Capitulo 8 - Fogo Sob o Gelo
O silêncio que se instalou na cabana após o pacto silencioso selado sob o toque de Kitty não era um silêncio que remetia a ausência, mas de acomodação a situação. O Vale do Rio Loup, com sua imensidão branca e hostil, parecia ter recuado um palmo, dando às duas mulheres o espaço necessário para respirar sem a urgência do congelamento imediato.
Judith Brown permaneceu junto à mesa de pinheiro por alguns instantes, as pontas dos dedos e o rosto ainda retendo o calor dos dedos da batedora. Seus olhos castanhos acompanharam os movimentos precisos de Kitty enquanto ela recolhia as ferramentas rústicas que Silas Vance deixara no celeiro e as organizava no canto da cabana.
- O sol não vai durar muito tempo nessa posição - Kitty quebrou a quietude, sua voz ecoando pelas vigas de pinheiro. Ela colocou o chapéu velho de volta na cabeça, ajustando a aba para proteger os olhos do reflexo forte do sol na neve que entrava pelas frestas. - O vento deu uma trégua, mas o frio continua cortando. Vou começar pelos buracos do telhado. Se eu não colocar pelo menos algumas tábuas e alguma madeira amarrados ali antes do meio da tarde, ainda que não neve, o calor aqui dentro vai derreter o pouco de gelo que restou nas frestas e pode molhar toda a lareira por dentro. Ai, adeus fogo e calor.
Judith ajeitou as mangas de seu vestido de lã azul, sentindo a umidade do tecido que começava a secar por completo graças ao calor contínuo do fogo que crepitava na lareira de pedra. A sensação desconhecida que havia experimentado na noite anterior - aquele latejar persistente e profundo entre as pernas que a acometera enquanto estava encolhida sob a pele de bisão - ainda rondava seus pensamentos, uma sombra persistente que ela não conseguia classificar com as palavras que conhecia.
- Entendido, Kitty - Judith respondeu, esforçando-se para manter a modulação firme e controlada que usava em suas aulas. - Enquanto você cuida da cobertura, eu cuidarei do sustento. Vi que na saca extra que trouxe da carroça há algumas provisões. Vou tentar preparar uma refeição quente. Ambas precisamos de energia se quisermos sobreviver a este dia.
Kitty deu aquela risada curta de canto de boca, um som que fez o estômago de Judith dar uma volta rápida.
- Muito bem, professora. O velho Silas tem uma panela de ferro fundido pendurada ali perto do fogão rústico. Veja se consegue limpá-la. Na saca tem feijão, um pedaço de toucinho defumado que comprei do Miller em Grand Island e um punhado de farinha de milho. Não é o banquete fino de onde você veio, mas garanto que gruda no estômago e espanta a fome.
Com um aceno de cabeça prático, Kitty pegou o martelo de ferro pesado, um punhado de pregos longos e enferrujados que encontrara na caixa de Silas e saiu pela porta de carvalho. O barulho de seus passos cadenciados no assoalho deu lugar ao som abafado de suas botas afundando na neve do pátio exterior.
Judith respirou fundo, preenchendo os pulmões com o ar que agora cheirava a fumaça de pinheiro e resina. A desolação do lugar já não parecia tão paralisante quanto na tarde anterior. Havia uma ordem a ser estabelecida, e o trabalho manual, algo que ela sempre encarara com uma necessidade severa em Boston para manter as aparências de uma dignidade familiar, ali assumia o contorno de uma batalha pela existência.
Ela caminhou até o fogão de ferro rústico que dividia a parede norte com a lareira de pedra. A panela de ferro fundido de Silas estava coberta por uma camada fina de fuligem e poeira acumulada com o tempo, mas a estrutura estava em boas condições. Usando um pedaço de pano áspero que encontrara na lona de sua própria mala e um punhado de neve limpa que recolheu perto da porta, Judith esfregou o metal até que a superfície interna ficasse limpa, pronta para o uso.
As provisões trazidas por Kitty eram simples, mas generosas para os padrões daquele lugar desolado e ermo. O pedaço de toucinho defumado estava envolto em papel pardo, exalando um aroma forte de sal e fumaça que fez a boca de Judith salivar na hora. Com a faca rústica que encontrara na gaveta da mesa, ela cortou um pedaço de toicinho em cubos pequenos, observando o jeito que a gordura branca contrastava com as fibras vermelhas e curadas.
