Capitulo 9 - Uma Longa Espera
O amanhecer gelado no Vale do Rio Loup não pediu licença; infiltrou-se pelas frestas calafetadas de barro e turfa da cabana como uma lâmina de luz cinzenta e gélida, cortando a penumbra protetora que havia abrigado o pacto silencioso da noite anterior. Quando Judith abriu os olhos, a primeira coisa que registrou foi a ausência do peso reconfortante do braço de Kitty em sua cintura. O colchão de palha ao seu lado já estava frio, embora o casaco de pele de bisão ainda retivesse o cheiro característico da batedora: uma mistura singular de couro, fumaça de pinheiro e o calor limpo de sua pele.
Judith sentou-se devagar, puxando as cobertas contra o peito. A cabana estava imersa em um silêncio profundo, quebrado apenas pelo estalar suave de alguns gravetos novos que Kitty havia ter jogado na lareira antes de se vestir. No centro do cômodo, a batedora já estava de pé, totalmente vestida com suas calças de couro rústico, as botas de cano alto bem amarradas e a camisa de flanela grossa sob o colete de camurça. Ela inspecionava o mecanismo de seu rifle Winchester com uma flanela embebida em óleo, seus movimentos executados com a eficiência quase religiosa de quem confiava a própria vida à precisão do metal.
- Bom dia, Judith - Kitty disse sem desviar os olhos da arma. O som de sua voz rouca, embora contivesse a crueza habitual do oeste, pareceu a Judith carregar uma nota mais suave, um eco da intimidade que haviam compartilhado nas horas escuras. - Achei que ia dormir até o sol atingir o topo das colinas. O frio da madrugada foi duro, mas o calor do fogo aguentou bem.
Judith ajeitou os cabelos castanhos com os dedos trêmulos, sentindo o rosto esquentar ao lembrar-se das palavras com que adormecera - a promessa de lições que não se encontravam nos manuais de Boston ou nas regras de etiquetas para senhoritas bem-nascidas.
- Bom dia, Kitty - Judith respondeu, esforçando-se para recuperar a dignidade de sua voz, embora estivesse vestida apenas com suas anáguas de algodão branco. - Eu não pretendia me atrasar. O trabalho não espera quem se demora na cama, creio eu.
- Disso você pode ter certeza - Kitty deu um meio sorriso, aquele erguer de canto de boca que sempre desarmava a rigidez da professora. Ela guardou a flanela e colocou o rifle sobre a mesa de pinheiro. - Deixei um resto de água morna na chaleira de estanho e o pó de café que o Miller me vendeu está na saca. Sugiro que se vista e tome algo quente. O dia hoje vai exigir paciência e muito trabalho de nós duas.
Judith moveu-se com rapidez, saindo do catre para o assoalho rústico onde o frio parecia brotar diretamente das tábuas. Ela vestiu o vestido de lã azul com a habilidade que a necessidade lhe ensinara, abotoando a longa fileira de botões de osso, o corpo que ainda guardava a memória da sensibilidade exacerbada da noite. Enquanto preparava o café forte e escuro na lareira, sentia o olhar azul e afiado de Kitty acompanhar cada um de seus gestos, não com o julgamento crítico a que estava acostumada, mas com uma atenção que parecia avaliar sua capacidade de adaptação.
Elas tomaram o café em canecas de estanho, sentadas lado a lado na mesa pequena. O líquido era amargo e forte, mas descia queimando o peito e despertando os músculos ainda dormentes pelo frio. Kitty comia um pedaço de pão duro com o resto do toucinho, mastigando devagar, os olhos fixos na janela estreita que mostrava o céu de um azul pálido, quase branco.
- O tempo está limpo, mas a neve fresca pode cobrir rastros - Kitty começou, quebrando o silêncio enquanto limpava a caneca. - Os animais vão descer para as partes mais baixas do vale atrás de abrigo e brotos de salgueiro. É a minha chance de conseguir carne fresca. Se eu não trouxer um cervo ou pelo menos alguns coelhos grandes hoje, vamos ter que racionar o feijão antes do fim da semana. Vou subir as colinas de areia para o norte. Pode ser que demore.
