Capitulo 7 - Reflexos do Vale
As últimas vinte milhas até o Vale do Rio Loup deixaram de ser uma viagem e viraram um teste de resistência pura. A pradaria, que perto de Grand Island ainda parecia uma planície sem fim, abriu-se em um labirinto de valas profundas, colinas de areia castigadas pelo gelo e planaltos onde o vento do norte soprava sem dó, levantando a neve fresca em uma cortina tão grossa que não dava para enxergar um palmo adiante. A trilha tinha sumido; era só um palpite, uma aposta que Kitty seguia de cabeça, baseando-se na inclinação das descidas, enquando corrigia a direção das mulas pelo cabresto.
Judith Brown já não sentia os dedos dos pés. No banco da carroça, encolhida embaixo do peso enorme do casaco de pele de bisão que Kitty tinha lhe emprestado, ordenando que não o tirasse de forma alguma, ela olhava para a paisagem por uma fresta estreita na gola. O vestido de lã azul, que antes era adequado a cidade grande, agora estava encharcado de neve derretida nas barras, endurecido pela lama que tinha espirrado das rodas antes de a terra congelar de vez.
Cada solavanco do veículo batia nas suas costas como um soco. Ela mantinha os dentes cerrados com tanta força que os músculos do rosto doíam, mas a sua mente não se entregava. Pensava em Silas Vance, o tio cuja herança tinha virado a sua última saída, e se perguntava se aquele homem tinha procurado o isolamento daquelas colinas pela mesma razão que ela: a urgência de sumir de uma sociedade que cobrava caro demais para se viver.
Ao seu lado, Kitty parecia feita da mesma matéria que sustentava os desfiladeiros de pedra. A batedora não tinha dito uma única palavra nas últimas quatro horas. O seu rosto de traços marcados estava coberto por uma camada fina de geada que grudava nos fios claros que escapavam da trança, e os seus olhos azuis mexiam-se rápido, avaliando o lombo das mulas, a profundidade dos bancos de neve e a densidade das nuvens que voltavam a fechar-se sobre o vale como um teto de chumbo. O cavalo de sela, amarrado na traseira, caminhava com a cabeça baixa, os cascos afundando ritmicamente no manto branco.
Foi pouco depois das três horas da tarde que o vale ficou mais estreito, mostrando o encontro de dois riachos já congelados. Ali, protegida pela curva de uma colina de terra cinzenta, ficava a choupana de Silas Vance.
A visão do destino final não trouxe a Judith o alívio que esperava, mas sim um peso gelado no estômago. O lugar era de uma desolação assustadora. A cabana, construída com troncos de pinheiro empilhados e calafetados com lama seca e palha, continuava firme no lugar, mas o tempo e o abandono tinham cobrado o seu preço. O telhado, feito de ripas de madeira cobertas por pedaços de grama, tinha dois buracos grandes no teto, por onde a neve tinha caído direto, formando pequenos montes lá dentro. A chaminé de pedra rústica mostrava rachaduras, e a porta de carvalho grosso estava meio aberta, presa por só uma dobradiça de ferro velha, batendo com o vento em um barulho lúgubre que dava arrepios na espinha.
A uns cinquenta metros, o celeiro estava ainda pior. Duas das vigas que seguravam o teto tinham caído com o peso do gelo de invernos passados, fazendo com que uma parte da cobertura desabasse sobre as baias vazias. As portas do celeiro, em estado precário, estavam parcialmente fechadas, deixando o interior exposto ao vento e aos animais selvagens. Não havia sinal de vida, nem fumaça de uma lareira, nem rastro de passos na neve. Era um pedaço de madeira e terra, esquecido no meio de Nebraska.
- É aqui - Kitty disse, e a sua voz saiu tão dura que pareceu o estalar de um galho congelado. Ela puxou as rédeas com força, fazendo as mulas pararem com um tranco bem na frente da cabana. - O palácio do seu tio, madame. Espero que não estivesse esperando coisa melhor.
