Capitulo 12 - Aprendizados
A nevasca anunciada pelo céu cinzento do norte chegou antes do fim do dia, trazendo uma escuridão prematura que cobriu o Vale do Rio Loup com uma névoa espessa de gelo em suspensão. O vento, que nas primeiras horas da tarde apenas batia de forma irregular contra as frestas do teto, transformou-se em uma massa sonora contínua e pesada. O barulho não era mais o de grãos de neve ressecada batendo na vidraça suja; agora, grandes lufadas de neve úmida e densa eram arremessadas contra a estrutura de toras de pinheiro, fazendo a cabana estalar nos encaixes principais das vigas de sustentação.
Do lado de dentro, a claridade da janela reduziu-se a um retângulo fosco e azulado, incapaz de iluminar os cantos do quarto. A única fonte de luz real vinha da lareira, onde os troncos de freixo secos que Kitty trouxera queimavam com uma chama firme, estalando à medida que a resina cedia ao calor. O cheiro da madeira queimada misturava-se ao odor do couro das botas de Kitty, que secavam perto da pedra do lar, e à umidade que evaporava lentamente das roupas de lã penduradas nos pregos da parede.
Judith Brown estava sentada na borda do catre de palha, com os pés encolhidos sob a barra do vestido de lã azul. Seus olhos acompanhavam os movimentos de Jane Catherine, que se posicionara diante do caixote de pinheiro que servia de mesa de trabalho. A batedora havia retirado o casaco de lã pesada, ficando apenas com a camisa de flanela escura com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os músculos firmes dos antebraços e as cicatrizes antigas causadas pelo manuseio de cordas e facas em batalhas antigas.
Sobre a madeira limpa do caixote, Kitty depositara as peças de carne do cervo que haviam sido limpas na noite anterior. Havia duas coxas grandes, o lombo limpo de gorduras excessivas e algumas tiras mais finas retiradas das costelas. Ao lado da carne, um pote de cerâmica escura continha o sal grosso que a batedora usara para a conservação dos alimentos, além de um rolo de corda e várias estacas curtas de madeira que haviam sido afiadas com o canivete.
- O vento mudou de vez - Kitty comentou sem desviar os olhos do trabalho, pegando uma das tiras de lombo e abrindo-a com o canivete em uma folha fina e uniforme. - Quando a nevasca desce do norte desse jeito, a visibilidade cai para menos de dois braços de distância. Se uma pessoa sai da trilha por dez passos, não encontra mais a porta da cabana e morre congelada antes do cair da noite. O gelo entra nos pulmões e para o sangue rápido.
Judith observou a precisão dos movimentos da outra mulher. Não havia pressa no modo como Kitty manejava a lâmina; cada corte era exato, separando as membranas duras da carne vermelha e macia, preparando o tecido fibroso para receber o sal que garantiria a subsistência das duas nos dias em que ficariam confinadas.
- Você parece não se assustar com o isolamento - Judith disse, ajustando a colcha de retalhos encontrada em um baú velho e esquecido em um canto da cabana, ao redor dos ombros. - Em Boston, quando uma tempestade de inverno forte atingia a costa, a cidade inteira parava, mas sabíamos que os carvoeiros e os armarinhos estavam a poucas quadras de distância. Aqui, a sensação de que há apenas este espaço vazio e congelado entre nós e o fim de tudo é... diferente. É uma sensação de abandono quase sólida.
Kitty deu uma risada curta, o som rouco sumindo sob o barulho do vento que forçava a porta de entrada.
- Assustar-se não muda o peso e nem o fato de que a neve continua caindo no teto, meu bem - Kitty respondeu, pegando um punhado de sal grosso e esfregando-o com força contra a carne aberta, fazendo o mineral penetrar fundo nas fibras com a pressão da palma da mão calejada. - Na fronteira, o medo é um desperdício de energia. O que mantém uma pessoa viva é a quantidade de lenha seca cortada e armazenada para o inverno e a carne salgada pendurada nas vigas. Se você tem isso, o inverno é só um incômodo que não deixa você sair de casa. Se não tem, você morre antes da primavera.