Ao colocar a panela sobre o calor das brasas da lareira, o chiado da gordura derretendo começou a preencher o ambiente, um som doméstico e acolhedor que parecia desafiar a crueza do tempo implacável que rugia lá fora. Judith adicionou o feijão que Kitty trouxera, cobrindo o cozido com a água que ainda restava na caneca de estanho, e deixou que o vapor começasse a subir, perfumando os troncos de pinheiro com o cheiro rico do alimento.
Enquanto o almoço cozinhava lentamente, Judith ocupou-se em organizar o restante do cômodo. Usando a vassoura de galhos secos, deu mais uma passada pelo assoalho rústico, empurrando para fora os últimos restos de folhas e sujeira que haviam resistido à limpeza da manhã. Ela limpou a mesa de pinheiro com cuidado, dispondo as duas únicas canecas de estanho e os pratos velhos que encontrara na prateleira de ferro. Cada gesto seu era medido, uma tentativa de impor a ordem de sua mente sobre os desafios daquele território selvagem.
Do lado de fora, o som do trabalho de Kitty começou a ditar o ritmo do dia. Judith ouvia o barulho seco do martelo batendo contra os pregos de ferro, seguido pelo ranger das tábuas velhas que a batedora arrastava pelo teto da cabana.
Kitty estava no alto da estrutura, desafiando a altura e o vento frio que ainda soprava em rajadas ocasionais, cobrindo os dois grandes buracos por onde a neve havia caído na noite anterior. Havia uma força indomável na batedora, uma capacidade de dobrar o mundo material à sua vontade que causava em Judith uma admiração que beirava o espanto.
No Leste, os homens que conhecera discutiam leis, finanças e política por trás de escrivaninhas de mogno, mas nenhum deles seria capaz de erguer uma viga ou manter um teto de pé diante de uma nevasca do Nebraska. Kitty, com suas calças de couro e sua camisa de flanela, possuía uma soberania real sobre a terra e o espaço ao redor.
Perto do meio-dia, o guisado de feijão com toucinho estava grosso e escuro, cercado por uma camada de farinha de milho que Judith adicionara no final para dar consistência ao caldo, criando uma refeição quente e substancial. O cheiro era maravilhoso, preenchendo cada fresta da cabana.
A porta de carvalho abriu-se com um rangido forte, e Kitty entrou, trazendo consigo uma rajada de ar frio e o cheiro fresco do inverno. Ela tirou o chapéu, sacudindo a neve fina que se acumulara na aba, e limpou a testa com as costas da mão calosa. Seus cabelos claros estavam desalinhados, alguns fios colados nas têmporas pelo suor do esforço físico, e suas bochechas mostravam o vermelho vivo causado pelo vento cortante.
- O telhado da cabana está seguro por enquanto - Kitty disse, pendurando o chapéu em um prego na parede e caminhando direto para a lareira, estendendo as mãos para o calor das brasas. - Consegui pregar três tábuas largas de pinheiro que Silas tinha guardado atrás do celeiro e cobri tudo com uma lona velha que estava na carroça. Prendi com pedras pesadas nas pontas. Não vai entrar mais nenhuma gota de neve ou chuva até a primavera chegar de verdade.
Ela farejou o ar, e seus olhos azuis brilharam ao ver a panela de ferro fumegando sobre a mesa.
- Diabos, professora. Esse cheiro está melhor do que qualquer coisa que o Miller serve naquele Saloon imundo de Grand Island. Você leva jeito para as panelas, afinal.
Judith sentiu o rosto esquentar com o elogio direto, mas manteve a postura formal ao servir o guisado nos dois pratos de estanho.
- Usei o que estava disponível na saca, Kitty. Sente-se. O esforço que fez lá em cima exige que se alimente. Coma enquanto a comida está quente.
As duas sentaram-se lado a lado na mesa de pinheiro rústica. O almoço correu em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som dos talheres contra o estanho e pelo estalar eventual das brasas na lareira. Kitty comia com a avidez de quem gastava muita energia na labuta diária, mas havia uma dignidade natural em seus movimentos.
Judith, por sua vez, saboreava cada colherada, percebendo que aquela comida simples e forte tinha um sabor mais verdadeiro do que qualquer banquete requintado que já experimentara em áureos tempos. A proximidade física na mesa pequena trazia de volta a lembrança do calor do corpo de Kitty na noite anterior, e Judith mantinha os olhos fixos em seu prato, temendo que seu olhar revelasse a confusão de pensamentos que tomava conta de sua mente.