Judith afastou a pele de bisão e olhou para a estrutura. A decepção tentou tomar conta do seu peito, mas ela empurrou o sentimento de volta, segurando as lagrimas que ameaçavam congelar em seus olhos, com a praticidade que tinha aprendido nos seus anos difíceis de trabalho duro para manter-se alimentada e limpa, quando tudo o mais começara a faltar.
- As paredes parecem firmes, Kitty - Judith disse, embora a sua voz saísse um pouco trêmula. - Dá para limpar os troncos e consertar o telhado. A propriedade continua sendo minha, não importa o estado em que se encontra.
Antes que Kitty pudesse responder, o céu desabou de vez. O vento do norte, que estava meio contido pelas colinas em volta, canalizou-se pelo vão do vale com a violência de um tiro de um canhão confederado. Uma nova nevasca, mais fechada e violenta do que a do dia anterior, sumiu com a visibilidade em questão de segundos, transformando o vale em um redemoinho branco onde a colina de argila cinzenta desapareceu. O frio ficou insuportável na hora, colando as saias molhadas de Judith nas suas pernas.
Kitty saltou da carroça soltando um palavrão alto, afundando os tornozelos na neve fresca.
- Esquece o telhado por enquanto! - Kitty gritou, lutando contra as rédeas enquanto as mulas começavam a empinar, apavoradas com a força da tempestade. - Esse vento vai fechar o vale de um jeito que ninguém vai sair. Não tenho a menor chance de voltar para Grand Island hoje, nem amanhã. Estamos presas aqui. Me ajuda a colocar os animais no que sobrou do celeiro ou vamos todos morrer congelados aqui no pátio!
Judith não hesitou. Ignorando a rigidez do corpo e o incômodo de suas roupas molhadas, ela desceu da carroça, caindo na neve fofa. O frio congelante entrou direto nas suas botas finas, mas ela agarrou a mala de lona com uma das mãos e correu para a porta da cabana, deixando-a ali antes de voltar para ajudar a batedora.
Seguindo os comandos rápidos de Kitty, Judith segurou as rédeas de duas das mulas, puxando-as com toda a força que tinha para dentro da parte desabada do celeiro, onde Kitty usou cordas de couro para amarrar os animais junto às vigas que ainda estavam de pé. O cavalo de sela foi empurrado para o canto mais protegido, espremendo-se contra as mulas para pegar um pouco de calor. Por sorte, ainda havia bastante feno acumulado, e Kitty, pegando um forcado, despejou rapidamente uma quantidade generosa para que pudessem se alimentar.
Quando terminaram de guardar os animais no espaço que sobrara seco no celeiro e alimentá-los, conseguiram colocar a carroça para perto da entrada do celeiro para protegê-la do vento e servir como uma proteção extra às portas em mau estado, os rostos de ambas estavam brancos de frio. A nevasca era tão espessa que a caminhada de cinquenta metros de volta para a cabana teve de ser feita com Kitty segurando Judith pelo pulso com força, impedindo que o vento a jogasse para fora do caminho.
Elas entraram na cabana e empurraram a porta de carvalho com força, calçando a madeira com um tronco grosso de lenha que havia sido deixado jogado no chão. O silêncio que ficou lá dentro era relativo; o vento uivava alto pelos buracos do telhado e pelas frestas dos troncos, mas a força direta da tempestade tinha sido bloqueada.
O interior da cabana era minúsculo, um único cômodo que servia para tudo: cozinha, quarto e sala. O chão assoalhado de madeira rústica estava coberto por uma camada grossa de poeira, folhas secas trazidas pelo vento do outono e restos de neve que tinham entrado pelas aberturas do teto. No canto, bem embaixo de um dos buracos, um monte de neve fresca acumulava-se sobre o que parecia ser uma mesa de madeira rústica de pinheiro. No canto oposto, livre da água, dava para ver um catre pequeno de madeira, com um colchão de palha desbotado e amassado pelo tempo, exalando um cheiro forte de mofo.
Judith largou-se contra a parede de troncos, as mãos cruzadas sobre o peito, a respiração saindo em fumaça branca e rápida na penumbra do quarto. A desolação do lugar era total. Não havia ali nenhum sinal de conforto; era só o espectro de uma cabana abandonada no meio do inverno de Nebraska.