Com as mãos cobertas pelo sal e pelo suco escuro da carne, Kitty pegou uma das tiras longas de lombo e passou a corda de juta por uma perfuração na extremidade superior, amarrando-o com um nó duplo e firme. Ela se levantou, caminhou até a lareira e prendeu a corda em um gancho de ferro fixado na viga de sustentação mais baixa, logo acima da linha onde o calor era mais intenso, mas longe o suficiente para que o calor secasse a carne de forma uniforme e constante.
- A carne precisa do calor para suar o resto da água e da fumaça da madeira para criar uma casca dura - Kitty explicou, voltando para a mesa e pegando a segunda peça. - Esse sal vai puxar a umidade para fora nas próximas doze horas. Depois disso, a carne pode ficar pendurada aqui dentro por dois meses sem azedar. É o que vai nos manter fortes enquanto a tempestade não der trégua.
Judith levantou-se do catre, sentindo os músculos das coxas darem um leve aviso do esforço da noite anterior, mas a rigidez inicial já havia sumido, substituída por uma disposição física que ela não conhecia antes de chegar ao Nebraska. Aproximou-se da mesa de trabalho, parando ao lado de Kitty, observando o pote de cerâmica quase vazio.
- Posso ajudar com o resto? - Judith ofereceu-se, estendendo as mãos de pele clara em direção ao sal. - Posso aprender a como aplicar pressão se você me mostrar a quantidade correta.
Kitty parou o canivete por um instante, olhou para as mãos de Judith e depois para o rosto da professora. Um meio sorriso surgiu no canto de seus lábios.
- Suas mãos são finas para esse sal grosso, Judith. Ele vai é queimar a sua pele e o suco da carne vai fazer arder os pequenos cortes que o frio abriu nos seus dedos - a batedora advertiu, mas não a afastou. Em vez disso, pegou um punhado menor de sal e depositou-o na palma da mão de Judith. - Mas se quer aprender, pegue a tira da costela. Esfregue com firmeza, do centro para as pontas. Use o peso do seu corpo, não a força dos braços. O sal tem que virar parte da carne, não ficar só por cima.
Judith obedeceu. Sentiu o atrito imediato dos cristais cinzentos contra a pele de suas mãos, uma textura fria e cortante que contrastava com a textura do lombo do cervo. Ela pressionou os dedos contra a carne, imitando o movimento repetitivo que vira Kitty fazer. O cheiro ferroso do sangue animal misturou-se ao sal e ao suor que começava a surgir sob a gola de seu vestido azul devido à proximidade da lareira.
Kitty observava o trabalho de lado, limpando o canivete em um pedaço de lona seca.
- Isso. Firme - Kitty orientou, tocando o ombro de Judith com o antebraço limpo para corrigir a postura dela. - Se deixar espaço sem sal, a carne estraga. Aqui o inverno não perdoa erros, minha querida. Nem na carne, nem na escolha da trilha.
Trabalharam juntas pelos trinta minutos seguintes até que todas as partes do cervo estivessem devidamente tratadas, amarradas e suspensas nas vigas acima da lareira. As tiras avermelhadas pendiam como pêndulos escuros na penumbra, recebendo a fumaça cinzenta que subia do freixo e do pinheiro que queimava devagar na lareira. A cabana agora tinha o aspecto definitivo de um abrigo de caçadores, um espaço onde a sobrevivência era medida pela eficiência das tarefas práticas que garantiam a sobrevivência.
***
Terminado o manejo da carne, Kitty caminhou até a janela, limpando um pequeno círculo no vidro acumulado de gelo com a ponta do polegar. Ela olhou para fora por alguns longos segundos, mantendo o corpo tenso, ouvindo o ritmo do vento.
- Eu preciso ir até o riacho - Kitty anunciou, pegando o casaco de lã pesada que estava pendurado perto do fogo. - Deixei três armadilhas instaladas nos arbustos de salgueiro antes de a neve começar a apertar ontem. Se os coelhos ficaram presos ali, eles já devem estar congelados pelo frio, o que preserva a carne. Mas se eu não for buscá-los agora, a neve vai cobrir as marcas das estacas e as armadilhas vão sumir sob quatro pés de gelo. Seria um desperdício de tempo e de comida boa.
