dos dedos na madeira para anunciar sua presença, ele ergueu os olhos com uma expressão de surpresa que logo se transformou em reconhecimento oficial.

- Srta. Judith Brown? - perguntou ele, arrastando a cadeira para trás.

- Com efeito, Sr. Higgins - respondeu Judith, inclinando a cabeça na medida exata exigida pelas regras de cortesia que trouxera de Boston. - Recebi o seu despacho telegráfico e apresento-me para a validação dos títulos de propriedade que pertenciam ao meu falecido tio, Silas Vance.

Higgins limpou a garganta, ajustou os óculos e vasculhou uma pilha de documentos amarelados até extrair um envelope amarrado com um barbante grosso.

- Devo admitir que sua chegada me causa certa surpresa, Srta. Brown. Mas a Srta. Veio sozinha? - Perguntou surpreso. - Este território tão ao norte não costuma atrair damas vindas das cidades do Leste, muito menos desacompanhadas. Mas vamos ao que interessa... aqui estão, os documentos estão em perfeita ordem. Seu tio, Silas, foi um dos primeiros a registrar terras nesta seção antes mesmo do Homestead Act se consolidar. Ele faleceu sem testamento formal, e a lei do território dita que a senhorita, como única parente viva comprovada, herda a totalidade dos bens.

O advogado desfez o nó do barbante e estendeu sobre a mesa duas folhas de papel grosso, carimbadas com o selo do Escritório de Terras da União. Havia um mapa desenhado à tinta, mostrando uma sinuosidade que representava o Rio Loup e, adjacente a ela, um quadrilátero tracejado, identificando os limites das terras.

- Aqui estão os títulos definitivos, emitidos em nome de Judith Brown - disse Higgins, apontando com a ponta de uma lapiseira. - Dois centos de acres de terra cultivável e pasto, além de uma benfeitoria registrada como uma casa de troncos e um estábulo para animais.

Judith estendeu a mão enluvada, pegou os papéis e examinou a caligrafia oficial. A sensação do papel grosso sob seus dedos era a primeira prova material de que sua antiga vida em Boston fora deixada para trás. Aquelas folhas representavam seu teto, sua subsistência e sua independência, distante de homens como Arthur Sterling. Ela faria funcionar, tinha certeza de que poderia fazer isso.

- Agradeço pela sua eficiência, Sr. Higgins. Agora, eu gostaria de tomar posse da propriedade. Onde posso alugar uma condução que me leve até o local ainda nesta tarde?

O advogado soltou uma risada curta, destituída de humor, e recostou-se na cadeira, cruzando as mãos sobre o estômago.

- Receio que a senhorita esteja subestimando as distâncias e o terreno de Nebraska, Srta. Brown. O Vale do Rio Loup não é um distrito vizinho onde se possa chegar antes do anoitecer com uma carruagem de aluguel ou de diligência. Estamos falando de uma região situada a quase quarenta milhas ao norte daqui, cruzando o que chamamos de terras inóspitas. É uma área de transição, sem estradas demarcadas, sem postos de diligência e sem assentamentos consolidados. É um território ermo, isolado por pântanos sazonais e desfiladeiros onde quem não conhece muito bem o caminho, pode se perder e no inverno ainda, o risco de morrer congelado é enorme.

Judith não alterou o tom de voz, mantendo as mãos unidas à frente do corpo.

- Compreendo os desafios e os perigos, senhor. Todavia, disponho de recursos limitados e não posso me dar ao luxo de permanecer em uma hospedaria nesta cidade. Minha intenção é seguir viagem imediatamente.

- Ir sozinha para aquela região seria o equivalente a cometer um ato de insensatez, Srta. - Higgins falou com firmeza, adotando um tom quase paternal. - O caminho até as terras de Silas Vance exige o conhecimento de quem sabe ler os sinais do relevo, que conheça muito bem as trilhas e os humores do clima. A senhorita perderia o rumo nas primeiras dez milhas ou teria os cavalos atolados nas ravinas. Se deseja mesmo ir até lá e reivindicar aquele rancho, precisará de um guia. Alguém que conheça as trilhas dos caçadores e que saiba manejar um rifle caso seja necessário.