Kitty não perdeu tempo reclamando. Ela caminhou direto para a lareira de pedra que ocupava o centro da parede norte. Ajoelhou-se no assoalho, mexendo no interior do buraco com as mãos calosas. Retirou dali um ninho de pássaro seco e alguns gravetos velhos que Silas tinha guardado antes de morrer.
- O velho Vance era esperto - Kitty murmurou, e o som de sua voz trouxe Judith de volta para a realidade. - Ele deixou lenha seca empilhada para a lareira. Se a chaminé não estiver entupida de gelo ou poeira, vamos ter fogo em cinco minutos.
Kitty puxou a faca de caça, descascou alguns pedaços de madeira de pinheiro cheios de resina e usou a sua pederneira para riscar a faísca sobre o ninho de pássaro seco. Judith observou o processo sem conseguir desviar os olhos. Havia nos movimentos de Kitty uma economia de energia que mostrava anos de costume com o perigo e a falta de recursos; ela não desperdiçava um único gesto, não demonstrava medo e não dava espaço para dúvidas. Quando a primeira chama amarelada pegou na madeira seca, uma luz trêmula e quente espalhou-se pelas paredes rústicas da cabana, desenhando sombras longas e estranhas nos troncos de pinheiro.
O fogo pegou com força, e a fumaça, depois de um momento inicial em que quase sufocou o quarto, começou a subir pela chaminé de pedra, mostrando que o caminho estava livre. A temperatura dentro da pequena cabana começou a subir aos poucos, embora o frio continuasse forte nos cantos onde a neve caía pelo teto.
Kitty levantou-se, limpando a poeira das calças de couro com as palmas das mãos. Ela pegou o casaco de pele de bisonte e estendeu-o na frente da lareira, por cima das peles de carneiro que tinha pegado na carroça depois de guardar os animais. Em seguida, voltou os seus olhos azuis e afiados para Judith.
A professora continuava de pé perto da porta, encostada na parede, com a mala de lona do lado dos pés. Ela tinha tirado as luvas de algodão, mostrando as mãos pálidas com as articulações vermelhas e inchadas pelo frio. O seu rosto mantinha a expressão séria, mas os seus olhos castanhos mostravam um cansaço que ia além do corpo. Ela parecia uma criaturinha frágil que tinha sido esquecida em um lugar bruto demais.
- Tira esse vestido úmido, professora - Kitty disse, e o tom de sua voz tinha aquela praticidade direta que Judith tinha aprendido a associar com a sobrevivência. - A barra está encharcada de neve derretida. Se continuar com essa lã colada nas pernas, o calor do fogo não vai adiantar nada e você vai congelar.
Judith ergueu o queixo, a criação rígida funcionando como a sua última defesa contra o desespero.
- Acho que isso não é uma boa ideia, Sra. Não tenho roupas de troca que sirvam para um lugar assim no momento, e acho melhor continuar vestida.
Kitty soltou uma risada curta, aquele som rouco que sempre fazia os músculos do pescoço de Judith ficarem tensos. Ela deu dois passos na direção da professora, parando a uma distância que permitia a Judith sentir o cheiro de fumaça de pinheiro e couro que vinha da batedora. O tamanho de Kitty parecia encher o espaço pequeno da cabana de um jeito esmagador.
- A sua vergonha não vai impedir os seus pulmões e o seu corpo congelem antes do amanhecer, Srta. Brown - Kitty respondeu, inclinando um pouco a cabeça, os olhos azuis fixos no colarinho fechado de Judith. - Aqui as regras mudam. Você está no Vale do Loup, não em uma sala de chá. Tira essa lã molhada. Eu não vou ficar olhando para você se é isso que te preocupa.
A menção direta à seus pudores e o argumento lógico da batedora desarmaram Judith. Ela percebeu que a sua resistência não passava de uma bobagem diante da força da tempestade que fazia barulho lá fora. Com os dedos trêmulos e duros pelo frio, ela começou a abrir a longa fileira de botões de osso que fechavam a frente de seu vestido de lã. Kitty virou-se de costas com a maior naturalidade, caminhando até a mesa rústica para dar uma olhada nos restos de pratos e panelas que Silas tinha deixado para trás como herança a quem deles precisasse.