Judith sentiu um aperto involuntário no estômago ao ouvir a decisão da batedora. Olhou para a porta de madeira pesada, que vibrava com os impactos do vento, e depois para Kitty, que já começava a calçar as luvas de couro grosso.
- Você mesma disse que a visibilidade é nula lá fora, Kitty - Judith argumentou, dando um passo à frente. - É seguro sair com essa tempestade? O riacho fica a mais de cem passos da cabana. Como vai encontrar o caminho de volta se não consegue ver os próprios passos?
Kitty sorriu, ajustando o chapéu de feltro e prendendo os cordões sob o queixo com firmeza. Ela alcançou o cinto com os coldres dos revólveres, afivelando-o sobre o casaco de lã, garantindo que o peso das armas ficasse firme contra o quadril.
- Eu não uso os olhos para voltar ao abrigo quando o tempo fecha desse jeito, Judith - Kitty explicou, pegando uma corda de juta grossa que estava enrolada em um canto perto da porta. - Amarrei uma ponta desta corda no esteio principal do curral e a outra na árvore que fica na margem do riacho antes de a nevasca descer. É uma linha de guia. Eu vou segurando o cabo com a mão esquerda até chegar às armadilhas, e depois volto puxando o mesmo cabo. O único perigo é se uma árvore cair sobre a corda, mas os pinheiros daquela baixada são novos e acho que aguentam a pressão.
A batedora pegou uma pequena sacola de lona e um machado curto, prendendo-o no cinto. Ela parou diante de Judith, tocando o rosto da professora com a palma da mão enluvada, sentindo a pele macia que contrastava com a textura do couro.
- Não abra a porta por motivo nenhum enquanto eu estiver fora - Kitty ordenou com um tom sério e direto, sem espaço para discussões. - Se o vento entrar com força total por essa abertura, ele apaga a lareira em três segundos e espalha as cinzas pelo quarto todo. Se eu demorar mais do que o esperado, continue alimentando o fogo com os nós de pinheiro menores. Eu volto o mais rápido possível.
Judith assentiu, sentindo o peso da responsabilidade do isolamento recair sobre seus ombros pela segunda vez.
Kitty abriu a porta apenas o suficiente para que seu corpo passasse de lado. No instante da abertura, uma rajada de ar gelado e pedaços minúsculos de gelo entrou na cabana, fazendo a temperatura do quarto despencar imediatamente e arrancando um som agudo da lareira, que vacilou diante do ar frio. A porta foi fechada com um baque pesado por fora, e Judith ouviu o barulho da tranca de madeira sendo assentada por fora, algo que Kitty havia providenciado.
Sozinha no silêncio da cabana, interrompido apenas pelo barulho externo da nevasca, Judith caminhou até a lareira. O frio que entrara na fração de segundo da abertura da porta parecia ter se concentrado no chão, resfriando suas botas de cano curto. Ela pegou dois troncos médios de freixo e depositou-os sobre as brasas, observando como o fogo consumia a casca áspera da madeira, criando pequenas labaredas azuis que subiam em direção às tiras de carne suspensas.
O tempo parecia mover-se de forma diferente na ausência de Kitty. Cada estalo da estrutura de madeira chamava a atenção de Judith; ela imaginava a batedora caminhando no meio do turbilhão branco, orientando-se apenas pelo tato da corda congelada entre os dedos da luva. A professora sentou-se novamente na cama de palha, puxando a colcha até o pescoço, mantendo os olhos fixos na porta de madeira, esperando pelo som do retorno.
Vinte minutos se passaram antes que a tranca externa fosse movida com um barulho seco de fricção na madeira. A porta abriu-se rapidamente e Kitty entrou, empurrada por uma lufada de vento e neve que cobriu o chão da entrada com uma camada branca. Ela fechou a porta com as costas, arfando pesado, com o rosto coberto por uma camada fina de gelo que se acumulara nas sobrancelhas e nos fios loiros que escapavam do chapéu.