Judith processou a informação em silêncio. A necessidade de depender de terceiros contrariava sua busca por autonomia, mas o pragmatismo que a salvara em Boston dizia que o advogado tinha razão. Ela não conhecia a topografia daquele deserto de capim e areia.

- E onde posso encontrar um profissional com tais qualificações, que aceite o encargo por um valor condizente com minhas posses? - inquiriu ela.

Higgins puxou um relógio de bolso, consultou as horas e recolheu os papéis, guardando-os novamente no envelope pardo antes de entregá-los definitivamente a ela.

- Há um armazém de secos e molhados na extremidade norte da rua principal, de propriedade de um homem chamado Miller. É lá que os criadores de gado e os batedores do território costumam se abastecer antes de subirem para o norte. Pergunte por alguém que conheça a região do Loup. Mas advirto, Srta. Brown: o tipo de pessoa que ganha a vida guiando viajantes por aquelas paragens não possui os modos polidos aos quais a senhorita certamente está acostumada no Leste. São sujeitos rudes, muitos deles nem um pouco confiáveis.

- Os modos alheios não me causam preocupação, Sr. Higgins, desde que o trabalho seja executado com a devida competência - Judith declarou, guardando o envelope na bolsa de couro. - Dou o nosso negócio por concluído. Passar bem e obrigada pela informação.

Ela retirou-se do escritório com a mesma precisão com que entrara. O sol começava a declinar no horizonte, projetando longas sombras cinzentas sobre a rua principal de Grand Island. O vento soprava com mais força, trazendo o frio e a noite de início do inverno prometia não dar trégua

Judith caminhou em direção ao norte da cidade, mantendo os olhos fixos adiante, evitando as poças de água barrenta que testavam a integridade de suas botas de cano alto, mas inadequadas a aquele tipo de terreno. A cada quarteirão, o cenário tornava-se mais rústico. As fachadas das pequenas lojas davam lugar a cercados de madeira cheios de mulas, cavalos e carretas de carga pesada, algumas com toldo.

O armazém de Miller era uma estrutura ampla, construída com tábuas grossas que ostentavam o cinza natural da madeira exposta as intempéries daquela região. O interior era escuro, iluminado apenas por duas lâmpadas de querosene suspensas em uma roda de madeira nas vigas do teto. 

O ar ali dentro era uma mistura complexa de cheiros: couro curtido, fumo de mascar, querosene, toucinho defumado e o aroma adocicado do melaço de cana. Prateleiras que iam até o teto abrigavam sacas de farinha, caixas de munição, ferramentas de ferraria e mantas de lã grossa.

Um grupo de três homens vestindo casacos de lona impermeável conversava perto de um balcão de madeira rústica, onde um sujeito gorducho e de barba rala anotava números em um pedaço de papel. Judith aproximou-se com passos firmes, batendo os saltos de seus sapatos no chão de tábuas para indicar sua presença. 

O grupo de homens silenciou imediatamente, virando-se para encarar a figura singular daquela mulher que parecia ter saído diretamente de uma pintura de salão da cidade grande para o chão empoeirado do Oeste.

- Presumo que seja o Sr. Miller - disse Judith, dirigindo-se ao homem atrás do balcão.

- Sou eu mesmo, senhora - respondeu o lojista, baixando o lápis e limpando as mãos no avental sujo de graxa. - Em que posso ajudar uma dama nesta hora do dia?

- Procuro por um guia - declarou ela, sem preâmbulos, sustentando o olhar do homem com uma firmeza gélida. - Necessito de alguém com pleno conhecimento das trilhas ao norte, mais especificamente da rota que conduz ao Vale do Rio Loup. Tenho a intenção de partir com brevidade.

Os homens perto do balcão trocaram olhares rápidos, e um deles soltou uma risada contida antes de cuspir um jato de fumo escuro em uma caixa de serragem no canto da sala.

- O Loup? - Miller franziu o cenho, apoiando os punhos grossos no balcão. - Aquilo lá em cima é terra de ninguém, senhora. O inverno mal começou e os vales e as colinas de areia estão se desmanchando em lama e quando a neve chegar, vai ficar impossível transitar por lá. Não há estradas para carruagens por aquelas bandas. O que uma mulher como a senhorita vai fazer no rancho de Silas Vance? Porque aquela é a única coisa que existe por lá.