Ao terminar, Kitty limpou a boca com um pedaço de pano, soltou um suspiro de satisfação e levantou-se da cadeira de madeira.
- Esse feijão salvou o meu dia, Judith - ela disse, pegando o cinturão com os revólveres que estava no espaldar da cadeira e afivelando-o na cintura com um movimento mecânico. - Mas agora não posso amolecer. O sol já começou a descer para o oeste e eu ainda tenho muito trabalho pela frente se quisermos passar as próximas semanas sem sobressaltos.
- O que mais precisa ser feito hoje? - Judith perguntou, recolhendo os pratos vazios, um rubor repentino subindo pelo rosto, não ignorando que a batedora havia pela primeira vez, a chamado pelo primeiro nome.
- Vou descer até o riacho congelado para quebrar o gelo e buscar água limpa para nós e para os animais - Kitty explicou, ajustando o casaco sobre os ombros. - Depois preciso pegar o machado e cortar uma boa quantidade de lenha de pinheiro. O fogo de ontem consumiu quase tudo o que Silas tinha guardado perto da lareira, e se uma nova tormenta fechar o vale, precisamos ter madeira seca para pelo menos dez dias. Por fim, vou dar mais uma geral no celeiro para reforçar a baia das mulas. Aqueles lobos da madrugada sabem que tem carne fresca ali e podem tentar voltar se sentirem que tem uma chance de conseguirem alimento.
- Posso ajudar em algo mais no pátio? - Judith ofereceu-se, querendo ser útil e, no fundo, querendo evitar a solidão da cabana vazia.
Kitty parou junto à porta, olhando para Judith com uma seriedade que tinha um toque quase suave nas bordas de seus olhos azuis.
- Não, Judith. O vento lá fora está começando a ficar forte de novo e suas mãos já sofreram bastante com aquela vassoura de galhos para suportarem o frio que corta. Fica aqui dentro, mantém o fogo vivo e tenta descansar um pouco. O trabalho pesado do Oeste é para quem tem o couro grosso como o meu. Guarda as suas forças para quando o frio da noite chegar de verdade.
Com essas palavras, Kitty saiu, fechando a porta de carvalho atrás de si.
Judith limpou os pratos de estanho e a panela de ferro usando o resto da água quente, organizando tudo na prateleira. Depois, recolheu-se para perto da lareira, sentando-se nos pelegos de carneiro que ainda guardavam o cheiro de couro e fumaça. O cansaço físico da viagem e o esforço da limpeza finalmente cobraram o preço, e ela acabou adormecendo ali mesmo, embalada pelo som distante do machado de Kitty batendo contra os troncos de pinheiro no pátio, um eco rítmico e seguro que parecia demarcar as fronteiras de seu novo mundo.
Quando Judith acordou, a penumbra já havia tomado conta da cabana. A luz dourada do sol de inverno desaparecera por completo, substituída pelo tom azul-escuro da noite de Nebraska que avançava rápida e implacável. A lareira estava reduzida a brasas vermelhas que projetavam sombras longas nas paredes de tronco.
A porta abriu-se e Kitty entrou, carregando um feixe imenso de lenha cortada nos braços, que ela depositou com um baque surdo no canto da parede, perto da lareira. Suas roupas traziam o cheiro forte da resina fresca e do frio da noite. Ela estava exausta; seus ombros pareciam carregar o peso de todo o trabalho do vale, mas seus movimentos continuavam firmes.
- A noite vai ser mais fria do que a anterior, madame - Kitty disse, jogando dois troncos grossos sobre as brasas, fazendo o fogo subir em labaredas amarelas que iluminaram o quarto. - O céu está limpo, sem nenhuma nuvem, e o vento parou. Quando o céu fica assim no inverno aqui, a temperatura desce tanto que a madeira estala sozinha na floresta. O celeiro está fechado e as mulas estão seguras. Agora precisamos cuidar de nós.
Após consumirem o que restava da refeição do meio dia, Kitty providenciou agua morna em uma bacia para ambas se lavarem e retirar da pele os excessos dos últimos dias. As duas prepararam-se para recolher-se ao catre pequeno de madeira. O ritual da noite anterior repetiu-se com uma naturalidade que começava a não ser uma novidade, mas com uma carga de expectativa que parecia deixar o ar dentro da cabana espesso e difícil de respirar.
