Capitulo 5 - Tempestade na Trilha
A estrada de terra batida que partia do limite norte de Grand Island logo se desfez em um sem fim de trilhas paralelas que se estendiam em todas as direções, sulcadas profundamente pelas rodas pesadas das carretas de boi e desbotadas pela ação implacável do vento.
À medida que os cascos das quatro mulas mantinham um trote rítmico e constante, a silhueta da cidade de madeira e zinco encolheu no horizonte até sumir por completo, engolida por uma imensidão onde a linha divisória entre a terra e o céu parecia recuar a cada milha percorrida. O Leste, com seus limites definidos por paredes de tijolo maciço e convenções sociais rígidas, fora substituído por uma vastidão acinzentada pelo início de um rigoroso inverno, que parecia não ter mais fim.
Judith Brown permanecia sentada no banco de madeira áspera da carroça, mantendo a retidão da coluna com uma obstinação que desafiava os solavancos violentos do veículo. Suas mãos enluvadas continuavam cruzadas sobre o colo, e seus olhos castanhos fixavam-se na nuca dos animais de tração, evitando olhar diretamente para a mulher que conduzia os arreios ao seu lado.
O vento da pradaria, agora livre de qualquer barreira, açoitava seu rosto pálido e tentava, sem sucesso, arrancar os grampos que sustentavam seu coque severo. Ela recusava-se a ceder ao cansaço físico ou a demonstrar qualquer sinal de arrependimento pela decisão que a trouxera àquele banco de madeira.
Ao seu lado, Jane Catherine - Kitty - movia-se com uma naturalidade rústica que contrastava violentamente com a imobilidade de Judith. Seus 1,70 metros de estatura acomodavam-se no assento com uma postura relaxada, mas perfeitamente alerta. Suas mãos manejavam as rédeas de couro curtido com puxões sutis e precisos. Os cabelos claros, salpicados de fios cinzentos e presos na trança grossa, balançavam contra as costas de seu colete de camurça. Os dois revólveres Colt .45 com cabos de marfim gastos reluziam discretamente presos no coldre. Sob a aba do chapéu gasto, seus olhos reluziam sempre que a luz pálida do sol filtrava através das nuvens carregadas.
As primeiras cinco milhas transcorreram em um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo ranger dos eixos de madeira, pelo estalar rítmico da lona traseira e pelo resmungo eventual dos animais. O relevo da pradaria apresentou-se relativamente generoso; o solo era firme e plano, o capim baixo da estação anterior oferecia pouca resistência e a lama dos banhados sazonais ainda se limitava a pequenas poças que Kitty contornava com habilidade de quem conhecia bem o terreno.
No entanto, o silêncio que Judith considerava uma barreira de proteção começou a ser quebrado pela curiosidade da batedora. Kitty retirou um cigarro amassado do bolso do colete, acendeu-o com um único movimento firme ao riscar o fósforo na própria lateral de madeira do banco e soltou uma lufada de fumaça cinzenta que o vento logo dispersou. Seus olhos azuis, muito claros e afiados como lâminas de metal, desviaram-se por um instante da trilha para focar na figura aristocrática da professora.
- Então, Srta. Brown... - Kitty começou, sua voz de cascalho grosso quebrando a monotonia do vento. - Miller me disse que você é professora. Latim, matemática e boas maneiras para os filhos dos ricaços da cidade grande. O que faz uma mulher que ganha a vida ensinando bons modos para crianças mimadas achar que pode sobreviver em um pedaço de terra esquecido por Deus e o diabo no Vale do Loup?
Judith não moveu a cabeça. Manteve o olhar fixo no horizonte, modulando sua voz para que soasse clara e destituída de qualquer hesitação.
- Minhas qualificações profissionais não se limitam à instrução de etiqueta, Sra. Catherine. Ministrei lições de humanidades, literatura e ciências exatas. Quanto à minha capacidade de sobrevivência, ela apoia-se no fato de que a propriedade no Vale do Loup me pertence por direito legal de herança. Não vejo por que o terreno ou os desafios de Nebraska deveriam me assustar.
Kitty soltou uma risada curta e anasalada, mantendo o cigarro entre os lábios finos.
- Mas esse direito legal não constrói um teto sobre a cabeça e também não impede que esse teto caia na sua cabeça quando o vento do Norte resolve soprar e a neve se acumula nos costados, madame. Silas Vance passou anos naquele rancho. Ele era um homem calejado, sabia caçar, sabia abrir um poço onde podia encontrar agua e conhecia o manejo do gado. Mesmo assim, morreu sozinho, e a cabana dele provavelmente está caindo aos pedaços depois de todo este tempo. Aquela terra não se importa com papéis assinados. Ela quer saber se você aguenta o tranco quando a comida acabar ou quando a água do poço congelar.