Em sua mão direita, ela segurava a sacola de lona, que exibia um volume considerável e marcas escuras nas laterais.
- Duas peças boas - Kitty disse com a voz trêmula pelo esforço e pelo frio intenso, largando a sacola no chão e batendo os braços contra o corpo para soltar a neve acumulada no casaco de lã. - Dois coelhos cinzentos de inverno. Estavam presos na segunda armadilha. A terceira sumiu sob a neve, mas o que trouxe aqui já garante o caldo para os próximos dias se a nevasca continuar forte.
Judith levantou-se rapidamente, esquecendo o frio do chão, e aproximou-se da batedora. Ajudou-a a desatar os nós e a retirar o casaco de lã, que estava rígido como uma armadura devido ao gelo que congelara entre os fios do tecido. A pele do pescoço de Kitty estava vermelha e fria ao toque, e o frio do inverno que ela trazia consigo tomou conta do lado da entrada.
- Você está congelando - Judith disse com preocupação, puxando a batedora em direção ao calor da lareira. - Sente-se perto do fogo. Vou pegar a chaleira com a água quente.
Kitty não recusou. Sentou-se em um pequeno caixote baixo ao lado do lar, retirando as luvas pesadas e estendendo as mãos brancas e rígidas em direção às chamas. Seus dentes batiam de leve, um ritmo involuntário que mostrava o impacto do clima do Nebraska sobre o corpo, mesmo para alguém acostumada à vida nas planícies.
***
À medida que o calor da lareira devolvia a circulação à pele de Kitty, o ambiente dentro da cabana voltou a se estabilizar. A neve que ela trouxera nas botas derreteu no chão de madeira, criando pequenas poças que Judith limpou com o pano de lona. A batedora limpou os dois coelhos na entrada, usando a bacia de ferro, e pendurou as carcaças limpas no canto mais frio da parede norte, onde o próprio ar gelado ajudaria a conservar a carne.
O esforço físico e o confronto com a nevasca pareceram mudar a energia dentro do quarto. Kitty não voltou a se sentar no caixote baixo; seus olhos, agora limpos do gelo da tempestade, fixaram-se em Judith com uma intensidade que a professora reconheceu imediatamente. Havia um desejo direto, amadurecido pelo contraste entre a violência do clima lá fora e a segurança que haviam construído no interior do abrigo.
- A tempestade está aumentando, Judith - Kitty disse, caminhando devagar em direção ao catre de palha onde a colcha de retalhos estava arrumada. - O vento não vai ceder até amanhã à noite. Isso significa que o mundo lá fora não existe para nós por enquanto. Só o que temos aqui dentro.
Judith permaneceu de pé perto da mesa de pinheiro, sentindo o coração acelerar o ritmo de forma previsível. O avental improvisado que usara para limpar a carne do cervo ainda estava amarrado em sua cintura, dando-lhe uma aparência diferente da professora austera que desembarcara na estação de trem semanas antes.
- E qual é a lição para uma tarde de nevasca, Kitty? - Judith perguntou, tentando manter o tom de voz firme, embora a respiração entregasse a expectativa.
Kitty parou a dois passos dela. Estendeu as mãos, que agora recuperaram o calor normal e a flexibilidade, e começou a desatar o nó do avental de Judith, deixando o tecido de lona cair no chão de madeira. Depois, suas mãos subiram para os botões de osso do vestido de lã azul, abrindo-os um a um, do pescoço até a linha da cintura, com uma lentidão deliberada que contrastava com a pressa que tivera para se proteger do frio lá fora.
- Ontem à noite eu mostrei a você como o corpo reage a outro corpo e à pressão do atrito - Kitty explicou baixo, afastando o tecido do vestido dos ombros de Judith, deixando a combinação de algodão fino exposta novamente à luz avermelhada da lareira. - Mostrei o que é preciso para perder o medo e se entregar. Mas há outra parte do aprendizado, meu bem. O corpo não sente apenas com a pressão das mãos. Há formas que puxam o calor de outro jeito.
