Capitulo 4 - Dois Colts . 45
O relógio de bolso que pertencera a Thomas Brown marcava exatamente cinco horas e trinta e cinco minutos da manhã quando Judith Brown posicionou-se diante do armazém de Miller. O sol ainda não rompera a linha reta do horizonte; era apenas uma promessa de luz cinzenta e gélida que filtrava através do frio úmido que subia do solo de Nebraska. A rua principal de Grand Island estava deserta, imersa em um silêncio que só era quebrado pelo bater eventual de uma veneziana frouxa ou pelo piar distante de uma ave de rapina.
Judith permanecia de pé sobre a plataforma de madeira do armazém. Ela não dormira um único minuto na noite anterior, encolhida em um espaço que Miller cedeu para ela nos fundos do seu armazém. Entretanto, suas costas mantinham a retidão, as mãos enluvadas seguravam a alça da mala de lona e seu queixo apontava para a frente com a precisão de um cirurgião. Ela vestia seu segundo vestido mais sóbrio, um de lã azul-escuro, cujos punhos e gola estavam impecavelmente alinhados, embora gastos. Para Judith, a pontualidade não era apenas uma conveniência; era a manifestação externa de sua disciplina pessoal.
Dez minutos se passaram. Depois, vinte. Às seis horas, o primeiro raio de sol tocou o topo do teto de zinco do armazém, mas o pátio lateral permanecia imóvel. Não havia sinal do imenso cavalo negro, e nem da carroça de carga ou de Reese.
Judith não permitiu que o pânico alterasse suas feições, mas o estômago, em jejum desde a noite anterior, quando consumiu os últimos biscoitos que haviam sobrado da viagem, contraiu-se de forma violenta. Ela desceu os três degraus de madeira, sujando a barra do vestido com a sujeira barrenta da rua, e caminhou até o pátio dos fundos, onde encontrara o batedor na noite anterior. O espaço estava vazio. Restavam apenas os sulcos profundos das rodas da carroça na lama seca e o estrume fresco dos cavalos. Reese partira. O homem subira o rio sozinho nas primeiras horas da madrugada, levando consigo e sem remorso as cinco moedas de prata que representavam quase um terço das economias sobreviventes de Judith.
A humilhação ardeu na garganta de Judith com o gosto amargo da derrota. Ela fora enganada da forma mais vulgar e previsível por um sujeito rude que soubera ler perfeitamente sua vulnerabilidade sob as vestes do Leste. Reese não vira nela uma proprietária; vira apenas uma dondoca cujos dólares de prata eram um alvo fácil antes de sumir nas colinas de areia.
- Eu avisei, senhorita - uma voz grossa ecoou do limiar da porta do armazém.
Era Miller. O lojista estava de pé, segurando uma caneca de ferro com café fumegante, observando-a com uma mistura de pena e aquele ceticismo condescendente que Judith passara a perceber no rosto das pessoas com quem conversara, desde que descera do trem.
- O Reese não é de se amarrar a horários de ninguém, muito menos de quem vem de fora - Miller continuou dando um gole no café. - Ele provavelmente comprou o resto das provisões no armazém da esquina e pegou a trilha antes que a névoa subisse. Seus dólares já viraram fumo e munição na algibeira dele. Não deveria ter pago adiantado.
Judith virou-se para ele com movimentos lentos e calculados. Nem uma única mecha de seu cabelo castanho estava desalinhada. Seus olhos castanhos fixaram-se no homem com uma frieza que o fez cessar o sorriso.
- A covardia do Sr. Reese é um crime, Sr. Miller e chama-se furto - declarou Judith, sua voz perfeitamente modulada, sem qualquer traço de choro ou desespero. - Onde encontro o xerife para registrar a ocorrência e obter os mandados necessários para tentar reaver meu dinheiro?
Miller soltou uma risada ruidosa, balançando a cabeça.