- Fui educada para enfrentar meus deveres com a devida seriedade - Judith replicou, mantendo a polidez cortante que usava como armadura para camuflar seus sentimentos. - A escassez de recursos e o isolamento não me assustam. Não espero facilidades no Oeste, mas espero a autonomia que a propriedade privada me confere. - Disse, com mais confiança do que realmente sentia.
Kitty desviou o olhar de volta para a estrada, dando mais um trago no cigarro marrom. Suas sobrancelhas claras ergueram-se com um misto de ironia e um respeito muito sutil que ela não pretendia demonstrar.
- Sobreviver numa casa de tijolos com um armazém na próxima esquina é uma coisa, professora. No Loup, o armazém mais próximo é o do Miller, e você vai estar a quarenta milhas de distância dele numa estrada que desaparece quando chove. Se você quebrar uma perna ou se os lobos cercarem a cabana, não há vizinhos para ouvir seus gritos. Você estará por sua conta.
- Minha preferência recai sobre a responsabilidade individual a ter minha existência tutelada por terceiros - Judith afirmou, pronunciando cada sílaba com a clareza de um veredicto. - Prefiro o silêncio e os perigos da pradaria à atmosfera asfixiante das imposições sociais, da vida que deixei para trás.
Kitty permaneceu em silêncio por algumas milhas, avaliando a resposta. O sol pálido começava a declinar atrás da densa camada de nuvens cor de chumbo que subia do sul, indicando que o tempo bom da manhã estava chegando ao fim. O vento mudou de direção, tornando-se mais cortante e trazendo o cheiro úmido da neve que se acumulava nas montanhas distantes.
De repente, a roda dianteira esquerda da carroça bateu contra uma pedra oculta pelo capim alto, provocando um solavanco violento que inclinou o veículo para o lado. Judith, pega desprevenida pelo impacto, perdeu o equilíbrio no banco de madeira. Seu corpo tendeu para a esquerda, e seu braço moveu-se instintivamente em busca de apoio para evitar a queda em direção ao estribo de ferro.
Sua mão enluvada, no entanto, não encontrou a madeira do assento, mas sim a mão direita de Kitty, que segurava firmemente as rédeas das mulas.
O contato foi breve, mas de uma intensidade que Judith não soube processar de imediato. Mesmo através do tecido fino de sua luva de algodão e da textura grossa do couro da luva de trabalho da batedora, uma onda de calor súbito e elétrico pareceu subir pelo braço de Judith, atingindo sua espinha dorsal com um arrepio agudo que a fez enrijecer o corpo instantaneamente.
Não era o frio do metal ou a aspereza da madeira; era a sensação da força física e da solidez daquela mulher ao seu lado, uma presença viva e dominante que parecia ignorar todas as barreiras de gelo que Judith passara anos construindo ao redor de si mesma.
Judith recolheu a mão com uma rapidez febril, como se tivesse tocado uma chapa de metal aquecida no fogão. Seu rosto, antes empalidecido pelo vento frio, cobriu-se de uma onda de calor que tingiu suas bochechas de um vermelho vivo e involuntário. Ela firmou os pés no assoalho da carroça, endireitou as costas com uma rigidez quase dolorosa e fixou os olhos castanhos rigidamente adiante, sentindo o coração golpear o peito.
Kitty, cujos reflexos haviam sido moldados em campos de batalha e trilhas perigosas, manteve o controle dos animais com a mão esquerda enquanto recolhia a direita. Seus olhos azuis e muito claros fixaram-se no rosto corado da professora de Boston.
Ela notou o tremor sutil nos lábios de Judith e a forma como a respiração da outra se tornara subitamente descompassada e tensa. Kitty conhecia muito bem os sinais daquela reação; vira-a mais vezes do que pudera contar, em quartos de Saloons, em acampamentos debaixo dos cobertores e em olhares de damas que tentavam disfarçar o que a proximidade física com uma mulher como ela inevitavelmente despertava.
Um sorriso de canto de boca, malicioso e destituído de qualquer simulação, surgiu nos lábios da batedora. Ela jogou a guimba do cigarro na estrada e soltou um palavrão grosso, que ecoou com a força de um soco no silêncio da pradaria.