Kitty conduziu Judith para o catre de palha, fazendo-a sentar-se na borda antes de se ajoelhar no chão de madeira, posicionando-se entre as pernas da outra mulher. O casaco de pele de bisão foi puxado por Kitty, cobrindo as costas e os ombros de Judith para protegê-la do ar mais frio, mas deixando a frente de seu corpo livre para os movimentos da batedora.
As mãos de Kitty deslizaram pelas pernas de Judith, subindo pelas meias de lã grossa até a altura dos joelhos, onde as ligas de tecido seguravam as meias. Com movimentos firmes, a batedora removeu as botas de Judith e depois as meias, deixando os pés e as pernas da professora completamente nus na penumbra do quarto. A pele clara de Judith parecia refletir a luz das brasas, contrastando com as calças de couro escuro que Kitty ainda vestia.
- O que você vai fazer? - Judith perguntou em um sussurro, segurando os ombros de Kitty com as pontas dos dedos, sentindo a flanela da camisa da outra.
- Vou mostrar a você o que os seus livros deixaram de fora - Kitty respondeu, erguendo o rosto para olhar diretamente nos olhos dela. - Os homens escrevem sobre as mulheres como se fossem feitos apenas para gerar filhos. Eles não escrevem sobre o gosto da pele ou sobre como a boca pode fazer o sangue correr mais rápido do que um cavalo nas planícies.
Kitty aproximou o rosto das coxas de Judith. Em vez de usar os dedos para afastar a carne, ela usou o calor de sua própria respiração, soprando o ar quente contra a pele sensível da parte interna dos joelhos, fazendo Judith contrair os músculos da perna em uma reação reflexiva imediata.
***
O toque começou sem pressa. Kitty deitou a cabeça contra a coxa esquerda de Judith, sentindo os músculos da professora. Seus lábios tocaram a pele macia logo acima do joelho, uma pressão suave que subiu em linha reta, deixando uma trilha úmida que evaporava rapidamente no ar da cabana. Judith fechou os olhos, cravando as unhas no tecido da camisa de Kitty nas costas, sentindo o contraste absoluto entre a boca quente da batedora e o frio que ainda rondava os cantos do quarto.
- Kitty... - o nome saiu fraco da boca de Judith, interrompido pelo som de uma lufada de vento que sacudiu a janela de vidro.
- Fique quieta, Judith. Sinta a diferença - Kitty ordenou baixo, a voz vibrando contra a coxa da professora. - Os dedos não são tão maleáveis quanto a língua, Judith. Ela se molda ao formato da sua carne, encontra recantos que a mão não consegue tocar com delicadeza.
A batedora moveu as mãos para trás dos quadris de Judith, segurando as nádegas da professora com firmeza, elevando o corpo dela alguns centímetros acima do colchão de palha para facilitar o acesso. A combinação de algodão foi empurrada para cima, acumulando-se na linha do ventre, deixando a vulva de Judith completamente exposta à proximidade da boca da outra mulher.
Judith sentiu a vergonha inicial do gesto tentar subir por sua mente, a lembrança das regras rígidas sobre decência e recato que haviam moldado sua juventude. Mas a sensação física do calor da respiração de Kitty, que agora batia diretamente contra os pelos pubianos castanhos e a pele sensível dos lábios externos, apagou qualquer pensamento abstrato ou mesmo concreto. Havia apenas a realidade daquela cabana e a necessidade de sentir o contato prometido.
Kitty não buscou o ponto principal imediatamente. Ela começou contornando as margens da vulva com os lábios, usando a ponta da língua para testar a sensibilidade da pele molhada de desejo. O toque era úmido e constante, gerando um arrepio longo que subia pelas costelas de Judith até a base do pescoço. A professora arqueou as costas contra o colchão de palha, segurando a colcha de retalhos com as mãos para tentar manter algum ponto de apoio no espaço que parecia oscilar.
- Sinta, Judith. - Kitty murmurou, afastando os lábios externos com os polegares, revelando a carne rosada que já começava a secretar abundantemente a umidade natural do desejo. - Veja como tudo fica melhor quando recebe a atenção certa. Não precisa de força agora, Judith. Só o tempo e o calor da minha boca.