- O xerife está a vinte milhas daqui, caçando ladrões de gado de verdade no Rio Platte, Srta. Brown. E mesmo que estivesse aqui, ele não esfalfaria o cavalo dele para ir atrás de um ladrão de galinhas por causa de umas míseras moedas de prata. A senhorita foi ingênua. Sugiro que pegue o trem de volta para a cidade grande antes que perda o resto do que tem na bolsa.
- Agradeço pelo conselho, Sr. Miller - Judith respondeu, mantendo a voz firme, embora o coração batesse com uma urgência ensurdecedora contra as costelas. - Mas eu possuo os títulos daquela terra. Não retornarei ao Leste. Se Reese recusou o encargo, necessito de outra condução. Quem mais nesta cidade dispõe de competência para realizar o trajeto até o Vale do Loup?
Miller limpou a boca com as costas da mão, avaliando a obstinação daquela mulher. Havia algo na rigidez de Judith que começava a impor respeito.
- Bem... - Começou a dizer, coçando a cabeça, pensativo. - Se a senhorita está mesmo disposta a arriscar o que lhe resta, e se não se importa em lidar com o tipo mais durão deste condado, há apenas uma opção legítima. Ela estava na cidade para vender alguns cavalos selvagens capturados e provavelmente passará mais um dia no Gold Dust Saloon. O nome dela é Jane Catherine, mas se preza a integridade dos seus dentes, a chame de Kitty e não a aborreça de forma alguma, ela tem um pavio muito curto.
- Uma mulher? Uma batedora de fato? - Judith franziu levemente o cenho, surpresa por saber que uma mulher poderia exercer tal função.
- Kitty não é como Reese, Srta. Brown. Reese é um trapaceiro, um sujeito mesquinho, mas Kitty... Kitty é um soldado velho com saias, embora nunca a tenha visto com uma. Tem uns trinta e oito anos, acho, e serviu como batedora para a cavalaria durante a guerra e não tem um único osso no corpo que já não tenha sido quebrado ou baleado. Se ela aceitar a sua prata, ela te deixa na porta do inferno e volta para te buscar depois. Mas vá preparada. Ela não tem paciência para os modos refinados do Leste.
Judith inclinou a cabeça em um agradecimento.
- Minha prioridade é chegar as minhas terras, Sr. Miller. Os modos dela são irrelevantes. Mais uma vez agradeço pela sua ajuda. Passar bem.
Ela pegou sua mala e caminhou em direção ao centro do assentamento. O Gold Dust Saloon era a maior estrutura de Grand Island, localizada na esquina onde os trilhos da ferrovia cruzavam a rota das carretas. Mesmo àquela hora da manhã, as portas de vaivém de madeira escura oscilavam com frequência, deixando escapar o odor pesado de cerveja choca, serragem úmida e fumo barato.
Judith hesitou por uma fração de segundo diante da entrada. No Leste, uma mulher de sua condição jamais cruzaria o limiar de um estabelecimento daquela natureza sem que sua reputação fosse irrevogável e publicamente destruída. Mas em Boston ela também fora reduzida a uma mercadoria por Arthur Sterling e assistira ao pai pendurar-se em uma corda. A reputação social era um fantasma que não oferecia proteção contra o despejo e a ruína financeira. Ela criou coragem, empurrou as portas de vaivém com as duas mãos e entrou.
O interior do Saloon era uma penumbra cavernosa e enfumaçada. O chão estava coberto de serragem para absorver a lama das botas dos frequentadores. No fundo, um balcão de mogno exibia espelhos manchados e garrafas de formato irregular. Perto das janelas da frente, algumas mesas redondas abrigavam homens que jogavam cartas em silêncio.
Judith localizou Kitty imediatamente em uma mesa redonda no centro.