Judith retirou o vestido de lã azul, estendendo-o sobre o caixote, ficando novamente apenas com suas anáguas brancas de algodão e a combinação fina de baixo, que ela havia trocado. Kitty moveu-se para o seu lado da cabana, retirando o cinturão com as armas e colocando o rifle Winchester ao alcance da mão ao lado da cama. Ela removeu as botas de couro e as calças rústicas, mantendo apenas a camisa de flanela grossa que cobria seu torso.
Judith deitou-se primeiro na borda interna do catre, espremendo-se contra os troncos da parede. O colchão de palha rangeu sob seu corpo. Logo em seguida, Kitty acomodou-se ao seu lado, puxando o pesado casaco de pele de bisão por cima de ambas, criando aquele casulo escuro e quente que as isolava do frio mortal lá fora.
A proximidade física era inevitável devido ao espaço exíguo da cama feita para apenas uma pessoa. No entanto, naquela noite, a minúscula barreira de roupas que as separava começava a fazer seus efeitos. Com Judith usando apenas o algodão fino de suas anáguas e Kitty vestindo apenas a camisa de flanela, a percepção do contorno dos corpos era total e imediata.
As costas de Judith estavam coladas ao peito de Kitty. Ela conseguia sentir cada curva, a firmeza dos músculos da batedora moldados pelo trabalho bruto, e o calor intenso que emanava de sua pele através do tecido fino. O casaco de pele de bisão prendia todo aquele calor entre as duas, transformando o espaço sob as cobertas em um território de sensações intensas e desconhecidas.
A respiração de Kitty batia de leve na nuca de Judith, movendo as mechas de seu cabelo castanho que estavam soltas sobre o travesseiro de palha. A cada movimento sutil que faziam para se acomodar no catre apertado, a pele de Judith reagia de um jeito avassalador.
O latejar constante que sentira na noite anterior voltou com uma força redobrada, concentrando-se entre suas pernas em uma onda de calor fluido e pesado que parecia fazê-la queimar por dentro, apesar do inverno que congelava o mundo do lado de fora das paredes de pinheiro.
Era uma sensação que ela nunca experimentara nos seus vinte e cinco anos de uma vida regrada em Boston; algo que não vinha dos livros de história que lera, das regras de etiqueta ou das conversas polidas nas salas de chá. Era algo físico, primitivo e assustador em sua intensidade.
Sem conseguir conter a confusão de seus sentidos e a força daquele desejo nascente que a assustava, Judith soltou um suspiro profundo, um som baixo e trêmulo que escapou por entre seus lábios cerrados e ecoou na quietude do quarto. Ela virou-se de frente para Kitty, colocando as mãos cerradas entre os dois corpos, os olhos fechados, ofegando.
O ritmo da respiração de Kitty mudou na hora. A batedora, que parecia estar pegando no sono, ficou totalmente alerta em questão de segundos. O silêncio que se seguiu sob o casaco de pele de bisão ficou tenso, carregado de uma eletricidade instável, crepitando como o fogo na lareira.
Devagar, com uma lentidão que parecia testar a resistência da outra, Kitty moveu o braço por cima da cintura de Judith. Sua mão firme e calejada pelo manuseio das rédeas e das armas pousou suavemente nas costas da professora, sentindo o tremor sutil que percorria o corpo de Judith sob o algodão fino das anáguas.
Kitty começou a acariciar as costas de Judith com movimentos circulares e calmos, subindo e descendo pela linha de sua espinha dorsal. O toque daquela mão áspera contra a fragilidade de seu corpo causou em Judith um arrepio que subiu direto pela sua nuca, fazendo-a prender a respiração, enquanto uma umidade latente acumulava-se entre suas pernas.
A carícia da batedora era suave, sem a aspereza que ela demonstrava no pátio ao lidar com os problemas mais urgentes ou na estrada, guiando a carroça e os animais; era firme, mas trazia um cuidado atento que parecia desarmar qualquer tentativa de resistência formal da professora.
- Você ainda está acordada, Judith. Não consegue dormir? - Kitty murmurou bem perto de seu ouvido, sua voz rouca saindo ainda mais baixa na penumbra do catre, perdendo toda a aspereza habitual. Não usou o termo "professora" ou "madame"; chamou-a pelo nome, com uma intimidade que fez o coração de Judith bater contra as costelas de forma desordenada.
Judith não conseguiu responder com palavras. Ela apenas se aproximou um pouco mais e bem devagar o corpo no espaço apertado da cama, as mãos espalmando-se sobre os ombros da batedora. Seus olhos castanhos procuraram os olhos azuis de Kitty na escuridão sob o casaco de pele, tentando encontrar alguma resposta para o que estava sentindo.