A língua de Kitty pressionou o centro da vulva em um movimento longo, de baixo para cima, recolhendo a umidade que escorria pelo canal e espalhando-a pela vagin*. Judith soltou um gemido agudo, um som que foi abafado pelo barulho da lenha que queimava na lareira. A sensação era diferente do atrito anterior ou da pressão do polegar; era um calor fluido, focado, que parecia penetrar nas camadas mais profundas de sua pele.
A batedora continuou o movimento, estabelecendo um ritmo regular com a língua. Ela aplicava uma pressão sutil na base do canal e subia de forma contínua até alcançar o clit*ris, onde a ponta da língua executava um movimento circular e rápido antes de retornar ao início. Cada passagem gerava uma reação direta no abdômen de Judith, que se contraía de forma involuntária, buscando aproximar-se ainda mais da boca da outra mulher.
- Kitty, por Deus... isso é intenso demais... - Judith arfou, jogando a cabeça para trás, sentindo os cabelos castanhos se espalharem pela palha do colchão. - Sinto como se o fogo estivesse subindo pelas minhas pernas... não consigo controlar os movimentos.
- Não controle, meu amor - Kitty respondeu entre os toques, mantendo a boca colada à carne úmida. - Deixe o controle para depois. Agora, quem manda é a necessidade do corpo, do seu corpo.
Kitty aumentou a intensidade do estímulo. Seus lábios envolveram o botão de carne que pulsava no topo da vulva, exercendo uma sucção leve e constante, alternando com o toque rápido e pontual da ponta da língua. Judith sentiu a base de seu estômago sumir, a mesma sensação de queda livre que tivera quando o trem descera as primeiras encostas das montanhas, mas multiplicada pelo prazer físico que se concentrava naquele ponto específico.
As mãos de Kitty seguravam suas coxas abertas com uma firmeza que impedia Judith de fechar as pernas ou de fugir do contato. A batedora usava o peso de seus próprios ombros para manter a posição, demonstrando o mesmo foco que utilizava quando precisava rastrear um animal na mata ou consertar uma cerca no meio do vento. Não havia hesitação no modo como sua boca explorava os recessos daquela carne; era um trabalho de paciência e precisão.
Judith começou a perder a noção do tempo e do espaço ao seu redor. O barulho da nevasca lá fora transformou-se em um zumbido distante, uma trilha sonora que não tinha significado diante do som úmido do contato de suas peles e de sua própria respiração que falhava a cada movimento da língua de Kitty. Suas mãos subiram para os cabelos claros da batedora, segurando os fios bagunçados com força, não para afastá-la, mas para garantir que aquela boca não se movesse dali por nenhum decreto.
O prazer acumulou-se de forma rápida e intensa. A sensação de formigamento entre as cochas e a sensibilidade nos seios, voltaram com força total, mas acompanhadas por uma onda de calor que parecia pulsar no mesmo ritmo do coração de Judith, que ela sentia contra suas pernas.
Kitty percebeu a iminência do climáx de Judith pelas contrações rápidas que moviam os músculos das coxas de Judith. Em vez de diminuir o ritmo para prolongar o momento, como fizera na noite anterior, a batedora acelerou o movimento da língua, exercendo uma pressão mais forte e focada diretamente sobre o clit*ris, usando a umidade abundante para reduzir o atrito e aumentar a intensidade do estímulo.
- Agora, Judith - Kitty ordenou baixo, a voz abafada pela carne que se contraía. - Deixa vir, sinta tudo de uma vez.
O grito de Judith foi longo, quebrando o silêncio interno da cabana de forma definitiva. O orgasmo que a atingiu não foi uma sequência de espasmos curtos, mas uma onda avassaladora que paralisou seu corpo por vários segundos em uma tensão absoluta. Ela elevou o quadril do colchão, sustentada apenas pelos ombros e pelos calcanhares que pressionavam a palha, enquanto a língua de Kitty mantinha a pressão constante no clit*ris, garantindo que o prazer se estendesse até o último espasmo de prazer.