Jane Catherine possuía uma presença física que dominava o espaço ao seu redor. Trajava calças compridas de couro escuro, reforçadas nos joelhos, e uma camisa de flanela xadrez sob um colete de camurça gasta. Era uma mulher alta, medindo 1,70 de estatura, com uma compleição firme e robusta moldada pelos anos de fadiga e vida ao ar livre. Seus cabelos eram de um loiro claro, queimados pelo sol e salpicados de fios cinzentos, presos em uma trança grossa que caía sobre o ombro esquerdo.
Mas o que mais chamava a atenção era o cinturão de couro duplo cruzado em seus quadris, onde repousavam dois revólveres Colt .45 com cabos de marfim desgastados pelo uso. Suas mãos eram firmes, com nós dos dedos calosos e cicatrizes que contavam histórias de violência antiga.
No momento em que Judith se aproximou, Kitty estava inclinada sobre a mesa, avaliando as cartas em sua mão direita enquanto segurava um copo de uísque com a esquerda. Na mesa, a seu lado, havia um monte desordenado de moedas, cédulas e um maço de I. O. U*., os vales informais assinados como reconhecimento das dívidas de jogo, que ela já havia ganho dos desafortunados que insistiam em tentar a sorte com uma jogadora tão habilidosa, cuja fama percorria a região.
- Puta que me pariu! Aquele barman filho de uma égua me garantiu que esse baralho estava limpo - Kitty praguejou, sua voz era como cascalho, rouca pelo tabaco e pelo vento das trilhas e do deserto de areia. Ela lançou uma carta na mesa com força. - Se eu pegar mais um valete de copas com a quina dobrada, eu juro que quebro essa mesa nas costas do primeiro que olhar atravessado e atiro naquele infeliz.
Os dois homens que jogavam com ela mantiveram-se em silêncio, os olhos fixos nas próprias cartas, sem ousar contrariar aquela mulher que quando se enfurecia, virava o próprio capeta.
Judith postou-se a dois passos da mesa. Manteve as mãos cruzadas à frente do vestido e limpou a garganta com uma precisão cirúrgica.
- Presumo que me dirijo à Sra. Jane Catherine? - proferiu Judith, sua voz ressoando com a clareza de um carrilhão de igreja no ambiente abafado do Saloon.
Kitty não ergueu os olhos de imediato. Deu um longo gole no uísque, bateu o copo de vidro na mesa e só então ergueu a cabeça lentamente. Seus olhos eram de um azul muito claro e metálico, cercados por linhas profundas de expressão e por uma severidade que parecia avaliar de cima a baixo o calibre de qualquer um que cruzasse seu caminho. Ela olhou para Judith de baixo para cima, detendo-se no tecido do vestido azul, que embora fosse de lã, era muito fino para o clima local, o olhar detendo-se no rosto, parando brevemente nos lábios de Judith, que ainda ostentava o cabelo bem alinhado em um coque sem mácula e uma postura rígida.
- Que merd* é essa? - Kitty murmurou, virando-se para um dos jogadores. - O trem do Leste agora está descarregando bonecas de porcelana direto nos Saloons?
Os homens riram, mas Kitty não os acompanhou. Ela voltou o olhar para Judith, expelindo uma lufada de fumaça de um cigarro marrom que mantinha no canto dos lábios.
- Sim, eu me chamo Jane Catherine, senhora. Mas o único que me chamava de senhora. foi um sargento da cavalaria que levou um tiro no peito em uma briga de Saloon, graças ao bom Pai. O que uma madame com cheiro de água de colônia quer comigo a esta hora da manhã?
- Sou Judith Brown e busco a sua contratação na qualidade de guia e batedora - Judith respondeu, sem que um único músculo de seu rosto denunciasse a contrariedade pelo vocabulário da outra. Ela deu um passo à frente, mantendo a mala de lona firme ao lado do corpo. - Sou a proprietária legal do rancho de Silas Vance, situado no Vale do Rio Loup. Fui informada de que a senhora detém as qualificações necessárias para conduzir-me até a dita propriedade com a segurança que a região exige.