Judith deixou o vestido de lã azul escorregar pelo corpo, ficando só de anáguas brancas de algodão e com a combinação fina que usava como roupa de baixo. Sem o peso da lã, o frio do quarto bateu nela com força, fazendo-a tremer dos pés à cabeça. Ela estendeu o vestido úmido sobre um caixote perto da lareira, como Kitty tinha feito, e moveu-se rápido para perto do fogo, ajoelhando-se nos pelegos de carneiro que a batedora tinha arrumado no chão.
Quando Kitty virou-se, trazendo na mão uma velha caneca de estanho que tinha limpado com a ponta do lenço, os seus olhos azuis pararam na figura de Judith na penumbra. Sob a luz dourada e trêmula das chamas da lareira, as formas da professora de Boston tinham uma delicadeza que contrastava com a aspereza dos troncos de pinheiro. Os cabelos castanhos de Judith tinham se soltado por causa do vento, e algumas mechas longas caíam livres sobre os seus ombros pálidos, brilhando com tons acobreados por causa do fogo.
Uma tensão nova, pesada e silenciosa, tomou conta do quarto. Já não era só o perigo da tempestade ou a desolação da cabana abandonada; era a percepção clara e forte da presença uma da outra naquele espaço tão pequeno. Cada respiração de Judith parecia ecoar nas paredes de tronco, e o olhar de Kitty, embora mantivesse a seriedade de sempre, demorou um segundo a mais para desviar-se das curvas que o algodão das anáguas desenhava no corpo da professora.
Judith sentiu uma onda de calor súbita subir pelo peito, uma sensação que não vinha da lareira de pedra. O arrepio que tinha sentido na estrada quando as suas mãos se tocaram por acidente ou quando acordou grudada a ela, voltou com tudo, parando na sua garganta e impedindo-a de falar qualquer coisa formal. Ela puxou as bordas do casaco de pele de bisão de Kitty, que estava estendido no chão, e enrolou-se nele, tentando esconder o seu corpo e as suas reações do olhar atento da batedora.
Kitty separou o que restava do pemmican e do pão. Com um movimento das mãos, pegou sua faca de caça e dividiu o alimento em três porções, oferecendo uma a Judith. A terceira, a maior, guardou para que ambas pudessem se alimentar pela manhã.
Depois que se alimentaram, a batedora reuniu um pouco de neve em uma bacia de ferro velha e pós para derreter junto ao fogo, para que pudessem se lavar antes de dormir, o que Judith aceitou de bom grado, a possibilidade de se livrar de toda a sujeira acumulada.
- O catre de palha é o único lugar seco que sobrou - Kitty disse, a sua voz saindo um pouco mais baixa do que o normal, perdendo parte da aspereza. Ela apontou com a cabeça para o canto mais protegido da cabana. - A palha está velha, mas está seca. Vamos ter que dividir o espaço, madame. O frio vai apertar no meio da noite e a lareira não vai dar conta do recado com esses buracos no telhado.
Judith balançou a cabeça concordando, sem dizer nada. O orgulho que a tinha feito reclamar na carroça sumiu completamente diante da necessidade física de se aquecer. Ela levantou-se do chão para onde havia retornado após se lavar e caminhou até o catre pequeno de madeira, deitando-se na borda de dentro, encostada na parede de troncos. O colchão de palha fez barulho sob o seu peso, soltando o cheiro da terra.
Kitty aproximou-se logo em seguida, depois de jogar mais dois troncos grossos na lareira para garantir que o fogo durasse algumas horas. Colocando o rifle perto do catre e o cinturão no espaldar de uma cadeira velha, ela tirou as botas de couro, deixando-as embaixo do catre, removeu a calça de couro e o casaco, ficando apenas com a camisa de flanela grossa e deitou-se ao lado de Judith. O espaço era extremamente apertado; o catre tinha sido feito para só uma pessoa, e as duas mulheres viram-se obrigadas a se espremerem uma contra a outra para evitar que uma delas caísse no assoalho.