Um aperto súbito, como uma mão de gelo, fechou-se no estômago de Judith. A ideia de ficar sozinha naquela imensidão branca, cercada por paredes de pinheiro que ainda ecoavam os uivos dos lobos da véspera, causou-lhe um desconforto que ela tentou esconder firmando as mãos sobre o colo.
- Você... você acha seguro ir sozinha? - perguntou, tentando manter a modulação neutra de sua voz de professora.
Kitty soltou uma risada curta, o som rústico ecoando nas vigas.
- O Oeste não é seguro para ninguém, Judith. Mas a solidão é minha companheira de estrada há mais tempo do que a maioria das pessoas consegue suportar. Eu sei como me mover neste espaço sem que os animais ou o vento e a neve me peguem de surpresa. O meu problema não sou eu. É você.
Ela levantou-se da cadeira, caminhou até o caixote onde havia deixado seus pertences e voltou trazendo um objeto pesado que reluzia sob a luz opaca da manhã. Era um de seus revólveres Colt, uma peça de ferro escuro e pesado com o cabo de marfim gasto pelo uso contínuo. Ela depositou a arma na mesa, bem na frente de Judith.
A professora olhou para o revólver como se fosse uma serpente adormecida na madeira de pinheiro. Em Boston, armas eram instrumentos de caça de cavalheiros ou símbolos de violência nos becos escuros e perigosos das docas; nunca algo que fizesse parte do cotidiano de uma mulher bem-nascida.
- Kitty, eu... eu não sei como usar isso - Judith disse, retraindo as mãos instintivamente. - Nunca disparei um tiro em toda a minha vida.
- Pois vai ter que aprender o básico agora, porque eu não vou te deixar aqui desarmada, desse jeito - a voz de Kitty assumiu um tom de comando que não dava margem para objeções da parte de Judith. Ela pegou o Colt, segurando-o de lado para que Judith pudesse ver como funciona o mecanismo. - Olhe para cá. Este é o cão do revólver. Para atirar, você precisa puxá-lo para trás com o polegar até ouvir esse estalo. Viu? Isso engatilha o tambor e prepara para o disparo. O tambor tem seis câmaras, deixei cinco carregadas e a primeira vazia embaixo do cão por segurança, para não disparar se cair no chão. Se algo acontecer - se um lobo tentar forçar a porta ou se algum andarilho perdido aparecer por aqui -, você aponta o cano direto para o meio do peito do alvo, firma o pulso e segura com as duas mãos e aperta o gatilho. Entendeu?
Judith engoliu em seco, os olhos fixos nas mãos calosas de Kitty que manipulavam o metal com tanta naturalidade.
- Parece... parece exigir muita força - murmurou.
- Exige vontade de continuar viva, só isso - Kitty pegou a mão direita de Judith, envolvendo-a com a sua. A textura áspera de sua pele contra a palidez dos dedos da professora causou uma faísca imediata na memória de Judith, mas o foco da batedora era estritamente prático. Ela forçou os dedos de Judith ao redor do cabo do Colt. - Sinta o peso. Não morda os lábios e não feche os olhos quando puxar o gatilho, ou a bala vai parar no pé ou no teto. O recuo vai empurrar o seu braço para cima e para trás, então segure com firmeza. Se precisar usar, não hesite. Na pradaria, quem hesita vira carcaça velha sob a neve em alguma ravina, comida de abutres.
Judith firmou os dedos no cabo gélido do revólver. O peso era esmagador para seus pulsos desacostumados com o peso da arma, mas havia algo na solidez daquela arma que lhe transmitia uma segurança sombria. Ela olhou para Kitty, encontrando os olhos azuis da batedora fixos nos seus com uma intensidade que parecia querer marca-la com sua própria força.