Kitty soltou uma gargalhada ruidosa que fez os homens da mesa vizinha olharem. Ela jogou as cartas no tampo da mesa e recostou-se na cadeira, cruzando os braços sobre o peito, esticando preguiçosamente as pernas por sob a mesa.
- O Vale do Loup? Você tá me dizendo que quer subir quarenta milhas de lama, colinas de areia e pântano com esse vestido de domingo e essa malinha que não cabe nem um par de botas de verdade? Quem te deu essa ideia estúpida, garota?
- O advogado Josiah Higgins e o comerciante Sr. Miller ratificaram as suas competências, Sra. Catherine - Judith manteve o tom formal, embora a menção a "garota" tenha feito seu queixo erguer-se mais um milímetro. - Não discuto que pode ser uma jornada árdua e perigosa. Mas minha necessidade é de transporte e proteção. Estou disposta a pagar o valor justo pelos seus serviços.
Kitty inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. O sorriso desapareceu de suas feições, revelando a dureza de quem fora moldada pela aspereza da terra.
- Escuta aqui, pombinha do Leste. O Loup não é um parque de cidade grande onde as damas passeiam de sombrinha. Aquela porr* de vale tá cheia de lobos que não viram carne fresca desde o inverno passado, o rio tá subindo com as chuvas recentes nas montanhas e as trilhas sumiram sob três polegadas de lama de argila e além disso, vai começar a nevar logo, aquilo vai virar um inferno. Uma carroça com uma mulher que não sabe segurar as saias sem chorar é um convite pro desastre. Eu não tenho tempo pra limpar nariz de dondoca que se assusta com o barulho de um tiro de rifle ou com algum animal da pradaria.
- Não sou dada a manifestações histéricas, Sra. Catherine - Judith replicou, suas palavras saindo pausadas e gélidas. - Minha tolerância para com o sofrimento e as adversidades foi amplamente testada em circunstâncias bem piores, lhe garanto. Se sua recusa se baseia na suposição de minha fragilidade física, asseguro-lhe que sua análise é superficial e equivocada. Se a recusa é por motivos financeiros, peço que estipule os valores, coloque preço no seu serviço.
Kitty semicerrou os olhos claros, estudando Judith com uma atenção renovada. Havia uma rigidez e uma altivez, um orgulho quase desesperado naquela mulher, que não condizia com a fragilidade de suas vestes. A maioria das mulheres urbanas que Kitty conhecera já estaria chorando ou teria saído correndo do Saloon, escandalizada após o primeiro palavrão. Judith Brown permanecia ali, uma estátua de vestido azul, desafiando a batedora de compleição firme e estatura imponente com um olhar severo.
- Onde está a carroça que você alugou? Já alugou alguma, comprou provisões para a viagem? - Kitty inquiriu, mudando o tom.
- Fui vítima de uma fraude nas primeiras horas do dia - Judith explicou, e pela primeira vez uma nota de pura indignação polida transpareceu em sua cadência. - Contratei os serviços de um batedor de nome Reese na noite anterior. Efetuei o adiantamento de cinco dólares. O dito cujo não se apresentou no horário combinado e segundo informações, partiu em direção ao norte, apropriando-se desonestamente de meus recursos.
Kitty estacou. Olhou para os homens da mesa e depois soltou um longo e sonoro palavrão que fez Judith piscar os olhos por um breve instante, ruborizando.
- Reese passou a perna em você? - Kitty bateu com a mão na mesa, mas desta vez não foi de raiva, foi de escárnio. - Aquele rato imundo das colinas. Eu sabia que ele estava devendo pro Miller e precisava de prata pra sumir antes que os outros cobradores chegassem. Aliás, ele também me deve uma boa grana e digo a vocês - Esbravejou, batendo novamente com a mão no tampo da mesa, espalhando as cartas do baralho, olhando firme para os outros dois homens na mesa - Que ele vai é acabar topando comigo de novo e aí vai ver só se não vai acabar queimando lenha nas caldeiras do inferno!