A proximidade entre seus rostos era de poucos centímetros. Judith conseguia ver o desenho dos lábios de Kitty, a linha forte de sua mandíbula e a intensidade de seu olhar que parecia ler cada uma de suas reações ocultas. O calor que vinha da batedora parecia envolvê-la por completo, uma força da qual ela não tinha capacidade - e nem o desejo real - de escapar.
Kitty inclinou a cabeça de leve, aproximando-se ainda mais. Seus dedos subiram das costas de Judith para a sua nuca, os dedos emaranhando-se nos cabelos castanhos e macios da professora, exercendo uma pressão suave e decidida. Ela tentou uma aproximação final, movendo os lábios na direção da boca de Judith para um beijo que pretendia selar a tensão e matar o tesão que vinha crescendo entre as duas desde que saíram de Grand Island.
No último segundo, quando a respiração quente de Kitty misturou-se à sua, Judith reagiu com um espanto súbito. Não era uma reação de repulsa ou de raiva, mas o choque puro diante do desconhecido. Ela recuou a cabeça com um tranco leve, batendo contra os troncos da parede, e colocou as duas mãos pálidas contra o peito de Kitty, segurando-a pela camisa de flanela. Seus olhos castanhos estavam arregalados na penumbra, cheios de uma confusão genuína e assustada, e sua respiração saía rápida e curta.
Kitty parou o movimento imediatamente, respeitando o limite físico imposto pelas mãos da professora no seu peito. Ela não demonstrou irritação; apenas manteve os olhos azuis fixos em Judith, avaliando o tremor de seus lábios e o jeito que o seu coração parecia querer pular para fora do peito.
A batedora relaxou os ombros, apoiando o peso do corpo sobre o cotovelo no colchão de palha, olhando para Judith do alto com uma expressão que misturava a seriedade habitual com uma curiosidade nova e profunda.
- O que foi, Judith? - Kitty perguntou, sua voz mantendo o tom baixo e firme. - O meu toque te assusta tanto desse jeito?
Judith engoliu em seco, sentindo a garganta apertada pela falta de ar. Suas mãos continuavam apoiadas na camisa de flanela de Kitty, sentindo o batido calmo e regular do coração da batedora, um contraste enorme com o caos que reinava no seu próprio peito.
- Não é isso, Kitty... não é medo... - Judith conseguiu falar, sua voz saindo em um sussurro frágil e trêmulo que ela mal reconheceu como seu. - É que... eu não sei o que está acontecendo aqui. Eu não compreendo... isso.
Kitty franziu a testa de leve, inclinando um pouco a cabeça para o lado, os olhos azuis perscrutando o rosto pálido da professora com uma atenção redobrada.
- Do que você está falando? - Kitty questionou, sua voz ganhando uma seriedade direta. - Você tem seguramente mais de vinte anos, Judith. Veio de uma cidade grande, cheia de homens estudados, advogados e cavalheiros que sabiam como falar bonito nas salas de chá. Está me dizendo que nunca teve ninguém rondando a sua porta? Nunca teve ninguém que te fizesse suspirar no escuro de um quarto? Nenhum pretendente?
Judith desviou o olhar por um segundo, fixando-o nas brasas distantes da lareira antes de voltar a encarar a batedora. A vergonha de sua própria ignorância tentou tomar conta de seu peito, mas a honestidade crua daquele território selvagem exigia que ela deixasse as aparências de lado.
- Homens me cortejaram em Boston, Kitty - ela explicou, as palavras saindo devagar, como se estivesse confessando um segredo antigo. - Alguns até vinham até a nossa casa antes de as dívidas do meu pai destruírem tudo. Mas as regras do Leste para uma mulher da minha posição são rígidas. Tudo se resumia a conversas formais na sala de visitas, leituras de poemas, passeios de carruagem sob a vigilância de outras pessoas e, no máximo, um toque rápido de mãos calçadas com luvas de algodão. Nada daquilo... nada do que conheci lá se parece com o que sinto quando estou perto de você.
Ela fez uma pausa, o latejar constante entre suas pernas ficando ainda mais evidente com a proximidade física de Kitty.