Kitty puxou o casaco imenso de pele de bisão por cima das duas, estendendo o tecido pesado desde os pés até o queixo, criando um casulo quente que bloqueava o ar gelado do quarto.
A proximidade física era total. Judith sentia as costas de Kitty coladas ao seu peito, e a respiração da batedora era um ritmo constante que mexia nas mechas do seu cabelo na nuca. O calor que vinha do corpo de Jane Catherine era incrivelmente forte, uma energia que parecia vencer o frio do mundo exterior.
Judith fechou os olhos, com os sentidos cheios do cheiro de couro, fumaça de pinheiro e pela presença marcante daquela mulher ao seu lado. A tensão entre as duas era como uma corrente invisível que fazia a pele de Judith latejar com uma expectativa que ela não sabia explicar, mas que não queria afastar, um latejar constante que ficava mais forte entre suas pernas, uma sensação nunca antes experimentada. Ela pegou no sono embalada por aquele calor, enquanto o vento continuava a bater forte no telhado.
A madrugada chegou com um barulho que arrancou Judith do sono, com uma sensação de urgência.
Ela abriu os olhos no escuro, o coração batendo no peito de um jeito ensurdecedor. O fogo da lareira tinha virado só um monte de brasas vermelhas que jogavam um brilho fraco e avermelhado nas paredes de tronco. Do lado de fora, acima do barulho contínuo do vento, ecoava um som agudo, longo e assustador que parecia rasgar o ar do vale.
Eram uivos. Longos e famintos.
- Lobos - a voz de Kitty ecoou bem perto do ouvido de Judith, não como o sussurro sonolento da manhã anterior, mas com a clareza de quem estava já em alerta.
A batedora já estava de pé antes que Judith pudesse entender o que estava acontecendo. Em um único movimento rápido e silencioso, Kitty escorregou para fora do catre, os seus pés descalços tocando o assoalho sem fazer barulho. A sua mão direita pegou o rifle Winchester de repetição que tinha deixado encostado na cabeceira da cama, e o som do metal sendo engatilhado - um barulho seco e preciso - ecoou pelo quarto com clareza.
Judith sentou-se na cama, puxando o casaco de pele de bisão contra o peito que tremia de medo. Através dos buracos do telhado, a luz fraca das estrelas e da lua refletida na neve mostrava o ambiente. Os uivos estavam mais próximos agora, vindo do pátio do lado onde o celeiro quebrado abrigava as mulas e o cavalo. O som dos cascos dos animais batendo contra a madeira em pânico mostrava que os predadores tinham cercado o lugar.
- Fica na cama e não se mexe, professora - Kitty ordenou, com a voz baixa e firme, sem nenhuma hesitação ou medo.
A batedora caminhou até a parede da cabana, onde Silas tinha aberto uma pequena fresta vertical nos troncos para espiar o lado de fora. Ela posicionou a ponta do rifle através da abertura, colando o olho na mira de ferro.
No escuro, Judith observou o desenho do corpo de Jane Catherine. Vestida só com a camisa de flanela, com os cabelos claros desfeitos brilhando na penumbra, a batedora parecia parte daquela própria paisagem selvagem: eficiente e implacável. Não havia nela nenhuma das dúvidas que Judith costumava ver nos homens de Boston quando as coisas davam errado; Kitty mexia-se com a certeza de quem conhecia o peso do chumbo de cada bala e o valor de cada palmo de terra.
Lá fora, o uivo de um lobo maior ecoou a menos de dez metros da cabana, seguido pelo som de unhas arranhando a madeira da porta do celeiro. As mulas soltavam guinchos agudos de puro terror.
Kitty não esperou. O cano do rifle soltou um clarão de fogo alaranjado no escuro, acompanhado por um estrondo enorme que fez as paredes da cabana tremerem e a poeira cair do teto. O cheiro forte da pólvora queimada encheu o quarto na hora, cortando o cheiro de mofo.