Virou-se para Judith e em tom mais condescendente continuou: - Ele te leu como um livro aberto, dondoca. Viu esse coque perfeito, estes modos finos e soube que você não ia atrás dele com uma arma. Ai te passou a perna.
- Como declarei ao Sr. Miller, o ato configura crime - Judith afirmou, mantendo a dignidade. - Mas a ausência e a safadeza do Sr. Reese não altera minha necessidade de seguir viagem.
Kitty pegou o maço de I. O. U. da mesa, as notas de dólares e as moedas, guardou-o no bolso do colete e levantou-se da cadeira em um único movimento fluido. Seus 1,70 metros de altura e seus ombros fortes impunham uma presença física que reduzia o espaço ao redor. Ela caminhou até Judith, parando a um passo dela, que era cerca de uns 8 centímetros mais baixa. O cheiro de uísque, fumo e o odor rústico de couro e suor de cavalo atingiram o nariz de Judith, mas ela não recuou.
- O preço do meu trabalho não são os poucos dólares que você deu pro Reese - Kitty falou, a voz baixa, quase um rosnado áspero. - Para subir o Loup nesta época, com uma carga viva que não sabe atirar, se mover naquelas trilhas e que vai atrasar todo o meu trabalho antes que o inverno se estabeleça de vez, o preço são quinze dólares de prata. Metade agora, para eu comprar suprimentos necessários inclusive para que você possa sobreviver lá e uma junta de mulas extra do Miller, e a outra metade quero quando eu te deixar viva na cabana do velho Silas. E há uma condição que não aceita discussão, Srta. Brown.
- Qual seria? - Judith inquiriu, sustentando o olhar azul claro.
- Naquela trilha, a minha palavra é a única lei que existe - Kitty apontou o dedo indicador caloso para o peito de Judith, quase tocando o tecido azul do vestido. - Se eu disser para você deitar no chão enlameado, você deita sem perguntar o porquê. Se eu disser para você calar a boca, você não emite um único suspiro dessa boquinha até que eu diga que pode falar novamente. Vai comer e beber o que eu te der para comer e beber, sem reclamar. E se eu perceber que você vai ser um estorvo que vai colocar a minha vida ou a dos meus animais em risco por causa de orgulho ou teimosia da sua parte, eu te amarro numa árvore com uma saca de farinha e te deixo para trás. Estamos entendidas?
Judith engoliu em seco. A crueza das condições de Kitty era um insulto a qualquer noção de dignidade e direitos que ela conhecera na sociedade dita civilizada. No entanto, ela olhou para fora e viu a poeira de Grand Island ser erguida pelo vento gelado. Lembrou-se do mandado de despejo e da imagem de seu pai suspenso na viga da sala. Ela não tinha um lar para onde voltar; Boston era um lugar de cinzas e humilhação comandado por homens como Arthur Sterling, que a viam apenas como uma reprodutora e uma cômoda segunda mãe para os filhos órfãos.
Ela abriu sua bolsa de couro. Suas mãos procuraram o fundo do tecido, onde guardara os poucos dólares sobreviventes que conseguira ocultar do vício de Thomas. Contou os quinze dólares em moedas de prata e notas da União. Era quase a totalidade do que possuía para se estabelecer no rancho, restando-lhe apenas moedas de troco após a trans*ção.
Ela estendeu a mão e depositou o dinheiro sobre o balcão rústico próximo à mesa de jogo.
- Sete dólares e cinquenta cents, Sra. Catherine - Judith declarou, mantendo a voz firme e a compostura impecável. - O restante será pago no destino, conforme seus termos. Exijo apenas que sua palavra possua maior valor do que a do Sr. Reese.