- Eu nunca permiti que nenhum homem se aproximasse dessa maneira. E nunca... nunca experimentei esse calor que parece querer me queimar por dentro. Eu não tenho nenhum conhecimento sobre o que acontece entre... especialmente... - Judith hesitou, sua voz baixando até quase sumir na penumbra - especialmente entre duas mulheres, assim. Eu não sabia que isso era sequer possível. Não há livros ou manuais na biblioteca de Boston que falem sobre esse tipo de sentimento. Eu estou completamente no escuro, Kitty.
O silêncio voltou a reinar no quarto da pequena cabana, quebrado apenas pelo estalar eventual das madeiras na lareira e pelo uivo distante do vento que começava a soprar mais forte no topo da colina.
Kitty permaneceu imóvel por alguns instantes, processando as palavras sinceras e assustadas da professora. Seus olhos azuis, que já tinham visto tanta violência, morte e a crueza dos caminhos do Oeste, suavizaram-se de um jeito que Judith ainda não tinha testemunhado.
Havia na batedora um entendimento profundo da solidão e do isolamento que moldavam as pessoas, e ela percebeu que a retidão rígida de Judith Brown não passava de uma armadura que ela criara para se proteger, sem saber que uma mulher pode trazer dentro de si uma capacidade imensa de sentir prazer físico.
Um sorriso calmo, destituído de qualquer deboche ou ironia, desenhou-se nos lábios de Kitty. Ela moveu a mão com delicadeza, retirando as mechas de cabelo que cobriam o rosto de Judith e acariciando a sua bochecha com o polegar áspero, sentindo a pele macia e quente da professora ceder ao seu toque.
A batedora inclinou-se um pouco para trás, acomodando-se novamente no colchão de palha ao lado de Judith, mas mantendo o braço firme em volta de sua cintura, puxando o casaco de pele de bisão para garantir que o casulo quente continuasse a protegê-las do frio da cabana.
- Bem, professora... - Kitty disse, e sua voz rouca trouxe um tom de cumplicidade que fez o tremor de Judith diminuir aos poucos. Ela fixou o olhar azul nos olhos castanhos da outra, cheia de uma certeza calma e implacável. - Parece que essa sua sua herança no Vale do Loup vai me trazer mais trabalho do que eu imaginava no começo.
Ela fez uma pausa proposital, mantendo o polegar acariciando a têmpora de Judith, transmitindo-lhe uma segurança que vinha de quem conhecia cada segredo daquela terra selvagem, e também cada segredo do corpo de uma mulher.
- Eu te disse hoje de manhã que ia ficar pelas próximas semanas para consertar o telhado do celeiro, fechar as frestas da cabana com lama seca e caçar carne fresca para garantir que você não morra de fome no inverno - Kitty relembrou, com o sorriso de canto de boca voltando a iluminar seu rosto na penumbra. - Mas pelo que estou vendo agora, as ferramentas do velho Silas não vão ser suficientes para tudo o que precisa ser arrumado por aqui.
Ela aproximou o rosto do ouvido de Judith, deixando que sua respiração quente movesse os fios de cabelo da professora mais uma vez, antes de soltar o pensamento que selaria o destino das duas nas longas noites que se estendiam pela frente.
- Você veio para o Oeste achando que ia ser um passeio no campo, Judith - Kitty murmurou, com uma autoridade suave e inquestionável. - Mas as regras por aqui são diferentes e o couro precisa ser bem grosso para aguentar o tranco. Se você não tem a menor ideia de como o corpo funciona quando o calor do desejo aperta... parece que eu vou ter que te ensinar também neste assunto. E garanto que as minhas lições não usam livros. Mas não vou fazer nada com pressa para não te assustar mais do que já está. Você vai ter que me pedir, quando se sentir pronta para seguir adiante com isso.
Judith sentiu uma nova onda de calor subir pelo peito com a promessa implícita nas palavras da batedora. O medo que a fizera recuar sumiu por completo, substituído por uma expectativa intensa que fazia cada centímetro de sua pele latejar com uma urgência que ela já não queria afastar. Ela não sabia o nome daquilo que estava nascendo entre as duas sob os troncos de pinheiro daquela cabana, mas sabia que, estas novas lições de Jane Catherine, ela gostaria muito de aprender.
Ela inclinou a cabeça para a frente, deixando que sua testa se apoiasse no ombro de Kitty, e fechou os olhos, entregando-se ao calor do corpo da batedora enquanto o vento de inverno continuava a soprar forte no telhado agora um pouco mais seguro da cabana no Vale do Rio Loup.
Fim do capítulo
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