- Acredito que meus propósitos em ir para lá dizem respeito unicamente à minha pessoa, Sr. Miller - Judith respondeu, sua voz baixando de tom, adquirindo a rigidez cortante que usava para conter a insubordinação dos filhos de Sterling. - Minha pergunta foi direta: há nesta cidade alguém capacitado a guiar-me até lá, mediante pagamento justo, ou devo procurar informações em outro estabelecimento?

Miller ergueu as mãos em um gesto de rendição defensiva, percebendo que a formalidade daquela mulher não aceitaria condescendência ou curiosidade vulgar.

- Não precisa se ofender, senhorita. Só estou dizendo que o caminho é ruim. Quase ninguém sobe para aquela região nesta época do ano. Os batedores comuns preferem o sul, onde estão as linhas de abastecimento e as rotas das caravanas. - Ele passou a mão pela barba, pensativo, e depois olhou em direção aos fundos do armazém, onde uma porta lateral dava acesso a um pátio de carretas. - Na verdade... há uma pessoa. Chegou ontem do norte com uma carga de peles e está comprando provisões para voltar. Conhece o Loup melhor do que qualquer homem neste condado, pois viveu lá nos últimos cinco anos. Mas como eu digo, é gente que resolve as coisas do próprio jeito.

- Se possui a competência necessária para o trajeto, os métodos pessoais não me vêm ao caso - afirmou Judith. - Onde posso encontrar esse indivíduo?

Miller apontou com o polegar para a porta dos fundos.

- Está no pátio, terminando de ajustar os arreios da carroça de carga. O nome é Reese. Chegou a trabalhar para o velho Silas por um tempo, depois brigaram e não se falavam mais. Se há alguém que pode te levar até aquela cabana, é essa pessoa. Mas vá por sua conta e risco, Srta. Brown. O Oeste aqui não costuma amaciar seus modos para receber as senhoras do Leste. - Disse. - Outra coisa... Se precisar de um lugar para passar a noite hoje, creio que posso lhe ceder um canto no depósito. Não creio que a senhorita vá conseguir algum lugar melhor por aqui.

Judith inclinou a cabeça em um agradecimento.

- Agradeço, Sr. Miller. Mas tenho a firme intenção de partir ainda hoje para as minhas terras. Obrigada pela informação e pelo oferecimento da estadia. Passar bem.

Segurando sua mala e a pequena bolsa de mão com firmeza, Judith caminhou em direção à porta indicada. Cruzou o limiar e adentrou o pátio externo, onde a luz do crepúsculo cobria o cenário com um tom de azul escuro e frio. O espaço era cercado por paredes de madeira e continha três carroças cobertas de lona. Próximo à maior delas, uma figura trabalhava em silêncio, ajustando as fivelas de couro curtido do peitoral de um cavalo de tração.

Judith estacou a alguns passos de distância. Observou a figura que, de costas para ela, demonstrava movimentos eficientes e precisos, desprovidos de pressa, denotando uma familiaridade absoluta com o manejo dos animais e da vida ao ar livre. Trajava uma jaqueta de couro grosso manchada pelo tempo, calças de brim escuro enfiadas em botas de montaria gastas e trazia um chapéu de abas largas que ocultava seus traços.

- Presumo que me dirijo a Reese - disse Judith, sua voz clara e formal quebrando o silêncio do pátio.

A figura estancou o movimento das mãos nos arreios. Permaneceu imóvel por um breve segundo, como se avaliasse o som daquela voz polida que ressoava com a precisão do Leste. Lentamente, virou-se para encarar a recém-chegada.

Reese tinha feições firmes, com maxilares bem marcados e uma pele bronzeada pelo sol constante e castigada pelo vento das planícies. Seus olhos eram de um cinza escuro e cortante, contrastando com os cabelos escuros e engordurados que estavam presos por uma tira de couro na nuca. Havia uma cicatriz fina que corria paralela à sua sobrancelha esquerda, e sua postura, embora relaxada, transmitia a solidez de quem estava habituado a contar apenas com as próprias forças.

Reese olhou Judith de cima a baixo, avaliando o vestido cinza de corte impecável, as luvas de tecido fino e a mala de lona que denunciavam sua origem no Leste. Um vinco tênue formou-se entre as sobrancelhas do batedor, misturando curiosidade com um visível ceticismo.