- Caralh*, professora... Se um solavanco de nada nessa trilha limpa já te deixa com essa cara de quem viu o diabo, eu quero só ver o que vai acontecer quando cruzarmos as colinas de areia.
O palavrão atingiu os ouvidos de Judith como um insulto direto à sua dignidade. O rubor em suas bochechas intensificou-se, subindo pelo pescoço até a raiz dos cabelos castanhos. Ela virou a cabeça na direção de Kitty pela primeira vez desde que a viagem começara, seus olhos castanhos faiscando com uma indignação que ela não conseguiu conter sob sua máscara protocolar.
- Peço que modere o seu linguajar na minha presença, Sra. Catherine! - Judith exclamou, sua voz subindo um pouco de tom, com a mesma firmeza que usava para impor limites aos filhos de Sterling em Boston. - Estar em um lugar selvagem como este não lhe dá o direito de esquecer as boas maneiras e usar palavras tão vulgares. Sou sua cliente, não uma das pessoas que frequentam os lugares onde a senhorita passa o dia. Exijo o mínimo de respeito!
Kitty não se alterou diante da reprimenda. Pelo contrário, sua risada ruidosa e rouca ergueu-se contra o vento, fazendo as mulas moverem as orelhas para trás e o cavalo que seguia atrás da carroça, relinchar. Ela acomodou-se melhor no assento de madeira, puxando as rédeas para manter o trote dos animais sob controle enquanto a trilha começava a declinar em direção a um vale aberto.
- O respeito aqui na trilha se mede pelo calibre do rifle que se usa e pela capacidade de manter a carcaça inteira, Srta. Brown - Kitty respondeu, o tom de deboche misturando-se à crueza de suas palavras. - Palavras bonitas e sermões de igreja não consertam eixo quebrado e não impedem que a chuva molhe a sua farinha. Se o meu vocabulário te incomoda mais do que o fato de estarmos prestes a entrar numa tempestade de neve com a Srta. vestida com roupas de algodão, sugiro que tape as orelhas com esse seu lenço delicado. Porque eu garanto que o vento que está vindo do norte vai praguejar muito mais alto do que eu.
Judith desvencilhou-se do olhar da batedora com um movimento brusco da cabeça. Voltou a encarar a trilha, cerrando os dentes com tanta força que os músculos de sua mandíbula se tornaram visíveis.
O calor em seu rosto demorou a dissipar-se, e a sensação daquele toque acidental continuou a latejar em sua mão enluvada como uma marca invisível. Ela odiava a insolência de Kitty, odiava a forma como aquela mulher de calças compridas e revólveres no quadril parecia ler suas reações mais íntimas com tamanha facilidade, mas, acima de tudo, Judith odiava o fato de que a batedora tinha razão sobre o tempo.
A tempestade anunciada pelas nuvens escuras não demorou a se materializar. Por volta das quatro horas da tarde, quando a carroça atingiu a marca das quinze milhas ao norte de Grand Island, a luz do dia foi quase completamente obliterada por uma escuridão prematura e hostil. O vento do sul, que antes soprava em rajadas sazonais, mudou definitivamente para o quadrante norte, trazendo consigo uma massa de ar polar que fez a temperatura despencar em questão de minutos.
Os primeiros flocos de neve atingiram o topo de lona da carroça com um som rítmico e seco, como grãos de areia sendo lançados contra o tecido. Em menos de meia hora, os flocos esparsos transformaram-se em uma cortina branca e densa que reduziu a visibilidade a pouco mais de três metros à frente dos focinhos das mulas.
A trilha desapareceu por completo sob uma camada fina e escorregadia de gelo branco, e os animais começaram a demonstrar sinais evidentes de exaustão e pânico, balançando as cabeças e patinando nas declividades do terreno.
Kitty mudou de postura instantaneamente. A ironia e o deboche desapareceram de suas feições, sendo substituídos pela seriedade rígida de quem sabia que a linha divisória entre o desconforto e a morte naquelas paragens era extremamente tênue. Ela inclinou-se para a frente, forçando os olhos azuis contra a brancura cegante da nevasca, enquanto puxava as rédeas com firmeza para guiar as mulas para fora da área aberta da pradaria.
- Segure-se! - Kitty gritou contra o rugido do vento, que agora uivava entre os vãos da carroça. - Se continuarmos em campo aberto, as mulas vão congelar de pé ou vão quebrar as pernas em algum buraco de texugo. Preciso encontrar um vau ou uma depressão no terreno que nos dê o mínimo de proteção contra esse vento!
