Capitulo 6 - Calor Sob a Tempestade
O som da nevasca contra a lona da carroça mudara de ritmo. O bater seco dos primeiros flocos congelados convertera-se em um chiado contínuo e pesado, o sussurro de toneladas de neve que se acumulavam sobre as encostas do vau e pressionavam as laterais de madeira do veículo. No interior da estrutura confinada, a escuridão era quase absoluta, quebrada apenas pela tonalidade azulada e pálida que filtrava pelas frestas amarradas da lona traseira.
Judith Brown despertou de seu torpor com um sobressalto sutil. Por um instante, a rigidez do caixote de madeira sob seu corpo e o odor denso de gordura animal e fumaça grudada no casaco de pele que a envolvia pareceram fazer parte de um pesadelo confuso. Ela buscou, na memória imediata, as paredes de tijolo da sua antiga casa, o tique-taque previsível do relógio de sala e o cheiro de chá de jasmim que costumava aplacar suas noites de insônia. No entanto, o frio cortante que ainda rondava o interior da carroça, por cima do casaco de bisão e o som dos animais resmungando do lado de fora, espremidos contra as rodas da carroça e o barranco do vau, trouxeram-na de volta à realidade implacável do Nebraska.
- Acordou, madame? - a voz de Kitty ecoou na penumbra, vinda de um ponto muito próximo, rente ao chão. O tom era baixo, desprovido do deboche que utilizara na estrada, adquirindo a cadência áspera de quem estava acostumada a vigiar acampamentos na escuridão.
Judith moveu a cabeça lentamente dentro da gola imensa do casaco de pele.
- Sim, Sra. Catherine. Eu... não pretendia ceder ao sono de maneira tão negligente. Que horas são?
- Passa um pouco das oito da noite, eu acho. Não que o relógio mude muita coisa aqui dentro - Kitty mexeu-se, e o som do couro de suas calças roçando nas sacas de grãos indicou que ela mudava de posição. - O vento está soprando direto do norte agora. Se tivéssemos ficado na planície superior, a lona já teria rasgado e os animais estariam enterrados até o lombo. Coma algo. Você precisa de combustível se não quiser que o frio te pegue enquanto dorme. Infelizmente não é possível acender nenhuma fogueira para nos aquecer.
Houve um ruído de metal contra madeira. Kitty estendeu a mão na direção de Judith, segurando um pedaço de pano rústico que servia de embrulho e uma caneca de ferro com água que já exibia finas agulhas de gelo nas bordas.
Judith estendeu as mãos por dentro das mangas imensas do casaco de bisão, recebendo o alimento. Seus dedos, ainda um pouco dormentes, tatearam a superfície do que parecia ser uma massa escura e compacta, acompanhada por um pedaço de pão cuja consistência assemelhava-se à da madeira seca.
- O que é isto? - inquiriu Judith, aproximando o alimento dos olhos para tentar identificá-lo na penumbra.
- Pemmican - Kitty respondeu, mastigando o seu próprio pedaço com uma regularidade metódica. - Carne de bisão seca, triturada e misturada com gordura derretida e algumas bagas silvestres colhidas no outono. Não tem o gosto dos bolinhos de chuva, mas um pedaço disso é capaz de manter um homem de pé caminhando por horas na pradaria. E cuidado com o pão. A borda está meio embolorada por causa da umidade do armazenamento, mas o miolo ainda serve para acalmar o estômago. Limpe o bolor com os dedos e coma.
A menção ao bolor e à gordura animal crua fez o estômago de Judith protestar por uma fração de segundo. Em sua antiga vida, muito antes dela colapsar, qualquer alimento que exibisse o menor sinal de degradação seria imediatamente descartado, e a ideia de consumir carne misturada com sebo pareceria uma barbárie. No entanto, a fome que sentia era uma presença real e dolorosa, uma necessidade física que obliterava todo o resto. Ela usou as pontas dos dedos enluvados para raspar a camada esverdeada da crosta do pão, levou o pedaço à boca e mastigou.
A textura era desagradável, exigindo um esforço considerável de sua mandíbula, e o pemmican tinha um sabor forte, salgado e rançoso que ardeu em sua garganta. Judith engoliu a seco, forçando-se a manter a compostura, e bebeu um gole da água gélida da caneca de ferro. O líquido congelante pareceu cortar seu peito como uma lâmina, mas ela não emitiu nenhuma queixa. Ela comeu cada pedaço do que Kitty lhe dera, limpando os farelos com a precisão mecânica que cultivara ao longo de anos de autocontrole.
- Você tem mais fibra do que eu pensava, dondoca - Kitty comentou, e o brilho rápido de seus dentes na penumbra revelou um sorriso curto. - Achei que ia olhar para o pemmican e começar a chorar.