Sem hesitar nem um segundo, Kitty mexeu na alavanca do rifle com um movimento rápido do pulso, jogando o cartucho vazio que bateu no chão com um estalo metálico, e atirou uma segunda vez, e depois uma terceira, apontando os tiros para os vultos escuros que se mexiam contra a brancura da neve no pátio.
O efeito dos tiros foi imediato. O barulho do rifle e o impacto das balas pesadas contra o gelo e a madeira assustaram a alcateia, que com o alvoroço corriam de volta pelas subidas da colina de argila, fugindo para o norte do vale.
O silêncio voltou ao Vale do Loup, quebrado só pelo uivo do vento que continuava a soprar forte. As mulas no celeiro foram se acalmando aos poucos, parando de bater os cascos contra as vigas de madeira.
Kitty manteve o rifle apontado na fresta por mais dois minutos, com a respiração saindo em pequenas nuvens de fumaça branca na penumbra. Quando teve a certeza de que os predadores tinham ido embora de verdade para as colinas de areia, ela relaxou os ombros e abaixou a arma, apoiando o cano de ferro perto da perna nua.
Ela virou-se para Judith, e o brilho fraco da madrugada mostrou o seu rosto cansado, mas tranquilo.
- Eles não voltarão tão cedo - Kitty disse, caminhando de volta na direção do catre. - Lobos só querem se alimentar, não briga. Eles queriam uma mula fácil, mas o barulho do Winchester os assustou. Você está bem?
Judith soltou o ar que tinha guardado nos pulmões. O seu corpo tremia, não só pelo frio que tinha entrado com a abertura da fresta, mas pelo impacto daquela demonstração de coragem e habilidade que tinha acabado de ver. Ela olhou para Kitty, sentindo uma admiração profunda que mexia com o seu coração e se misturava com o calor que tinha sentido durante a maior parte da noite.
- Estou bem, Kitty - Judith respondeu, com a voz saindo firme apesar do tremor das mãos. - A sua reação foi muito rápida e segura. Obrigada.
Kitty deixou o rifle do lado do caixote, e voltou a deitar-se na cama, puxando o casaco de pele de bisão por cima das duas. A proximidade física voltou, mas desta vez Judith não tentou fugir para a borda da cama. Ela mexeu-se por vontade própria na direção da batedora, deixando a sua cabeça se apoiar de novo perto do ombro de Kitty. A batedora passou o braço em volta de sua cintura com força, protegendo-a, e as duas continuaram ali, juntas no meio daquela escuridão do Nebraska, até que os primeiros raios de sol clareassem o vale.
A manhã seguinte trouxe ao Vale do Loup um silêncio total e congelado. A nevasca tinha parado completamente, deixando um céu azul-claro, limpo e muito frio que fazia a camada grossa de neve por cima da cabana e do celeiro brilhar tanto que doía os olhos.
Kitty acordou cedo, saindo da cama antes de Judith abrir os olhos. Quando a professora despertou, encontrou a batedora vestida com o seu colete de camurça e o chapéu velho, preparando uma caneca de água quente na lareira que tinha acendido de novo com os últimos troncos de pinheiro cortados.
- O tempo limpou - Kitty disse, direto ao ponto, entregando a caneca para Judith. - Mas o frio continua de rachar. Vou sair para cuidar das mulas e do meu cavalo. Preciso limpar os cascos deles e dar um pouco da ração de feno que está no celeiro se não quiser que fiquem debilitados.
Judith bebeu a água quente, sentindo o calor trazer a sua energia de volta.
- Vou cuidar da limpeza do espaço, Kitty - Judith disse, levantando-se e vestindo o seu vestido de lã azul, que embora ainda estivesse meio duro por causa da umidade do dia anterior, estava seco o suficiente para usar.
Nas três horas seguintes, as duas trabalharam sem parar e cada uma no seu canto. Enquanto Judith usava a vassoura de galhos secos para tirar a poeira, as folhas velhas e a neve derretida do chão da cabana, Kitty trabalhava no pátio do lado de fora. O som das batidas da pá de ferro contra o gelo das rodas da carroça e o barulho das vigas de madeira do celeiro que a batedora tentava segurar com troncos que havia encontrado em um canto, ecoavam pelo vale com um ritmo constante.