Judith não respondeu. Segurou a borda de madeira do banco com as duas mãos, sentindo o frio penetrar através de suas luvas e de suas botas de couro fino, que não haviam sido projetadas para suportar a umidade congelante do gelo. Seus dentes começaram a bater de forma incontrolável, e um tremor violento apoderou-se de seu corpo, mas ela manteve os olhos fixos na cortina branca, recusando-se obstinadamente a emitir qualquer som de reclamação ou fraqueza.
A carroça avançou com dificuldade por mais uma milha, descendo por uma encosta íngreme até atingir o leito seco de um antigo vau na pradaria, uma depressão natural flanqueada por duas elevações de terra e alguns arbustos de salgueiro ressequidos pelo inverno. Era um local ermo e inadequado para um acampamento regular, mas oferecia uma barreira parcial contra a fúria do vento que fustigava a planície superior.
Kitty puxou as rédeas com força, fazendo a carroça parar contra a parede de terra do vau. Ela saltou do assento com agilidade, afundando as botas na neve que já acumulava quase cinco centímetros no chão. Sem dizer uma palavra a Judith, a batedora moveu-se com rapidez para cuidar dos animais. Desatou a parelha de mulas dos eixos principais da carroça, mantendo-os presos por cordas curtas nas laterais do veículo para que ficassem protegidos pela estrutura de madeira e pela lona. O espaço no vau era tão confinado que os quatro animais e o cavalo mal tinham espaço para se mover, espremendo-se contra as rodas e soltando lufadas de vapor espesso por suas narinas congeladas.
Depois de garantir que as amarras estavam firmes e de jogar uma lona grossa sobre o lombo dos animais para mitigar o impacto do frio, Kitty contornou a traseira da carroça e firmou bem a lona de proteção. Seus olhos claros encontraram Judith, que permanecia sentada no banco dianteiro, encolhida contra o frio, com o vestido azul salpicado de neve e o rosto lívido pela hipotermia iminente.
- Suba para a traseira da carroça, Srta. Brown! - Kitty ordenou, sua voz destituída de qualquer traço de brincadeira. - O vento está virando e o banco da frente vai virar um bloco de gelo em menos de uma hora. Entre na lona agora!
Judith tentou mover-se, mas suas pernas estavam rígidas e dormentes pelo frio acumulado. Ela deslizou do assento com dificuldade, seus pés tocando o estribo de ferro sem que ela sentisse o impacto. Kitty, percebendo a hesitação e a fraqueza física da professora, segurou-a pela cintura com firmeza e ajudou-a a subir pela abertura traseira do veículo, empurrando-a para o interior confinado da carroça de carga.
O interior do veículo era um espaço reduzido, saturado pelo cheiro de lona úmida, madeira velha e pelas sacas de provisões que Kitty comprara no armazém. A lona grossa que cobria as vigas de madeira arqueadas conseguia bloquear a maior parte do vento, mas não oferecia proteção contra a temperatura que continuava a despencar do lado fora. A nevasca batia contra o tecido com um som ensurdecedor, criando a sensação de estarem isoladas no centro de um turbilhão branco.
Judith acomodou-se em um canto, sentando-se sobre um caixote de madeira com as pernas encolhidas junto ao peito. Suas mãos tremiam tanto que ela mal conseguia mantê-las unidas, e seus lábios exibiam um tom arroxeado que denunciava a gravidade de sua condição. Suas poucas roupas de Boston, embora de lã, eram muito finas, não possuíam a espessura necessária para competir com o inverno rigoroso das planícies de Nebraska.
Kitty entrou logo em seguida, amarrando as tiras de couro da lona traseira para fechar completamente o espaço interno. Ela retirou o chapéu, sacudindo a neve acumulada nas abas, e desatou o cinturão de couro duplo onde repousavam os Colts, deitando-o ao lado de uma saca de farinha para que estivesse ao alcance imediato de suas mãos. Em seguida, seus olhos azuis e afiados fixaram-se na figura encolhida e trêmula de Judith.
A batedora praguejou, balançando a cabeça com um misto de impaciência e preocupação.
- Eu disse ao Miller que você ia congelar antes de ver o rio, professora - Kitty murmurou, sua voz adquirindo um tom mais baixo dentro do espaço confinado da carroça. - Suas roupas são boas para passear na calçada de tijolos da cidade, mas aqui fora elas não servem nem para pano de chão quando o norte resolve soprar.