- Como lhe disse anteriormente, Sra. Catherine, minha tolerância para com a privação já foi testada - Judith respondeu, devolvendo a caneca vazia na direção da batedora. - E acredito que a fome é um elemento purificador. Ela elimina o orgulho com bastante rapidez.
- É... mas aqui nestas paragens, a fome não purifica nada e o frio só congela e mata - Kitty mudou o tom, levantando-se parcialmente para ajustar uma das amarras da lona traseira, por onde um filete de neve fina começava a penetrar. - A temperatura está caindo mais rápido do que eu pensava. O gelo está colando a lona nas vigas de madeira. Se continuarmos separadas, o ar entre nós vai esfriar e nenhuma das duas acorda amanhã.
Judith enrijeceu os ombros sob o casaco de pele.
- O que a senhora está sugerindo?
- Não estou sugerindo nada, professora. Estou dando uma ordem de sobrevivência - Kitty voltou a sentar-se, mas desta vez não buscou o canto oposto da carroça. Ela arrastou-se até o centro do espaço, posicionando-se diretamente diante do caixote onde Judith estava recolhida. - Saia desse caixote e deite-se aqui no chão, sobre as peles de carneiro. Vamos usar o casaco de bisão como cobertura para as duas. O calor do corpo é a única coisa que impede o sangue de parar quando o norte resolve soprar neve desse jeito. E vou pedir só uma única vez, não me chame mais de Sra. Catherine, apenas de Kitty, a partir de agora.
A proposta atingiu Judith com a força de um escândalo do mais puritano. Compartilhar o mesmo leito, na intimidade forçada de uma carroça de carga, com uma mulher que vestia calças de couro, praguejava como um soldado e carregava revólveres no quadril era algo que desafiava todas as leis do decoro que regiam sua mente.
- Srta. Catherine... Kitty... - Corrigiu-se ao receber o olhar exasperado da outra mulher - Acredito que tal arranjo seja absolutamente desnecessário e... - Judith declarou, sua voz recuperando a solenidade defensiva, embora o tremor do frio começasse a retornar aos seus lábios, fazendo seus dentes baterem. - Posso perfeitamente permanecer neste caixote, envolta no casaco que gentilmente me cedeu. Não há necessidade de alterarmos a ordem estabelecida.
Kitty soltou um suspiro pesado, misturado com um palavrão que proferiu entre dentes, sem qualquer paciência para as hesitações e puritanismos da outra.
- Escuta aqui, sua teimosa de uma figa - Kitty inclinou-se para a frente, e seus olhos claros pareceram brilhar com uma severidade implacável na escuridão. - Eu não aceitei este trabalho por míseros quinze dólares para virar estátua de gelo por causa dos seus pudores de dondoca. Eu passei três anos servindo de batedora para a infantaria nortista e vendo homens fortes morrerem congelados porque tinham orgulho demais para se deitarem juntos no chão da trincheira. O frio não quer saber se você é uma dama ou se eu sou uma batedora e jogadora de pôquer de Saloon. Ele só quer parar o seu coração, impedir seu sangue de circular, congelar suas carnes. Deite-se aqui no chão agora, ou eu mesma te puxo por essas saias e te amarro sob as peles.
A crueza da ameaça e a lógica brutal das palavras de Kitty não deixaram margem para réplica. Judith olhou para a silhueta escura da batedora, sentindo o frio penetrar novamente pelas frestas da madeira, cobrando seu preço em arrepios que faziam seus dentes baterem com mais força. Ela percebeu que a recusa não seria um ato de dignidade, mas sim de estupidez.
Com movimentos lentos e desajeitados, Judith deslizou do caixote de madeira para o chão da carroça, onde Kitty já havia estendido dois pelegos de carneiro grossos e ásperos sobre as tábuas do assoalho. O espaço era tão reduzido que foi impossível evitar o contato inicial; suas saias de lã azul misturaram-se às pernas compridas da batedora enquanto ambas se acomodavam na horizontal, paralelas uma à outra, espremidas entre as sacas de farinha e a parede lateral do veículo.
Kitty puxou o imenso casaco de pele de bisão, abrindo-o completamente e lançando-o sobre os corpos de ambas, estendendo o tecido pesado desde os pés até a altura dos ombros. Em seguida, ela virou-se de lado, dando as costas para Judith, e puxou a borda da pele para fechar qualquer entrada de ar.
- Fique de lado e encoste - Kitty ordenou, sua voz abafada pelo tecido da pele. - Não deixe espaço vazio entre nós. O ar frio entra pelo espaço.