Kitty olhou para o dinheiro, recolheu as moedas com uma rapidez eficiente e as guardou no bolso da calça. Ela deu uma última tragada no cigarro, jogou a guimba no chão de serragem e esmagou-a com o salto da bota.
- Minha palavra é a única coisa que me manteve viva em três frentes de batalha nesta porr* de país, madame - Kitty disse, endireitando o cinturão de revólveres sobre o quadril firme. - Esteja na frente do estábulo do Miller em exatamente duas horas. Se eu tiver que esperar um único minuto porque você estava escovando esse vestido ou ajeitando o cabelo, o preço dobra.
- Estarei presente no horário estipulado - Judith respondeu, executando uma breve e polida mesura que pareceu deslocada no interior daquele Saloon decadente. - Passar bem, senhora.
Judith virou as costas com passos compassados e precisos, cruzando as portas de vaivém em direção à claridade hostil da rua principal.
Duas horas mais tarde, o vento do sul tornara-se mais frio, trazendo nuvens escuras que ameaçavam uma tempestade no final do dia. Judith encontrava-se diante do estábulo de Miller, sua mala de lona ao lado dos pés, imóvel como uma sentinela de algum Forte militar da fronteira.
O som de cascos pesados e o ranger de madeira anunciaram a chegada da batedora. Kitty surgiu conduzindo uma carroça de carga robusta, de eixos reforçados, puxada por quatro mulas de pelagem escura. Na lateral da carroça, preso por tiras de couro, havia um rifle Winchester de repetição e uma pá de ferro. A lona que cobria a traseira estava amarrada com nós firmes e o cavalo de Kitty vinha em um trote lento, amarrado atrás da carroça.
Kitty puxou as rédeas, fazendo os animais pararem com um estalo alto da lona e o protesto da madeira. Ela olhou para Judith do alto do assento de madeira, com seus cabelos claros brilhando sob a luz opaca das nuvens que não prometiam nada de bom e que se aproximavam lentamente, cuspiu para o lado e apontou com a cabeça para a traseira do veículo.
- Jogue essa mala lá atrás e suba aqui no assento - Kitty ordenou, sem qualquer preâmbulo cortês. - A tempestade vai nos pegar antes das colinas e eu não quero parar a carroça para você não derreter na chuva ou congelar aí com esse seu vestido fino.
Judith pegou sua mala, contornou as rodas cobertas de graxa e depositou o volume sob a lona da traseira. Em seguida, com movimentos que testaram a flexibilidade de suas saias compridas, mas sem perder a postura ereta, subiu no estribo de ferro e acomodou-se no banco de madeira áspera ao lado da batedora. Ela uniu as mãos sobre o colo, fixou os olhos castanhos na estrada de poeira que se estendia para o norte e não pronunciou nem mais uma única palavra.
Kitty soltou um resmungo irritadiço, estalou as rédeas sobre o lombo das mulas e soltou um grito para os animais.
- Vamos, suas mulas fedorentas! Temos quarenta milhas de inferno pela frente!
A carroça começou a se mover com um tranco violento, deixando para trás as últimas estruturas de madeira de Grand Island. Enquanto as rodas de ferro cortavam a terra embarreada de Nebraska, Judith Brown manteve os olhos fixos na imensidão cinzenta das pradarias. A cidade grande e toda sua pompa havia ficado para trás; diante dela, sob o comando de uma batedora rude que praguejava contra o vento e trazia dois colts 45 presos em um cinturão, abria-se a imensidão selvagem do Oeste.
Fim do capítulo
* Acrônimo de I owe you - "Devo a você" em tradução livre.
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HelOliveira
Em: 26/06/2026
As coisas não estão nada fáceis para Judith, mas ela não se entrega e vai a luta de cabeça erguida...
Kitty não é linha dura, vamos ver como sera essa viagem
Lady Texiana
Em: 30/06/2026
Autora da história
De fato, sobrevivência nestas condições é para os fortes! rsrsrs
Obrigada por acompanhar ;)
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