- Não hesitar - Judith repetiu, mais para si mesma do que para a outra.
- Isso mesmo - Kitty afastou-se, pegando seu rifle Winchester e ajustando o chapéu sobre os cabelos claros. Ela recolheu uma saca de lona pequena para trazer as provisões da caça e caminhou até a porta. Antes de abrir, parou e olhou de soslaio para a professora. - Mantenha a porta trancada por dentro com o tronco de madeira. Não saia para o pátio a menos que seja estritamente necessário para pegar lenha. Eu volto antes que a escuridão tome conta do vale de vez.
Com um último aceno de cabeça, Kitty abriu a porta de carvalho. Uma lufada de ar congelado invadiu o cômodo, trazendo a força do inverno rigoroso que parecia sem fim, e logo em seguida a batedora desapareceu na imensidão branca, fechando a madeira atrás de si. Judith correu até a porta, colocou o tronco grosso de pinheiro para travá-la e encostou a testa na superfície áspera do carvalho, ouvindo o som dos passos de Kitty sumirem na neve fresca até que não restasse mais nada além do uivo sutil do vento do norte.
O dia transformou-se em um teste de resistência psicológica para Judith Brown. Sem o barulho do martelo de Kitty no telhado ou o eco rítmico do machado cortando a lenha no pátio, a cabana de Silas Vance parecia ter sido engolida por um vazio absoluto. O silêncio da pradaria de Nebraska não era só uma ausência de som, mas uma presença esmagadora, um peso que pressionava as paredes de pinheiro e fazia cada estalo da madeira seca parecer o prenúncio de algo ruim.
Para não se deixar abater pelo medo, Judith forçou-se a manter a mente ocupada. Ela limpou novamente a mesa, lavou as canecas de estanho com o resto da água morna e organizou os poucos mantimentos que restavam na prateleira de ferro. Suas mãos, que ostentavam os pequenos cortes causados pelo trabalho da véspera, doíam com o contato da água, mas ela ignorou o desconforto com a mesma severidade que usara em Boston para esconder a pobreza de sua família.
O revólver Colt permanecia no centro da mesa de pinheiro, um guardião de ferro que atraía os olhos de Judith a cada poucos minutos. Ela aproximava-se da arma, tocava o cabo gasto com a ponta dos dedos e lembrava-se do calor da mão de Kitty guiando a sua. O latejar profundo que sentira na noite anterior - aquela umidade latente que a acometera entre as pernas sob o casaco de pele de bisão - parecia misturar-se agora com a adrenalina do isolamento, criando uma atmosfera de expectativa febril dentro de seu peito.
Perto do meio-dia, Judith alimentou a lareira com dois dos troncos grossos que Kitty cortara. O fogo subiu em labaredas amarelas, mas o calor parecia dissipar-se rapidamente antes de atingir os cantos do cômodo. Ela sentou-se na cadeira rústica, puxando o casaco de pele de bisão sobre os ombros, e tentou ler um dos poucos livros de poesia que trouxera em sua mala de lona.
No entanto, os versos polidos e as rimas perfeitas dos autores do Leste pareciam vazios, destituídos de sentido diante da crueza da paisagem que se estendia além da janela estreita. O que importavam as metáforas sobre jardins floridos e amores corteses quando a realidade se resumia a um vale congelado, lobos famintos e a promessa de uma batedora rústica cujos olhos azuis sabiam como desarmar sua alma?
À medida que as horas avançavam, a luz cinzenta do dia começou a declinar para o oeste. O azul pálido do céu de Nebraska transformou-se em um tom de violeta profundo, que logo deu lugar à penumbra espessa da noite que avançava sem pressa, mas também sem pausa.
Judith levantou-se e caminhou até a fresta vertical na parede leste, a mesma que Kitty usara para mirar nos lobos na madrugada anterior. Ela colou os olhos na abertura, perscrutando a brancura do pátio e a subida da colina de argila cinzenta.
Não havia sinal de Kitty.