Judith permaneceu deitada de costas por alguns minutos, o corpo tenso como uma corda de violino esticada ao limite. Seu coração batia com um ritmo descompassado que ela temia que Kitty pudesse ouvir através das roupas. Gradualmente, a necessidade de calor superou a barreira do medo. Ela virou-se de lado, imitando a posição da batedora, e aproximou-se até que suas costelas encontrassem a solidez das costas de Kitty.
O efeito foi quase imediato. O calor emanado pelo corpo de Jane Catherine era uma força palpável, uma barreira térmica que começou a dissipar o frio que se apoderava do corpo de Judith. O odor rústico de couro, tabaco e o cheiro animal da pele de bisão criaram uma atmosfera densa e sufocante, mas incrivelmente segura. Pela primeira vez em anos, e sobretudo desde a noite em que encontrara o corpo de seu pai na biblioteca de Boston, Judith sentiu que a responsabilidade absoluta de sua própria sobrevivência estava temporariamente dividida. O peso do casaco de bisão parecia esmagar suas defesas, e o cansaço acumulado finalmente a arrastou para um sono profundo e sem sonhos.
O despertar veio com a luz cinzenta da manhã que começava a vazar pelas costuras da lona. Não era uma claridade radiante, mas sim uma iluminação difusa, fria e azulada que revelava os contornos do interior da carroça.
Judith abriu os olhos lentamente, sentindo uma sensação de calor e peso que não experimentava há muito tempo. Demorou alguns segundos para que sua mente localizasse o espaço físico onde se encontrava. Quando a percepção retornou, um choque de pura confusão e pânico silencioso percorreu suas veias.
Ela não estava mais na posição em que adormecera. Ao longo da noite, impulsionada pelo frio instintivo que rondava as bordas da carroça, Judith se movera. Ela estava agora completamente colada ao corpo de Kitty. Suas costas estavam pressionadas contra o peito da batedora, e sua cabeça encontrava-se aninhada no vão do pescoço de Jane Catherine, sentindo a respiração rítmica e quente da outra contra a sua nuca.
Mais do que isso: o braço direito de Kitty estava passado firmemente ao redor da cintura de Judith, as mãos da batedora segurando o tecido do vestido azul com uma força possessiva e constante, ancorando-a contra o seu próprio corpo sob o casaco de bisão. As pernas compridas de Kitty, cobertas pelas calças de couro, estavam entrelaçadas às saias de Judith, criando um bloqueio completo contra o frio da manhã.
Judith prendeu a respiração, o corpo paralisado por uma confusão de sentimentos que ela não sabia como nomear. Não havia em seu repertório de vida, em suas leituras de literatura clássica ou nas instruções morais de sua juventude, qualquer categoria que explicasse o que sentia naquele momento. Era um misto de segurança absoluta e uma vertigem perturbadora, um calor que não vinha apenas da pele de bisão, mas sim da proximidade daquela mulher que representava tudo o que Judith fora ensinada a desprezar e que, no entanto, parecia ser a única coisa real que a mantinha viva.
Ela tentou mover-se sutilmente, tentando deslizar para a frente para libertar-se do aperto sem acordar a batedora. No entanto, no momento em que tensionou os músculos no movimento para se afastar, o braço de Kitty fechou-se com ainda mais força, puxando-a de volta contra o peito com um movimento natural e fluído.
Um som baixo, uma risada curta e rouca pelo sono, ecoou bem atrás do ouvido de Judith.
- Se você continuar a se debater desse jeito, professora, vai acabar rasgando a costura do meu casaco - Kitty murmurou, sua voz rouca e arrastada pelo despertar.
Judith sentiu o rosto queimar instantaneamente, o rubor subindo pelas bochechas com uma violência que ela não pôde controlar.
- Sra. Catherine... Kitty... por favor... solte-me - Judith pediu, sua voz saindo em um sussurro tenso, desprovido da costumeira autoridade professoral. - Já é de manhã. Podemos... não há mais justificativa para... para esta proximidade. - Gaguejou.
Kitty não retirou o braço imediatamente. Pelo contrário, ela abriu os olhos azuis e muito claros, que reluziram com uma lucidez absoluta, demonstrando que já estava acordada há algum tempo, observando a confusão da professora. Um sorriso lento, malicioso e carregado de uma ironia experiente, surgiu em seus lábios.
Kitty percebia perfeitamente a rigidez e a turbulência silenciosa que agitavam o corpo de Judith. A batedora já tivera sua cota de mulheres sob seus cobertores ao longo dos anos - em acampamentos de campanha, em cidades de fronteira e em quartos de hotel e Saloons de cidades esquecidas -, mulheres que muitas vezes buscavam a mesma solidez e proteção que seus colts poderiam oferecer, ou que simplesmente se viam atraídas pela ausência total de amarras que Jane Catherine ostentava. Ela sabia ler a transição entre o medo puritano e o despertar de algo que a carne compreendia muito antes que a mente moralista e tacanha pudesse processar.