Perto do meio-dia, Kitty voltou para dentro da cabana. Ela trazia uma saca extra de comida da carroça e uma caixa de ferramentas velhas que Silas tinha guardado no celeiro. Os seus cabelos claros tinham gotas de suor misturadas ao gelo da manhã, e o seu corpo mostrava o cansaço do trabalho pesado.
Ela largou as ferramentas no chão, tirou o chapéu e sentou-se na mesa de pinheiro que Judith tinha limpado com um pano úmido. Os seus olhos azuis fixaram-se na professora, avaliando o resultado do trabalho de Judith. A cabana estava bem melhor; a poeira tinha sumido, o monte de neve embaixo do telhado tinha sido jogado para fora e os poucos pratos e copos de estanho de Silas tinham sido organizados na prateleira de ferro.
No entanto, Kitty olhou para cima, para os dois buracos no telhado por onde dava para ver o céu azul, e depois olhou para as mãos pálidas e machucadas de Judith, que tinham pequenos cortes causados pelos galhos da vassoura rústica.
Um silêncio pesado ficou entre as duas.
Kitty tirou um cigarro do bolso, acendeu com um fósforo e soltou a fumaça na direção do teto de madeira. A sua expressão tinha ficado séria, de um jeito que Judith ainda não tinha visto nela, uma gravidade que ia além dos problemas normais da viagem.
- Você fez um bom trabalho aqui dentro, professora - Kitty começou, e a sua voz rouca saiu sem nenhuma brincadeira ou deboche. - Mostrou que é forte. Mas limpar o chão não vai impedir que a próxima tempestade te enterre viva aqui dentro.
Judith ficou de pé na frente da mesa, com as mãos cruzadas na frente do vestido azul, recuperando a sua postura séria de sempre.
- Sei que a cabana tem problemas. Mas, como eu disse, pretendo fazer os consertos aos poucos, usando o que eu tenho.
Kitty soltou a fumaça do cigarro, balançando a cabeça devagar. O seu olhar parou nas botas finas de Judith e na fragilidade do seu corpo embaixo da lã azul.
- Você não tem como fazer isso sozinha, madame. E não tem o tempo que acha que tem - Kitty disse, com as palavras saindo devagar e frias. - Dei uma olhada no celeiro e nas vigas principais. Metade do teto vai cair no próximo degelo se não for reforçado com madeira nova e pregos de ferro grandes. O telhado dessa cabana precisa de ripas e de pedaços de grama novos antes que a chuva da primavera chegue e estrague esse chão apodrecendo o que resta da madeira boa e transformando tudo em um lamaçal completo. E tem os lobos. Eles fugiram hoje porque eu tinha um Winchester e atirei neles. Se eu te deixar aqui sozinha amanhã você não dura duas semanas. Vai virar comida de bicho antes que o Miller consiga mandar a próxima carroça de suprimentos que eu deixei encomendada.
As palavras de Kitty bateram em Judith com a força de uma verdade incontestável. Ela quis reclamar, quis falar sobre o seu direito de herança e a sua força de vontade, mas os cortes nas suas mãos e a lembrança dos lobos correndo em volta da cabana no escuro da madrugada fizeram a sua voz sumir. Ela sabia que a batedora estava coberta de razão; o Oeste não queria saber de orgulho ou de histórias do passado. Exigia mãos calejadas, força e a capacidade de enfrentar o perigo de frente para conseguir continuar viva.
- O que a senhora sugere que eu faça, Catherine? - Judith perguntou, com a voz baixando um pouco, mostrando que aceitava a sua fragilidade diante daquela mulher.
Kitty apagou a ponta do cigarro na madeira da mesa, levantou-se da cadeira e caminhou até Judith, parando bem perto dela. A sua presença física encheu de novo o espaço pequeno do quarto, mas havia agora nos seus olhos azuis uma expressão de cuidado e proteção que ela não conseguia mais esconder fingindo que só pensava no dinheiro do pagamento.