O pátio estava deserto; a carroça continuava estacionada perto do celeiro quebrado, coberta por um manto de neve fresca que começava a se acumular novamente. O cavalo de sela e as mulas soltavam grunhidos baixos de dentro da estrutura de troncos, demonstrando a mesma inquietação que tomava conta de Judith.
A noite caiu por completo. A escuridão no Vale do Loup era total, uma massa negra que apagava as fronteiras entre a terra e o céu, interrompida apenas pelo brilho opaco das estrelas que começavam a surgir no firmamento limpo e da claridade da neve no solo.
O relógio mental de Judith indicava que já passava das sete da noite. Kitty dissera que voltaria antes que a escuridão se fechasse sobre o vale. A demora começou a transformar o aperto em seu estômago em um desespero genuíno. Cenários terríveis começaram a se desenhar em sua mente com a precisão de um pesadelo: Kitty caindo em uma vala oculta pela neve e quebrando a perna; Kitty sendo cercada pela alcateia de lobos sem munição suficiente; Kitty congelando no topo de uma colina de areia de onde não conseguia encontrar o caminho de volta na escuridão.
A percepção de que sua própria sobrevivência dependia inteiramente daquela mulher misturava-se com um sentimento mais profundo e assustador: a percepção de que ela não queria que nada acontecesse a Kitty porque a presença da batedora tornara-se a única coisa real e calorosa em sua existência. A ideia de perder aquele olhar azul, aquela risada de canto de boca e a promessa de suas lições causava em Judith uma dor que ia muito além do medo da morte por congelamento ou fome.
Ela caminhou até a mesa, pegou o Colt com as mãos trêmulas e postou-se perto da porta de carvalho. Seus dentes estavam cerrados com tanta força que os músculos do rosto doíam, replicando a rigidez do teste de resistência da viagem. A cada uivo sutil do vento nas frestas do teto, ela firmava o pulso na arma, sentindo o suor frio umedecer o ferro gélido.
- Por favor, Kitty... - Judith sussurrou na penumbra, as palavras saindo em pequenas nuvens de fumaça branca diante de seus lábios. - Por favor, volte.
O tempo pareceu congelar, estendendo-se em uma agonia que fazia cada minuto parecer uma hora de tortura silenciosa. Judith andava de um lado para o outro no assoalho rústico, o vestido de lã azul roçando nas pernas, o coração batendo no peito com um ritmo ensurdecedor que parecia preencher todo o espaço da cabana abandonada.
Foi pouco antes das nove da noite que um som diferente cortou a quietude do pátio exterior. Não era o uivo dos lobos ou o estalar da madeira pelo frio. Era o som abafado e pesado de botas afundando na crosta de gelo da neve, seguido pelo estalar de um galho congelado perto da entrada.
Judith parou no centro do cômodo, o revólver Colt erguido com as duas mãos, o cão puxado para trás exatamente como Kitty lhe ensinara. O barulho duplo do metal ecoando na cabana vazia. Seus olhos castanhos fixaram-se na porta de carvalho, cada músculo de seu corpo tenso como uma corda de violino prestes a se romper.
Alguém bateu na madeira três vezes, um toque firme que fez o tronco de travamento vibrar.
- Judith! Abra essa maldita porta! Sou eu! - a voz de Kitty ecoou do lado de fora, abafada pelo carvalho, mas perfeitamente reconhecível em sua aspereza familiar.
O alívio que inundou o peito de Judith foi tão violento e abrupto que ela quase deixou o revólver cair no chão. Suas pernas fraquejaram por um segundo, mas a urgência de ver a batedora a fez mover-se com uma rapidez desesperada. Ela colocou o Colt sobre a mesa, agarrou o tronco de pinheiro que travava a porta com as duas mãos e ergueu o peso com um esforço que testou os limites dos músculos de seus braços.
Ela puxou a porta de carvalho com força.