Kitty permaneceu na posição por algum tempo, mesmo após o relaxamento dos músculos de Judith. Seus lábios continuaram encostados na pele úmida, recolhendo os últimos vestígios do suor e do suco que haviam sido gerados pelo orgasmo. Quando finalmente ergueu o rosto, a batedora tinha os lábios brilhantes e a respiração tão curta quanto a da professora, revelando o impacto do desejo compartilhado.
Ela subiu o corpo devagar pelo catre de palha, deitando-se ao lado de Judith sob o pesado casaco de pele de bisão. Seus braços puxaram a outra mulher para junto de seu peito, deixando as pernas nuas se entrelaçarem sob a cobertura, buscando restabelecer o equilíbrio após a intensidade do momento.
Judith encostou a cabeça no ombro de Kitty, sentindo o ritmo do coração da batedora desacelerar aos poucos. Suas mãos, que ainda tremiam levemente devido ao clímax recente, acariciaram o tecido da camisa de flanela, encontrando a pele quente do pescoço de Jane Catherine.
- Isso foi... diferente de tudo - Judith confessou, a voz rouca pela falta de ar e pela intensidade da reação. - Não achei que o corpo pudesse sentir algo tão profundo sem que houvesse o choque ou a pressão que usamos antes. Parece que a sensação entrou direto nas minhas veias.
Kitty deu um meio sorriso, olhando para as tiras de carne que continuavam a receber a fumaça cinzenta acima da lareira.
- O corpo tem caminhos diferentes para o mesmo lugar, Judith - a batedora explicou, ajustando a colcha sobre as duas. - A força serve para firmar a base, para mostrar quem está no comando do espaço. Mas a boca serve para abrir as portas que a força por si só não consegue alcançar. Você agora conhece dois jeitos de se fazer amor.
O resto da tarde passou sem que nenhuma das duas fizesse menção de se mover do catre de palha. Do lado de fora, a nevasca continuou seu trabalho de soterramento do vale; o acúmulo de neve na base da porta já impedia a entrada do ar frio rasteiro, funcionando como um isolante térmico natural que ajudava a manter a temperatura interna da cabana estável.
Kitty levantou-se apenas uma vez para adicionar três nós grandes de pinheiro ao fogo, garantindo que a fumaça continuasse a tratar a carne do cervo suspensa nas vigas. Ela não voltou a vestir as calças de couro ou as botas pesadas; permaneceu apenas com a camisa longa e as meias de lã, adotando uma postura de repouso que Judith nunca vira na batedora desde que se conheciam.
Sentadas lado a lado, dividindo o calor do casaco de bisão, o silêncio entre elas mudou de característica. Não era mais o silêncio da desconfiança ou da diferença que existia quando saíram da cidade; era o silêncio de quem partilhava o mesmo abrigo e a mesma comida, consciente de que a tempestade lá fora era apenas um detalhe para o aprendizado intenso que ocorria no interior.
Judith pegou um dos livros de sua mala, um pequeno volume de poesias que trouxera de Boston, e abriu-o na luz avermelhada da lareira. Seus olhos passaram pelas linhas impressas, mas as palavras pareciam ter perdido o sentido abstrato e a importância que tinham quando ela vivia nas salas de aula da costa leste. A realidade prática da carne salgada, do cheiro da madeira queimada e do gosto da pele de Kitty na ponta de sua língua eram verdades muito mais sólidas do que qualquer metáfora escrita no papel.
- O que diz aí, professora? - Kitty perguntou, inclinando a cabeça para olhar as páginas escuras.
Judith olhou para o livro e depois para o rosto de Jane Catherine, fechando o volume com um barulho seco.
- Nada que tenha importância para a sobrevivência nestas terras, Kitty - Judith respondeu com um sorriso calmo, encostando-se novamente no ombro da batedora. - Nada que você já não tenha me ensinado hoje.
Kitty soltou uma risada baixa, o som misturando-se ao estalar dos troncos de pinheiro que cediam ao calor do lar. Seus braços apertaram Judith com firmeza, garantindo que o isolamento do vale continuasse a ser o espaço ideal para a consolidação daquela nova vida que se desenhava entre as toras de madeira e o gelo lá fora.
Fim do capítulo
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