- Quem deseja saber? - a voz de Reese era baixa, firme, sotaque do Oeste e com uma cadência pausada que parecia economizar palavras, típica de quem passava longos períodos no mais absoluto isolamento.

Judith deu um passo adiante, mantendo a coluna perfeitamente alinhada e sustentando o olhar cinzento da outra sem desviar.

- Meu nome é Judith Brown. Sou a legítima proprietária das terras e do rancho que pertenceram a Silas Vance no Vale do Rio Loup, conforme os títulos de herança emitidos pelo cartório de terras deste condado. Fui informada de que o senhor possui o conhecimento do caminho, necessário para guiar-me até a propriedade. Estou aqui para propor a contratação de seus serviços de guia para a jornada que pretendo iniciar ainda hoje, se possível.

Reese manteve-se em silêncio por um longo momento, apoiando uma das mãos na sela do cavalo. Seu olhar demorou-se nas mãos enluvadas de Judith e depois voltou-se para o seu rosto pálido e altivo. Um sorriso de canto de boca, quase imperceptível e desprovido de sutilezas, surgiu nos lábios do batedor.

- A senhorita quer ir para o Loup? - Reese perguntou, o tom carregado de uma incredulidade contida. - Com essas roupas, essa mala e esses modos de quem nunca pisou na lama?

- Minhas vestes e minhas origens não são da sua conta, Sr. Reese - Judith replicou, elevando sutilmente o queixo. - Exijo apenas competência profissional e conhecimento da rota. Disponho de meios para remunerar o seu trabalho dentro dos limites da razoabilidade. A questão que se apresenta é simples: aceita o encargo ou devo buscar outro profissional?

Reese soltou as tiras de couro que segurava e deu dois passos na direção de Judith, diminuindo a distância. Era muito mais alto que a professora de Boston, e sua presença física exalava o cheiro rústico da pradaria, de fumo, do couro e do metal dos estojos de munição que trazia no cinturão.

- Não há outro profissional nesta cidade que vá levar a senhorita até lá nesta época do ano, Srta. Brown. E se houver algum louco que aceite, ele a deixará no primeiro banhado quando o bando de lobos das colinas começar a rondar a carroça. - Disse, soltando um grunhido.

- Não espero facilidades, Sr. Reese. - Judith respondeu, os olhos castanhos fixos nos cinzentos de Reese, sem recuar um único milímetro. - E, até onde sei, a terra agora me pertence e vou tomar posse dela com ou sem a sua ajuda.

Reese avaliou o silêncio que se seguiu. O batedor ajeitou o chapéu, olhou para o céu que já exibia as primeiras estrelas e soltou um suspiro longo.

- O preço são dez dólares de prata. Metade agora para comprar os mantimentos restantes e a outra metade quando eu deixar a senhorita viva na porta daquela cabana de troncos podres que o Silas chamava de casa. Partimos com o primeiro raio de sol, da frente do armazém do Miller. Se houver um minuto de atraso, eu subo o rio sozinho e a senhorita poderá descobrir o caminho por sua própria conta. Temos um acordo?

 - Eu gostaria de partir imediatamente, Sr. Reese.

- Nem pensar madame. É loucura iniciar este percurso durante a noite. Se insistir, então é melhor procurar outro. - Disse, ajeitando o cinturão com o revólver nos quadris.

Com um suspiro resignado, Judith abriu sua bolsa de couro com movimentos controlados. Retirou cinco moedas de prata de seus escassos fundos e as depositou na palma da mão calosa de Reese. O metal tilintou entre os dois na penumbra do pátio.

- O horário será rigorosamente observado, Sr. Reese. Até o alvorecer.

Com uma breve inclinação de cabeça, Judith virou as costas e caminhou de volta para a rua, em direção mais uma vez ao armazém do Miller e a sua oferta de abrigo, sua silhueta mantendo a mesma postura aristocrática e inflexível enquanto desaparecia na noite de Grand Island. Reese permaneceu no pátio, observando as moedas em sua mão antes de guardá-las no bolso do casaco, com um sorrisinho cínico.

 

Fim do capítulo


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