Uma rajada de ar congelado invadiu a cabana, trazendo consigo a figura firme de Kitty. A batedora entrou dando um passo pesado no assoalho, trazendo nos ombros o corpo de um cervo jovem, cuja pelagem escura contrastava com a brancura da neve que cobria o chapéu e os ombros da mulher. O rosto de Kitty estava castigado pelo frio extremo; uma camada de gelo fino cobria suas sobrancelhas e os fios claros que escapavam de sua trança, e suas bochechas ostentavam um tom vivo de vermelho, quase roxo, causado pelas horas de exposição ao vento das colinas.
Ela largou o corpo do animal com um baque surdo no chão perto da entrada, soltando um suspiro profundo que saiu em uma nuvem espessa de fumaça branca.
- Diabos de vale... - Kitty começou a dizer, retirando o chapéu congelado com uma das mãos. - O bicho me levou até o outro lado do planalto antes que eu conseguisse um tiro limpo. A escuridão me pegou na descida e eu tive que seguir o faro para não entrar na vala errada...
Kitty não conseguiu terminar a frase.
Judith, movida por um instinto primitivo que ignorou completamente os seus anos de criação rígida em Boston, as regras de etiqueta e qualquer resquício de orgulho ou recato formal, atirou-se para a frente. Ela cruzou o espaço que as separava em um único movimento desesperado e jogou-se nos braços da batedora.
Suas mãos pálidas envolveram o pescoço de Kitty com uma força surpreendente, segurando-a pela gola do casaco de couro que ainda trazia o gelo da pradaria. Judith colou o corpo inteiro contra o corpo da batedora, sentindo a solidez daquela estrutura física que a protegera e que agora representava a sua única âncora no mundo. Suas saias de lã azul misturaram-se com o couro das calças de Kitty, e ela enterrou o rosto no pescoço da outra, soltando um soluço baixo de puro alívio que vinha do fundo de sua alma.
Kitty parou o movimento de imediato, os braços estendidos para os lados em um gesto de total surpresa. O rifle Winchester continuava pendurado em sua mão esquerda, e seus olhos azuis arregalaram-se na penumbra da cabana diante daquela demonstração de afeto violenta e inesperada vinda da professora certinha que, até pouco tempo, mal tolerava um toque sem luvas.
- Judith... o que... - Kitty murmurou, a voz sumindo na garganta diante da proximidade avassaladora do corpo da outra.
Judith não respondeu com palavras. Ela ergueu o queixo, os olhos castanhos brilhando com as lágrimas que a agonia da espera provocara, e buscou os lábios de Kitty na escuridão quebrada apenas pelo fogo da lareira. Foi um gesto puramente instintivo, uma explosão da tensão acumulada durante as longas horas de solidão e o desejo nascente que a vinha queimando por dentro desde a noite anterior.
Seus lábios encontraram os de Kitty com uma urgência faminta, sem a suavidade ou o recato que a sociedade do Leste considerava adequado. Era o beijo de quem havia encarado o vazio da falta de esperança e encontrado a vida na rusticidade daquela mulher. A boca de Judith estava quente, contrastando com o frio congelante que ainda cobria os lábios da batedora.
A surpresa de Kitty durou apenas o tempo de uma respiração entrecortada. Ao sentir a pressão da boca de Judith e o calor de seu corpo se entregando sem reservas contra o seu, a batedora reagiu com a mesma intensidade implacável com que enfrentava as tormentas do Nebraska.
Ela largou o rifle Winchester no assoalho com um estalo metálico, esquecendo a arma e a caça que estava no chão. Seus braços fortes pelo trabalho braçal, envolveram a cintura de Judith com uma força esmagadora, suspendendo a professora de leve contra o seu peito e colando as duas de um jeito que eliminou qualquer espaço entre seus corpos.
Kitty devolveu o beijo para valer.