Jane Catherine olhou para as mãos machucadas da professora e depois sustentou o olhar castanho e firme de Judith Brown. Durante toda a sua vida naquele território, Kitty sempre tinha vivido sem se apegar a ninguém; deixava os clientes no lugar combinado, pegava as moedas de prata da venda de cavalos selvagens e sumia nas colinas antes que as relações humanas pudessem criar laços na sua vida.
Mas havia alguma coisa naquela professora certinha de Boston, naquela mulher que tinha enfrentado o frio, a comida ruim e os uivos dos lobos sem dar um único lamento de desespero, que tinha acordado na batedora um sentimento que ela achava que tinha morrido há muito tempo na pradaria selvagem. Ela percebia que se deixasse Judith ali sozinha, estaria decretando a sua morte, e a ideia de ver aquela mulher ser destruída pela crueza daquelas terras causava um incômodo que ela não queria aceitar.
- Eu não vou voltar para Grand Island hoje ou amanhã, professora - Kitty avisou, com a voz baixa, firme e decidida, sem dar espaço para nenhuma discussão. - E não vou enquanto as coisas não estiverem resolvidas por aqui, não posso virar as costas agora para te deixar virar alimento de bicho nesse vale. Vou ficar aqui pelas próximas semanas, pelo menos até que Miller consiga mandar a carroça com os mantimentos extras. Vou usar as ferramentas do velho Silas para consertar o teto do celeiro, fechar esses buracos do telhado da cabana e caçar carne fresca para garantir que você tenha comida estocada na prateleira suficientes para passar o inverno todo. Vou arrumar esse lugar para que você possa, de verdade, ter uma chance de sobreviver, porque do jeito que está, você não tem nenhuma.
Judith sentiu o coração bater mais forte no peito, fazendo-a dar um pequeno passo para a frente. A proximidade de Kitty e a promessa de que ela ia ficar trouxeram um alívio enorme e uma confusão de sentimentos que ela já não conseguia esconder.
- Sra. Catherine... Kitty... o dinheiro que me sobrou é muito pouco. Não tenho como pagar a sua permanência por tanto tempo assim.
Kitty deu um sorriso calmo, aquele jeito de canto de boca que tinha feito Judith ficar vermelha no saloon e na carroça. Ela estendeu a mão firme e áspera do trabalho pesado, segurando Judith pelo queixo com uma firmeza delicada, obrigando os olhos castanhos da professora a olharem direto nos seus olhos azuis.
- O preço do meu trabalho nessas semanas não vai precisat ser pago com as moedas de prata, professora - Kitty murmurou, com a sua voz rouca ganhando um tom íntimo que fez a respiração de Judith parar na hora. - Nós vamos dividir esse catre de palha e esse casaco de bisão até o inverno dar uma trégua. O resto do pagamento... a gente resolve nas noites em que o vento do norte resolver soprar forte. Estamos entendidas? - Perguntou, tentando sondar se Judith havia de fato captado suas intenções não ditas.
Judith sentiu o calor do toque dos dedos de Kitty subir pelo seu pescoço, quebrando a última resistência que tinha trazido. Ela olhou para a força daquela batedora, para as armas na cintura e para a certeza que vinha de suas atitudes, e entendeu que a sua liberdade naquele lugar já não dependia dos papéis de Silas Vance. Ela inclinou a cabeça de leve contra a palma da mão de Kitty, parando de tremer, e aceitou a situação com toda a dignidade que tinha na alma.
- Estamos entendidas, Jane Catherine. - Mas não tinha exata certeza de qual era mesmo o pagamento a que Kitty havia referido, apenas sabia que a breve sugestão de algum pagamento obscuro havia esquentado todo seu corpo.
Do lado de fora, o sol de inverno continuou a brilhar por cima da imensidão branca do Vale do Loup, derretendo as primeiras pontas de gelo das madeiras do telhado. Mas ali dentro, sob os troncos de pinheiro que Silas Vance tinha empilhado em forma de casa para vencer o frio, a professora e a batedora fechavam um acordo que mudaria a realidade daquela cabana abandonada, transformando-a no centro de um mundo onde o inverno já não tinha força para congelar, os corpos de ambas saberiam como encontrar calor e proteção.
Fim do capítulo
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