Kitty moveu-se até a frente da carroça, onde mantinha seus pertences pessoais guardados em um baú de couro de montaria. Ela abriu a tampa e extraiu um casaco imenso e pesado, confeccionado com pele de bisão curtida e forrado internamente com lã de carneiro grossa. O casaco exalava o cheiro rústico da gordura animal e da fumaça de acampamentos antigos, um odor que no Leste seria considerado intolerável, mas que ali representava a única barreira real contra a morte por congelamento.
Ela caminhou até Judith e, sem pedir permissão ou esperar qualquer manifestação de orgulho por parte da professora, jogou o casaco de pele sobre os ombros trêmulos da outra, envolvendo-a completamente no tecido pesado.
- Coloque isso - Kitty disse, seu tom de voz adquirindo uma firmeza inabalável. - E não comece com discursos sobre os modos civilizados ou o cheiro do bicho. Se você não se aquecer nas próximas duas horas, seus dedos vão começar a escurecer e eu não vou sujar a minha faca cortando gangrena de dondoca no meio do caminho. Enrole-se nessa pele e fique quieta.
Judith sentiu o peso imenso do casaco de bisão sobre seu corpo. O calor acumulado no interior da pele animal começou a penetrar em suas vestes quase imediatamente, combatendo o frio que parecia ter se instalado no centro de seus ossos. Ela segurou as bordas do casaco com as mãos trêmulas, puxando-o contra o queixo. O odor forte do animal atingiu suas narinas, mas ela não emitiu nenhuma palavra de recusa. O pragmatismo e a necessidade de sobrevivência sufocaram qualquer resquício do orgulho que pudesse ter trazido de Boston.
- Obrigada, Sra. Catherine... - Judith sussurrou, sua voz saindo fraca e trêmula por entre os dentes que insistiam em bater. Foi a primeira vez que sua cadência modulada na voz cedeu lugar a uma manifestação de pura vulnerabilidade humana.
Kitty não respondeu de imediato. Ela acomodou-se no chão da carroça, sentando-se com as costas apoiadas contra uma saca de grãos, a poucos centímetros de onde Judith estava recolhida. O espaço era tão estreito que suas pernas compridas cobertas pela calça de couro escuro quase tocavam a barra do vestido azul da professora. Ela retirou uma faca de caça do bolso, começou a limpar as unhas curtas com a ponta de metal de forma ociosa, mantendo os olhos claros fixos na abertura da lona por onde o som da nevasca entrava com violência.
- Não precisa agradecer, professora - Kitty disse, sem desviar o olhar do tecido da lona. - Eu preciso de você viva para receber os outros sete dólares quando chegarmos ao Loup. Morta, você não passa de um estorvo que vai me obrigar a cavar o chão congelado com uma pá curta, e eu detesto o trabalho manual que não me traz lucro.
O silêncio instalou-se novamente no interior da carroça, mas era um silêncio diferente daquele que imperara na estrada durante a manhã. Havia agora uma percepção aguda da proximidade física entre as duas mulheres, confinadas em um cubículo de madeira e lona enquanto o mundo exterior era fustigado por uma das tempestades mais violentas do início do inverno.
Judith, gradualmente aquecida pelo casaco de pele de bisão, observou a figura da batedora na penumbra da carroça. Jane Catherine permanecia imóvel, com sua compleição firme de 1,70, o corpo e a expressão relaxada contra as sacas de provisões, demonstrando uma tranquilidade que parecia imune ao rugido do vento e ao perigo do isolamento a que estavam submetidas. Havia naquela mulher uma crueza que assustava e ao mesmo tempo fascinava Judith, um desprezo pelas ordenações morais que governavam a sociedade civilizada, mas havia também uma solidez que oferecia uma proteção real e palpável, algo que Thomas Brown jamais soubera dar à sua família.
O tremor nos membros de Judith começou a cessar, substituído por um torpor pesado gerado pelo cansaço da longa jornada de trem, da longa noite anterior sem dormir e pelas tensões daquele dia na pradaria. Ela fechou os olhos por alguns instantes, deixando a cabeça pender levemente contra a lateral da carroça, sentindo o calor do casaco de Kitty envolvê-la como uma armadura quente contra o inverno de Nebraska.
Do lado de fora, a tempestade de neve continuou a desabar sobre o vau da pradaria com uma violência cega, cobrindo a carroça e os animais espremidos sob uma camada espessa e branca de gelo. Mas ali dentro, sob a lona que resistia ao clima extremo e violento, a professora de Boston e a batedora dos Colts .45 dividiam o espaço confinado da noite, unidas pela necessidade comum de enfrentar a aspereza de uma terra onde a liberdade cobrava seu preço mais alto na neve que se acumulava do lado de fora.
Fim do capítulo
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