Sua boca abriu-se contra a de Judith com uma avidez que fez o mundo exterior sumir por completo. Não havia mais Vale do Loup, não havia inverno de Nebraska ou buracos no telhado; havia apenas a fricção intensa de suas peles e o encontro de duas vontades que haviam encontrado o seu ponto de fusão no meio do nada. A língua de Kitty invadiu o espaço com uma certeza dominante, ditando um ritmo profundo e exigente que fez as pernas de Judith fraquejarem sob o peso do vestido azul.
Judith soltou um gemido baixo contra a boca da batedora, as mãos subindo pelos cabelos claros e desalinhados de Kitty, puxando-a para mais perto, querendo absorver cada gota daquele calor selvagem que parecia purificar sua alma de todas as amarras do passado. O latejar constante entre suas pernas transformou-se em uma onda fluida e avassaladora, uma umidade latente que a fazia queimar por dentro com uma intensidade que a assustava, mas da qual ela não tinha a menor intenção de fugir. Ela estava aprendendo a primeira lição da carne, e o sabor da boca de Kitty, misturado com o cheiro de pinheiro e resina, era o cenário perfeito de seu novo mundo.
Quando Kitty finalmente afastou os lábios, a respiração de ambas saía em fumaça rápida e desordenada na penumbra do quarto. A batedora manteve as mãos firmes nos quadris de Judith, olhando para baixo com os olhos azuis brilhando com uma intensidade febril sob as sobrancelhas ainda molhadas pelo gelo derretido.
Um sorriso calmo, cheio de um orgulho suave e de uma promessa explícita, desenhou-se nos lábios de Kitty.
- Ora, ora, professora... - Kitty murmurou, sua voz saindo ainda mais rouca e profunda, reverberando contra o peito de Judith. Ela limpou o canto da boca da outra, molhado de saliva, com o polegar áspero, mantendo o olhar fixo nos olhos castanhos e dilatados de Judith. - Parece que a solidão desse vale te ensinou a perder a vergonha mais rápido do que eu esperava. Eu disse ontem que esperaria você me pedir quando estivesse pronta... mas esse beijo não me pareceu o gesto de quem está querendo esperar as coisas acontecerem devagar.
Judith sentiu o rosto queimar com uma mistura de vergonha e desejo, mas não recuou. Ela manteve as mãos apoiadas nos ombros de Kitty, sustentando o olhar azul com uma dignidade nova, moldada pela crueza do Oeste.
- Eu achei que você não ia voltar, Kitty - Judith confessou, sua voz saindo firme apesar do tremor que ainda percorria seu corpo. - O medo de te perder... me fez perceber que as regras que eu sempre acreditei não têm nenhum valor aqui dentro. Eu não quero mais esperar.
Kitty soltou aquela risada curta de canto de boca, um som que agora soava a Judith como a música mais acolhedora do mundo. Ela inclinou a cabeça, dando um beijo rápido e estalado na ponta do nariz da professora antes de soltá-la de leve, embora mantivesse uma das mãos firme em sua cintura.
- Muito bem, Judith. Você passou no teste da espera - Kitty disse, abaixando-se para recolher o rifle Winchester e pegar o cervo pelo par de patas traseiras. - Agora me ajude a puxar esse bicho para perto do caixote. Preciso limpar a carne e salgar o que pudermos antes que o frio congele os tecidos por completo. Depois que terminarmos a labuta... nós duas vamos voltar para aquele catre de palha. E garanto que a noite vai ser longa o suficiente para eu te cobrar o resto do pagamento que combinamos. - Disse com um sorriso de canto.
Judith assentiu com a cabeça, sentindo o coração bater com uma expectativa vibrante que espantava qualquer resquício do frio de Nebraska. Ela abaixou-se ao lado da batedora, segurando a saca de lona com as mãos que já não temiam a rusticidade do trabalho manual, pronta para enfrentar o inverno e aprender cada detalhe da vida que Jane Catherine tinha para lhe oferecer.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 03/07/2026
Uauuu as coisas estão esquentado mesmo com todo o gelo....muito bom esse capítulo
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Lady Texiana Em: 15/07/2026 Autora da história
Obrigada por ler e comentar!
Abraços
;)