No entanto, Kitty guardou esses pensamentos para si mesma. Sabia que se dissesse qualquer palavra sobre o assunto naquele momento, a professora de Boston provavelmente saltaria da carroça direto para a nevasca apenas para preservar o que restava de seu orgulho ferido.
Ela relaxou os músculos do braço, permitindo que Judith se afastasse e se sentasse no assoalho da carroça, ajeitando o vestido azul com mãos trêmulas e apressadas, enquanto tentava recuperar a respiração normal.
- O frio da noite faz as pessoas buscarem o fogo onde ele estiver, Srta. Brown - Kitty disse, sentando-se logo em seguida com uma naturalidade absoluta, como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Ela pegou seu chapéu gasto do chão e colocou-o na cabeça, ajustando a aba sobre os cabelos claros que exibiam algumas mechas frouxas fora da trança. - Não precisa ficar com essa cara de quem foi pega roubando o dinheiro da igreja. Você fez o que qualquer bicho faz quando a temperatura cai: sobreviveu.
Judith não respondeu. Estava ocupada demais tentando fixar os grampos de seu coque com os dedos começando a ficar novamente frios, longe do casulo confortável que a prendera durante a noite, evitando a todo custo encontrar o olhar azul e divertido de Kitty. Sua indignação era uma fachada que ela mal conseguia sustentar; o que realmente a perturbava era a ausência de arrependimento pelo calor que encontrara naqueles braços durante as horas de escuridão congelante da noite.
Kitty levantou-se, recolhendo o cinturão de couro duplo e afivelando-o ao redor dos quadris com dois estalos secos do metal e o barulho da correia de couro. Ela moveu-se até a lona traseira, desatou os nós de couro e empurrou o tecido para o lado, deixando que a luz da manhã e o frio entrasse de chofre no interior do veículo.
O cenário que se abriu diante delas era de uma brancura desoladora. A nevasca havia cessado nas primeiras horas da madrugada, mas deixara em seu rastro uma camada espessa de gelo e neve acumulada que cobria todo o leito do vau. As paredes de terra estavam brancas, e os arbustos de salgueiro assemelhavam-se a esculturas de cristal que brilhavam sob o sol pálido e frio que tentava romper o nevoeiro.
A carroça estava parcialmente enterrada até a metade dos eixos, e uma crosta grossa de gelo cobria a lona superior, fazendo a estrutura ranger sempre que o vento soprava. Nas laterais, as quatro mulas e o cavalo de sela que seguia atado atrás permaneciam de pé, encolhidos contra a madeira. Suas pelagens escuras cobertas pela lona grossa, estavam cobertas por uma camada de geada branca, e o vapor de suas narinas formava pequenas nuvens que se dissipavam rapidamente no ar congelante.
- Puta que pariu... - Kitty praguejou, descendo da carroça com um salto que fez o gelo do chão estalar sob suas botas de couro. - O gelo colou os freios dos eixos. Vou ter que usar a pá para liberar as rodas e verificar os cascos dos animais antes que comecem a mancar. Se as mulas congelarem os jarretes, não vamos sair deste vau nem na próxima semana.
Ela virou-se para Judith, que permanecia espiando pela abertura da lona, ainda envolta no casaco de pele de bisão.
- Fique aí dentro, professora. O sol está começando a sair, mas o vento continua cortando como navalha. Coma o resto do pemmican, porque temos pelo menos duas horas de trabalho manual aqui fora antes de conseguirmos colocar essa carroça na trilha de novo.
Sem esperar resposta, Kitty caminhou até a lateral do veículo, desatou a pá de ferro que mantinha presa pelas tiras de couro e começou a golpear o gelo acumulado ao redor da roda dianteira com batidas rítmicas e precisas. O som do metal contra o gelo ecoou pelo vau silencioso, um testemunho da obstinação humana que desafiava a força devastadora do inverno de Nebraska.
Judith Brown recolheu-se novamente para o interior da lona, sentando-se sobre o caixote de madeira. Ela olhou para as próprias mãos, que agora exibiam uma tonalidade normal graças ao calor acumulado, e depois fixou os olhos no espaço vazio do chão onde os pelegos de carneiro ainda guardavam a forma do corpo das duas. Ela sabia que a estrada para o Vale do Loup seria longa e repleta de obstáculos geográficos que testariam seus limites físicos, mas começava a suspeitar também, com uma clareza que a assustava, que a viagem mais perigosa já havia começado no interior de si mesma, sob o peso daquela pele de animal e sob o olhar da batedora dos Colts .45.
Fim do capítulo
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Lady Texiana Em: 30/06/2026 Autora da história
rsrsrs Kitty tem a experiência necessária para saber, eu acho.
Obrigada por ler e comentar!
;)