Capitulo 8
O tempo passou.
Não depressa o bastante para apagar tudo… Mas o suficiente para transformar algumas dores em cicatriz, e outras em memória suportável.
Tereza se formou numa sexta-feira de céu absurdamente bonito.
Depois de noites sem dormir, estágios intermináveis, crises, café demais, choros silenciosos no banheiro da faculdade e áudios dramáticos enviados para Alexandra às duas da manhã…
Ela conseguiu.
Enfermagem.
Quando segurou o diploma nas mãos, sentiu o mundo inteiro parar por alguns segundos.
Não porque tudo tivesse sido perfeito.
Mas porque, apesar de tudo… Ela chegou.
A cerimônia foi uma mistura de emoção, caos e maquiagem resistente demais para alguém que claramente choraria em público.
Sua mãe soluçava sem vergonha. Amigas gritavam. Professores sorriam. Fotos. Abraços. Flores.
E, mesmo em meio a tudo aquilo…
Tereza procurava uma notificação específica.
Alexandra: Se você tropeçar atravessando o palco, eu infelizmente nunca vou superar.
Tereza sorriu no meio da cerimônia.
Tereza: Sua preocupação comigo é emocionante.
Alexandra: Não é preocupação. É entretenimento.
Tereza: Formei, besta.
Dessa vez, a resposta demorou um pouco mais.
Alexandra: Eu sei. E tô ridiculamente orgulhosa de você guria.
Ridiculamente.
Tereza sentiu o peito aquecer do jeito perigoso e familiar que só Alexandra parecia conseguir provocar.
Depois da colação, disseram que fariam “só um jantar simples”.
Mentira.
Quando Tereza chegou à casa da irmã…
— SURPRESAAAAA!
Ela literalmente deu um passo para trás.
Balões,Fotos, Comida, Música, Família. Amigos. Faixa enorme escrito: PARABÉNS, ENFERMEIRA TEREZA!
Tereza levou a mão à boca, em choque.
— O que é isso?!
Sua mãe já chorava de novo.
— Sua festa, uai!
— Minha… festa?
— Achou que ia passar por isso sem confusão? — a irmã gritou.
Mas então…
Seus olhos encontraram Lara.
Parada perto da mesa principal. Sorriso pequeno. Olhos marejados.
Foi como se o som diminuísse por um instante.
— Você… sabia? Tereza perguntou, atordoada.
A mãe respondeu primeiro:
— Claro. Quem ajudou a organizar tudo foi a Lara.
Silêncio.
Tereza olhou diretamente para ela.
Lara deu de ombros, um gesto tímido demais para quem um dia foi furacão.
— Você merecia uma noite bonita.
E aquilo…doeu de um jeito novo.
Porque Lara continuava sendo, ao mesmo tempo, uma das maiores dores da sua vida… e alguém que conhecia profundamente seus sonhos.
Talvez esse fosse o luto mais difícil: Aceitar que pessoas podem te amar… e ainda assim não saber te amar direito.
— Obrigada, Tereza disse, sincera.
E Lara sorriu.
Não como quem espera reconciliação.
Mas como quem, pela primeira vez, entendeu que amar também podia significar celebrar alguém sem tentar possuí-la.
Naquela noite, já tarde, de salto na mão e coração cheio demais, Tereza saiu da festa, bêbada, claro.
E finalmente conseguiu ligar para Alexandra.
— Então, enfermeira…
A voz do outro lado soou rouca de sono e ironia.
— Doutora em sobreviver ao caos.
Tereza riu.
— Você não vai acreditar.
— Em quê? Você caiu no palco?
— Não!
— Desperdício.
— Minha família fez uma festa surpresa.
— Mentira.
— E a Lara ajudou.
Silêncio.
Um silêncio real.
— Uau, Alexandra disse, finalmente. Isso é… emocionalmente complexo.
Tereza gargalhou.
— Muito.
— Você tá bem?
E lá estava de novo.
Não curiosidade. Não julgamento.
Cuidado.
— Tô… eu acho. Foi bonito. Estranho. Triste. Feliz.
— Ah, sim. O combo completo da falência emocional.
Tereza deitou na cama, ainda sorrindo.
— Basicamente.
As semanas seguintes trouxeram mudanças.
Alexandra saiu da escola técnica.
Depois de anos lidando com alunos caóticos, códigos quebrados e reuniões insuportáveis,que ela amava, mais recebeu uma proposta melhor.
Desenvolvimento e consultoria remota.
Home office.
— Então agora você oficialmente trabalha de pijama? — Tereza perguntou.
— Corrigindo: agora eu sofro profissionalmente sem precisar usar roupa social.
Tereza começou rir.
Mas havia algo diferente.
Alexandra andava sumida às vezes. Cansada. Respondia menos. Desviava de alguns assuntos.
Até que, numa terça-feira qualquer, durante uma ligação, soltou sem querer:
— Porque depois da cirurgia eu...
Silêncio.
Tereza sentou na cama na mesma hora.
— Depois da QUÊ?
Do outro lado: — Merda.
— Alexandra.
— Foi uma cirurgia simples.
— VOCÊ FEZ UMA CIRURGIA E NÃO ME CONTOU?
— Eu não queria te preocupar.
Tereza ficou em silêncio por tempo demais.
Não por raiva apenas.
Mas pela dor aguda de perceber o quanto Alexandra tinha virado importante.
— Eu fiquei preocupada justamente porque você não contou.
A resposta demorou.
E quando veio… estava vulnerável de um jeito raro.
— Eu não tô acostumada com alguém ficando, Té.
Aquilo desmontou alguma coisa.
Porque, por trás da mulher ácida, engraçada, absurdamente inteligente…
Havia alguém igualmente assustada.
Naquela noite, Alexandra contou tudo.
Fim recente de um relacionamento hetero longo. Desgaste. Solidão. A cirurgia que vinha adiando. O medo de parecer frágil. O costume de resolver tudo sozinha.
— Eu nunca… Alexandra hesitou. — Nunca fiquei com uma mulher.
Tereza ficou em silêncio.
— Tá.
— “Tá” o quê?
— Tô processando você, professora de software emocionalmente confusa.
Alexandra riu, nervosa.
— É sério.
— Eu sei.
Silêncio.
Então, mais baixo:
— Isso te assusta?
Alexandra demorou.
— Não. …Talvez me assuste o fato de que, pela primeira vez, eu queria… e isso não parece teórico.
O coração de Tereza perdeu completamente o senso de responsabilidade.
Porque, depois de tudo… Depois de Lara… Depois da reconstrução…
Aquilo não era mais só amizade.
Talvez ainda não tivesse nome.
Mas, pela primeira vez…
As duas começaram a perceber.
Fim do capítulo
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